A Descoberta da América pelos Turcos
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9 Nunca se soube dos termos precisos da conversação entabulada naquele crepúsculo itabunense entre Raduan Murad e o jovem Adib Barud. Os dois dialogaram a sós e guardaram reserva acerca dos temas discutidos. Nem por isso faltou quem reproduzisse tintim por tintim o extenso diálogo, com referências aos tons de voz, aos frouxos de riso, à densidade dos silêncios. Alguns afirmaram que o colóquio, tendo começado em árabe, terminara em português; outros garantiram exatamente o contrário: iniciado em português, prosseguira em árabe língua aliás que Adib, nascido brasileiro grapiúna, falava conscienciosamente mal. A acreditar na versão mais correntia, nem por isso digna de fé e de traslado, ao ser servido da porção de anis, Raduan teria perguntado ao garçom: E tu, não jantas, meu rapaz? Adib respondera que jantava, sim, e fartamente. Prato feito por dona Lina, esposa de Sante, que o trazia ao voltar de casa. Acrescentara simpático comentário sobre a aparência da patroa: Dona Lina é um peixão, o senhor não acha, professor? Cada coxame... Apesar de Raduan Murad não ser mestre-escola nem dar aulas particulares, numerosas pessoas tratavam-no de professor e ele recebia o título sem estranheza nem empáfia. Mostrou-se interessado em saber onde e como Adib avaliara as coxas de Lina. Acontecera por acaso: tendo ido levar um recado à casa de Sante, encontrara a referida senhora de cócoras, esfregando roupa numa bacia, a saia arregaçada, o coxame à mostra: arriscara o olho. Além de despachado, Adib era enxerido: Tem quem diga por aí... Raduan, sabendo de sobejo o que diziam por aí, cortou-lhe a tagarelice: Ouvir é sempre vantajoso; repetir, nem sempre, meu rapaz. Esquece o que ouviste se não queres perder o emprego. Perder o emprego, Deus o livre e guarde! No botequim, posto privilegiado, Adib vivia em contato com os ricos e os influentes, os graúdos da cidade, sempre a par dos acontecidos e dos inventados, comprazendo-se no deboche com as raparigas que ali rondavam para fretar os tabaréus. Botar fora tantas mercês só se fosse louco. Anteriormente mourejara durante três anos em A Moda, loja de propriedade de seu irmão Aziz. Se gostava de loja? Para ser empregado prefere o botequim pelas razões expostas. No balcão de A Moda começara trabalhando de graça, para aprender; somente no último ano passara a ter ordenado, uma ninharia. Não sendo burro de carga, caíra fora. E na condição de sócio? Na condição de sócio ou mesmo de simples interessado nos lucros, professor, aí seriam outras falas. Mas Aziz nunca lhe daria interesse no negócio por mais Adib se matasse no trabalho e agradasse à freguesia. A Moda, de Barud & Irmão, que esperança! Seu ideal era botar roça de cacau como o fizera Saad, o outro irmão, genro do coronel João Cunha: o sogro dera-lhe a mão, Saad estava montado no dinheiro.
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| O senhor
é que não liga para essas coisas, não é mesmo,
professor? Leva a vida na maciota... Mas não é qualquer
um que pode viver na vadiação, botando praça de lorde
sem trabalhar. Pra isso é preciso ter muito tutano na
cabeça. Imprevisível marmanjo: Raduan Murad sorriu com bonomia ao ouvir o singular comentário: quantos não pensariam o mesmo sem ousar dizê-lo? Lastimou que Adib se interessasse apenas por filha de fazendeiro, desdenhasse filha de comerciante, uma pena. Quem disse isso, professor? Me mostre onde tem uma dando sopa, saio atrás, correndo. Tenho muita queda para o balcão, pergunte a Aziz. Ele vive querendo que eu volte, mas prefiro trabalhar para seu Sante. Aqui a gente se instrui. Mesmo que a moça não seja lá essas belezas, seja um tanto quanto feiosa... Tendo massa nenhuma mulher é feia. Aprovado, meu rapaz. Vejo que recebeste boa educação. |