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| Para completar seu estilo de novata, a garota está indo trabalhar de salto alto, de uns doze centímetros, daqueles tamancos com tiras trançadas que a queridinha da novela das oito usa, em todos os capítulos mais importantes. Eu não lembro o nome da atriz, mas provavelmente a garota da Treze não esquece a personagem até que outra novela apareça.
- Moça, tem um trocado? - Hoje não. Molequinho intrometido, atrapalhou o meu Observatório. Agora a garota já entrou na loja. Será que o menino não percebeu que eu não fazia parte do contexto? Que eu não estava ali para interagir? Quem sabe a fome era tanta que ele precisou interromper, até os invisíveis, para pedir dinheiro... Deixa-me ver para onde ele vai, afinal, estou um tanto arrependida de ter negado as míseras moedinhas. Pena! Ele já está suficientemente longe para ouvir o meu grito. Porque não ajudei? Custava fazer uma boa ação... Acho que nem prestei atenção à sua voz, fui logo falando não e pronto. Ele já não está sozinho. São uns quatro meninos aglomerados num canto da praça, na mão de um deles tem um vidro com cola de sapateiro. Será que era para isso o dinheiro? Chego a conclusão que eles precisam, na verdade, de amor, educação e uma oportunidade na vida. Mas o governo não dá conta, essas coisas não são tão simples quanto as promessas de campanha eleitoral. E nesse caos, quem perde é a sociedade, que fica cada vez mais desigual. Uma dondoca acaba de passar por mim neste instante. Toda a minha concentração nos problemas sociais foi para o espaço. Voltei ao Observatório. Que perfume melado! Deve ser daqueles “falso-importados” diretos do Paraguay, de nome francês e qualidade fundo de quintal. Estou até enjoada. E a roupa da perua, que horror. Calça fuseaux estampada com flores, blusa de lurex (daquelas colantes) com babados, e uma jaqueta preta cheia de franjas e aviamentos. Para acompanhar o “look casual”, uma bolsa de couro de crocodilo (se bem que está com cara de napa). Provavelmente ela deve pensar que é classe A, socialite de coluna social, mas na verdade é mais simulacro do que original. Baudrillard bem dizia que a classe média oprimida gosta de exagerar nos seus objetos, para sentir-se portadora de poder. Na realidade suas atitudes não passam do conceito kitsch, que só acentuam a sua incapacidade de alcançar a aristocracia. Mas ela não leu Baudrillard, muito menos sabe de tudo isso. É inocente. Continua seu passeio, como se estivesse num carro alegórico, altiva e rebolante. Aliás, percebo que ela acabou de sair de uma lipoaspiração naquelas clínicas que prometem milagres – seu quadril diz tudo. (As mulheres quando analisam as outras, acham milhões de defeitos. É aquele ímpeto de encontrar as falhas existentes, e ainda dar uma apimentadinha na história, para parecermos mais perfeitas que a rival. É uma forma feminina de olhar, já vem na nossa programação pessoal, não é maldade). Enfim, a mulher parece que vai a um baile, mas na verdade está indo comprar ilhoses e fitilho, no armarinho mais barato, para a costureira do bairro fazer uma réplica da roupa que saiu na Cláudia deste mês. |
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