A Descoberta da América pelos Turcos

 

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No dia seguinte, atarefado com fornecedores, mercadorias, pagamentos, ainda assim Jamil Bichara arranjou tempo para uma vista d’olhos no armarinho. Do sucinto inventário, feito com a ajuda de Ibrahim, saiu com impressão favorável que guardou para si: não ia entregar trunfos ao adversário. Chamou a atenção para os dados negativos: atraso nos pagamentos, queda nas vendas, desleixo, incompetência.

O fogoso Alfeu e o galante querubim consideravam-se em eterna lua-de-mel, ponto de vista romântico e ruinoso: a noite não lhes bastando para o fuque-fuque, prosseguiam manhã adentro. Acrescenta-se o choro da criança, a troca de fraldas, as mamadeiras: impossível cumprir horários rígidos: abriam e fechavam as portas do negócio quando melhor lhes dava na telha. Sonolentos, perseveravam em arrulhos no balcão sem conceder a atenção devida às costureiras e donas de casa, que em troca de pequenas compras — um dedal, uma dúzia de botões, grampos para o cabelo, dois côvados de fita — exigiam prosa e consideração.

A freguesia de Sálua, fiel e numerosa, foi minguando aos poucos, afastando-se à procura de vendedores menos apaixonados, mais solícitos. Tampouco o proprietário prestava a assistência necessária à boa marcha do mercado: na véspera, no cabaré, Ibrahim confessara ter-se desligado, durante a vida da esposa, de tais obrigações e responsabilidades: Sálua se ocupava e dava conta. Recordara Sálua com os olhos úmidos. Lágrimas fáceis, de um sabidório, ou sinceras e sentidas lágrimas de um boa-vida, boa-praça?

Apesar da evidente decadência, O Barateiro, situado em rua do centro, localização privilegiada, loja espaçosa, pareceu a Jamil um negócio da China. As dificuldades recentes mal haviam abalado o bom conceito de que durante longos anos a firma gozara na praça. Em mãos capazes o armarinho poderia voltar rapidamente aos áureos tempos e dispunha de condições para se transformar, com certo esforço, em sortido bazar onde vendessem de tudo um pouco: tecidos para homens e mulheres, sapatos e chapéus, camisas, suspensórios, atilhos, meias e gravatas. Para tanto exigiam-se mão forte, aptidão para o comércio e coragem no trabalho, virtudes de Jamil Bichara, comprovadas. A dificuldade residia no número de filhas e genros, muita gente. Se decidisse entrar na família e na sociedade precisava estudar a sério as cláusulas do contrato.

Examinavam contas e recibos quando, vinda dos fundos do sobrado, penetrou na loja sacudido rabo-de-saia que beijou a mão do patrício — a bênção, meu pai — e sorriu para Jamil enquanto os olhos curiosos e brejeiros examinavam-no de alto a baixo, como a estimar seus méritos de varão. Seria ela a tal feiosa? Não podia ser, essa de feia não tinha nada, muito ao contrário.

— Minha filha Samira... — esclareceu Ibrahim: —… a que é casada com o telegrafista.

— Jamil Bichara, criado às ordens.

— Jamil Bichara? Já ouvi esse nome...

— É amigo do compadre Raduan.

— De tio Raduan? Ah! Estou me lembrando... — apontou Jamil com o dedo, a voz traquinas: — O sultão do cabaré, não é?

Jamil riu, ligeiramente encabulado:

— Sultão é como ele diz, brincando...

A espevitada continuara a medi-lo e de súbito teve um frouxo de riso cristalino e debochado sem explicar que graça o provocara. Tio Raduan tinha conversa para o interesse e o gosto de qualquer ouvinte, mas para Samira e algumas outras preferidas reservava os apimentados relatos da vida boêmia, desvendando-lhes ambientes e episódios proibidos a senhoras casadas. Tio Raduan era o próprio Capeta: com aquela voz de veludo e o ar mais inocente, soltava cada uma! Para explicar o sucesso do amigo Jamil Bichara junto às raparigas, referira-se a uma particularidade do indivíduo: era um desmarcado, um pé-de-mesa. A julgar pelo corpanzil, devia ser verdade; Samira fechou os olhos para enxergar melhor.


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