A Descoberta da América pelos Turcos

 

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Da embrulhada Jamil Bichara safou-se incólume, sem maiores danos. O lucro imaginado nos ermos de Itaguassu, a fortuna, o sultanato não passavam de quimeras; dificilmente poderiam se concretizar, poderiam facilmente desfazer-se em nada, restando-lhe no lombo os compromissos e o casamento. O casamento: Hala! Puta merda!

Conservou a amizade de Ibrahim, companheiro jovial para as noites de gandaia, e prosseguiu no inconseqüente namorico com Samira. Ia visitá-la no largo da Estação em cada passagem por Itabuna: conversavam salafrarices; trocavam sorrisos, insinuações, vagas promessas, ternos apertos de mão; aconteciam toques casuais aqui e acolá, espiadelas no decote do vestido, e não passava disso. Desforrava-se nos sonhos em Itaguassu quando Samira se esbaldava com ele em noites de deboche: mamas ubérrimas, ventre amplíssimo, frondoso precipício. Alah o salvara de Adma, destino infame: burro de carga a se matar no trabalho para sustentar os boas-vidas da família Jafet; de lambujem lhe deixara um comparsa e um chamego, não poderia se queixar.

Desenrolado o novelo, restou um enigma a resolver, mistério a decifrar, provocando intrincadas controvérsias. O jovem Adib Barud, à frente do armarinho, ainda não o transformara no grandioso bazar imaginado e prometido — por ele e por Jamil — mas equilibrara-lhe as finanças, reerguera-lhe o crédito, reconquistara a clientela. Se os resultados não tinham sido extraordinários, tampouco foram maus. Ao que se saiba, Adib nunca se queixou: sorridente e amável ao balcão, conversador, fuxiqueiro como ele só; aprendera modos no bar, as freguesas o adoravam.

Apesar de jovem conseguiu impor-se: patrão competente e trabalhador, aceito e estimado pela parentela. Mais do que isso, feliz no casamento. Revelou-se marido pacato e constante, afeiçoado ao leito da cara-metade. Não chegava a ser exemplo singular de monogamia, como o fora Ibrahim ao tempo de Sálua. Vez por outra acompanhava o sogro a espairecer à toa pela noite, sem hora de regresso. Por ocasião do primeiro espairecimento do consorte, Adma tentou botar as manguinhas de fora; esperou acordada, acumulando cólera e veneno, virou cobra e o recebeu com paus e pedras, urros e soluços, um verdadeiro dois-de-julho. Para começo de conversa Adib aplicou-lhe potente par de bofetadas, prelúdio da surra memorável com que a exemplou; em seguida ele a montou com ímpeto e desvelo, deixando-a por fim quieta e satisfeita, ronronando. Sempre que necessário e também sem necessidade aparente, repetiu o tratamento: assim a domou com porrada e mimo.

Apesar de criticada pela comunidade masculina e por algumas senhoras adstritas à lei reinante — em esposa o cidadão se põe com respeito para nela fazer filho cumprindo dever sagrado; para as indecências, as porcarias existem as putas —, a fidelidade de Ibrahim tinha explicação por ser ele marido de Sálua, a mais formosa das formosas, corpo modulado em curvas, carnes fartas, rosto de dengue, olhos de sultana. Mas como explicar o comedimento de Adib? Mocetão fogoso, antes tão bem-visto entre raparigas e mancebas, tornara-se vasqueiro e arredio. Para mantê-lo à noite em casa, no leito matrimonial, de que artes ou artimanhas se utilizava Adma, casapo de canhão, seco bacalhau, tábua de engomar?

Quando Adib correu-lhe a mão no corpo, no dia inesquecível do estouro da tropa de burros, descobriu-se que não era bem assim: tinha seios duros e viçosos. Mas bastariam boas tetas para encobrir o resto? Ou seria Adma por acaso, como suspeitaram e sugeriram alguns no auge das tumultuadas discussões, uma daquelas prediletas a quem Deus concedera a graça de divina xoxota de chupeta a chupitar?

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