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CADÁVER ESTAVA LLENO DE MUNDO
Rubem Alves
Eu era jovem e andava por um caminho plano e seguro. Todos os seus detalhes
me haviam sido ensinados. Ele estava todo sinalizado com tabuletas para
evitar que alguém se perdesse. Em algumas tabuletas se liam certezas.
Em outras, proibições. Certezas e proibições
têm importantes funções psicológicas. As certezas
nos dizem que já encontramos a verdade. Quem já encontrou
a verdade deixa de procurar. As certezas, então, embalam a inteligência
que se põe a dormir. É tranqüilizante saber-se possuidor
da verdade. Eu vivia tranqüilo. As proibições, por
sua vez, nos dizem o que não se pode fazer. Sabendo-se o que não
se pode fazer somos libertados da terrível necessidade de tomar
decisões. As decisões são necessárias quando
nos defrontamos com uma encruzilhada, bifurcação, dois caminhos
à nossa frente. Posso tomar o caminho da direita, posso tomar o
caminho da esquerda. Mas não há nenhuma tabuleta indicando
qual deles conduz ao fim desejado. Toda encruzilhada nos coloca numa situação
de incerteza. E a incerteza produz ansiedade: é preciso decidir,
sem saber ao certo... Mas se existe uma tabuleta num dos caminhos com
a palavra Proibido, a dúvida se resolve. A proibição
decide por mim. Livro-me, assim, da terrível condição
de ser um ser moral que é, precisamente, a condição
de tomar decisões sem ter proibições que decidam
por mim. Eu não tinha conflitos morais porque as proibições
já haviam tomado as decisões por mim. Assim caminhava eu,
dezenove anos, pelo caminho das certezas e proibições, tranqüilo,
pelo caminho que levava aos céus. Pois os céus não
são o destino dos homens? Tão convencido estava eu do caminho
que estava seguindo que até me havia matriculado numa escola onde
se ensinam certezas e proibições, um seminário, porque
o meu desejo era conduzir as almas pelo caminho que eu seguia.
Aí, o inesperado aconteceu. Um homem apareceu no meu caminho, andando
na direção contrária. Perguntei-me, espantado, se
ele não se dava conta de estar andando na direção
errada. Aí, ao nos aproximarmos, ficamos um diante do outro, e
olhei bem dentro dos olhos dele, e vi, refletido como num espelho, um
mundo que eu nunca havia visto, o mundo que estava atrás de mim,
o mundo do qual eu fugia, em busca dos céus. Olhando bem vi que
naquele mundo não havia caminhos. Caminhante, não
há caminhos! Os caminhos se fazem ao caminhar! E também
não havia nem certezas e nem proibições. O que havia
eram horizontes, direções, possibilidades, liberdade. E
o mundo muito bonito. Me convidava...
O estranho não disse nada. Mas os seus olhos apontaram. E os meus
olhos se abriram. Experimentei então os medos e os risos das dúvidas.
Pois não é isso que experimenta o alpinista que escala o
Aconcágua? O risco da morte bem vale a emoção dos
desafios! Os que não suportam dúvidas jamais escalam picos;
eles ficam nas planícies andando pelos caminhos conhecidos e seguros.
Experimentei a alegria e o sofrimento de ter de tomar decisões
sem que ninguém me desse ordens ou proibições, tendo
apenas o meu próprio coração como conselheiro. Troquei
o caminho que leva aos céus pelos muitos caminhos que levam ao
mundo. E assim tenho andado pela vida afora, sem certezas e sem proibições...
Tudo por causa do olhar daquele homem...
Ele, o estranho com que me encontrei, viveu aqui em Campinas. E posso
dizer que a minha vida se divide em dois períodos: antes de conhecê-lo,
depois de conhecê-lo. O seu nome era Richard Shaull. Lembro-me perfeitamente
bem: encontramo-nos pela primeira vez na avenida Brasil, próximo
ao cruzamento com a rua Frei Antônio de Pádua. Era o ano
de 1953. As casas eram poucas, os eucaliptos eram muitos. Não falava
português; falava espanhol. Havia sido expulso da Colômbia,
por ordens da hierarquia católica. Uma igreja construída
sobre verdades e proibições não pode suportar a presença
de alguém que ensina dúvidas e liberdade. Viera então
para o Brasil como professor do Seminário Presbiteriano, à
avenida Brasil, 1.200. Se me perguntarem: O que foi que você
aprendeu com ele? a resposta é simples: Dick
Shaull me ensinou a pensar. Lembro-me de um prova que fiz em uma
de suas disciplinas. Eu estava certo de que teria 10, porque a prova tinha
sido completa, perfeita. Mas ganhei um 9.0. Fui reclamar. Aleguei que
havia escrito precisamente o que ele havia dito nas aulas. Ele me respondeu:
Por isso mesmo. Você apenas repetiu o meu pensamento. Lendo
a sua prova eu não aprendi nada. Eu esperava encontrar na prova
o seu pensamento...
Profetas não são videntes que anunciam um futuro que vai
acontecer. Profetas são poetas que desenham um futuro que pode
acontecer. Profetas sugerem um caminho. Richard Shaull falava de futuros
com que nós nunca havíamos sonhado. Ele via o que ninguém
mais estava vendo. Em seis meses ele já sabia muito mais sobre
o Brasil do que eu. Foi ele que me apresentou a um catolicismo inteligente.
