Quebrando as Regras


 

Capítulo 8

 

 

Yusuke estava começando a se sentir frustrado. Tinha voado da sala de aula, com a revista que encontrara no quarto de Hiei escondida por baixo da camisa, a fim de acompanhar o baixinho até um lugar onde pudessem falar em particular e tratar de fazê-lo guardar o segredo de Botan de uma vez por todas. Ele carranqueou ao lembrar-se da maneira rude como a prima o vinha tratando desde o dia anterior, mas logo um sorriso apareceu em seus lábios. Enganar Shuuichi inventando coisas sobre Touya tinha sido divertido. Mais divertido ainda seria ver a expressão de pânico no rosto de Hiei quando revelasse o que tinha descoberto sobre ele.

O único problema era que não conseguia encontrar o colega de classe em nenhum lugar.

Raios! Por que ele tinha que ser tão pequeno? Assim tornava-se fácil desaparecer no meio da correnteza de estudantes saindo da sala e mais simples ainda encontrar um lugar para se esconder.

O garoto cruzou os braços e escorou-se na parede, girando os olhos ao pensar na perda de tempo que tinham sido os últimos minutos. Já estava prestes a se virar e ir embora procurar outra coisa para fazer, adiando o encontro, quando a voz pontuada por risos de Hiei soou atrás dele:

- Até que enfim vamos poder conversar novamente, não é mesmo, Urameshi?

Os lábios de Yusuke se esticaram quase automaticamente enquanto o mesmo se virava lentamente. Ao encarar seu mais novo adversário, já exibia um sorriso dos mais debochados.

- Não é mesmo uma feliz coincidência?

O sorriso de Hiei vacilou, mas foi por um instante curto demais. Ele não costumava parecer nervoso nem mesmo quando acuado, ainda mais ali, quando tinha total controle da situação. O que não podia entender era porque o outro garoto estava tão sorridente quando deveria, ao contrário, estar ajoelhado, implorando pelo seu silêncio.

- Sabe que eu andei pensando sobre a sua prima? Acho que já sei o que vou fazer com a informação...

- Não me interessa – interrompeu Yusuke.

- Como disse?

- Não me interessa!

Hiei aproximou-se rapidamente, olhando em volta de maneira a certificar-se que os dois eram os únicos no corredor. Em volta deles havia apenas portas trancadas que davam para salas de aula completamente desocupadas àquela hora, mas mesmo assim, por via das dúvidas, o baixinho moderou o tom de voz quando falou:

- Então não te interessa? – ele estudou o sorriso no rosto de Yusuke considerando os motivos para a existência do mesmo. Quando não encontrou nenhuma razão plausível para ele, decidiu-se por perguntar: – O que você está querendo fazer com isso? Me assustar e me fazer desistir dos meus planos?

- E quais seriam os seus planos? – o outro riu. – Me fazer pagar por um par de pernas de pau? Não... Deixe-me adivinhar... Ah, claro, você deve estar querendo é um par de sapatos de plataforma. Acredite, Hiei, eles ficavam bem nas Spice Girls, mas você não parece uma delas.

Yusuke tinha anos de experiência com brigas de rua, então foi fácil para ele prever qual seria a reação de Hiei. Desviou o rosto bem a tempo de tirá-lo do caminho do punho fechado do baixinho que praticamente o jogou na direção de seu rosto. O golpe acabou atingindo a parede atrás dele, por sorte não tendo sido suficientemente forte para causar algum estrago na superfície.

Hiei respirou fundo, olhando para o chão antes de recolher o braço e levantar a cabeça exibindo olhos que brilhavam de fúria.

- Você tem razão, vamos esquecer os planos. A expressão compreensiva –gesticulou sinal de aspas com os dedos ao pronunciar a última palavra – de Genkai quando eu for até lá e contar sobre... Como é mesmo o nome dela? Botan? De qualquer maneira acredito que a cena vai valer bem mais que qualquer coisa que você pudesse me dar em troca de silêncio. Especialmente quando ficar o resto do ano na detenção!

- Sai de mim, eu heim... Você vive na detenção. Falando isso eu até penso que está com segundas intenções. Eu sei que sou único, mas não gosto desse tipo de proposta não.

Hiei cerrou os punhos novamente e estava a ponto de avançar outra vez, mas relaxou no último instante, encarando Yusuke com um olhar curioso.

- O que está havendo com você? Quer mesmo ser expulso, andou bebendo umas com o Tiyu ou apenas resolveu que a cabeça da sua prima não vale tanto assim para você?

Yusuke colocou a mão sobre o queixo, parecendo pensar antes de responder. A outra mão foi instintivamente para frente da camisa onde a revista ainda estava escondida.

- Eu sou Yusuke Urameshi, rapaz. Desde quando eu me preocupo com alguma cabeça que não seja a minha? – ele riu e começou a soltar a revista lentamente, pronto a exibi-la quando fosse a hora. – Por outro lado, eu também estarei com um problema se Botan for descoberta, sabe como é... Eu a ajudei...

- E por que está confessando isso para mim? – perguntou Hiei ainda mais desconfiado.

