A Descoberta da América pelos Turcos
18 Ao passar diante das portas de O Barateiro, Jamil Bichara indignou-se vendo-as trancadas àquela hora vespertina de intenso movimento comercial: absurdo a exigir providência urgente, ação rápida. Trataria disso assim pusesse a maranha em pratos limpos. Encaminhou-se para a entrada social do sobrado, começou a subir a escada, ouviu rumor de vozes vindo da sala. No alto deparou-se com a porta escancarada; espiou para dentro antes de bater palmas e pedir licença para entrar. Pelo que lhe foi dado ver, realizava-se solene cerimônia com a presença de muita gente; quem sabe, velório triste e animado? Teria ocorrido morte na família? Talvez o perseguido Ibrahim houvesse se suicidado, não suportando mais a crise instalada no negócio e na família. Somente assim se explicariam o fechamento do armarinho e as roupas escuras, domingueiras, do casal desconhecido, parado no umbral da sala de visitas. Reconheceu a voz de Raduan Murad a perorar em árabe, certamente no elogio fúnebre do amigo. Revestiu-se de tristeza e compunção, mas logo descartou a funérea hipótese ao ouvir o riso cristalino e debochado de Samira, uma das razões maiores por que ali se encontrava para dizer sim. Quem dizia sim era o dono da casa, o chefe do clã, Ibrahim Jafet, prenhe de saúde e de satisfação, eufórico. Dava seu acordo de pai ao pedido que Raduan Murad acabara de transmitir em inspirado toste: concedia a mão de sua filha Adma a Adib Barud, de agora em diante ele também seu filho. Jamil exibiu-se na sala a tempo de brindar com os membros das famílias Jafet e Barud reunidas em festa tanto mais ruidosa quanto mais imprevista. Foi apresentado a Jamile, sua outra quase cunhada, ao marido dela, Ranulfo Pereira, e aos irmãos e cunhadas de Adib; a Adib conhecia do bar, mas jamais poderia imaginá-lo envolvido com Adma em transa de namorados. Cada uma! Pôde contemplar com tranqüila isenção a fatídica donzela e não soube explicar como chegara a admitir e a desejar! casar-se com ela. Observando-a rendida no braço do noivo, derramada em risinhos e denguices, um nojo, concluiu que nem em troca do reino das mil-e-uma-noites um cidadão normal se sujeitaria a pacto tão infame: esse jovem Adib Barud, além de ganancioso vil, era um degenerado. No entanto, havia menos de uma hora, Jamil subira as escadas do sobrado na intenção de postular, em prosa chã, pedido idêntico àquele que Raduan Murad transmitira, com poética emoção, em nome do ex-garçom. Igualmente ganancioso vil, degenerado? Ai, não! Possuído por Shitan, enfeitiçado, cego e surdo. |