São Paulo, segunda-feira, 18 de maio de 2009
Salvador
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Surf na lama e Frankstein
Mesmo
que seja uma vez na vida, ao fim de uma semana, muitos telespectadores devem
eleger para si algumas entre as cenas televisivas mais marcantes, para o bem e
para o mal, veiculadas entre um domingo e outro. Para quem vive em Salvador,
embora elas não contenham essencialmente nada de novo, dificilmente algo deve se
sobrepor às imagens apocalípticas da tempestade que caiu sobre a cidade na
terça-feira. Mais do que as chuvas torrenciais em si e as cenas diluvianas de
córregos e valas transbordantes e engolindo pedestres e carros, morros desabando
e levando junto as poucas coisas de quem já não tem nada, chocavam as cenas e os
relatos satélites, ou seja, não aqueles produzidos diretamente pelas chuvas, mas
pelos atores sociais, diga-se assim, que formam essa massa indefinida que na
falta de coisa melhor chama-se sociedade.
Entre as tais cenas satélites, destacou-se uma imagem inominável registrada pela
TV Record: garotos de bairros periféricos nadando alegremente em vielas e ruas
alagadas. Não se tratava de meninos em fuga com medo da morte ou coisa parecida,
mas de crianças nadando por lazer e diversão, como num banho lúdico de chuva,
com a diferença que a água era formada por muito mais que pingos da chuva.
Continha esgoto, excrementos, ratos, baratas e toda a fauna existente nos
subsolos urbanos. Não apenas nadavam, mas surfavam, com prancha e tudo, às
gargalhadas. Nem disso a escola pública consegue dar conta, ou seja, sequer
consegue contextualizar o ensino, por mais precário que seja, aos fenômenos de
risco inerentes à condição de vida dos alunos que vivem em áreas vulneráveis a
enchentes. Nadar na lama suja por prazer não é ignorância, é primitivismo,
animalização.
KIT
LEPTOSPIROSE
- Durasse mais a tempestade, corria-se o rrisco de, novidadeiro e criativo como o
baiano é, mesmo quando chafurdando em excrementos, esgoto e pobreza extrema, se
ver nos telejornais populares, fazendo par com os concursos toscos das musas dos
times do campeonato baiano de futebol, um campeonato de surf na lama. O prêmio
seria, certamente, um féretro completo ou um kit de tratamento para a
leptospirose, aquela doença de povos desenvolvidos, adquirida através do contato
com xixi de ratos. Diluído na água em que se nada, o efeito é pleno.
Tão chocantes e grotescas quanto imagens de crianças nadando literalmente na
merda, foram as cenas, recorrentes nesse tipo de cobertura, de populares se
exibindo para as câmeras em poses macaqueadas, fazendo gracinha, sorrindo,
acenando, enquanto se filmavam desabamentos e tentativas de resgate das vítimas
soterradas. Falar com a TV é como dar boa noite a William Bonner e Fátima
Bernardes, mas que dá alguma vontade de perguntar para os próprios botões algo
como ‘estão rindo do quê, caras pálidas?’, ah dá. Como se isso não bastasse, os
relatos de pessoas que ficaram horas intermináveis ilhados dentro dos carros nas
ruas e avenidas alagadas enquanto eram vítimas de arrastões que levavam bolsas,
relógios e celulares, fechavam com lacre de lama a tese de que o inferno é no
Brasil. É violência suplantando violência.
BOYLE DA VEZ
- Diante de um passado recentíssimo, em quue Salvador foi sacudida por campanhas
ostensivas encampadas por redes de TV, supermercados, ONGs e biroscas para
socorrer as vítimas das enchentes de Santa Catarina, estranha-se que nada
semelhante tenha sido feito para dar uma roupa ou uma cesta de alimentos a quem
agora está tão perto. E por falar em Santa Catarina, os baianos que fazem o tipo
solidários à distância viram que cinco contêineres de roupas enviadas para as
vítimas das chuvas foram filmados, pela Record, sendo jogados em um lixão?
Sabe como é o Brasil: rolou uma preguiça, uma incompetência para arrumar as
roupas direito, estas ficaram úmidas, com ácaros, fungos, bolores e, para evitar
risco de doenças, melhor jogar num aterro sanitário. A solidariedade foi parar
no lixão.
Enquanto os mais sensíveis se comoviam com tanta ribanceira desabada em todo o
nordeste, restos humanos resgatados de escombros e corpos encontrados em rios
poluídos a quilômetros de onde sumiram, a TV, dadivosa como sempre, mostrou ao
mundo o que os sensatos já sabem: a vida não é justa. Susan Boyle, a cantora
irlandesa matrona que viveu cinco décadas para fazer a feiúra entrar na pauta
dos meios de comunicação, mal teve tempo de experimentar a condição de feia
famosa com exclusividade. Agora tem que dividir os holofotes com
Connie Culp, uma americana
que era bonita até levar, em 2004, um tiro do marido no rosto, que lhe
desfigurou completamente. Os ossos da face foram destruídos, a musculatura
desapareceu. Os médicos a submeteram a um transplante de rosto e, 30 cirurgias
depois, sem meias palavras, apresentaram ao mundo um frankstein em carne e osso.
Ela pediu que não se fixassem em seu rosto, mas na conquista médico-científica
que o feito representa. A família do doador disse estar felicíssima. Os
telespectadores, politicamente corretos, engoliram seco e pouco disseram. Agora,
Boyle é Barbie.
[email protected]
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Malu Fontes
é
jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, professora da
Facom-UFBA
e colunista do Jornal A Tarde, de Salvador, na Bahia.
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MURAL DE
RECADOS DO MPR
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