A OPINIÃO QUE FAZ A DIFERENÇA
   

São Paulo, segunda-feira, 09 de fevereiro de 2009

Diálogo Econômico


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Ainda o Buy American

Marx e Engels defendiam o comércio livre entre as nações. Viam nele o instrumento da mercantilização universal e, portanto, de introdução das relações e das forças produtivas capitalistas nos países atrasados, a força capaz de eliminar os resíduos do Ancien Régime. Marx terminou o seu discurso, pronunciado em 1847 na Associação Democrática de Bruxelas, denunciando o caráter conservador do protecionismo. Proclamou: “O sistema de livre comércio impulsiona a revolução social. É apenas nesse sentido, senhores, que eu voto a favor do livre comércio”.

No fim do século XIX, o apogeu da ordem liberal burguesa, a expansão do comércio e das finanças internacionais estava fundada nas relações simbióticas entre o liberalismo da Inglaterra hegemônica e as políticas protecionistas de industrialização dos retardatários europeus e dos Estados Unidos. Depois da Segunda Guerra Mundial, os americanos abriram o mercado para as exportações dos protecionistas da Europa e da Ásia, a começar pelo Japão em reconstrução, ao mesmo tempo que suas empresas migravam para as regiões de crescimento mais rápido.

No imediato pós-guerra, o projeto americano de construção da ordem econômica internacional foi concebido com o propósito de promover a expansão do comércio entre as nações e colocar seu desenvolvimento a salvo de turbulências financeiras e de crises de balanço de pagamentos. A ideia-força dos reformadores de Bretton Woods sublinhava a necessidade de criação de regras destinadas a garantir a expansão do comércio e o ajustamento dos balanços de pagamentos, mediante o adequado abastecimento de liquidez para a cobertura de déficits, de forma a evitar a propagação das forças deflacionárias e as tentações do protecionismo.

A severa recessão que ora nos atormenta já designou o protecionismo como um risco iminente, entre tantos que se apresentam à consideração das lideranças globais. Barack Obama, ao anunciar o Buy American para os programas de investimento em infraestrutura, promoveu a reestreia do protecionismo, velho protagonista dos episódios de contração aguda do comércio internacional.

O gesto agressivo do governo americano suscitou temores de retaliação. Não faltam ameaças nem providências, mais ou menos ostensivas, na Europa, na China e no Brasil. Mas, sem dúvida, o Buy American é menos inamistoso para o comércio internacional do que a tarifa Smoot-Hawley, baixada em junho 1930 com o propósito de proteger os agricultores e industriais americanos da concorrência estrangeira.

Autores respeitados, como Charles Kindleberger, atribuem a disseminação das forças depressivas que avassalaram o mundo na década dos 30 do século passado à decisão nacionalista da administração americana. O Smoot and Hawley Act, de fato, inaugurou uma sombria temporada de competição protecionista. No movimento de desviar o desemprego para o território do outro, seguiram-se as desvalorizações competitivas. Iniciado com a saída da Inglaterra do padrão-ouro em 1931, o jogo de estrepar o vizinho teve sequência na desvinculação do ouro anunciada por Roosevelt em 1933.

Essas reações provocaram a contração brutal dos fluxos de comércio e suscitaram tensões nos mercados financeiros. Tais forças negativas propagavam-se livremente, sem qualquer capacidade de coordenação por parte dos governos. Na verdade, o que se assistiu foi à disseminação das práticas do beggar-thy-neighbour. Assim, a economia global mergulhou numa espiral deflacionária que atingiu indistintamente os preços dos bens e dos ativos.

Diante da progressão da crise social e do desemprego, frações importantes das burguesias europeia e americana tiveram de rever seu patrocínio incondicional ao ideário do livre comércio e às políticas de austeridade na gestão do orçamento e da moeda. A contração do comércio mundial, provocada pelas desvalorizações competitivas e pelos aumentos de tarifas, deu origem a práticas de comércio bilateral e à adoção de controles cambiais. Na Alemanha nazista, tais métodos de administração cambial incluíam a suspensão dos pagamentos das reparações e dos compromissos em moeda estrangeira, nascidos do ciclo de endividamento que se seguiu à estabilização do marco em 1924.

Na ausência de uma coordenação global, a tentativa (racional) de defender o mercado doméstico dos efeitos da queda do volume de comércio culmina no prejuízo geral e irrestrito. Em sua essência, as reações protecionistas são antes de tudo políticas, no sentido de que respondem às pressões internas nascidas do desemprego e da queda dos rendimentos das famílias.

É fácil pedir grandeza de espírito e generosidade a Obama. Difícil é combinar com os americanos desempregados.

http://www.cartacapital.com.br/app/index.jsp

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Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular de Economia da Unicamp. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).A coluna Diálogo Econômico é publicada, originalmente, na revista Carta Capital, pelo Diretor de Redação, Mino Carta.
    



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