Quebrando as Regras
Capítulo 9
– O que está fazendo parado ai como um idiota?
Shuuichi suspirou. Não precisava levantar os olhos para saber que era Hiei quem falara. Tentou ignora-lo, mas o outro ficou parado ali a observá-lo como se ele estivesse com um cacho de bananas na cabeça ou algo igualmente bizarro. Acabou por encará-lo de volta.
– O que você quer, Hiei? – perguntou cansadamente. Depois que Touya saíra da sala de música e ambos separaram-se no corredor, tinha ido até ali, ao pátio, na esperança de ter um pouco de paz e pensar nos últimos acontecimentos. Tinha sido menos de uma semana desde que chegara ao colégio Meiouh e já tinha feito pelo menos meia dúzia de coisas que jamais teria cogitado. Ficara na detenção no primeiro dia, consentira em bancar o vocalista para uma banda de rock amadora, não brigara uma só vez com o colega de quarto que não perdia uma oportunidade de chamá-lo de estúpido, virara alvo da criatividade de um estilista gay, fizera amizade com um colega de classe que parecia ainda menos com um garoto do que costumavam dizer que ele parecia e ainda por cima o deixara ouvi-lo tocar uma música de Bon Jovi que ele tinha aprendido por causa de uma garota nem lembrava há quanto tempo atrás. – Eu posso fazer uma pergunta?
Hiei não respondeu.
– Tem certeza que além do professor e suas sete personalidades assassinas, de Ichigaki e seu laboratório secreto e da tal fantasia de Cinderella que você jura que Yomi gosta de usar quando está sozinho, eles também não conspiram para atingir os alunos com efeitos hipnóticos durante o sono?
O baixinho olhou para o colega de quarto como se ele estivesse completamente maluco.
– Pela maneira estranha como você está agindo, isso pode ser uma possibilidade... Mas de onde tirou que Yomi se veste de Cinderella? Tiyu faz isso! Yomi gosta de escrever romances açucarados e vender para essas editoras medíocres que os editam e distribuem em bancas de revista.
– E você leu todos, não é mesmo? – Shuuichi perguntou quase sorrindo.
– Posso saber de que parte dessa sua cabeça acéfala surgiu essa idéia?
– Bom... – o ruivo ficou novamente sério, mas adquiriu um olhar danoso. – Isso era de se esperar do cara que guarda revistas de novela da mesinha de cabeceira, estou errado?
Por um instante Hiei cerrou os punhos, parecendo que ia explodir, mas logo deixou os braços caírem ao lado do corpo e balançou a cabeça negativamente.
– Eu só queria saber até quando vocês todos vão ficar me enchendo a paciência com essa mesma história.
– Vocês todos...?
– Por que não cuida da sua vida, raios? – Hiei gritou.
– Mas foi você quem apareceu perguntando o motivo para eu estar sentado aqui – Shuuichi respondeu pausadamente, como se falasse com uma criança pequena. Estava começando a achar que seria uma boa começar a voltar a ser o mesmo de sempre trocando alguns socos com o baixinho encrenqueiro.
– Eu sei! – disse Hiei. Cruzou os braços e deu uma olhada pelo pátio, parecendo querer certificar-se de que não havia mais ninguém ali. Quando se deu por satisfeito, abriu um sorriso misterioso. – Eu estava querendo perguntar a você sobre Touya.
– Não é nenhuma palhaçada, não é, Hiei? – Shuuichi o olhou de soslaio, descontente. – Eu já disse que o Touya é meu amigo e eu não quero ver você de brincadeira com ele.
– Quem nos ouvisse pensaria que você está defendendo a sua namorada.
– Você sabe o que é uma namorada? – o ruivo respondeu rispidamente. – Achei que ainda estivesse sonhando com a modelo da contracapa da revista para ficar pensando nesse tipo de coisa. Se continuar assim vai acabar sozinho nesse colégio, na companhia do Kaitou.
Hiei carranqueou.
– Como se você ou qualquer outro estivesse a um salto de sair desse lugar... – respondeu com a voz indiferente. Se dependesse de seu pai, provavelmente morreria ali, batendo seus recordes anuais de detenção e fazendo da vida de Genkai impossível ao invés da dos pais. Não que fizesse grande diferença para ele. – E eu gostaria muito de saber como sabe sobre a modelo na contracapa da revista. Por acaso andou olhando enquanto eu estava fora do quarto? – franziu a testa ainda mais, lançando ao ruivo um olhar acusador. – Eu espero não descobrir que foi você quem ajudou Urameshi a vasculhar as minhas coisas!
