A Descoberta da América pelos Turcos

 

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Estariam Alah e seu profeta Maomé tão despreocupados assim com o destino de seu filho Jamil Bichara a ponto de esquecerem o pacto de fé e assistência que existia entre eles, e nem sequer chamar sua atenção para os perigos da empresa em que teimava se engajar? Provavelmente tentaram fazê-lo sem que o obstinado lhes desse ouvidos: eu estava cego e surdo — confessara o próprio Jamil a Raduan Murad —, entregue à tentação do ouro e da carne. Shitan habitava em meu peito.

Segundo o adágio, Deus escreve certo por linhas tortas e para levar a cabo seus desígnios utiliza métodos singulares, movimenta inesperados personagens. Enquanto Shitan, acampado em Itaguassu, dedicava tempo integral à sedução de Jamil, Alah, o grande Alah, manobrou em Itabuna para salvar a alma e defender o futuro do ungido.

Caso passado, analisando com Jamil o desenrolar da refrega, Raduan, que a acompanhara lance por lance, apaixonadamente, ao tomar conhecimento da atuação de Shitan — sonhos lúbricos, míseros engodos, promessas exageradas e dúbias —, considerara a estratégia e a tática de Alah superiores em todos os sentidos. Não somente por ter colocado o inimigo diante do fato consumado, mas também pela forma como agira: em lugar de elucubrações subjetivas, ações fulminantes, dignas da melhor tradição do Velho Testamento, demonstrara estar em plena forma. Iniciou a belíssima performance com o episódio romântico e heróico da tropa desembestada, primeiro de uma série de cartadas magníficas, espetaculares.

A tropa de burros desembestou sem motivo aparente pouco antes de chegar aos armazéns de Kuntz e Cia., firma suíça exportadora de cacau. Os animais atiraram-se em desabalada correria, escouceando, peidorreando, atropelando os passantes em hora de intenso movimento: sacos caíam das cangalhas, as amêndoas de cacau se espalhavam nas sarjetas, o povo fugia desatinado, um fim-de-mundo.

Nesse exato momento a donzela Adma acabara de penetrar na tumultuada artéria voltando da casa de Samira, no largo da Estação, onde estivera infernando a vida da irmã. Referira-se inclusive a Jamil Bichara, dando nomes quando Samira o defendera, a ele e ao Pai: um solteiro, o outro viúvo, tinham todo direito a freqüentar pensões de raparigas. Azedaram-se os ânimos. Adma ameaçara um faniquito, pois a desfrutável a acusou de ser intolerante, por não ter encontrado quem a quisesse: nada a feria mais profundamente.

Vinha, infeliz e cabisbaixa, pelo meio da rua quando ouviu os gritos e relinchos e enxergou diante de si os vultos das alimárias enfurecidas, sob cujas patas ia morrer esmagada — apesar de tudo, Adma não desejava morrer. Não teve forças para fugir, soltou um berro, fechou os olhos, esperou o choque, a queda, os cascos ferrados, o fim: sentiu-se arrebatada no ar, desfaleceu.

Quando abriu os olhos compreendeu que iniciara a vida eterna e merecera o paraíso: em sua frente curvava-se um arcanjo e lhe sorria, celeste, deslumbrante. Não era o paraíso, era o interior de uma loja de fazendas; alguém lhe enfiava um copo pela boca, a água escorria nos cantos dos lábios. Ouviam-se ainda os ecos da balbúrdia, o alarido dos tropeiros. O arcanjo não usava asas, mas continuava a fitá-la sorridente.


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