A OPINIÃO QUE FAZ A DIFERENÇA
   

São Paulo, segunda-feira, 30 de março de 2009

Visão Crítica


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Mundo cão

À minha frente, na farmácia, a senhora puxava a coisa mais engenhosa que vi até agora em Copacabana: uma dessas cadeiras de automóvel para criança, sobre duas rodas, puxada como mala de rodinha que o pessoal de bordo popularizou nos aeroportos da vida e que hoje todo viajante tem. Na cadeirinha, sobre um pano branco com pequenas estampas de motivos caninos, seu cachorro, placidamente acomodado e observando os produtos expostos à altura do olhar desinteressado. Não era um vira-lata qualquer, via-se pela distinção, e tinha o ar nobre de galgo espanhol, comprido e magro, pêlo marrom claro muito curto, a boca fechada, sem baba. Parecia mais composto do que a dona com cara de maus bofes.

Não era o único cão na farmácia: um senhor no caixa carregava o seu no braço, um exemplar dessas raças tão comuns que só quem conhece bem sabe distinguir. Embora também devesse ter o seu pedigree, era um tipo vulgar de cara amassada, olhos por trás de uma franja rala e irregular e a língua pendente lambendo a tarde. Antipatizo com qualquer animal de língua para fora, parece desaforo, falta de educação, até debilidade mental. Daí a não gostar de cachorros é um pulo, porque a maioria é assim. Lá em Vila Isabel, onde estava até alugar o apartamento na Prado Júnior, não via muitos deles, se escondiam atrás das grades e dos muros e latiam, raivosos, quando passava na calçada. Até vi um aviso interessante num portão: “Cuidado! Cão anti-social”.

Já aqui são todos de uma sociabilidade à flor do pêlo. Tanto que começo a rever minha antipatia, vendo-os pelas ruas presos à coleira, vários calçados com sapatos de pano, alguns em arremedos de roupas – e estes, em particular, se parecem mais ainda com seus donos do que os outros. Todo mundo conhece a teoria segundo a qual o tempo de convívio torna os cães cada vez mais parecidos com seus donos, não é mesmo? Mas eu vou além: não acho nada difícil encontrar num canil um cachorro com a cara do Heráclito Fortes, por exemplo. Ou do Ricardo Boechat. Da Juliana Paes. Da Renata Sorrah, incluindo o cabelo. Do Sérgio Cabral (pai e filho). Ou com a minha ou a sua cara.

O que ainda não vi é um cachorro com a cara de qualquer dos mendigos, ou moradores de rua, ou  meninos e meninas que perambulam por Copacabana, um contingente respeitável mas que, paradoxalmente, não merece o respeito de quem cruza seu caminho todos os dias e noites. Enquanto andava da farmácia para casa cantarolei baixinho, lembrando o Dussek, que também mora por aqui:

“Troque seu cachorro por uma criança pobre

Sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre

Deixe na história de sua vida uma notícia nobre.

Seja mais humano, seja menos canino

Dê güarita pro cachorro, mas também dê pro menino

Se não um dia desse você vai amanhecer latindo, uau, uau, uau”.

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Luiz Augusto Gollo é jornalista e escritor, escreve nesta coluna aos sábados e mantém o Blog Visão Crítica
    



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