– Eu não sei sobre o Urameshi, mas eu não tenho esse tipo de fetiches estranhos – respondeu Shuuichi. – E sim, eu estou a um salto de sair daqui. Minha família sente a minha falta e virá me pegar antes que você possa falar “não é da sua maldita conta”.
– Não estou vendo sua preciosa família no portão agora – Hiei apontou reto, para as grandes de ferro fincadas bem à frente, dividindo o muro. Colocou a mão atrás da orelha. – Também não estou ouvindo o telefone tocar. – cruzou os braços e sorriu debochadamente. – Acostume-se, Kurama, ninguém vai vir aqui pegar você durante uns longos meses. Não teriam te mandado para tão longe se o quisessem por perto.
Ele terminou de falar e, sem perda de tempo, deu meia volta, caminhando de volta para dentro do colégio. Perguntava-se como a conversa tinha saído das perguntas sobre Touya que planejara fazer a Kurama para a situação do ruivo no colégio. Uma coisa era certa: o colega de quarto não desconfiava de nada sobre o suposto primo de Yusuke. Um sorriso escapou-lhe dos lábios. Ele tinha sido o único suficiente esperto para pega-la, o único problema era decidir o que faria com aquela informação.
Shuuichi acompanhou com os olhos o baixinho repetir os passos que dera para chegar até ali. Quando finalmente conseguiu pensar em alguma coisa para dizer, Hiei já tinha desaparecido pela porta rumo aos dormitórios. Por um instante as últimas palavras ditas tinham conseguido chocá-lo, mas logo as descartou como os resmungos rudes de um estudante irritado. Pelo que sabia, seu colega de quarto estava ali há muito tempo e toda aquela raiva devia ter nascido de uma boa dose de frustração. Por outro lado, ele também não estava ouvindo o telefone tocar e isso o estava preocupando novamente. Será que Hatanaka estava impedindo sua mãe de ligar? Não... Ele não seria esperto o suficiente. Talvez ele mesmo devesse esquecer o plano inicial de torturá-los com seu silêncio e telefonar. Sim, o castigo já tinha durado demais.
O garoto levantou-se e caminhou lentamente para o telefone público, o único no lugar. Ninguém ainda havia aparecido para mandá-lo para o dormitório, então aproveitaria a oportunidade. Discou o número e esperou pacientemente que o ruído de chamada começasse. Talvez naquele mesmo fim de semana estivesse livre daquele lugar.
-o-o-o-o-o-
– Pela última vez, Yusuke, não!
Botan tentou avançar rapidamente pelo corredor e ganhar distância do primo, mas o garoto a segurou quase violentamente pelo ombro, puxando-a de volta. A menina o encarou furiosamente, não precisando dizer em voz alta que algo muito ruim aconteceria se ele não a soltasse nos próximos segundos. Felizmente, para ele, Yusuke entendeu o recado. Recolheu as mãos, cruzando os braços, mas ficou no corredor impedindo a passagem.
– Não é como se eu estivesse pedindo isso, Botan – disse ele. – Você tem que fazer!
– Eu não tenho nada! Você quem tem que parar de agir como se fosse grande coisa.
– Que? – Yusuke gritou, com uma voz esganiçada. Segurou a cabeça com as mãos e girou em volta do próprio corpo, com o rosto voltado para o teto. – Ela está dizendo que não foi grande coisa. – parou e encarou a prima novamente. – Kuwabara pensa que eu sou gay!
– E daí? Você não gostava do Kuwabara, não é? Agora pode comemorar, ele não chega perto de você nem para salvar a própria vida. Sabe como é, a querida Yukina dele pode ficar sabendo...
Botan deu um sorriso malvado e já ia seguindo em frente, mas Yusuke novamente a segurou, dessa vez pelo cotovelo.
– Não está esquecendo nada não, priminha? – perguntou debochadamente.
– Do que é que você está falando agora?
– Kuwabara está por ai, livre, achando que nós somos mais que amigos. Sabe o que vai acontecer quando ele encontrar o seu amiguinho Kurama? – seus lábios esticaram-se lentamente. – Eu acho que ele não vai ter muitas dúvidas sobre as suas intenções depois de todas as vezes que você ficou devorando-o com os olhos em lugares públicos.
