A Descoberta da América pelos Turcos

 

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O caso sucedeu quando Ibrahim Jafet vira as coisas malparadas. Perspectivas sombrias no balanço da loja: com o genro Alfeu no balcão e no caixa, sopravam ventos de falência. Negras previsões no quotidiano do lar: Adma, condenada ao barricão, assumira o comando da casa e dos parentes com religião e azedume; acumulavam-se nuvens de tempestade ameaçando hábitos contraídos, deleitáveis. Corriam perigo iminente a situação econômica e o prazer da vida.

O Barateiro, armarinho afreguesado e bem-sortido, com crédito na praça, bastara durante longos anos às necessidades da família e aos modestos aprazimentos do proprietário: a pescaria e os tabuleiros de dama e de gamão. Incontestada cabeça de tribo, em vida, Sálua, a esposa, se ocupara e dera conta do negócio: o balcão de miudezas conheceu dias prósperos e rendeu economias. Bonitona, cheia de corpo, olhos langues, vistosa estampa de folhinha; disciplinadora, mandona, exigente e ao mesmo tempo meiga, gentil e sociável.

Perita na marcação dos preços e na prática da pechincha, trapaceava no manejo do metro e da tesoura, rindo e fuxicando com a freguesia, composta quase inteiramente por mulheres. Benquista, respeitada, mão econômica no afago, pesada no castigo, Sálua conduzira com competência o armarinho, as filhas e o marido.

O intelectual Raduan Murad, persona grata, amigo da família, parceiro de Ibrahim na dama e no gamão, proclamava-a matriarca. Nem por severa e moralista, menos capaz de amor no trato com as filhas e de incontinência quando no leito com o esposo idolatrado a quem tudo consentia — consentia ou comandava? Matava-se no trabalho para que ele pudesse gozar a manhã de pescaria, a tarde de sesta e jogatina, contentando-se em tê-lo à noite: todas as noites, a partir das nove, hora de apagar o candeeiro e acender os imensos olhos de sultana para as infatigáveis núpcias na escuridão do quarto.

Assim são as matriarcas: impositivas e exigentes com a plebe, liberais e magnânimas com os favoritos, explicava Raduan Murad aos admiradores reunidos para ouvi-lo na mesa de pôquer, no botequim, no cabaré, nas pensões de mulheres, locais onde esbanjava sapiência e bufonaria. Citava o exemplo de Ibrahim Jafet: favorito único e exclusivo, um lordaço!


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