São Paulo, segunda-feira, 18 de maio de 2009
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CUIDADO, EXCELÊNCIA, PORQUE PODEMOS COMEÇAR A NOS LIXAR...
É assustador ver o que o voto impensado
criou: criminosos e aproveitadores de todos os credos, profissões e raças que
agora debocham de nós, certos de seu poder infinito. Votamos no policial, no
professor, no médico, no pipoqueiro, no sindicalista, no artista, que faziam tão
bem seu trabalho e mereciam chegar lá, para lutar por nós. Votamos no filho, na
esposa, no primo dos amigos que nos pediam. Votamos no mais bonitinho, no que o
pastor indicou, no que sempre foi honesto. Deveríamos ter pedido a ficha
corrida, o nada consta, o psicotécnico. Agora estão eles lá, na Ilha da Fantasia
do poder, não legislam, não pensam em trabalhar, só ficam se acusando, se
defendendo, se arrumando, criando seus herdeiros para perpetuarem a
pouca-vergonha. Quanto a nós, aqui fora, no Brasil de verdade, pagamos as contas
e nos preparamos para, no ano que vem, votarmos de novo.
Estou começando a ouvir vozes ordenando o meu silêncio total. Elas avisam que a
minha opinião não vale nada. Não mando nada, sou um zero à esquerda. Sou um
nada. Eu penso, estudo, trabalho, voto, pago impostos, mas não tenho opinião.
Estou apavorado com a descoberta da minha total inutilidade. O deputado Sérgio
Moraes diz que está se lixando com a minha opinião, o presidente do Supremo,
Gilmar Mendes, me chama de “sujeito da esquina”. Quem sou eu, afinal? Eu só
existo como coisa pública para pagar impostos? Ao contrário do filósofo
Sócrates, descobri que “penso, mas não existo”.
O deputado menospreza a imprensa como se ela fosse a culpada pelas mazelas que o
país atravessa. Ao contrário, ela expõe as entranhas malcheirosas do organismo
dos que mandam e desmandam. O certo é que os representantes nos legislativos
expressam a nossa cara. Nós votamos, eles se locupletam. Eles estão ali
expressando o que há de mais podre e vil na moral do homem: a desonestidade e a
mentira. “Mentira de tudo, em tudo e por tudo”, como disse Rui Barbosa. E, com
ela, a mentira, reina, absoluta, a impunidade.
Entretanto, se eu entendi bem, há uma luz no fim do túnel. Há poucos dias, o
presidente da República fez dura crítica à denúncia sobre o (mau) uso das
passagens aéreas pelos congressistas, chamando-a de hipocrisia: “Sempre foi
assim...”, disse ele. Este deputado, agora, afirma que não se importa com a
opinião pública. Posso concluir que essas ousadas posturas sinalizam o fim da
hipocrisia? Indigna-nos o deboche do deputado, mas, ora, que caiam todas as
máscaras! Assim, os eleitores terão alguma transparência para o exercício
democrático do voto.
Estamos diante de um cretinismo que agride a todos os brasileiros, que, para
essa figura de folhetim da Câmara, não passam de uma massa de otários e idiotas,
que sempre manterão seus mandatos. Realmente, aos olhos do mundo, somos uma
nação de desonestos, e só uma revolta popular pode afastar esses calhordas do
poder. Quanto à imprensa, Sr. Presidente, ela está desvendando os caminhos
sórdidos da politicagem que grassa no país. Que continue assim!
Como eleitor e contribuinte, vejo que os congressistas jogaram a toalha de vez,
e desistiram de fingir que estão do nosso lado. A declaração deste deputado é
emblemática. Cuidado, Excelência! Um dia, a opinião pública passa a “se lixar”
para o Congresso. Daí para seu fechamento é um pulo!
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Valter Bernat é advogado e escreve nesta
coluna às sextas-feiras e mantém o periódico
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