– Eu não fiquei devorando ninguém! – Botan olhou em volta, controlando o tom de voz, mas fuzilando o primo com o olhar. – Além disso, pense, Einstein! Kuwabara divide o dormitório conosco, se sair por ai falando que nós somos mais que amigos, os outros vão pensar que ele joga no mesmo time. Ele beijaria o Hiei antes de falar sobre isso.
– Isso não ajudaria muito com a reputação dele...
– E você vai ter que se acostumar em conviver com os olhares temerosos de Kuwabara – disse Botan. – Eu não vou fazer o que está me pedindo de jeito nenhum.
– Por que não?
– Porque não!
– Mas o que custa?
– As nossas cabeças?
Yusuke respirou fundo e apoiou as mãos na cintura, contando mentalmente até dez. Botan sabia ser extremamente cabeça dura quando estava disposta. Devia ter puxado aquilo de Ayame.
– Hiei sabe que você é uma garota – disse olhando-a de uma maneira implorante. – Se ele ainda não espalhou aos quatro ventos, não é do Kuwabara, o cara que dorme com um ursinho de pelúcia e que acha que a chegada do homem à lua é uma conspiração do governo americano para parecer que os Estados Unidos estão à frente na corrida espacial, que você vai ter medo, não é?
Botan arqueou as sobrancelhas.
– Kuwabara acha isso mesmo sobre a chegada do homem a lua?
– Botan...
– Sim, porque eu sempre desconfiei que...
– Botan!
– A garota parou de falar e ficou em silêncio, fitando os olhos ainda implorantes de Yusuke que não desviavam de seu rosto. Aquela mentira estava ficando cada vez mais difícil de manter e ainda estavam na primeira semana de aulas.
– Eu não gosto de fazer isso com você, nem com Touya, apesar dele merecer coisa pior depois de me colocar nessa roubada, mas, Yusuke... Você não acha que tem gente demais sabendo sobre mim? E não pense que eu não percebo os olhares de todos para o meu rosto como se houvesse algo fora do lugar que eles não pudessem notar a princípio. – ela puxou a aba do boné, encaixando-o melhor sobre as mechas de cabelo que soltavam-se a todo instante do rabo de cavalo. – Kuwabara é um cara legal, mas eu não gosto da idéia dele ficar sabendo.
Yusuke pareceu desolado. Abriu a boca mais de uma vez, até conseguir dizer:
– Como vamos explicar o fato dele estar dormindo fora do nosso dormitório?
– Ele saiu porque quis.
– Quem vai cuidar do urso de pelúcia idiota?
– Confie em mim, ele não vai morrer de solidão.
– E se ele falar alguma coisa perto de algum dos professores?
– Negamos na cara de pau.
– Botan!
– Yusuke!
Os dois suspiraram, batendo o pé e virando de costas um para o outro. Aquela discussão não ia levílos a lugar nenhum. Botan olhou de soslaio para o primo, subitamente pensando em algo. Se ao menos pudesse enrolílo por algum tempo...
– É importante para você que o Kuwabara saiba a verdade, não é? – perguntou.
Yusuke a fitou esperançosamente.
– Eu falo com ele, se você deixar que eu faça isso sozinha.
– Vai dizer a ele – baixou o tom de voz – que é uma garota?
– Em último caso...
– Obrigado!
Yusuke fez menção de abraçar Botan, mas ela se afastou depressa, olhando em volta rápida e ansiosamente.
– Desculpe – o garoto deu um passo para trás, com as palmas para frente em postura defensiva. – Eu sei que você está preocupada sobre Kuwabara, mas eu prometo mantê-lo de boca fechada nem que para isso tenha que enchê-lo de pancada como eu fiz com aquele cara que vivia te convidando para sair quando estávamos no ginásio.
– Você fez o que?
Botan começou a explodir, mas Yusuke na mesma hora sorriu.
– Eu estava brincado.
A garota o olhou desconfiadamente, mas deixou passar. Estava ansiosa para livrar-se do primo e ir até o pátio. Logo os corredores se encheriam de professores irritados, andando de um lado para o outro, abrindo todas as portas e certificando-se que não havia alunos perambulando fora dos dormitórios e ela não queria dar a chance de ser pega por um deles. Quanto menos chamasse atenção de qualquer forma que fosse, mais segura estaria.
– Para onde você vai? – perguntou Yusuke.
