O budismo, se originou na Ásia, e tem como objetivo, propor uma salvação universal a qualquer indivíduo ou sociedade, oferecendo uma maneira de pensar e agir voluntariamente, baseada no esforço humano direcionando-o no sentido de atingir a liberdade de pensamento e conquistar a salvação, "concebido na Ásia, o budismo é a expressão histórica de um ideal humano universal, oferecendo a qualquer indivíduo ou sociedade um modo voluntário de pensamento e conduta, baseado numa análise da existência condicionada, dependente do esforço humano supremo e dirigido no sentido de atingir a liberdade na experiência perfeita", (Budismo, página 09, 2º parágrafo). O caráter de sua pregação é proselitista e se destacou do resto da sociedade como veremos a seguir. Serão assinalados alguns traços dentre os mais essenciais da doutrina budista, que foi concebida na Índia, sendo redigida e transformada do século III a. C. até o século VIII de nossa era.
O Dharma (a doutrina) absteve-se de definir como seria o reino espiritual, porém não deixou de estudar a maneira de aderir a este reino que consiste "numa focalização da experiência dos sentidos que vai até a negação; numa renúncia de toda a sorte de apego; na tomada em consideração da igualdade de toda a criação e na recusa em considerar seja o que for em estável e permanente", (Buda e budismo, pág. 42, 3º parágrafo). Isto pode ser observado no Milinda Panha: - Nagasena, toda gente vai ao Nirvana ? - Não, sem dúvida. Mas quem admite os estados mentais que devem ser aceitos, reconhece os que devem ser admitidos, evita os que têm de ser evitados, cultiva os que devem ser cultivados, realiza os que devem ser realizados, esse homem alcança o Nirvana. (Milinda... liv.3, pg. 142). Esta doutrina não é essencialmente um dogma, mas é considerado como um caminho, não com a finalidade do indivíduo de adquirir o domínio sobre si, mas sim como um meio para alcançar a salvação, "Os ensinamentos a respeito dos quais vós mesmos podeis ter certeza de que conduzem à abolição das paixões, ao desprendimento e não ao apego exagerado, à frugalidade e não à cobiça, a satisfação e não a insatisfação, a solidão e não a sociedade, à energia e não à inércia, à alegria do bem e não a do mal, tais ensinamentos permitem-nos afirmar sem medo de errar: isto é a norma, isto é a disciplina, isto é a mensagem do mestre", (Buda e o budismo, página 43, 2º parág). No Milinda Panha, existe uma passagem que exemplifica a renúncia ao apego: "Nagasena, é possível um homem morrer e não renascer ? - Um renasce, outro não. Renasce quem está cheio de paixões. Quem está livre delas não renasce. - E tu, venerável, vais renascer ? - Se não me livrar do apego, renascereei. Se vencer o apego, não renascerei. (Milinda Panha, liv. 2, página 73).. A moral budista apoia-se num antagonismo entre o bem e o mal e propõe como remédio a transmigração da alma a prática da caridade para com todos os seres, a da humanidade e da renúncia.. A doutrina budista subverteu o sistema de castas quando, dentre outras determinações, estabeleceu que todos são iguais, "a moral budista estatui, em princípio, que o indivíduo deve chegar a não mais se diferenciar de outrem", (Buda e o budismo, página 68, 2º parágrafo). É arruinado ao mesmo tempo, o privilégio social do nascimento e a hereditariedade da casta, que são fundamentos dos brâmanes. O budismo realiza uma revolução social quando no conjunto de suas teorias, acolhe indistintamente qualquer indivíduo que deseje converter-se ao seu ideal, influenciando a vida política e os costumes pela sua própria moral.. O bramanismo é responsável pelas antigas concepções védicas brâmanes e estão direcionadas para a manutenção das estruturas sociais através da reprodução de cultos e rituais de caráter restrito. Enquanto o bramanismo constituía uma religião fechada, o budismo, ao contrário, apresentava-se como uma aspiração espiritual universal, e praticada conforme disciplinas destituídas de caráter divino. Apesar de apoiar-se nas classes mais baixas da sociedade, sua intenção não era nivelar as classes sociais, interessavam-se mais em diminuir o poder dos brâmanes do que extingui-los. Assim, o budismo se apresenta como algo novo em relação ao que existia até então, entretanto, podemos admitir que o budismo herdou boa parte de suas aspirações espirituais do bramanismo. O budismo, pelas suas próprias concepções, torna-se uma religião universal e utiliza para expandir-se, todas as alavancas da propaganda religiosa e do proselitismo, desde o exemplo pessoal até a pregação missionária, não hesita em integrar mulheres nas suas comunidades religiosas e em começar a percorrer a Ásia na pessoa de seus monges. Para levarem suas mensagens para fora das fronteiras da Índia, usam o aramaico e grego. Se voltarmos nossos olhos ao Milinda Panha, podemos verificar uma passagem que confirma isto, o rei Milinda ao ter seu primeiro encontro com Nagasena, sentiu-se temeroso, o que não costumava acontecer quando dialogava com outros religiosos. Esta passagem acontece desta forma: " Virtuoso, dominado por uma suprema força de vontade, apareceu Nagasena diante do rei, que disse: Vi muitos oradores, travei muitas discussões, mas nunca estive medroso e trêmulo como hoje. Sem dúvida, hoje serei vencido, e a vitória de Nagasena, desde já, está me perturbando", (Milinda Panha, liv. 1 página 52) É importante destacar que o imperador da Índia, Açoka, da Dinastia Maurya, ao se converter ao budismo, contribuiu para estender a sua influência favorecendo sua difusão espalhando por todo seu território textos e datas gravados inspirados no budismo. Neste período a dinastia estava voltada para a tentativa de unificação do seu império, e o budismo foi uma ferramenta importante para esta unificação. Seu império abrangia praticamente toda a Índia do Norte e do Noroeste e estendia-se para o sul até a região dos Andras. Preocupado em difundir a nova religião, na qual se convertera, o imperador promoveu um movimento missionário, estimulando a ação de apóstolos budistas, que viajaram até a Síria, o Egito, a Macedônia, Cirene, o Épiro e a ilha do Ceilão (atual Sri Lanka). Neste período o budismo entrou em sua fase áurea na Índia. No Milinda Panha, observam-se alguns recursos utilizados para expandir a religião budista. Utilizam-se, por exemplo o diálogo travado entre os dois personagens, na apropriação da retórica grega com a dinâmica de perguntas e respostas, na rapidez como são dadas estas mesmas respostas e na sobriedade das frases. Observa-se ainda que este trabalho foi elaborado voltado ao proselitismo, tendo em vista o mundo helenístico. Lúcia Pereira da Silva Miler
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