- Por que somos camaradas – Yusuke abriu um grande sorriso. – Eu sei que você jamais contaria algo assim para outra pessoa. Não é isso que os amigos fazem.

- Eu não sou seu amigo!

Era engraçado como Hiei parecia ainda menor tentando conter sua raiva. Ele abaixava a cabeça erguendo apenas os olhos furiosos em uma expressão que tinha a intenção de ser intimidadora, mas que lembrava a Yusuke uma criança emburrada.

- Hiei... Assim você me magoa...

- Você é um estúpido imbecil e eu quero ver o que vai dizer quando eu realmente espalhar nos quatro cantos dessa escola que Touya é uma mulher!

A expressão no rosto de Yusuke não mudou.

- Bom, se você fizer isso... – Yusuke tocou a revista começando a puxá-la para fora. – Tem certeza de que não é meu amigo?

- Absoluta!

- Então eu acho que eu não deveria ter entrado no seu quarto e pego isso aqui emprestado – o primo de Botan puxou a revista de uma só vez e praticamente a jogou contra o rosto de Hiei. Antes que o baixinho pudesse reagir, a puxou de volta e começou a folhear desinteressadamente. – Olha só... Tem até uma foto da Britney Spears na contracapa... E o que são esses coraçõezinhos?

Yusuke olhou para Hiei de soslaio, quase esperando que ele desse um salto em grande velocidade e começasse a torcer seu pescoço, mas tudo o que viu foi a cor fugir do rosto do garoto e ele abrir ainda mais os olhos.

- Você entrou no meu quarto? – perguntou com a voz neutra.

- Pois é, eu achei que entre amigos não houvesse segredos... – respondeu Yusuke, ainda folheando a revista. – Olha só, essas modelos estão um bocado indecentes... E Genkai ainda reclama só porque eu trouxe umas revistinhas de moda para nudistas...

- Você entrou no meu quarto?

- Acho que sim, não é? As suas revistas não andam sozinhas... Cara... Eu devia ter feito alguns recortes antes de devolver...

- Você entrou no meu quarto?

Yusuke fechou a revista e levantou a sobrancelha. Hiei devia estar mesmo chocado para começar a agir como disco arranhado daquele jeito. Só esperava que ele não ficasse muito perigoso quando voltasse ao normal. Se alguém os pegasse brigando no corredor, seria detenção certa. Não que não fosse valer a pena...

- Não... A sua janela devia estar aberta e as revistas saíram voando até o meu. Sabe como é... Mulheres bonitas costumam me perseguir até mesmo quando estão impressas no papel.

- Você realmente entrou no meu quarto!

Hiei correu até Yusuke, tentando agarrar a revista, mas o primo de Botan foi mais rápido e começou a correr, dando círculos pelo corredor com a revista segura acima de sua cabeça.

- Ah, de jeito nenhum. Você só pega isso aqui quando eu der uma boa olhada nas fotos. E, claro, quando eu mostrar para todo mundo com que tipo de material de... uh... pesquisa você ocupa seu tempo livre!

Ele continuou correndo, ainda olhando para a revista agora dobrada entre as mãos, parando apenas quando ouviu o riso abafado de Hiei.

- Bravo Yusuke – o baixinho bateu palmas fingindo animação. Por outro lado seus olhos continuavam destilando irritação. – Então você acha que vai calar minha boca com isso? Que eu saiba não coloquei meu nome na maldita revista.

- Nada que não possa ser corrigido.

Yusuke sorriu ao ver uma veia se salientar na testa de Hiei. Agora faltava pouco para ele explodir.

- Minha letra é bem diferente da sua!

- Está dizendo que sou incapaz de imitar alguns garranchos?

A veia estava praticamente saltando.

- Ninguém vai acreditar que eu, Hiei, o rei das salas de detenção, guarda uma revista com esse tipo de conteúdo! E que, apesar de não ser da sua estúpida conta, a minha irmã Yukina esqueceu quando veio me visitar no último semestre!

- Oh, sim, claro, a irmã fantasma de Hiei, Yukina. Ela está ai do seu lado? – Yusuke aproximou-se e estendeu a mão para o nada. – Muito prazer, senhorita Yukina. Não é incrível que até mesmo você seja mais alta que o tampinha aqui?

Aquela foi a gota d’água. Hiei praticamente voou para cima de Yusuke que recuou rapidamente para trás. O baixinho podia ser pequeno, mas era rápido e o primo de Botan já estava praticamente sentindo a sensação dolorosa dos punhos de encontro a sua mandíbula, muito consciente que não haveria tempo para escapar antes que seu atacante o alcançasse, quando miraculosamente uma das portas em volta se abriu e um homem meio cambaleante saiu de dentro:

- Mas quem diabos está fazendo todo esse barulho enquanto eu estou tentando dormir?

Hiei parou imediatamente, encarando a figura completamente bêbada de Tiyu com surpresa e contrariedade.

- Saia da minha frente, seu bêbado inútil, eu tenho contas a acertar com o outro imbecil nesse corredor!

