São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Diálogo Econômico
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Trilha inglória
Os mercados receberam os pacotes de Obama
com nariz torcido. Seriam necessárias páginas e mais páginas para discutir as
virtudes e as falhas dos projetos apresentados ao Congresso dos Estados Unidos.
Vou restringir o âmbito deste artigo à questão da limpeza do lixo tóxico e seus
desdobramentos.
A proposta de tratamento às instituições financeiras quebradas retoma a ideia de
se constituir um banco podre ou um fundo público-privado para abrigar a gororoba
contaminada. A opinião especializada é quase unânime em reconhecer que, no
momento de passagem da iliquidez para a insolvência, as dívidas e os ativos dos
bancos são de difícil (se não impossível) precificação. Insistir nessa trilha é
tomar o risco de pagar caro demais pelos detritos financeiros ou declarar um
valor insuficiente para aliviar a carteira das instituições da bagulhada
malcheirosa.
Vamos combinar: o sistema bancário americano está literalmente quebrado. Poucos
se deram conta do óbvio: a espantosa e imprudente alavancagem das instituições
foi alicerçada em grande medida na rápida expansão da dívida intrafinanceira.
Isso se acelerou nas últimas décadas de intensa desregulamentação financeira,
por conta de dois fenômenos correlacionados.
Primeiro, a abolição das barreiras entre os bancos comerciais e os
shadow banks.
Segundo, nessa toada, o avanço do processo de securitização nos mercados
monetários – os
money markets funds
– subtraiu os recursos dos depósitos à vista. Isso ocorreu na mesma proporção
que os bancos-sombra sobrepujaram os comerciais nas operações de crédito. Tal
proeza introduziu um risco adicional não percebido pela regulação anterior:
in
illo tempore, os depósitos à
vista estavam garantidos pelo FDIC.
Nas condições do mercado desregulado e descompartimentado, o
funding
dos
shadow banks era
oferecido pelos atacadistas dos mercados monetários ávidos por commercial
papers. Estes papéis de curto prazo lastreavam carteiras longas carregadas de
CDOs, CMOs e outras
securities,
que representavam pacotes de dívidas hipotecárias, estudantis e derivadas do
financiamento de veículos.
Diante da crise em marcha, ou seja, do anúncio de resultados desastrosos e da
ameaça de falências em massa, o chamado público e as instituições ainda
solventes e líquidas trataram de sair do risco e correr para os títulos do
governo americano.
A esta altura do campeonato, a derrocada no preço das dívidas e dos ativos do
setor financeiro impede, para dizer pouco, a recapitalização das instituições
mediante operações de mercado. Não por acaso, o governo trata de aumentar os
recursos destinados à capitalização. Mas, se a economia entra em forte recessão
e, por isso, o sistema de crédito não roda, apavorado com a possibilidade de um
festival de inadimplências, é certo que o capital dos bancos vai encolher ainda
mais.
Colocar mais dinheiro público nas instituições quebradas e inoperantes se
assemelha aos trabalhos de Sísifo, condenado ao castigo eterno de rolar uma
enorme pedra até o topo da montanha, para logo depois deixar a rocha rolar
ladeira abaixo e recomeçar a tarefa imposta pelos deuses.
Willem Buiter coloca o dedo na ferida em seu blog no
Financial
Times: “Duas coisas são
sistemicamente importantes. A primeira é restaurar a operação dos mercados
financeiros que se tornaram ilíquidos. A segunda é restaurar os empréstimos
bancários para a economia real. Nenhum dos dois objetivos requer o salvamento
dos bancos existentes, para não falar na salvação de seus credores e acionistas.
Pode-se salvar o sistema bancário sem salvar os bancos ou os banqueiros”.
Buiter propõe a criação do
good bank,
uma instituição nova, limpa e administrada pelo Estado. Na contramão dos
beldroegas conservadores, ele sabe que, na economia monetária da produção, a
dominância do sistema de crédito e da moeda fiduciária transforma os bancos em
emissores de meios de pagamento e, ao mesmo tempo, concede uma centralidade
incontornável ao Banco Central. Essa instituição estabelece as mediações entre
os bancos privados e a soberania monetária do Estado.
O Banco Central cuida de regular as delicadas relações entre a moeda e o bem
público, ou seja, referência confiável para as decisões de endividamento das
empresas e famílias (e, portanto, de financiamento por parte dos bancos),
destinadas a prover liquidez à produção, ao consumo e ao investimento – e sua
outra natureza, a de objeto do enriquecimento privado. Na crise atual, as
instituições financeiras cuidam de promover a desalavancagem e, por isso, não
podem cumprir a tarefa de expandir o crédito, ou seja, de alavancar recursos
para a economia real.
http://www.cartacapital.com.br/app/index.jsp
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Luiz Gonzaga Belluzzo
é professor titular de Economia da Unicamp. Foi
chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda
(governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo
(governo Quércia).A coluna Diálogo
Econômico é publicada, originalmente, na
revista Carta Capital, pelo Diretor de Redação, Mino Carta.
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