São Paulo, segunda-feira, 18 de maio de 2009
Diálogo Econômico
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O rali dos trouxas?
Diante do frenesi que ora turbina as
bolsas, as moedas dos emergentes e as commodities, não faltam prognósticos que
anunciam o fim da crise. Outros falam, de forma desdenhosa e pessimista, do rali
dos trouxas, episódios de euforia que, logo ali, na próxima esquina, serão
tragados pelo desempenho da economia real.
A reputação das previsões econômicas e de seus autores mais conhecidos, os
economistas, está nos calcanhares. Mas, a despeito de seus desacertos
recorrentes, as previsões são inevitáveis. Os práticos e
soi-disant
teóricos da ciência triste estão condenados a imaginar o futuro.
Assim, devo arriscar a pele. Prudentemente, começo pelo passado: depois do
colapso financeiro deflagrado pela quebra do Lehman Brothers, os preços dos
ativos privados foram atropelados pelos mercados em pânico, na busca impossível
da desalavancagem coletiva. Vendedores em fúria e compradores em fuga prometiam
uma deflação de ativos digna da Grande Depressão dos anos 30.
Nas crises, ocorre o colapso dos critérios de avaliação da riqueza que vinham
prevalecendo. As expectativas de longo prazo capitulam diante da incerteza e não
é mais possível precificar os ativos. Os métodos habituais que permitem avaliar
a relação risco/rendimento sucumbem diante do medo do futuro. A obscuridade
total paralisa as decisões e nega os novos fluxos de gasto. Em tais
circunstâncias, a tentativa de redução do endividamento e dos gastos de empresas
e famílias em busca da liquidez e do reequilíbrio patrimonial é uma decisão
“racional” do ponto de vista microeconômico, mas danosa para o conjunto da
economia, pois leva necessariamente à ulterior deterioração dos balanços. É o
paradoxo da “desalavancagem”.
A riqueza concentra-se, agora, na posse do dinheiro em si (ou substitutos
próximos, os títulos da dívida pública). Essa corrida privada para as formas
imaginárias, mas socialmente incontornáveis do valor e da riqueza, vai afetar
negativamente a valorização e a reprodução da verdadeira riqueza social, ou
seja, a demanda de ativos reprodutivos e de trabalhadores. Ante a busca coletiva
pela liquidez, os preços inflados dos direitos sobre a riqueza real – ações e
dívidas privadas – despencam e, não raro, arrastam os preços de bens e serviços.
As intervenções do Fed e do Tesouro conseguiram, aos trancos, barrancos e
trombadas legais, estancar a rápida deterioração das expectativas. Contrariando
os augúrios mais pessimistas, a ação das autoridades foi capaz de afetar
positivamente as taxas do interbancário e dos mercados monetários. A reação das
autoridades, no entanto, foi ineficaz para restabelecer a oferta de crédito no
volume desejado e impotente para reanimar o dispêndio das famílias e dos
negócios. Empresas e consumidores trataram de cortar os gastos (e, portanto, a
demanda de crédito) para ajustar o endividamento contraído no passado à renda
que imaginam obter num ambiente de desaceleração da economia e de queda do
emprego.
A economia real nos Estados Unidos e na Europa segue em sua trajetória recessiva.
Como bem observou o economista Willem Buiter, os otimistas vacilam na matemática
ao confundir a primeira derivada – negativa – com a segunda, positiva. Isso
significa que o produto e o emprego seguem em declínio, mas a uma velocidade
menor.
Diz Buiter, em seu habitual estilo de mestre-escola: “A reversão só ocorre
quando a primeira derivada muda de sinal. Na etapa atual do ciclo, estamos todos
esperando uma mudança de sinal da primeira derivada, de negativa para positiva.
Há poucos indícios de que isso tenha ocorrido ou esteja prestes a ocorrer em
nível global, para não falar das perspectivas das economias desenvolvidas”.
Seja como for, as injeções de liquidez e os programas de compra de ativos podres
não fizeram pouco. Além de construir um piso para a deflação de ativos, as
intervenções suscitaram um movimento global “no interior” da circulação
financeira. Trata-se, na verdade, de um rearranjo dentro do estoque de riqueza
que responde aos preços esperados dos ativos por parte dos investidores que
lograram vencer o colapso da liquidez e, depois, capturar os benefícios
oferecidos pelas autoridades. A realocação de carteiras favoreceu as bolsas, as
moedas dos emergentes e as commodities, enquanto o dólar devolve a valorização
observada nos primeiros meses de crise.
Os movimentos observados no interior da circulação financeira, em si mesmos, não
prometem à economia global uma saída rápida da trajetória recessiva, mas indicam
que os mercados começam a se restabelecer da derrocada de 2008.
http://www.cartacapital.com.br/app/index.jsp
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Luiz Gonzaga Belluzzo
é professor titular de Economia da Unicamp. Foi
chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda
(governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo
(governo Quércia).A coluna Diálogo
Econômico é publicada, originalmente, na
revista Carta Capital, pelo Diretor de Redação, Mino Carta.
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