Tiyu puxou Hiei, segurando-o pela camisa e grunhiu, fazendo o garoto desviar o rosto diante do hálito desagradável.

- Quem foi que você chamou de bêbado, nanico?

O garoto se debateu na tentativa de se soltar, mas Tiyu apenas o segurou com mais força. Olhou para trás, a procura de Yusuke, mas este se afastava lentamente, sem fazer barulho, na direção da saída. Quando chegou no final do corredor, acenou com um sorriso e desapareceu para a ala dos dormitórios. Hiei suspirou. Urameshi tinha escapado daquela vez levando a revista idiota, mas ele quem não pensasse que aquela sorte duraria para sempre.

- Então, vai ou não vai responder? Bêbada é a sua avó!

-o-o-o-o-o-

Shuuichi estava começando a achar que sua permanência na banda não ia durar muito tempo. Já fazia quase meia hora desde que, juntamente com Kuwabara, Touya e o coordenador, tinha se sentado no palco, fazendo um círculo para começar a discutir sobre o show de talentos. Até então, porém, tudo o que tinha sido falado era sobre como eles ficariam “divinos”, nas palavras de Itsuke, com os modelos que ele selecionaria pessoalmente de seu guarda roupas particular, trazido diretamente de seu estúdio em Tokyo.

- Você tem certeza de que ele é um coordenador de eventos? – perguntou Botan em voz baixa. – Ele me parece mais um estilista ou qualquer coisa parecida com isso...

- Foi o que me disseram... – respondeu Shuuichi. E olhou embaraçadamente para as mãos quando Itsuke lhe lançou um sorriso interessado.

- Eu acho que ele gosta de você – Botan riu baixinho. Não estava achando nada engraçado os olhares descarados que o coordenador lançava ao amigo, mas não podia deixar de rir da reação do ruivo a eles.

- Touya! Ele é um professor e... Um homem.

- Mais ou menos...

- Ele pode ser estranho, mas não deixa de ser homem por isso!

- Sim, mas ele não é cego! – Botan riu. Então viu o olhar interrogativo no rosto de Shuuichi e se deu conta do que disse. – Ele acha que você é o vocalista perfeito por ter boa aparência... E você sabe como os vocalistas são importantes para a imagem de uma banda, não é? – ela riu nervosamente. – Itsuke só está feliz em encontrar alguém que vá servir nas roupas que ele tanto fala, você não deveria pensar tanta besteira.

- Ora, mas se foi você quem falou...

- Eu estava brincando! – a garota sorriu. – Você é tão fácil de arreliar... Sem falar que já vi o seu rosto mudar para cores que eu nem sabia que existiam na última meia hora.

- Acho que eu não devia me assustar tão fácil. Isso não é nada perto do professor e suas sete personalidades assassinas ou o sapo macabro do Ichigaki...

- Chato.

Botan deu um empurrão de leve no ombro de Shuuichi e nesse instante Kuwabara se levantou muito sorridente, desmanchando-se em agradecimentos para Itsuke. Os outros se levantaram atrás dele.

- A nossa banda será a melhor do show de talentos! – os olhos dele eram duas estrelas vislumbrando o futuro. Olhou para Botan e Shuuichi. – Com um guitarrista profissional e um vocalista bem vestido nós conquistaremos o mundo!

- Kuwabara... – disse Shuuichi. – Você não está esquecendo de nada não?

- Os sapatos? – o garoto perguntou com a mesma expressão arrebatada. – Eu não acho que Itsuke trará as roupas e esquecerá os sapatos.

- Mas nós nem sabemos se a minha voz é apropriada para a apresentação...

- Você não está querendo me desanimar, não é? – Kuwabara desfez o sorriso e cruzou os braços. – Eu não estou vendo o Touya se preocupando com esse tipo de detalhe!

Botan sorriu para Shuuichi com um dar de ombros, depois se virou para o outro lado e mordeu o lábio inferior. Ela não estava se preocupando com detalhes agora, mas e quando eles tivessem realmente que ensaiar? Durante a reunião, enquanto Kuwabara e Itsuke falavam sobre a apresentação, tentou imaginar as mais diversas formas de escapar da posição, mas nenhuma das alternativas que lhe vieram à cabeça (e que estavam entre quebrar o pulso e destruir todas as guitarras do mundo) pareceram muito lógicas. O que podia fazer era pedir silenciosamente que Yusuke tivesse uma solução. Isso se eles fizessem as pazes ainda naquele ano...

- Eu acho que se Shuuichi usasse uma jaqueta verde por cima de uma calça de couro vermelha iria dar uma ênfase incrível a seus atributos mais chamativos: o cabelo e os olhos – dizia Itsuke. – O que acha, Kuwabara?

- Ah, eu estou totalmente de acordo... E ele poderia também...

Shuuichi olhou para Botan com o que parecia um olhar de puro pânico. Fez um gesto com os lábios que a garota entendeu por “me tire daqui”.

- Será que nós podemos sair agora? – ela dirigiu-se a Itsuke com um sorriso. – Temos muita lição de casa e, o senhor entende, não podemos deixar que o show atrapalhe nosso desempenho acadêmico...

