São Paulo, segunda-feira, 25 de maio de 2009
O Boletim
Anterior
Próxima
  |
Governo e transparência igual à água e óleo: não se misturam!
A indignação de Lula com relação à CPI da
Petrobras desperta tanto ou mais desconfianças do que o “embarreiramento” que os
partidos governistas tentaram promover. Desculpe-me, presidente, mas no popular,
irresponsável será V. Exa., caso insista nessa atitude de dizer que
“é a CPI do PSDB”. Pega mal. É muito melhor deixar a CPI rolar para que se
saiba, ao final, quem é o irresponsável. Além do mais, rola tanto dinheiro na
Petrobras que seria pelo menos improvável serem todos “santinhos” na Petrobras,
que seria o avesso do que a História mais recente tem mostrado, pelos tristes
acontecimentos a que temos assistido.
Os antecedentes deste governo e mesmo a História recente do país são claros a
nos indicar: que a oposição, ao pedir a instalação de CPI da Petrobras, já tem
conhecimento prévio de graves irregularidades na empresa; e que o desespero do
governo, tentando impedir a instalação da comissão de inquérito, é clara
indicação de quem tem muito a esconder da sociedade brasileira. Uma CPI como
essa, diversamente do que afirma o presidente Lula, não é contra a empresa, mas
será a favor dela e de seus acionistas se restarem comprovados seu aparelhamento
e práticas corruptas, como tanto se suspeita, e daí decorrerem medidas
saneadoras.
Com uma manobra astuciosa, a oposição aplicou um nocaute na base do governo. Não
se pode negar que funciona uma possante máquina para esbanjar recursos da
Petrobras, num sem-número de duvidosos patrocínios, onde são aplicadas fábulas
de dinheiro, englobando desde equipes de futebol profissional a arraiás de
festas juninas, num país onde existem miséria, fome, analfabetismo, saúde
pública falida e saneamento básico precário, para onde os petrodólares poderiam
ser mais bem aproveitados. O governo fará de tudo para cercear as investigações,
porque em meio ao ouro negro deve existir muita lama, que seria inconveniente
que viesse à tona.
Estranha a frase de Lula quando acusa de “política-eleitoral” a atitude da
oposição no episódio da CPI da Petrobras. Se é ou não, é um direito político
mais normal que a política eleitoreira de um presidente, que distribui esmolas
aos pobres miseráveis e expõe sua candidata oficial ao comparecimento a
palanques numa situação constrangedora que, não sendo segredo, ninguém ignora
que é gravíssima... Que Deus a proteja! E agora ainda vem com expansão do
Bolsa-Família para mais 1,8 milhão de novos beneficiários, dos quais cerca de
600 mil serão moradores de rua, acampados da reforma agrária, indígenas e
habitantes de áreas quilombolas... é brincadeira? Mas isso é assunto para outro
editorial. Voltemos ao nosso foco.
Meu caro presidente
Lula, é sempre prudente que os administradores, especialmente os públicos,
recorram às auditorias para saber como estão indo seus segundos. Ora, se V. Exa
vê na CPI um instrumento político, é fácil pressupor que o senhor já sabe o que
vão encontrar lá. Presidente, ser contra uma auditoria é se tornar cúmplice dos
erros que, porventura, lá forem encontrados. Não incorra em mais esse erro, pois
sua cota já estourou.
Tantas dificuldades surgiram para se criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito
investigando a Petrobras. Alguém ainda tem dúvida do motivo? Apesar de a maioria
das CPIs ter terminado em pizza — e esta já tem todo o aroma de ser mais uma —
ela deve ser instituída, sim. Governo e transparência é uma mistura igual à da
água com o óleo: não se misturam!
[email protected]
_________________________________________________
Valter Bernat é advogado e escreve nesta
coluna às sextas-feiras e mantém o periódico
O Boletim
|
MURAL DE
RECADOS DO MPR
|