– Tomar um ar – Botan respondeu sem se virar. – Não me siga, quero um tempo para... Pensar. É isso ai, pensar no que vou dizer a Kuwabara.
– Todo o tempo que você quiser – ela o ouviu dizer antes de sair. – Vou até a biblioteca, contar os dedos das mãos, enquanto espero a boa notícia.
-o-o-o-o-o-
Shuuichi estava esperando ouvir a voz da mãe dele a qualquer momento. Fora o filho de Hatanaka quem atendera, seu novo irmão cujo nome era igual ao dele e que costumava trata-lo como se ele fosse alguma espécie de super-herói da Marvel. O garoto passara os últimos minutos contando sobre como todas as garotas do colégio estiveram preocupadas com o sumiço do maravilhoso Shuuichi Minamino e ficaram-no cercando a semana inteira, de modo a receber explicações. Bem, ao menos alguém estava se divertindo com aquela situação inútil.
– Shuuichi? – Não demorou muito e a voz de Shiori Hatanaka soou do outro lado da linha. O ruivo sorriu. Encostou o telefone na outra orelha, de modo a ficar mais confortável, e já se preparava para falar quando ela continuou: – Está tudo bem com você? Eu falei hoje cedo com Genkai e ela disse que não estava havendo problema algum. Fico feliz por isso.
Ela tinha telefonado e falado com Genkai? O garoto surpreendeu-se. Se a mãe telefonara, então por que não pedira para falar com ele?
– A senhora não queria falar comigo? – perguntou, mas sem duvidar nem por um minuto que ela o faria desconsiderar a idéia no mesmo instante.
– Você lembra o que conversamos, filho? Antes de você sair de casa? – Shiori perguntou. – Nós concordamos que seria melhor se você passasse um tempo em um lugar onde pudesse pensar sobre as suas atitudes.
– Mãe...
– Não duvide que sentimos sua falta, mas eu sei o que está tentando fazer. Shuuichi... – ela fez uma pausa. – Você terminará o semestre no colégio Meiouh.
Shuuichi sentiu uma sensação de fraqueza tomar conta de seu braço e deslizou o telefone lentamente até o ombro, apertando-o com tanta força que o sangue fugiu-lhe dos dedos. Mordeu o lábio inferior, controlando-se para não gritar. Descontrolar-se não era de sua natureza, mas ele não era ele mesmo quando o assunto era seu insuportável padrasto. Podia quase vê-lo sentado no sofá da sala, com um jornal entre as mãos e acenando afirmativamente para Shiori, incentivando-a a esquecê-lo naquele lugar.
Sentiu o ímpeto de bater o telefone e sair correndo dali, mas não faria isso, não quando estava falando com a mãe dele. Ela não tinha culpa de ter se casado com o desprezível Hatanaka pensando que poderiam voltar a ser uma família.
– Shuuichi, você está ai?
O garoto respirou fundo e voltou a segurar o telefone com firmeza.
– Eu estou aqui, mãe.
– Sinto muito, querido, eu não posso deixá-lo fazer o que quiser. Senzo é meu marido agora, você precisa aceitar isso.
– Eu preciso ir. Tenho muito que estudar – Shuuichi disse, sem querer ouvir mais.
– Você quer mandar lembranças para alguém?
– Não... Eu realmente preciso ir. Até mais.
O garoto já afastava o telefone de volta ao gancho quando ouviu a mãe despedir-se e dizer que o amava. Pelo menos ela ainda pensava nele, mas por quanto tempo? Hiei tinha razão sobre o que dissera mais cedo. Não o teriam mandado para tão longe se o quisesse por perto.
Colocou as mãos nos bolsos e saiu pisando duro em direção à porta de entrada que levava diretamente aos corredores. Tudo o que queria agora era deitar-se na cama, puxar os lençóis sobre a cabeça e fingir que era tudo um grande pesadelo. Na manhã seguinte pensaria melhor sobre as coisas. Nada como um novo dia para trazer-lhe uma nova perspectiva.
Estava andando de cabeça baixa, tentando afastar os pensamentos que o estavam perturbando, por isso não percebeu a aproximação de Botan até que ambos quase se chocaram.
– Touya... – ele disse ao ver o amigo. Hesitou em parar, talvez fosse melhor dar uma desculpa qualquer e seguir o plano que envolvia cama, lençóis e clarear os pensamentos, mas acabou ficando de qualquer maneira. Se tinha alguém com quem podia falar, esse alguém era Touya.
– Shuuichi, você está bem?