- Você.

- Você? – Botan franziu a testa sem entender. – Eu...?

- Me chame de você – disse o coordenador. – Eu sou jovem demais para ser chamado de senhor. Um homem na flor da idade...

Ele balançou a cabeça negativamente e Botan riu, já começando a se afastar para a porta.

- Então podemos ir?

- Vão, vão...

Itsuke fez um gesto com a mão na direção da saída que Shuuichi não precisou que se repetisse. Antes de afastar-se o suficiente, ainda o ouviu dizer:

- Ele vai ficar fantástico nas calças de couro que eu desenhei pessoalmente...

Botan correu atrás de Shuuichi pelo corredor até estarem longe do auditório. Ele parou de repente, quase fazendo com que ela se chocasse contra suas costas e passou as mãos pelos cabelos, olhando para trás e para frente como se pensando para onde deveria seguir dali.

- Shuuichi...

- Eu estava tão ansioso para escapar das imaginações de Itsuke e Kuwabara que até esqueci que nós deveríamos passar a tarde inteira no ensaio... – o ruivo disse. – Se formos para o pátio agora algum professor com certeza vai nos mandar para a biblioteca ou para o quarto estudar e, sinceramente, não estou com a mínima paciência para isso hoje.

Botan sorriu para a expressão de desagrado no rosto do garoto. Ele tinha uma pequena ruga de insatisfação na testa que o fazia parecer mais jovem ao invés do contrário. A garota suspirou baixinho, imaginando se ele seria capaz de olhá-la de alguma maneira que não o fizesse parecer adorável.

- Nós poderíamos nos esconder até à hora do jantar – ela deu de ombros, falando em tom de brincadeira.

- Isso!

Shuuichi abriu um sorriso e Botan imediatamente ficou séria.

- Isso? Não está querendo dizer que é uma boa idéia, estÿ

- Você quem sugeriu...

- Eu não falava sério!

- Por que não?

- Você é um aluno aplicado e...

- Você quer ser obrigada a passar a tarde estudando? – o ruivo interrompeu.

Botan abriu a boca para dizer que não se importava, mas as palavras não saíram.

- Viu? – ele sorriu. – O que acha de entrarmos na primeira porta que aparecer no próximo corredor?

- Uma idéia ainda pior?

- Sabia que você ia adorar.

-o-o-o-o-o-

- Isso é...

- A sala de música do colégio. Não é fenomenal?

Shuuichi deu uma volta pela sala que tinha pelo menos o dobro do comprimento de uma sala de aula comum, passando os olhos rapidamente pelos muitos instrumentos espalhados por prateleiras em volta. No canto esquerdo, próximo a uma grande janela de vidro que chegava quase ao piso, havia um piano preto de meia calda. Botan aproximou-se e passou a mão na superfície lisa, correndo os dedos pela tampa lentamente. Olhou para a janela e para a vista lá fora e percebeu que ela dava para um pequeno jardim de rosas, muito diferente do piso coberto de concreto que era a entrada do colégio. Fez uma nota mental para procurar a entrada do lugar quando tivesse algum tempo livre.

- Você já conhecia esse lugar? – ela perguntou sem desviar os olhos do piano.

- Eu passei por aqui hoje cedo e a porta estava aberta. – respondeu Shuuichi. – Eles têm uma pequena coleção de guitarras e instrumentos de corta, então pensei que talvez você se interessasse. Deve estar sendo difícil passar todo esse tempo sem tocar.

Botan virou-se para o garoto e viu que ele estava examinando uma prateleira onde duas guitarras descansavam de pé, uma ao lado da outra, sendo acompanhadas por um violão antigo e dois outros instrumentos menores que ela não fazia a menor idéia de como se chamavam. O ruivo ergueu a mão para o violão e hesitou apenas um momento antes de puxílo cuidadosamente, segurando-o como faria com um objeto de cristal.

- O que está fazendo? – a garota perguntou, temendo a resposta. Se ele pedisse para que tocasse alguma coisa, seria um grande problema.

- Você quer tocar? – ele ofereceu, estendendo o violão. – Há essa hora os professores devem estar descansando do outro lado do prédio, não vão nos ouvir.

Botan estremeceu. Olhou para as próprias mãos a procura de uma desculpa, mas sem pensar em nada suficientemente convincente.

- Kuwabara e Itsuke podem nos ouvir – balbuciou.

- As paredes do auditório são grossas e eu duvido muito que eles parem de discutir aquela história de figurino tão cedo – Shuuichi franziu o cenho, pensando que naquele momento deveriam estar falando sobre como ele ficaria no tal figurino, e andou na direção de Botan, parando apenas ao chegar ao piano, ficando frente a frente com ela.

- Sabe – disse Botan, antes que ele pudesse estender-lhe o violão outra vez. – Eu não poderei fazer nenhuma apresentação memorável de qualquer maneira. A guitarra é um pouco diferente do violão, como você deve saber... – ela não fazia a menor idéia se aquilo era verdade, mas esperava que Shuuichi não fizesse também. – Já que estamos aqui e ninguém pode nos ouvir, por que você não canta para que eu possa dizer se tem mais que um rosto agradável para participar deste festival?

