São Paulo, segunda-feira, 06 de abril de 2009
Visão Crítica
Anterior
Próxima
  |
Os Quadros
A Polícia Federal vai
investigar a existência de uma conta de Jânio Quadros na Suíça, segundo as
folhas do dia. A rigor, não há nenhuma novidade na matéria, todos nos lembramos
de quando Dirce Tutu Quadros, filha do ex-presidente, entrou numa disputa tipo
lavagem de roupa suja nas ruas para sacar a grana depositada na tal conta
numerada.
Jânio estava mal de saúde, mas reuniu as forças que restavam e fez internar a
filhota rebelde numa clínica para doentes mentais – o que não surpreendeu
ninguém, porque na família acho que só a Eloá podia passar por normal. O marido,
que nunca tive a honra de ver pessoalmente, era um descabelado magro com um olho
de vidro e óculos e que falava sempre num tom gutural cavernoso, gesticulava
demais, fazia caras e bocas e com certeza foi o maior histrião da vida pública
nacional.
Tutu, a Dirce, conheci em Brasília quando foi deputada constituinte, eleita pelo
PSC, com rápida passagem pelo PTB e finalmente fundadora do PSDB, em 88.
Guardava estranha semelhança com o pai, era magra e feia, cabelos negros
escorridos, dedos longos e nervosos, olhar meio esgazeado, mas sem o olho de
vidro que emprestava a Jânio certo ar de boneco de ventríloquo. Ela fumava muito
e usava uma longa piteira, com certeza lembrança da família Adams.
Politicamente, votava com os progressistas e foi contra os cinco anos de mandato
para José Sarney.
Não sei a origem do “Tutu”, imagino ser tratamento carinhoso, apelido familiar
que ganhou as ruas e a vida pública, incorporando-se ao nome, como o Lula do
Luís Inácio. Nós nos referíamos a ela sempre como Dirce Tutu Quadros, porque a
identidade estava no sobrenome e, ademais, ela tinha cara de Dirce – não a ninfa
da mitologia grega transformada em fonte de água, a filha de Eloá poderia,
quando muito e com a preciosa ajuda da imaginação, virar um enorme cinzeiro
fumegante.
Dirce chegou a lançar pela editora Paz e Terra o livro de culinária com o
sugestivo título de “Delícias de Tutu”, prefácio de Millôr Fernandes, que não
foi nenhum campeão de venda, mas projetou sua imagem além dos limites estreitos
do Congresso Nacional. Dirce Tutu Quadros enfrentou questionamentos jurídicos na
vida pública porque tera casada com um americano e adotou a cidadania do marido,
o que a tornaria inelegível no Brasil. De fato, ela viveu muitos anos nos
Estados Unidos, onde teve um filho que chegou a andar por aqui, apresentado como
John, um jovem mancebo com uma cara de bobo alegre e uns “ademanes” (como dizia
Jânio) muito duvidosos.
Quando Dirce brigou com o pai pelo dinheiro depositado na Suíça e foi internada
à força, ficou evidente para todos que acompanharam o noticiário que o homem da
vassoura, que varreria a corrupção do Brasil, tinha feito um pé-de-meia legal
desviando dinheiro público. É essa grana que a Polícia Federal fareja e que a
família Quadros diz não existir. Assim como a família Maluf nega os milhões de
dólares nos paraísos fiscais.
[email protected]
_________________________________________________
Luiz Augusto Gollo é jornalista e
escritor, escreve nesta coluna aos sábados
e mantém o
Blog Visão Crítica
|
MURAL DE
RECADOS DO MPR
|