A Descoberta da América pelos Turcos

 

16

Pela primeira vez em sua vida Adma viu-se andando na rua de braço dado com um homem, o dito homem a tratara de tetéia e sorria para ela um sorriso cheio de subentendidos.

— Não se lembra de mim?

Gostaria de responder que sim, que se lembrava, como poderia tê-lo esquecido? Infelizmente, ai, não se recordava onde e quando o vira; nem mais gordo nem mais magro, deslumbrante — nunca. Perplexa, eis que sorriu enquanto ele avivava-lhe a memória:

— Eu trabalhava na Moda, que é de meu irmão Aziz. Não se lembra? Eu ficava lhe espiando, lhe cobiçando...

Ficava espiando, cobiçando? Jamais se dera conta.

Um calor queimou-lhe o peito magro: não se dava conta, mas havia homens que a espiavam, jovens, fascinantes príncipes, arcanjos do céu que a cobiçavam. O mais maravilhoso sucedeu ao chegarem às imediações do sobrado:

— Passo por aqui todos os dias só para lhe ver na janela, mas você nem repara em mim.

Adma estancou o passo: como fazer para ouvi-lo repetir que passava por ali somente para vê-la? Ai, não podia acreditar! Teria dado tudo para que Samira estivesse presente, visse e ouvisse morta de inveja. Com dificuldade explicou:

— Temos de entrar pela rua dos fundos, saí pela porta do quintal.

Desviaram-se, a chave tremia na mão de Adma. O príncipe, sempre sorrindo, a recolheu e abriu o antigo portão dos namorados. A solteirona entrou, a vista baixa; não tinha ânimo para fitar aquele que a salvara da morte, tomara de seu braço e lhe dissera o que jamais antes ouvira; não passava de uma visão prestes a desvanecer-se:

— Não sei como possa lhe agradecer, salvou minha vida!

Falava de dentro do quintal, a voz apagada: findo o encantamento, lá se ia ele embora para sempre, fora curto o caminho da ventura; apenas pudera vislumbrar o paraíso, regressava ao inferno novamente.

— Não sabe, gostosona? — Adib Barud, arcanjo, herói, príncipe, lanzudo dromedário, ampliou o sorriso, agora francamente bem ou mal intencionado, conforme a preferência, piscou o olho e anunciou: — Pois vou lhe mostrar agorinha mesmo, minha belezoca — repetiu minha belezoca, e acrescentou, disposto a tudo: — meu peixão!

Transpusera o portão e o empurrou, fechando-o. Com uma das mãos agarrou Adma pela cintura, com a outra sustentou-lhe a cabeça, o coque se desfez, ela perdeu a fala e os movimentos. Adib atracou-a num beijo aprendido com Procópia, a do juiz do cível: uma ventosa de beiços, línguas e dentes, marcando-lhe para sempre a boca e a alma. Ela agitou-se, ele a manteve firme. Por fim, o corpo de Adma amoleceu desfalecido nos braços de Adib, tinha sido demais para um só dia. Ele a equilibrou contra o muro e nela se encostou; correu-lhe a mão de alto a baixo, grata surpresa: a tábua de engomar possuía peitos, e não eram moles nem caídos.


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