São Paulo, segunda-feira, 30 de março de 2009
Diálogo Econômico
Anterior
Próxima
  |
O mercado sumiu
O novo pacote de socorro do governo
americano aos bancos encalacrados no lixo tóxico foi, em um primeiro momento,
recebido com entusiasmo pelos mercados. Já no dia seguinte havia mais
perplexidade do que entusiasmo entre observadores, analistas e assemelhados.
Martin Wolf, o lúcido conservador do Financial Times, confessou seus
temores e angústias com o andar da carruagem na terra das liberdades. Ele duvida
da eficácia das sucessivas e maciças injeções de grana nas instituições
carregadas de ativos sem possibilidade de transações, seja qual for o preço,
entre os agentes privados. O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, emprestou
glamour à operação de resgate, ao lançar mão da ideia da parceria
público-privada para a aquisição do dejeto abominável. Mas, na dura realidade da
vida financeira de nosso tempo, isso significa simplesmente que o mercado para
as transações com esses papéis desapareceu. É isso mesmo: o mercado não existe,
sumiu.
Wolf compreendeu o enrosco: “O governo fornece virtualmente todo o financiamento
e arca com todo o risco, mas utiliza o setor privado para formar os preços dos
ativos. Em troca, os investidores privados obtêm recompensas – talvez, generosas
– com base no desempenho. Interpreto essa ideia como ‘esquema de alívio a
fundos-abutre’. Mas vai funcionar? Depende do significado de funcionar. Não se
trata de um mecanismo real de mercado, porque o governo subsidia os riscos. Os
preços podem não ser baixos o bastante para atrair os compradores ou altos para
satisfazer os vendedores”.
O Tesouro dos Estados Unidos e o Federal Reserve tentam ressuscitar o cadáver
dos super-SIVs, que, imaginei, teria sido sepultado em 2008. Eles seriam
encarregados de recolher detritos financeiros desvalorizados: um pool de grandes
bancos compraria a gororoba intragável por um preço acima do valor de mercado.
Já naquele tempo, o mercado para a negociação dos ativos desmoralizados havia
desaparecido nas brumas da imprudência.
O economista Nouriel Roubini e o consultor John Mauldin suspeitaram que o
contribuinte americano estivesse diante de mais uma tapeação engendrada pelos
senhores da finança. Perguntam: já engasgados com a gororoba intragável,
estariam os bancos e fundos com apetite para engolir mais do mesmo, pagando
preços acima dos fixados pelo mercado e agravando os problemas de rentabilidade
e liquidez? A resposta só poderia ser uma: na calada da noite, violando as
normas do Fed, as autoridades monetárias tratariam de prover os recursos para
financiar, a custos módicos, os super-SIVs. A ideia foi arquivada. Retornou,
agora sob a direção de Obama e Geithner, com outra denominação e amplos
subsídios dos contribuintes à banca depauperada.
Mas, de lá para cá, a ira dos contribuintes contra os gatos gordos de Wall
Street assumiu as proporções das revoltas ditas populistas do início do século
XX. Wolf está preocupado com a hostilidade explosiva ao setor financeiro. “O
Congresso debate taxar os bônus dos executivos. E o procurador-geral de Nova
York que sejam revelados os nomes. Isso equivale a um convite ao linchamento.”
Na história da sociedade americana, esses frêmitos exaltados duram o tempo
necessário para descarregar o ressentimento dos “bons cidadãos”. Beneficiários
dos confortos individualistas e consumistas nos tempos de vacas gordas, os bons
cidadãos da América jogam o fardo das desgraças sobre os ombros dos que
consideram malfeitores e ladinos. Há fundados receios, entre os sobreviventes do
naufrágio financeiro, que o bote salva-vidas do Estado seja baixado por
políticos populistas para resgatar a turma do “andar de baixo”.
No entanto, os praticantes das formidáveis inovações destrutivas – os gatos
gordos de Wall Street – não teriam prosperado em suas ousadias se, à retaguarda,
não estivessem de prontidão os fanáticos do livre mercado e da concorrência
desaçaimada. O mal, como sempre, é o intervencionismo do Estado, o poder dos
sindicatos, o controle dos mercados financeiros, os obstáculos ao livre
movimento de capitais.
A ira populista é o avesso do fervor livre-mercadista, assim como o moralismo
midiático e internético de nosso tempo é a outra face da amoralidade das formas
de dominação da sociedade de massas contemporânea. Nela, mostrou Hanna Arendt, o
indivíduo desarraigado e sem rumo é manipulado e abusado por slogans
simplificadores. Os dois estados de espírito, a ira e a crença cega, alternam-se
na alma dos bons cidadãos. Tanto um quanto outro impedem a compreensão das
formas econômicas e das relações sociais que levaram a economia e a sociedade à
crise atual.
http://www.cartacapital.com.br/app/index.jsp
_________________________________________________
Luiz Gonzaga Belluzzo
é professor titular de Economia da Unicamp. Foi
chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda
(governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo
(governo Quércia).A coluna Diálogo
Econômico é publicada, originalmente, na
revista Carta Capital, pelo Diretor de Redação, Mino Carta.
|
MURAL DE
RECADOS DO MPR
|