Textos
Título: Observatório
Autora: Mariane Cara
Veículo: Antologia de Contos Univap
Ano: 2002


IMPORTANTE: Este texto é protegido legalmente por direitos autorais.
A citação de partes só é permitida para fins acadêmicos, cumprindo a norma ABNT (NBR 10520) relacionada à Referências Bibliográficas.

Observatório

Meus olhos bem atentos registram as cenas que acontecem no Centro.

Sentada no banco da praça, aquele mesmo, das propagandas antigas, de bares e mercearias, observo os movimentos, gestos e personalidades.

Se o banco é antigo, as situações são novas, as pessoas são diferentes e o conjunto cria a atmosfera da cidade.

Nesta hora eu não quero produzir, nem mesmo falar. Só quero observar, ouvir e refletir sobre o que está à minha volta.

Quero ver a vida acontecer, sem integrar-me ao cenário. Quero camuflar a minha presença  no meio da multidão. Olhos e mente, sem um corpo visível.

Lá está o meu primeiro alvo, um senhor cambaleante que passa do outro lado da rua. Bebeu pinga a noite inteira, embora eu não sinta o cheiro da cachaça barata. O seu andar não engana: O dono do bar da esquina deve estar fulo da vida com o prejuízo que o indivíduo trouxe... Prejuízo sim! Dá para notar que o coitado não tem um tostão no bolso há muito tempo. Olhei, com mais atenção para o bolso, e notei que estava rasgado.

Algum trombadinha deve ter roubado os últimos centavos do homem, e no tranco o tecido cedeu. Pensando bem, até trombadinha compaixão de bêbado, é rasgo das várias caídas na sarjeta, mesmo.

E sabe que bêbado é confiado. Esse não era diferente, já estava velho, mas continuava com irreverência e gracejos pra cima das garotas da periferia.

- Ô princesa, que saúde!

Falou alto e já foi logo abraçando a balconista “bem dotada” da loja Treze, que andava na calçada. Ela, depressa, tratou de empurrar o velho e apertar o passo, com toda vergonha de adolescente e toda correria de assalariada, que precisa bater o ponto.

Seu uniforme denunciava a profissão: Vermelho, berrante e bem passado. Ela é nova na loja, pois pelo que ouvi da Claudilene, uma amiga minha que trabalhou lá, ninguém passa mais de dois meses no emprego. O salário é baixo, a exploração é alta, e ainda por cima todo funcionário tem que gastar 20% do ordenado em produtos da loja.

Tenho convicção que é a sua primeira semana de trabalho. Sua camisa está novinha, nem foi lavada, e seu semblante ainda é animador.




o texto continua na página seguinte
e-mail: [email protected]
Hosted by www.Geocities.ws

1