A OPINIÃO QUE FAZ A DIFERENÇA
   

São Paulo, segunda-feira, 23 de março de 2009

Visão Crítica


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A barata no bico da galinha

“Estou me sentindo que nem barata em bico de galinha”. A frase, verdadeira confissão de desconforto, foi dita pelo presidente do Senado, José Sarney, o inefável, inexprimível e inexpressável representante do Amapá, autor do deslocamento de funcionários da segurança para São Luís, a pretexto de protegê-lo da sanha assassina de algum leitor inconformado com sua prosa literária. A imagem da barata no bico da penosa provoca a imaginação: baratão enorme, de antenas compridas e irrequietas, de asas marrons lustrosas, de patas como serras, de cabeça pequena e calva...e de bigodes abundantes. Sim, um baratão bigodudo, diferente das outras de sua espécie, mirradas, maranhenses, quase formigas em sua pequenez.

Sentir-se desconfortável não deve ser novidade para Sarney, se até mesmo seu nome é uma invenção das baratinhas já mortas e sepultadas, contemporâneas de seu avô empregado dos ingleses da ferrovia que rasgava as terras do estado, jocosamente apelidado “Sir Ney”. O baratão bigodudo se chama, de fato, José de Ribamar como os incontáveis xarás perdidos e esquecidos por todo o Norte e Nordeste. Sarney deve ter se sentido barata em bico de galinha em 1985, quando a morte de Tancredo Neves o projetou ao Palácio do Planalto e ele teve de reorganizar o ministério das costuras políticas em torno do escolhido pelo colégio eleitoral. Em outras ocasiões, “talqualmente”, deve ter se sentido “espremido pelas circunstâncias”, mas sempre se houve a contento, tanto que aí está, lépido e fagueiro aos 78 anos de idade, reduzindo o número de diretores do Senado, e aí está outra razão para se sentir barata em bico de galinha.

Como sabe qualquer detentor de gratificação no serviço público, é duro mexer no salário dos companheiros, mesmo quando não são propriamente colegas, mas subalternos. Parlamentares em geral têm certo pudor em retirar o extra dos vencimentos de alguém, mas os senadores levam tão a sério este pudor que fazem questão de não ver o que acontece ao redor. A prova é o espanto geral com algumas diretorias criadas com o fim exclusivo de engordar o salário dos diretores. E os senadores não sabiam de nada, nem desconfiavam. Paga-se hora extra em tempo de recesso e ninguém tinha conhecimento, não se fiscaliza, como de resto não se fiscaliza nada que não saia na mídia por causa de disputas internas pelo poder na burocracia no Senado.

Sentir-se como barata em bico de galinha é imagem forte, eloquente, quem sabe definitiva. Até onde posso imaginar, a sorte da barata está selada, é o fim. A não ser que a galinha seja de histórias infantis, bonachona e conversadeira. Não me consta que haja desta espécie em Pinheiro, onde Sarney nasceu, ou em qualquer parte do Maranhão. Lá, galinha é ave ciscante, de bico duro e nenhuma prosa, e quando agarra uma barata é à vera e não à brinca. Assim, o senador talvez esteja sinalizando uma saída estratégica, uma viagem à França, quando muito não seja porque não tem idade nem necessidade de pagar esses micos infamantes. Depois da onda, a galinha longe, o baratão volta para terminar o mandato que tanto ardil lhe custou.

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Luiz Augusto Gollo é jornalista e escritor, escreve nesta coluna aos sábados e mantém o Blog Visão Crítica
    



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