A Descoberta da América pelos Turcos

 

7

Apaixonante assunto, Raduan Murad movia as pedras desatento ao jogo quando, interrompendo um lance, bateu no ombro do parceiro e anunciou:

— Alvíssaras, meu Ibrahim, encontrei o homem que buscamos, o ideal para sócio e genro: ocorreu-me agorinha mesmo. Chama-se Jamil Bichara. Sabe quem é?

Ibrahim sabia de quem se tratava. Conhecia-o de vista e de ouvir falar, um patrício de estatura gigantesca e a voz de estentor. Glorinha Cu de Ouro, aquela adorável peste, não tirava o nome dele da boca apetitosa, Jamil para cá, Jamil para lá, contava casos engraçados lastimando a prolongada ausência do fulano ultimamente desaparecido das ruas de Itabuna onde fazia falta.

— Deixou de trabalhar para Anuar Maron — esclareceu Raduan —, abriu casa de negócio num desses cafarnauns perdidos pelas matas. Onde, não sei; ele me disse o nome, mas me esqueci. Quem deve saber é Glorinha. Quando aparece por aqui nem toma hotel: se hospeda no quarto dela como se fosse fazendeiro de mil arrobas, a rapariga por sua conta.

Pouco mais pôde Raduan adiantar sobre o paradeiro e os propósitos do Sultão (dera-lhe esse apelido por ser o patrício doido por mulher). A última vez que o vira, há um ror de tempo, exatamente em companhia de Glorinha Cu de Ouro, no cabaré, ele se queixara do trabalho extenuante e da péssima qualidade das raparigas no fim do mundo onde se metera. Persistindo tais inconveniências, Jamil seria decerto sensível à proposta de Ibrahim. Raduan não sabia de outro com tanta disposição para o trabalho e tanta ânsia de ganhar dinheiro. Para sócio, perfeito. Para genro, faltava saber se Jamil aceitaria o desafio.

— Porque aqui para nós, meu Ibrahim, a nossa querida Adma... As virtudes não as discuto, sou um pecador, não entendo dessas coisas. Mas, os traços...

— Eu sei, compadre. Saiu a mim, não teve sorte.

Conversa inútil, pois o indigitado não estava ao alcance para discutir a situação comercial, balanço e promissórias, ou conceitos de beleza, valores físicos e morais. Levara sumiço, não tinha data marcada para vir a Itabuna. Raduan ainda aconselhou Ibrahim a pacientar, mas a proposta foi recusada in limine. Não, compadre, não podia esperar um dia a mais se desejasse resolver a crise antes que o genro Alfeu e o querubim completassem a queima do armarinho, antes que a filha Adma — filha? Madrasta, morabita! — se impusesse totalmente, reduzindo-o à condição de escravo, de eunuco.

Olhos umedecidos, voz trêmula, entrecortada, Ibrahim abriu as últimas comportas da vergonha, abandonou qualquer resquício de respeito humano, expôs os horrores da tragédia:

— Meu compadre Raduan, vou lhe contar tudo, a desgraça que está sucedendo comigo. Por culpa das virtudes de minha filha Adma...

— Desconfiava disso... A virtude é triste e autoritária. — Ávido de conhecer os pormenores da novela, Raduan encorajou a confidência: — Não tenha pejo, meu Ibrahim, lave o peito, estamos em família.

Disposta a acorrentá-lo ao balcão durante a manhã e a tarde, a condená-lo à abstinência noite afora, Adma infernava a vida do Pai, cada dia mais tirânica e violenta: implacável fúria, meu compadre. Escândalo sobre escândalo, para regalo da vizinhança. Nas manhãs de pescaria acusando-o de indolente por abandonar o negócio para flanar no rio; de irresponsável à tarde, durante a sesta na rede entre as árvores do quintal e na hora sagrada do bar e do gamão. Exacerbava-se à noite quando, em seguida ao jantar, ele partia a divertir-se um bocadinho. Arrancando os cabelos, aos gritos, Adma clamava aos céus: juntava gente na rua para ouvi-la. Esperava-o com quatro pedras na mão, alta madrugada. Aí então...

— Bem sei, meu Ibrahim, fui testemunha, jamais esquecerei.


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