Textos
Por falar em baile, ouço uma música engraçada, vinda diretamente do Camelô dos CDs. Como esse cara é divertido. Ele sabe que vende material pirata, mas ainda assim vive de bom humor. É todo malandro, “esperrto” mesmo. Enquanto o povão acha que está abafando por comprar, na barraca, o último CD do “CH&X” a míseros “Cinco Réal”, ele ganha cinco vezes o valor de custo.

A chave do sucesso do camelô dos CDs é a garantia de seus produtos. “Se der poblema no praso de uma semana, trocamos seu CD” – diz o cartaz na frente da barraca. Ele até carimba a capa do CD com a data da compra, para os casos de troca.

Cliente tem sempre razão, bom atendimento é um dos seus fortes e, ainda por cima, você leva uma consultoria especial sobre os mais novos lançamentos fonográficos. É o profissionalismo total da clandestinidade.

Com todo esse sucesso, o camelô dos CDs já comprou um carro mil zerinho, com trio elétrico e som de fábrica, e olha que ele entrou no ramo há um ano.

Por outro lado, já gastou o valor de meio carro zero com os dividendos para o “fundo de suborno da fiscalização”, que de vez em quando, dá uma passadinha pela rua em busca de uns “trocados para o leite das crianças”.

Agora, quem não deve viver de trocados é a mulher poderosa, que de repente apareceu na rua. Ela chama a atenção de todo mundo, afinal, não é comum passar gente chique demais por essas bandas. Deve estar indo para uma reunião importante naquele Banco Francês  que acabou de ser reformado... Só pode ser isso.

A roupa que a mademoiselle veste é maravilhosa.  Não tem um defeito sequer, a costura nem aparece, o tecido é daqueles que o metro custa uns duzentos Euros, afinal ela deve ter comprado o tailleur na França, nas suas viagens de negócios.

Cabelo escovado, pensando bem, cabelo com “brushing”, é mais chique. Na pasta executiva tem um Laptop novinho (imagino que seja um Pentium III 1 Ghz, tela plana TFT) e na bolsa Prada tem um celular de última geração, desses que tem conexão com a Internet.

Ela não anda, ela desfila. Seu olhar é confiante, não titubeia em nenhum momento. Nem o emaranhado de gente, que anda de lá pra cá, fazem ela perder a classe.
Eu gostaria de ser assim. Elegante, rica, bem sucedida e auto-suficiente. Uma mulher verdadeiramente importante.

Mas, no momento, isso só me fez lembrar que está na hora de encerrar o Observatório. O banco da praça ficará solitário, restando somente as propagandas antigas, dos bares e mercearias.

Preciso passar em mais quatro agências de emprego, duas delas já me avisaram que sem experiência eu não consigo nem emprego de caixa de supermercado.

Quem sabe arrumo uma vaga de operadora de telemarketing, ou mesmo de recepcionista... Com vinte e um anos e sem terminar a faculdade não sobram muitas possibilidades além destas.

Meu pai avisou também que, se eu não trabalhar daqui pra frente, vou ter que parar de estudar.

A realidade é bem mais dura que a observação, mas tenho esperança que vou vencer.
e-mail: [email protected]
Hosted by www.Geocities.ws

1