A intenção da proposta foi que o ruivo ficasse sem jeito e esquecesse de testemunhar as habilidades dela com o instrumento de corda de qualquer maneira, mas, contrariando todas as suas expectativas, ele sentou-se no banco do piano, cruzou as pernas, apoiando o violão em cima delas, e começou a entoar algumas notas.

Ele ficou assim, perdido nos próprios pensamentos por alguns instantes, até que de repente parou e olhou para Botan com um sorriso saudoso.

- Eu não sou muito bom nisso, como você pode ver.

- Você toca? – ela perguntou com um suspiro. Aquela sim, tinha sido uma surpresa.

- Arranho algumas notas – Shuuichi respondeu, encarando o jardim fora da janela como se estivesse olhando para algum fato passado. – Meu pai me ensinou. Ele era bom... Eu lembro que costumava ficar na varanda de casa tocando velhas canções americanas. Ele gostava de surf-music, sabe? – olhou para Botan com um grande sorriso. – Ele e a minha mãe se conheceram em um concerto. Acho que se não fosse pelos Beach Boys, provavelmente nunca teriam se casado e você não estaria falando comigo agora.

- Toque alguma coisa – Botan pediu, controlando-se para sua voz não soar mais suave do que o usual.

- Você provavelmente sairia daqui traumatizado – o ruivo riu. – Eu não poderia assassinar uma música diante de um guitarrista de verdade.

- Pelo que eu sei, isso na sua mão é um violão clássico – ela respondeu. – E eu nunca segurei um na vida. – Tinha visto Touya tocar muitas vezes no violão de Atsuko quando visitavam Yusuke e ela estava bêbada demais para procurar um CD do agrado. Ele não costuma fazer feio. Era com uma guitarra elétrica que o estrago era causado. De todas as formas, ela não era Touya e podia dizer sem reservas que jamais segurara nenhum instrumento musical em toda sua vida. – Por favor, toque, eu gostaria muito de ouvir.

- Mas...

- Nada de mas. Daqui a pouco você vai ter que cantar na frente de dezenas de pessoas, com uma jaqueta verde e uma calça de couro. Não é melhor ir treinando comigo antes?

Shuuichi sorriu diante da maneira divertida como o amigo colocou a situação. Olhou novamente para fora, imaginando o que poderia tocar. Fazia quase dois anos desde que segurara um violão pela última vez. Pensou por um instante se deveria tentar aquela música... Por que não?

As primeiras notas soaram um pouco fora de tom, mas ele foi pegando o jeito à medida que a introdução avançava. Lembrou-se do pai dizer uma vez que tocar um instrumento era como andar de bicicleta, os anos passavam, mas nunca se esquecia completamente.

Botan sorriu, observando como os dedos de Shuuichi passeavam pelas cordas sob um olhar de intensa concentração. Ela sentiu o corpo relaxar quando as notas foram tomando a forma de uma melodia agradável. Apoiou o corpo no piano e estava concentrada nas rosas do outro lado da janela, ouvindo a música, quando a voz do garoto ruivo soou em meio ao som suave do violão:

- Diamond ring, wear it on your hand / It's gonna tell the world, I'm your only man / Diamond ring, diamond ring / Baby, you're my everything, diamond ring.

A garota encarou Shuuichi que continuou na mesma posição, a cabeça abaixada, acompanhando todos os movimentos das mãos. Ela pensou se ele estaria fazendo isso por medo de errar as notas ou por não estar acostumado a cantar diante de outras pessoas. Sorriu ao pensar nas palavras que trocaram sobre ele servir ou não para vocalista da banda. Não havia nenhuma dúvida de que ele era perfeito. A voz, apesar de ainda conservar um pouco da suavidade da infância, era firme e acompanhava as notas com destreza e naturalidade, como se estivesse sendo treinada frequentemente.

- Red, red rose brought it home to you / Blood red rose, tells me that you're true / Red, red rose, blood-red rose / Like a fire inside that grows, blood-red rose.

Ela reconhecia a música. Ela a tinha em um dos CDs que Touya vivia trazendo em troca de que inventasse alguma desculpa a mãe dele enquanto estava ensaiando em alguma garagem, localizada em algum pobre bairro repleto de pessoas desavisadas que não teriam um bom dia quando os Shinobi começassem a tocar. Shuuichi a cantava de maneira mais lenta, a voz quase desaparecendo no final de algumas frases, como se ele de repente se lembrasse de que não estava sozinho e perdesse parte da coragem.

- Like a fire inside that grows, blood-red rose.

Botan fechou os olhos, imaginando como seria se ele estivesse cantando para ela. De repente, lhe veio o pensamento de que talvez ele estivesse tocando enquanto pensava em alguma outra garota, alguém especial que ficara em seu antigo colégio, no bairro que morava, qualquer lugar longe dali. Talvez fosse por isso que ele estava sempre nas nuvens, olhando para algum lugar qualquer como se estivesse sentindo falta de alguém.

