Relações de interação cultural através do Milinda Panha:

A dialética

Relações de interação cultural através do Milinda Panha
As influências greco-bactrianas estiveram presentes nas artes, na arquitetura, na religião, na literatura e na organização social e política da Índia. Sobretudo a partir do século IV a.C., quando Alexandre Magno invadiu o Pundjab e estabeleceu nessa região um reino greco-bactriano que estendeu-se até o séc. II a.C.

Ao lado dos cultos autóctones e dranginianos, bem como da antiga religião nacional chamada vedismo, sucederam-se novas religiões: bramanismo, politeísmo panteísta (hinduísmo) e filosofia jainística, que ofereceu subsídios para a formação da doutrina budista.

Apesar da oposição dos brâmanes, a crença no budismo se espalha por toda a Índia. Sua propagação está ligada aos nomes de príncipes conhecidos como Açoka (convertido ao budismo) no século II a.C. e Chandragupta I.

Na parte I do livro Milinda Panha, podemos identificar as influências helênicas que concorreram para a formação da arte nova, e que estão presentes na arquitetura descrita na cidade de Sagala, que se desenvolveu sob a ação do budismo. Vejamos um trecho dessa descrição: "(...) muitas casas comerciais, parques, jardins, bosques, lagos, tanques para os lótus; defendida por muitas fortalezas e torres sólidas; além de grandes portas e extensas arcadas, a cidadela, no centro da cidade, estava rodeada de fossos profundos; as ruas e praças eram bem traçadas e nelas havia lojas, cheias de objetos ricos e variados, casas imponentes como os cimos do Himalaia. Na multidão que passeava pelas ruas viam-se nobres, brâmanes, "burgueses", gente do povo. E entre os brâmanes e ascetas notavam-se os sábios eminentes". Enfim uma cidade opulenta, onde não faltavam nem alimentos e consumo de produtos refinados: tecidos vistosos, ouro e pedras preciosas. Uma característica dessas construções, por volta do século II a.C., fora o emprego de uma técnica que substituía o uso das madeiras pelas rochas das falésias cavadas e esculpidas (O Oriente e a Grécia Antiga ,pg. 564). Nesse contexto as stupas, elevadas num lugar consagrado pela lenda ou por santas relíquias lembram os templos dos deuses gregos; assim como os monumentos, lugares de assembléias e pátios cercados por ricas esculturas, lembram os modelos das póleis.

Partindo das comparações, fica evidente que a Índia esteve em relações constantes com os reis gregos da Bactriana e que por meio das caravanas, fez-se uma grande mistura de poucos e uma troca de influências.

Observando as ilustrações imagéticas que aparece no Milinda Panha, percebemos essa influência; demonstrando uma nova evolução, um novo estilo de arte sendo desenvolvido pelos budistas, no qual o artista deu livre curso a uma imaginação, que multiplicou os braços, as pernas, as cabeças e procurou impressionar pela abundância de pormenores. Essas imagens tinham por objeto a representação do mestre e os acontecimentos de sua carreira terrestre. De inspirações duramente indígenas, criou-se um novo estilo de arte.

Na parte II do livro Milinda Panha, o Rei e o Monge budista iniciam um jogo de perguntas e respostas muito semelhante ao panteísmo das escolas estóicas gregas; sobretudo pela forma como são concluídas e discutidas as teorias filosóficas das concepções do mundo e modelo de vida ideais. Percebemos presentes nas falas dos dois personagens, um vasto conhecimento sobre questões filosóficas socráticas e até platônico-céptica; principalmente as de caráter moral e ético, que apresentam o exercício da virtude e da razão como forma de superar os problemas humanos, além de outras explicações metafísicas, que tanto lembram os sofistas da Grécia, quanto a filosofia vedanta-bramânica.

Na parte III, são expostas propriamente toda a filosofia da doutrina budista numa linguagem didática gnômica e dogmática muito semelhante ao estilo literário presente na produção poética dos gregos. Percebe-se que o autor ou pseudo-autor lança mão de um estilo literário jarjuveda, que versa as fórmulas prescritas para o culto através do uso da exemplificação e argumenta filosoficamente de acordo com o Mahabarata enciclopédico dos indianos. Diante desses indícios, podemos levantar a hipótese de que esse autor possui diversos conhecimentos literários e uma habilidade bramânica de registro que assegurou uma grande popularidade do conto budista, o que contribuía para expandir por todo o império a lei moral que devia unificar e difundir essa doutrina por toda a Ásia. Uma outra hipótese pode ser pensada: a de que esse pseudo-autor seria um filósofo convertido ao budismo.

Ressaltando o parecer do historiador Louis Finot, indianista francês, podemos reconhecer no autor do Milinda Panha, uma influência helênica muito mais socrática "na vivacidade do diálogo, na rapidez das respostas" do que jetavana, onde as referências são difusas e lentas. Nesse caso, o autor do texto seria muito mais filósofo do que o próprio monge Nagasena teria sido, pela forma como conduziu compropriedade os diálogos entre os personagens. Entretanto a senhora Rhys Davids, afamada indianista, admite que tenha sido um pandit (bacharel) da casta bramânica, cujo nome deve ter sido Manava, que dedicou-se à profissão de redator de trabalhos literários e de cartas particulares para a assinatura de pessoas das altas castas e a de professores particulares". "Ignora-se o nome do autor, que a senhora Rhys Davids assegura Ter sido não um monge budista, mas um brâmane que conhecia bem a doutrina do sáquia-muni. Aliás naquela época em que o budismo se alastrava pela Índia, ameaçando o prestígio da casta bramânica, os brâmanes já estudavam a teoria divulgada pelos adeptos daquela heresia a fim de rebaterem a palavra dos monges nas escolas, nos lugares públicos, nas reuniões em palácios reais ou senhoriais". Tais suposições, apesar de fazerem sentido, não absolvem o autor ou pseudo-autor de estar colaborando, e muitas das vezes de forma intencional, com a divulgação da doutrina budista.

Ilcéia de Oliveira Pinheiro




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