A OPINIÃO QUE FAZ A DIFERENÇA
   

São Paulo, segunda-feira, 04 de maio de 2009

Salvador


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Vergonha dos outros

Um barraco dos bravos no Supremo Tribunal Federal, o presidente paraguaio revelando-se um emprenhador contumaz de meninas de 16 anos a empregadas domésticas quando bispo católico, deportações de brasileiros todos os dias de aeroportos europeus, muros segregacionistas nas favelas cariocas, deputados de todos os perfis cruzando os céus do mundo com seus amigos, mulheres e rebentos com o dinheiro do contribuinte (e chamando, com ironia, os menos desonestos de ‘grupo dos éticos’) e um cigano baiano de 21 anos metralhando gente com arma privativa das Forças Armadas. Disso e muito mais foi feita a semana na TV: chuvas matando gente na esquina e Brasil afora, pai suicida matando filho de quatro anos com disparo na cabeça e Scheilla Carvalho, a moça diante da qual a Playboy deu umas barbeiragens no fotoshop em áreas justo onde não devia, mostrando no CQC Teste (Band) que, nesse país transbordante de caras de pau, quem tem bundão não precisará jamais de cérebro.

Sob as chuvas em Salvador, uma notícia dessas inacreditáveis, com direito a imagem na TV. Um galho de árvore caiu sobre uma idosa de 90 anos, em frente ao Hospital das Clínicas da UFBA, no meio da manhã, machucando-a gravemente. O socorro demorou mais de meia hora: o HC não atende emergência. Quanto ao galho, a Universidade anunciou a adoção de medidas imediatas. Entre a vida e o galho, quem há de negar que o segundo é prioritário em relação à primeira?

POSSESSÃO - Tudo se mistura no imaginário do telesppectador, que mal consegue definir o que é real e o que é ficção, de tão grotescas que são imagens e notícias. É ficção, realidade, possessão demoníaca ou um pesadelo vulgar ligar a TV e dar de cara com a imagem assombrosa de Ana Maria Braga, com look de travesti decadente das madrugadas das bocas do lixo, se anunciando linda e loura para o papagaio de espuma como cover de Madona? Obra do maquiador Fernando Torquato, genro de Gilberto Gil e Flora, mago do make up para uns e gozador para outros. Só a gozação, ou a perversão, explica alguém conseguir piorar tanto a caricatura nata que já é Ana Maria Braga caracterizando-a de Madona?

Diante de tanta vulgaridade que a sociedade brasileira ostenta, é cada vez maior o número de pessoas que experimentam a sensação estranha chamada de vergonha alheia ou vergonha dos outros. É aquele tipo de constrangimento que se sente quando outra pessoa ultrapassa, sozinha, por culpa e gosto, ou é submetida por outro a ultrapassar, diante de nós, mesmo que seja na tela da TV, os limites do ridículo e do constrangedor.

PERUCA -
Como não fechar os olhos e quase dizer um ‘ai’ para si mesmo ao ver na tela aquela criança que tem um adulto perverso aprisionado dentro e que atende pelo nome de Maísa puxando a peruca de Sílvio Santos e gritando, ‘é peruca, é peruca’? O que sentir diante da imagem do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, quando Joaquim Barbosa grita que ele não está falando com ‘seus capangas do Mato Grosso’? Na bacia das vulgaridades que causam constrangimento, Adriane Galisteu refestelou-se ao aparecer em um estúdio neon que misturava tons de rosa-sulamiranda com preto grafite, com um penacho na cabeça e uma big luva em uma mão, numa mistura de Hebe teen com uma Barbarela brega. Assim a viúva oficiosa da Fórmula 1 no Brasil apareceu na estréia de um dos piores programas já vistos na TV, o Toda Sexta, na Band. Um pesadelo estético, com direito a mãe na platéia, um bando de go go boys seminus se dizendo mecânicos e coisas muito piores.

No interior de São Paulo, a Record mostra a essência dos valores dos novos ricos brasileiros. Em um condomínio de luxo, morreram afogados em uma fossa, sabe-se bem recheada de quê, dois bombeiros e um pedreiro. O oásis de luxo não tem sistema de saneamento e esgoto, claro. Para quê gastar dinheiro com o que ninguém vê e não se pode ostentar? Em uma das mansões as duas fossas existentes, uma ao lado da outra, já estavam cheias. Chamaram um pedreiro para cavar uma terceira entre as duas. Na escavação, uma delas arrebenta-se, soterrando-o com terra e metros cúbicos de detritos. Os bombeiros vão resgatá-lo e acabam também soterrados. Uma metáfora das boas, ilustrando o quanto os milionetes não dão a mínima para as consequências dos seus excrementos.

DO CÉU - Como não sentir vergonha alheia em ver tantos brasileiros felizes com os eventos comemorativos do Ano França-Brasil, quando a TV anuncia que a França é justamente um dos países que mais deportam brasileiros de seus aeroportos, numa média de mais de 300 por ano, quase uma pessoa deportada por dia? A burguesia sem fossas estremece e esperneia, mas é incapaz de se dar conta que sem suas esquinas a deportação interna é mais explícita: o governo do Rio de Janeiro está construindo muralhas de cimento para cercar as favelas da cidade, separando-as dos bairros nobres. E a Bahia, dada a pioneirismos, há muito inaugurou muros desses, presente do governo de César Borges. Há um deles vizinho ao aeroporto, visível até do céu. Com 23 viagens ao exterior pagas pelo contribuinte, além das de rotina, o deputado Mário Negromonte deve estar cansado de vê-lo.

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Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, professora da Facom-UFBA e colunista do Jornal A Tarde, de Salvador, na Bahia.
    



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