A Descoberta da América pelos Turcos

 

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Comprovou-se imediatamente que Jamil Bichara e Ibrahim Jafet eram almas gêmeas feitas para se entenderem e se estimarem. O encontro deu-se no cabaré: Glorinha Cu de Ouro fez as apresentações. Não tardou a se arrepender: os dois turcos, em lugar de se ocuparem dela, começaram a trocar língua, deixando-a reduzida ao ridículo papel de surda-muda, como se fosse um traste qualquer. Ferida em seus brios, saiu a dançar com Chico Lopes, cometa tirado a conquistador de raparigas; cercava Glorinha havia tempo, sem sucesso até então. De graça a requestada não dava, a não ser para aqueles raros que a enfeitiçavam, ofuscando-lhe o juízo. Não por avarícia, por necessidade: em Laranjeiras, de onde viera exercer em Itabuna, deixara quatro irmãs donzelas e carolas, a mãe entrevada e o pai lavrando terra alheia no consolo da cachaça. Todos eles e mais duas tias aluadas — meus entes queridos, choramingava saudosa, ao recordá-los —, todos dependendo dela, do dinheirinho suado que enviava a cada mês por intermédio de seu Aureliano Neves, dono da Casa Sergipana, móveis de primeira, aos sábados seu paroquiano.

Irmã caçula, cabrocha viçosa e assanhada, dera o cabaço de regalo ao filho do juiz, filho-da-puta que lhe tendo feito a festa a largou mal fodida à fúria do pai bêbado e moralista, sem lhe dizer até logo: prometera casa posta, amigação. De qualquer maneira era-lhe grata, ao lhe tirar os tampos ele lhe proporcionara a sorte grande: Glorinha do Divino veio ser puta na zona do cacau, Glorinha Cu de Ouro, afreguesada. As alambicadas juras de amor do cometa entravam por um ouvido, saíam pelo outro, apesar do bigodinho fino e do cabelo lustroso de brilhantina, repartido ao meio no elegante penteado a la boceta, no rigor da moda. O pelintra dançava bem, e Glorinha não ficava atrás: adorava uma valsa, uma polca, uma mazurca, exímia no maxixe.

Interesse por parte de Jamil existiu desde o começo quando, alvoroçado com a inesperada aparição do candidato ideal, Ibrahim foi direto ao assunto: ainda naquela tarde a pessoa do patrício estivera na berlinda, objeto de conversa e especulação. Raduan Murad, amigo comum, uma capacidade, propusera o nome de Jamil e haviam lastimado sua ausência. Propusera seu nome para quê? Para solucionar problema de interesse de Ibrahim, mas que poderia vir a ser igualmente de Jamil. Gostaria de expô-lo, se o patrício quisesse ouvi-lo e marcasse hora e lugar. Aqui e agora, respondeu: não dispunha de tempo no dia seguinte, inteiramente dedicado a refazer o estoque e ao embarque da mercadoria. A mistura de vermute e conhaque desatara a língua do aflito pai de Adma. Todo ouvidos, Jamil, por natural prudência, não demonstrou entusiasmo em nenhum momento da maquinação.

Antes mesmo de partir para trocar em miúdos o enredado mistifório, Jamil declarou-se plenamente satisfeito com o lugar onde vivia e comerciava, não tencionava abandoná-lo. Ainda não enriquecera, isso não, mas se o arruado continuasse a crescer a bodega dos tropeiros seria com o passar do tempo importante casa de negócio, tão certo como dois e dois são quatro. Conhece o coronel Noberto de Faria? Pergunte e ele lhe dirá. Para abrir mão do que lhe custara privações, esforço e sacrifício e da perspectiva de um futuro de abastança, fazia-se mister oferta de valia.


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