- When you're hungry, I will fill you up / When you're thristy, drink out of my loving cup / When you're crying, I'll be the tears for you / There's nothing that I wouldn't do for you.

Shuuichi parou de tocar de repente e olhou para Botan um pouco sem jeito.

- É aqui que começam os arranjos e é aqui que eu paro. Não foi uma performance, mas, você entende, faz tempo...

- Ah, o arranjo...

- Touya?

- Sim?

Botan levantou a cabeça rapidamente só para abaixá-la novamente. Sua expressão a denunciaria se olhasse diretamente para ele e não queria que fizesse alguma idéia do que estivera pensando nos últimos instantes.

- Há algo que você queira me perguntar?

- Como? – a garota o encarou rapidamente outra vez.

Shuuichi sorriu e relaxou, esticando as pernas e as costas, olhando para a garota com seu habitual sorriso gentil.

- Você estava me olhando como se tentasse adivinhar alguma coisa. É mais ou menos como a minha mãe me olha quando estou com algum problema, ela pergunta e eu respondo que não é nada.

Botan inclinou a cabeça e endireitou-se de pé, afastando-se do piano e aproximando-se mais da janela.

- Eu estava me perguntando se você é um fã do Bon Jovi.

Shuuichi não conseguiu conter um riso alto, quase uma gargalhada, diante da pergunta. Tinha que dar algum crédito a Touya. Além de sua mãe, ele era o único capaz de fazê-lo rir daquela maneira.

- Ora, qual a graça? – Botan se virou e colocou as mãos na cintura. Imediatamente lembrou-se que não era uma posição exatamente masculina e cruzou os braços depressa, esperando uma resposta.

- Nenhuma – respondeu o ruivo, retomando o sorriso de antes. – Foi só a forma como você perguntou. Eu não sou fã do Bon Jovi se quer saber. Essa é a única música dele que eu sei tocar e nem tenho certeza do que vem depois do arranjo. – fez uma pausa antes de acrescentar: – É uma história antiga... Na verdade não tão antiga.

Botan sentiu uma sensação desagradável no estômago ao ouvir isso. Então ele realmente tinha aprendido aquela música por causa de outra garota. Se havia uma história, tinha que haver uma garota!

- Quer falar sobre isso? – perguntou sem ter certeza se queria ouvir o que ele poderia ter a dizer.

- Tanto faz – Shuuichi deu de ombros. – É uma dessas coisas que acontecem na sua juventude e que você tenta ignorar para o resto da vida. – ele riu. – Falando assim, até parece que se passou muito tempo.

O garoto ficou calado, acariciando as cordas do violão ainda em seu colo como provavelmente faria com um animal de estimação. Botan estava prestes a forçar uma mudança de assunto, já se sentindo perturbada pelo silêncio, quando ele continuou:

- O nome dela era Maya. Nós estávamos na mesma sala e ela era minha melhor amiga. – o ruivo respirou fundo, desviando a atenção do violão para Touya. – Não, ela era minha única amiga. Acho que eu me esforçava demais para ser perfeito dentro da escola e me importava muito pouco em me envolver com brigas fora dela, por isso os outros garotos não iam muito com a minha cara e as garotas... Bom, você sabe como é quando elas ficam suspirando em volta de você. Conversar se torna uma coisa impossível.

Botan balançou a cabeça, tentando não carranquear a lembrança das palavras de Yusuke sobre ela ser algum tipo de garanhão sem pudor, incentivando Shuuichi a continuar.

- Ela era minha amiga e eu comecei a achar que nós poderíamos ser mais do que isso. No final do ano ia haver uma espécie de baile de formatura. Uma dessas festas que as escolas promovem como uma espécie de despedida. Nós mudaríamos para escolas diferentes no outro ano e eu achei que aquele baile seria a minha última chance de dizer como me sentia a respeito dela.

O rapaz ruivo balançou a cabeça e franziu a testa. O gesto fez Botan perceber que provavelmente as coisas não tinham acontecido como ele planejou e fez menção de interrompê-lo, mas Shuuichi conseguiu sorrir e continuar antes que ela pudesse continuar.

- Eu sabia que ela era fã do Bon Jovi. Aquele tipo de fã que tem todos os CDs, uma parede coberta por fotografias recortadas de revistas e uma pilha interminável de colecionadores com muito mais imagens. Então eu pesquisei uma música que mostrasse como ela tinha sido importante para mim e como eu gostaria que ela continuasse sendo. Ia tocar para ela depois do baile.

- Ia?

- Ia... Eu estava tão ocupado tentando não soar patético quando cantasse para ela que outra pessoa a convidou como acompanhante antes de mim – Shuuichi conseguiu sorrir ao responder, mas seus olhos levemente estreitados denunciaram o desconforto que a lembrança ainda trazia. – Eu nunca tinha cantado essa música diante de ninguém, até agora. Acho que sabia que você não ia rir da performance por pior que fosse.

