A OPINIÃO QUE FAZ A DIFERENÇA
   

São Paulo, segunda-feira, 27 de abril de 2009

Salvador


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Vida, morte e brotoejas

A semana foi pródiga na espetacularização do corpo humano nas emissoras de TV abertas, embora desta vez o enfoque tenha sido o caráter biológico relacionado à doença, à saúde e a funcionalidade e utilidade dos órgãos após a morte. No Fantástico, volta à cena o médico mais midiático do Brasil, Dráuzio Varela, que corre o risco de entrar para o anedotário nacional logo logo como o Dr. Fantástico. Depois de falar de gravidez, obesidade infantil, sexo, adolescência e velhice, agora é a vez do mais desafiador dos seus propósitos no programa. Interferir positivamente no cenário da doação de órgãos no Brasil e contribuir para melhorar a estatística dos transplantes em todo o país. O quadro de estréia deve ter feito os telespectadores dados a muita frescura se retorcerem desconfortáveis no sofá da sala de TV.

Pessoas literalmente à beira da morte, em função do mau funcionamento de algum órgão do corpo, apareceram sôfregos, trôpegos, lentos, mal respirando e articulando apelos pelas suas causas. Todos muito debilitados, seja por dores lancinantes,  por um pulmão que já não tem eficácia, por um rim inerte, por um coração doente. Do outro lado do cenário, pessoas semimortas, em UTIS de grandes hospitais, onde o maior problema sequer é conseguir das famílias a autorização para a retirada dos órgãos e seu encaminhamento para salvar vidas. O maior nó, segundo Varela, está na ainda incapacidade de boa parte das equipes médicas de diagnosticar a morte cerebral a tempo de possibilitar o aproveitamento dos órgãos.

BATE CORAÇÃO - Dois dias depois, estréia na Band o documentário-realidade E24 (relacionando-se a Emergência 24h), cuja essência é mostrar a rotina, sem retoques, do dia-a-dia das emergências de hospitais e dos resgates feitos pelo Corpo de Bombeiros de São Paulo. Numa linguagem de documentário e com imagens que falam por si, vê-se de tudo: corpos abertos cercados por cirurgiões em ação, a câmera exibindo em close o coração batendo no peito cortado de cima a baixo. Nesse instante, um médico viaja: estamos vendo a ‘a sede da alma’. O que os dois programas têm em comum é a semelhança com os congêneres estrangeiros exibidos na TV fechada e o deslocamento do corpo, do lugar comum de objeto, de templo de beleza, elemento máximo de suporte para o motor do consumo, do sexo, da indústria da boa forma, do mercado da estética e também do lugar de objeto da violência contemporânea, como se dá nos programas do campo popularesco, aliás, por aqui cada vez mais com as mãos na cabeça por conta das ações mais firmes do Ministério Público.

O enquadramento do corpo nas cenas estreadas na última semana, na Globo e Band, é o corpo biológico esquadrinhado pelas tecnologias do mundo da medicina em seu enfrentamento contra a morte. O corpo confrontado com os limites ainda desafiadores impostos pela biologia, por maiores que tenham sido os avanços nas últimas décadas no adiamento da morte em ambiente hospitalar. Por aqui, na TV local, outras coisas do corpo, dessa vez os excrementos, também foram notícias. Agora é científico, técnico e prático: a mais cultuada prova feiosa de masculinidade em Salvador, o ato de mijar na rua, em qualquer lugar, está nada menos do que corroendo a estrutura da base de passarelas e viadutos. Coisa mais mimosa que essa notícia só mesmo a marca do colonialismo do leitor e telespectador nativos: a TV Bahia fez matéria sobre o assunto lá no início da semana, mas os baianos só tomaram conhecimento do fato quando a informação foi chupada e republicizada por veículos on line do Rio e São Paulo. Era um tal de ‘O Globo deu, o UOL deu’. Ora, ninguém vê TV local nessa paróquia?

REALITY SHOW DE BERÇO - Mas, como a mesma letra que elogia e deefende é a mesma que apontar a tacanhice, perguntar não ofende: de quem raios é, foi, a idéia de registrar em forma de um reality show de berço e fraldário o primeiro ano (incluindo pré-natal, parto, queda de umbigo, mamadas, brotoejas e detalhes da limpeza dos sólidos e líquidos excretados) de Clarice, a primeira neta de Daniela Mercury?

Depois de agüentar uma semana inteira as bancadeiras dos telejornais locais dando inacreditáveis e tediosas receitas de peixe para o cardápio da Semana Santa e do estupro auditivo e visual que é ver o Padre Marcelo Rossi, aliás, com um jeitão de corpo e cara cada vez mais esquisito, dando nada menos que a receita do prato que Cristo comeu na Santa Ceia, eis que o pobre do telespectador é tratado como descerebrado pelo programa Bahia Revista (TV Bahia), aquele programa cuja marca registrada é o guarda-roupa assombroso dos apresentadores. As cenas do último domingo foram de uma utilidade pública sem par: como fazer lencinhos umedecidos caseiros para limpar o bumbum de Clarice, usando um vasilhame desses de fazer lasanha, umas colherinhas de óleo desses de bebê, água fervente e placas de algodão. E depois reclamam que a TV não informa.
Aos vespertinos mundo-cão, uma sugestão: que tal acompanhar, dia a dia, mês a mês, a vida daquele bebê que há duas semanas nasceu no meio da calçada, em Salvador, no bairro de Ondina?

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Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, professora da Facom-UFBA e colunista do Jornal A Tarde, de Salvador, na Bahia.
    



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