– Eu...
– Você parece que acabou de ver um fantasma...
Botan fez menção de tocar a testa do garoto ruivo, mas recuou no mesmo instante. Olhou em volta automaticamente. Desde o dia anterior, quando Kuwabara fizera aquele escândalo no quarto por causa do mal entendido quanto ao que vira, não conseguia parar de olhar para todos os lados como se a cena pudesse se repetir a qualquer momento.
– Fantasmas não existem, Touya – respondeu Shuuichi. – A não ser a de um padrasto imbecil que parece me perseguir mesmo quando estou há quilômetros de distância de sua desagradável presença.
A garota fitou os punhos cerrados do ruivo que contrastavam com seu semblante impassível e ergueu as sobrancelhas, surpresa por aquela demonstração de raiva, ainda que pequena, da parte dele.
– Quer falar sobre isso? – perguntou em voz baixa, mais como uma obrigação de amiga que com sinceridade. Ouviria os problemas de Shuuichi com toda boa vontade se ele quisesse conversar, mas aparentemente ele não gostava de falar da família e ela respeitaria isso.
Para sua surpresa, ele não tentou mudar de assunto. Pelo contrário, começou a explicar:
– Meu pai morreu quando eu tinha dez anos. Minha mãe e eu ficamos sozinhos e nos acostumamos a isso. Eu achava que vivíamos bem assim... – ele fez uma pausa e olhou para o prédio adiante, cujo último reflexo de sol começava a desaparecer. Seus olhos percorreram as janelas do primeiro andar, então voltaram-se novamente para o rosto de Botan. – Ano passado ela se casou novamente, com aquele homem que você viu no primeiro dia. Eu não fiquei exatamente apaixonado pela idéia...
– Vocês não se dão bem?
– Acho que dizer que eu me esforcei para tornar a vida dele um pouco mais difícil não seria um exagero... – disse Shuuichi com um começo de sorriso.
– Ele te trata mal?
– Não exatamente...
– A sua mãe esquece de você por causa dele?
– Minha mãe não me esqueceria por nada no mundo.
– Seu padrasto trabalha para o governo em algum emprego secreto onde tem que estar sempre usando roupas berrantes para não chamar atenção para sua verdadeira atividade de apagar todos os que descobrem sobre os duendes ladrões de guarda-chuvas que vivem em uma cidade em miniatura escondida na encosta do monte Fuji? – Botan perguntou de um fôlego só, tragando ar fundo ao terminar.
Shuuichi a fitou de uma maneira estranha.
– Touya, você não andou bebendo, não é mesmo?
– Por que todo mundo fica me perguntando isso...? – a garota resmungou. – Shuuichi... – olhou para o ruivo interrogativamente. – Se o seu padrasto é um cara legal que nunca te fez nada, nem vive de matar pessoas por causa de duendes, por que você se esforça tanto para não gostar dele?
– Eu também nunca fiz nada a ele – respondeu Shuuichi defensivamente –, mas o cara se casou com a minha mãe assim mesmo.
– Ah, então é esse o problema – disse Botan, seguramente. – Você tem ciúmes da sua mãe.
– Ciúmes?
– É isso ai. Você quer a sua mãe só para você.
Shuuichi carranqueou.
– Isso não é verdade!
– Claro que é!
– Não mesmo!
– Tudo bem – Botan cruzou os braços. – Por que você não queria que sua mãe se casasse com esse senhor?
– Ele é um idiota!
– Shuuichi...
– Ele gosta de usar roupas verde alface, não perde uma exibição da Noviça Rebelde na TV a cabo, sabe de cor todas as músicas da Cher... Talvez não todas, mas ele sabe uma música dela, aquela do episódio do Arquivo X – apontou para o boné de Yusuke que a garota ainda usava. – E ele usa amaciante com rótulo de ursinho! Que tipo de adulto faz isso?
– O que há de errado com o amaciante? Talvez ele seja melhor que o com rótulo de robôs espaciais tentando dominar o planeta!
– Você usa o tal amaciante?
– Não mude de assunto!
Shuuichi olhou para os lados, mas não viu como escapar daquela conversa. Por que mesmo ele não simplesmente continuou andando para o quarto onde poderia se deprimir sozinho ao invés de gastar alguns preciosos minutos de sua vida discutindo se o ursinho do rótulo era relevante ou não na funcionalidade do amaciante?