Ele levantou-se e foi até a estante devolver o violão a seu local de origem. Estava de costas, então não viu quando o rosto de Botan adquiriu um tom leve de vermelho. A idéia de que tinha sido a única pessoa a ouvi-lo cantar a confortava tanto quanto se ele tivesse lhe dado um abraço. Aquela garota, Maya, provavelmente nunca faria idéia do que tinha perdido.

- Tem certeza de que não quer tocar agora? – Shuuichi perguntou, lançando um olhar para as guitarras. – Você deveria, eu até cantei.

- Não se preocupe, não vão faltar oportunidades – disse Botan, brincando nervosamente com os dedos. – Acho que por enquanto você vai ter que se contentar em saber que eu acho que você ficará perfeito como vocalista.

- Está dizendo isso porque é meu amigo...

- Não deixa de ser verdade.

Botan se virou novamente para o jardim, pensando na história de Shuuichi e repreendendo-se pelo sentimento nada bem vindo de alívio ao saber que as coisas tinham dado errado entre ele e a tal Maya. Não era como se ela estivesse no páreo, certo?

- Touya?

- Sim...?

A garota se virou e estancou ao perceber que o ruivo estava bem ali, a seu lado.

- Obrigado – ele disse e sorriu.

Botan ia perguntar pelo que, mas o semblante pacífico do amigo a fez silenciar. Era um daqueles momentos em que se devia aceitar como as coisas aconteceram e seguir adiante. Duvidava que Shuuichi voltaria a falar em Maya e ela de nenhuma maneira voltaria a perguntar.

- Então, você não vai me dizer o que seu primo realmente queria com aquela revista de novelas?

Botan sorriu.

- Acredite, você não ia querer saber disso.

-o-o-o-o-o-

Yusuke estava deitado de lado sobre os lençóis desarrumados da própria cama quando ouviu os passos no corredor. Ergueu-se rapidamente, sentando-se e ficando de frente para a porta, reconhecendo as passadas leves como sendo da prima Botan e esperando que ela entrasse no quarto a qualquer instante. Franziu a testa e puxou os lábios para frente, desfazendo e refazendo o movimento até adquirir uma expressão que imaginava ser dura. Não importava o que aquela garota teimosa dissesse, os dois tinham que resolver aquela estúpida diferença de uma vez por todas ou o segredo de Touya/Botan seria comprometido.

Demorou menos de trinta segundos e a figura uniformizada da garota, com o costumeiro boné, atravessou a entrada. Yusuke esperou que ela virasse o rosto e cruzasse os braços, ou ainda lhe dirigisse algum comentário mal educado, mas Botan simplesmente o encarou com um sorriso, quase como se não o estivesse vendo.

- Botan?

- Sim?

- Você está bem? – Yusuke perguntou.

- Nunca estive tão bem em toda minha vida...

- Você não andou encontrando Tiyu por ai e dizendo que estava com sede, andou? – o garoto insistiu, levantando-se lentamente, esperando que fosse lá o que Botan tivesse tomado, perdesse o efeito e ela o atacasse a qualquer momento.

- Yusuke... – Botan aproximou-se e o primo dela deu um passo para trás. – Você não adora esse colégio?

Ela saltou no pescoço dele, abraçando-o como fazia quando eram mais jovens e ele a defendia dos arruaceiros do colégio. O garoto retesou-se por um instante antes de relaxar. Não sabia o que estava acontecendo com Botan, mas era melhor que uma discussão sobre a cena do dia anterior no quarto de Hiei.

- Priminha... – Yusuke disse cuidadosamente. – Não sei que passarinho verde você viu... Ou será que eu devo dizer ruivo? – ele segurou Botan pelos ombros e a encarou severamente. – Você não agarrou o Minamino no corredor, não é? Isso seria uma tremenda bandeira...

- Yusuke! – Botan repreendeu, mas não conseguiu demonstrar raiva. Ainda tinha a voz melodiosa de Shuuichi soando em sua cabeça e também o que ele dissera sobre ela ter sido a primeira a ouvi-lo cantar. Tudo bem que ele pensava que tinha se apresentado para o amigo Touya, mas e daí? Ela tinha todo o direito de ignorar esse pequeno detalhe para sentir-se mais feliz. – Eu não agarrei ninguém ainda. Nem vou! O que ele ia pensar de mim?

- Melhor mesmo... – Yusuke apertou Botan carinhosamente. – Você está me abraçando...

- E daí? Por acaso está pensando alguma indecência?

- Isso seria doente. Você é a irmãzinha que eu nunca tive.

- Tem razão – Botan sorriu. – E você estava me esperando para dizer que falou com Hiei.

Yusuke soltou Botan e franziu a testa. Estaria mentindo se dissesse que conseguira calar a boca do baixinho. Ele certamente não ficara nem um pouco feliz ao saber sobre o paradeiro de uma de suas preciosas revistas, mas aquilo não seria arma suficientemente forte para fazê-lo silenciar.

- Você não conseguiu, não é mesmo? – perguntou Botan, preocupada.

