A Descoberta da América pelos Turcos
13 Ibrahim apagou completamente no meio de uma frase: tentara erguer-se da cadeira, escorregara para debaixo da mesa, de onde o retiraram com a ajuda dos garçons. O ajuntamento se desfez e Jamil resolveu levar o patrício até a porta de casa, sozinho ele não chegaria lá, não se agüentava nas pernas. Patético e lacrimoso, Ibrahim passara a maior parte da noite a recordar a falecida. Tanto amor comovia as raparigas que se comprimiam em torno da mesa para ouvi-lo. Algumas tinham conhecido Sálua no balcão de O Barateiro, onde iam fazer compras, enfeites para vestidos, pentes finos, anéis de fantasia. Senhora-dona casada e rica e que beleza! Sálua não estabelecia distinções entre as freguesas, tratando a todas com idêntica cortesia, fossem mães de família ou perdidas meretrizes. Solidárias com os sentimentos de Ibrahim recordavam que, durante a vida da esposa, ele fora exemplo de bom marido péssimo exemplo para a comunidade na opinião majoritária dos chefes de família. Jamais freqüentara o cabaré nem atravessara a noite em pensão de putas, e se passara a fazê-lo fora no intuito de esquecer, mas não esquecia. Na oportunidade de jantar festivo em casa, tão freqüente enquanto ela vivia, tão rara após sua morte, o peso da ausência tornava-se insuportável. Paula Caolha, sentimental leitora de romances em folhetins semanais, entregues às quintas-feiras, debulhava-se em lágrima: amor igual ao que unira Sálua e Ibrahim só mesmo o de Paulo e de Virgínia, e olhe lá! Jamil se dera conta de que o viúvo pouco ou nada tinha de sabidório, não passando de estimável boa-praça. Escutava-lhe as lamúrias com silenciosa simpatia, enquanto se preparava para deixá-lo em casa. Raduan Murad retirara-se havia muito para as obrigações do pôquer, mas Jamil contou com a assistência de Glorinha Cu de Ouro e de Paula Caolha; entre os três conduziram aos trancos e barrancos Ibrahim e sua cruz até as proximidades do armarinho. Ao som dos passos, uma veneziana abriu-se no alto do sobrado: tempestade de impropérios rompeu o silêncio da noite. Postada na janela, Adma, boca do inferno, despejava injúrias, acusações, agravos, ameaças sobre o pai, o cirineu e as madalenas. Valia a pena ver e ouvir: uma única vez Raduan Murad testemunhara o espetáculo e para classificá-lo empregou palavras pouco usuais: catilinária, vesânia, atrabílis. As duas raparigas recuaram, Ibrahim soluçou no ombro de Jamil. Adma prosseguia, fúria insaciável, despertando a vizinhança. Ibrahim fez um esforço, equilibrou-se, partiu em direção à porta do calvário. Antes de transpor o batente elevou os braços e os agitou num gesto de afogado. Adma não se comoveu nem se conteve: apontando para Jamil trovejou-lhe as últimas. |