Sugeriu que eu lesse A Descoberta do Outro e Lições de Abismo,
livros dos anos de lucidez de Gustavo Corção. Foi através
dele que fiquei sabendo dos movimentos de renovação que
silenciosamente fermentavam dentro da Igreja Católica, a renovação
bíblica, a renovação litúrgica, movimentos
esses que haveriam de influenciar profundamente o Papa João XXIII
de saudosíssima memória! e o Concílio
do Vaticano II.
Pensador profundamente mergulhado na tradição da Reforma
Protestante (celebrada no dia 31 de outubro, data em que Lutero afixou
suas 95 Teses, às portas da catedral de Wittenberg),
ele nos ensinou a lição fundamental de teologia: O
problema do céu, Deus já o resolveu por nós. Não
há nada que tenhamos de fazer. Resolvido o problema do céu,
estamos livres para cuidar da terra, que é o nosso destino...
Shaull tinha visões de um mundo diferente. Foi o primeiro que me
falou da responsabilidade social dos cristãos. Se, para a igreja
tradicional o mundo era o lugar da perdição do qual os cristãos
deveriam fugir foi isso que os monges fizeram , para Shaull
o mundo era o lugar da nossa vocação. É preciso estar
presente no mundo para que ele se renove, ele dizia. Essa palavra, presença:
como era importante no seu pensamento! E foi assim que ele liderou um
projeto impensável: um grupo de seminaristas, durante as férias,
trabalhando como operários numa fábrica na Vila Anastácio,
em São Paulo. A inspiração para esse projeto veio
de um movimento católico, os padres operários
que, na França, resolveram parar de esperar que os trabalhadores
fossem à igreja, e foram, eles mesmos, até onde eles viviam:
as fábricas. Sem o saber, Shaull estava lançando as sementes
da teologia da libertação.
Cerca de 10 anos antes do Concílio do Vaticano II ele já
sonhava com o ecumenismo. Ecumenismo: essa palavra era maldita tanto para
protestantes quanto católicos. Para os católicos, donos
da verdade, maldita porque os protestantes eram apóstatas. Para
os protestantes, donos da verdade, maldita porque os católicos
eram idólatras. Inimigos irreconciliáveis, como poderiam
católicos e protestantes se assentar para partilhar de uma fé
comum e do mesmo ritual eucarístico? Pois o Shaull, andando na
direção contrária como convém a um profeta,
resolveu transgredir o proibido: organizou encontros secretos com os dominicanos
de São Paulo e nos convidou, um pequeno grupo de seminaristas,
a participar da conspiração. Sabíamos que se a conspiração
fosse descoberta a punição seria certa: seríamos
expulsos do seminário. E assim, com uma mistura de medo e de alegria,
lá íamos nós com o Shaull, para uma experiência
com que jamais havíamos sonhado. Foi bom descobrir que os católicos
eram pessoas inteligentes, amantes da Bíblia, fraternas... Até
então não sabíamos disso!
Não conheço ninguém que em tão curto espaço
de tempo tenha semeado tanto. Não é possível contar
tudo. Só posso dizer que um homem que anda na direção
contrária não o faz impunemente. Os profetas são
seres malditos. Nietzsche, um outro que caminhou na direção
contrária, sabia o preço que se paga por ver o que os outros
não vêem. Dizia ele: Os fariseus têm de crucificar
aquele que inventa a sua própria virtude. Aqueles que não
vêem odeiam aqueles que vêem. Richard Shaull foi crucificado.
As igrejas não o suportaram: expulso da Colômbia, pelos católicos,
expulso do Brasil, pelos protestantes...
Agora ele ficou encantado. Partiu. É certo que plantarei uma árvore
para ele no meu lugarzinho solitário, no alto de um montanha, à
beira de um vulcão, junto com as árvores de outros conspiradores...
No silêncio, quando não houver ninguém por perto,
as árvores conversarão entre si...
Formação de Jardineiros: Aquele curso sobre jardinagem que
vai ser oferecido pela Floríssima, e que anunciei na última
crônica, vai se realizar durante todo o dia 14 de dezembro, sábado.
Se você ama plantas e jardins e deseja ficar parecido com plantas
e jardins, informe-se pelo telefone 3243-9381. Evá meditando sobre
esse lindo poema do Alberto Caeiro:
Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e
Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores
e os regatos e dar-nos-á verdor na sua primavera, e um rio aonde
ir ter quando acabemos!
A árvore que ilustra esta crônica é um gigantesco
jequitibá-rosa, o mais antigo do Brasil, denominado O Patriarca,
no Parque Estadual de Vassununga, Santa Rita do Passa Quatro, SP. Calculam
os entendidos que ele deve ter mais de 2 mil anos...
Culto em Homenagem a Richard Shaull: Realizou-se, na capela do Seminário
da Igreja Presbiteriana Independente, São Paulo, um culto em homenagem
a Richard Shaull. Certamente haverá também um culto em homenagem
a ele no Seminário Presbiteriano, na avenida Brasil 1.200, pois
foi nele que Shaull viveu e lecionou por seis anos.
Correio Popular - Campinas, 12 de novembro de 2002.
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