A OPINIÃO QUE FAZ A DIFERENÇA
   

São Paulo, segunda-feira, 25 de maio de 2009

Salvador


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A natureza, o urinol e a perereca

Em nome da preservação do meio ambiente e da salvação do planeta, diariamente se vê as mais estranhas propostas sendo formuladas e disseminadas em todo o mundo. Uma matéria exibida esta semana no Jornal Nacional chamou atenção pela proposta inusitada que fazia ao telespectador: desapegar-se do hábito de fazer xixi no clássico vaso sanitário, um monstro devorador de dezenas de litros de água a cada esvaziamento de bexiga. A novíssima cartilha dos politicamente corretos ensina que um hábito recomendável a ser adotado pelas famílias para economizar água é fazer xixi no box do banheiro, durante o banho. A proposta não explicou como é que se faz para estabelecer uma equivalência improvável, aquela existente entre as vezes que uma pessoa urina por dia e a quantidade de banhos que toma. Mas cada um que desenvolva a sua receita.

Incongruências à parte entre um ato e outro, urinar e tomar banho, o fato é que, quando quer provar uma coisa, o que um produtor de TV não é capaz de fazer e encontrar? Eis que aparece na tal matéria uma mãe zelosa com jeito de classe média enquadrada na nova ordem ecológica do mundo e cujos filhos, ainda bem pequenos, aparecem encenando, fingindo que estão com vontade de urinar, ambos ao mesmo tempo, claro, para a economia ser maior. Automaticamente, diante das câmeras, claro, são empurrados para o chuveiro.

PENICO - Mas, se o sujeito faz xixi no box do banheiro, sem tomar banho, não muda de estatuto, passando da condição de protetor da natureza e economizador de água para a condição de porco? E se o faz embaixo do chuveiro, durante o banho, não migra do mesmo jeito de condição, deixando de economizar a água da descarga para gastá-la no chuveiro, com o ônus de ainda consumir energia, já que a maioria dos remediados toma banho morno? Além disso, há a possibilidade concreta dos efeitos colaterais odoríficos. Se uma família inteira adota esse hábito, em poucos dias o ar do Box estará irrespirável e haja produtos químicos desodorizantes e germicidas para dar conta do recado, tudo altamente agressivo à natureza.

Coitado do telespectador. Já não sabe em quem votar, que companhia de telefonia deve escolher, já que todas trazem junto uma viagem ao inferno do telemarketing ineficaz, por qual plano de saúde deve optar, já que cada um é mais perverso, em quem acreditar e agora perde até mesmo a segurança e o conforto de saber qual o lugar mais adequado para fazer xixi. Um piscar de olhos e matérias de TV estarão propondo o resgate do penico, conhecido por nossos avós como urinol, em nome da economia de água. O culto à natureza foi ilustrado com primor por uma fábula real narrada na TV há poucos dias pelo presidente Lula. Era uma vez uma obra recente, a construção de uma ferrovia. No meio dos trabalhos aparece uma perereca. Parou-se tudo e enquanto todas as ONGs ecológicas não chegaram à conclusão que aquele tipo de perereca não estava em extinção, a obra manteve-se embargada. Isso durou seis meses. Como havia muitas pererecas iguais nas imediações, a ferrovia pôde ter continuidade.

NATUREZA BRUTA - Seguindo a cartilha ecológica, mesmo porque o perfilamento a causas nobres é hoje um dos mais poderosos ‘agregadores’ de valor à imagem das instituições, emissoras de TV incluídas, os programas jornalísticos televisivos tornam-se cada vez mais didáticos. A natureza agradece. Algumas vezes, os mosquitos também. O Fantástico, em mais um reality show no estilo pocket e formado por anônimos, está nas últimas e próximas semanas às voltas com mais uma família quase pobrinha com a difícil missão de educá-la para fazer tudo do jeito certo. O público já aprendeu com as lições dadas à família que é visto com maus olhos quem joga fora cascas de frutas, ao invés de separá-las para reciclá-las e transformá-las em adubo orgânico. Em uma cidade quente e úmida como Salvador, o pensamento remete imediatamente ao cheiro de azedo na cozinha ou área de serviço e aos mosquitos servindo-se do banquete. O telespectador também enlouquece com as lições televisivas de reciclagem. Basta pensar o que significa morar em um imóvel em cuja cozinha mal cabe uma bancada removível que atende pelo nome de mesa para imaginar o quão fácil é ter por perto cinco ou seis recipientes diferentes para cada tipo de lixo.

A TV baiana, criativa e vanguardista que só ela, começou a semana com uma contribuição e tanto em torno da integração plena entre o homem e a natureza. Na edição de terça-feira, o programa Que Venha o Povo (TV Aratu) exibiu uma cena inaugural na telinha: um homem mantendo relações sexuais com uma jumenta, chamada, na cena, de jega, por se tratar, claro, de uma palavra mais crua, rústica como a natureza é. A presença da atração no programa foi aparentemente justificada como uma mera cena de curiosidade, com direito a sonoplastia de relinchos, traduzindo o entusiasmo do casal improvável. Se Uziel Bueno (Na Mira/Aratu) diz todos os dias que o sistema é bruto, Casemiro Neto mostra que a natureza também o é.


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Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, professora da Facom-UFBA e colunista do Jornal A Tarde, de Salvador, na Bahia.
    



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