O garoto abriu a boca para dizer que não, mas a prima tinha parecido tão feliz mais cedo... Com aquele sorriso bobo que ele não via desde que alugara o DVD de Legalmente Loira e obrigara Touya e ele a ver com ela. Mais de uma vez. Pensando bem daquela vez tinha sido um sorriso perverso...

- Yusuke, por que está fazendo essa cara de dor?

- Acabei de ter uma lembrança amarga da minha juventude... – Yusuke balançou a cabeça, espantando os pensamentos. – Esqueça Hiei, eu sei como tratar com ele. Você tem que ter cuidado é com Shuuichi Minamino! Já percebi que é apenas o cara aparecer e você esquece que garotos não costumam saltitar e abraçar colegas de quarto.

- Eu consigo imaginar Itsuke fazendo isso...

- Quem?

- Esqueça.

Botan abaixou a cabeça e Yusuke segurou-lhe o queixo, fazendo-a olhar para ele.

- Você não me respondeu por que estava tão contente.

Ela tentou olhar para o chão novamente, mas o primo continuou forçando seu rosto na direção do dele.

- Botan... Tem a ver com aquele ruivo, não tem?

- E se tiver? – a garota o encarou com determinação.

- Você sabe o que é que tem! Eu tenho que repetir que...

A frase ficou pela metade. Nesse instante a porta do quarto se abriu e um sorridente Kuwabara, carregando alguns cadernos, entrou, já começando a falar alguma coisa. Ao ver seus dois colegas de quarto parados de pé, Yusuke segurando o queixo do primo e com o rosto muito próximo do dele, parou e ficou em silêncio, olhando de um para o outro com os olhos muito abertos.

Botan deu um salto para trás e Yusuke recolheu a mão, sorrindo disfarçadamente, mas muito ciente de que o recém-chegado tinha visto mais do que o limite da conveniência. Olhou para a prima que o encarava interrogativamente, então deu um passo na direção de Kuwabara, confiando em sua personalidade avoada e quase sempre confusa ao falar como se nada tivesse acontecido:

- Até que enfim chegou, Kuwabara. Nós pensamos que ia passar a noite pelos corredores...

- É isso ai...

Botan riu nervosamente e foi o som do riso dela que fez Kuwabara acordar e notar que Yusuke estava chegando perto dele. Largou os cadernos no chão, mal notando que os pisoteava ao recuar.

- Parem de me encarar. Eu vi tudo!

Ele apoiou-se na parede, olhando de soslaio para a porta, esperando uma oportunidade de escapar.

- Você viu tudo? – perguntou Yusuke, cruzando os braços. – Que tudo?

Kuwabara repetiu o movimento de cabeça, olhando entre os dois primos sem saber em qual dos dois pousar os olhos.

- Vocês dois estavam... Muito próximos! – gritou o rapaz. Então tremeu a face, olhando concentradamente para as próprias mãos. – Eu sabia que aquelas olhadas exageradas que o Touya lançava para o Minamino eram estranhas, mas você, Yusuke... Não parece do tipo que curte... Você sabe.

- Eu sei?

- E com o próprio primo? No quarto que eu divido com vocês? – ele cobriu o rosto com as mãos. – Shizuru sempre disse que eu era um cara azarado, mas isso superou todas as minhas expectativas. O que diria a minha querida Yukina se soubesse?

Yusuke abriu a boca em completo choque. Não era possível que Kuwabara estivesse pensando... Não havia dúvidas de que ele estava pensando. Uma onda de raiva subiu por sua espinha, espalhando-se pelo corpo, carregando os punhos que não demoraram a se fechar com uma inacreditável urgência de bater em algo. Lançou-se contra o garoto que ainda murmurava palavras incompreensíveis, mas suas mãos só conseguiram alcançar a parede. Kuwabara deu um salto para o lado, lançando as palmas para frente de uma maneira defensiva.

- Fique parado onde está – exclamou. – Eu respeito a sua... Sua opção. Respeito, mas não curto, se é que me entende. – olhou para a porta sem perder tempo em começar a sair por ela. – Eu vou passar a noite em outro lugar. Prometo que não falarei nada a ninguém, desde que vocês sejam discretos. Eu não quero que Yukina pense... – dirigiu-se a Botan. – Vocês são realmente primos? Não sabia que isso era permitido.

Yusuke ignorou os dedos doloridos do soco que dera contra a parede e já ia avançar contra Kuwabara novamente, mas este foi mais rápido e, percebendo o que aconteceria, saiu correndo dali, deixando os cadernos para trás e desaparecendo velozmente pelo corredor.

Botan encarou o primo incredulamente.

- Isso realmente aconteceu?

- Não... – respondeu Yusuke, massageando a mão e escorando-se na parede, deslizando lentamente para o chão até estar sentado. – É tudo um grande, colossal, terrível pesadelo chamado “como manter uma garota bem a vista em um colégio masculino”.

- Oh...

Botan deu um meio sorriso. Era bom que Yusuke estivesse sentindo dor agora, pelo menos assim não lembraria tão cedo de que sua preciosa reputação acabava de sair pela porta com destino ignorado.

 

 

Continua

 

 

 

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