– O que quer que eu diga, Touya? Já listei todos os defeitos do meu padrasto, pelo menos os compreendidos pela ciência...
– E nenhum deles me deu uma pista sobre o porquê de você odiá-lo.
– A camisa cegante não é motivo suficiente?
– Não! – exclamou Botan. – Olhe nos meus olhos e diga se você permitiria que a sua mãe se casasse... Sei lá, com o Russel Crowe.
– O cara que levou para a cama toda a população feminina disposta de Bervely Hills?
– Vamos esquecer esse pequeno detalhe.
Shuuichi abriu a boca para responder, mas acabou fechando-a novamente. Parece que Touya o tinha finalmente pego.
– Se a minha mãe tivesse se casado com o Russel Crowe, eu seria um belo incomodus na vida dele...
Botan riu.
– E por que isso?
– Porque – Shuuichi respondeu emburrado. – Eu quero a minha mãe só para mim.
– Agora estamos progredindo.
Botan sorriu novamente e começou a andar de volta para dentro do colégio. O céu em pouco tempo ficaria escuro e logo o zelador apareceria, muito ansioso em pegar algum estudante desatendo no pátio de modo a ocupar-se, dando-lhe uma detenção. Olhou para Shuuichi que a seguia, agora com uma expressão bem mais animada do que aquela que levava quando o encontrara.
Decididamente não havia nada que relaxasse mais que uma boa discussão envolvendo duendes, Russel Crowe e amaciante.
-o-o-o-o-o-
Yusuke entrou na biblioteca com o rosto enterrado em uma revista de ciências naturais. A matéria falava qualquer coisa sobre espécies ameaçadas da América do Sul, mas ele não estava prestando atenção. Tudo o que queria era que seu rosto ficasse bem camuflado enquanto passava pelos outros estudantes. De uma maneira quase paranóica, a impressão que tinha era que todos estavam olhando para ele, comentando entre si a cena que Kuwabara vira na noite anterior.
Parou ao lado da prateleira que abrigava os livros de história e começou a observá-los com interesse fingido. Seus olhos fixaram-se acima dos livros, de onde tinha uma boa visão das mesas, uma em especial, ocupada por um sorridente e falante Kuwabara, um Hiei carrancudo e um Kaitou perdido atrás de uma montanha de livros.
Por um instante Yusuke pensou em sair de fininho por aonde veio, mas a imagem do colega de quarto, rindo enquanto falava sobre ele, ainda mais para o baixinho irritante, lhe veio à mente e suas pernas tomaram o caminho oposto, diretamente para a mesa em questão.
No instante em que o viu, Kuwabara silenciou como se tivesse levando um soco no estômago.
– Se eu soubesse que era só o idiota do Urameshi aparecer para o estúpido calar a boca, já o teria arrastado para cá há muito tempo – resmungou Hiei.
Yusuke resolveu ignorar o comentário e sentou-se muito sorridente na mesa, bem de frente a Kuwabara que no mesmo instante reagiu, empalidecendo e pegando um dos livros de Kaitou, abrindo-o e escondendo a metade de cima do rosto atrás dele.
– Pois é, não é? – disse o primo de Botan. – Para uma biblioteca, até que isso aqui está bem barulhento. Mas do que mesmo vocês estavam falando? Do tempo? Da bolsa? De boatos infundados sobre a minha pessoa?
– Eu sei que você acha que é assunto em todas as bibliotecas do Estado – disse Hiei. – Mas, acredite, até mesmo aquele mosquito voando sobre o que Kuwabara chama de cabeça merece mais atenção que a sua insignificância.
Yusuke suspirou. O bom humor do baixinho continuava intacto, assim como a doença por estudo de Kaitou. Botan tinha razão, Kuwabara não falara nada sobre o que vira e, se não comentara até agora, não havia motivos para achar que ele comentaria mais tarde.
– Pois é... – o garoto sorriu. – Eu acho que é melhor ir agora. Tem algumas páginas interessantes em certa revista esperando minha atenção em certo dormitório.
Ele começou a levantar-se. Kuwabara abaixou lentamente o livro que cobria seu rosto. Hiei olhou para os dois desconfiadamente e puxou Yusuke pelo braço, obrigando-o a sentar-se novamente. Na mesma hora, o colega de quarto do mesmo voltou a esconder-se por trás das páginas da edição de cálculo avançado.
– Mas o que inferno está acontecendo com vocês? – perguntou o baixinho. – E para onde pensa que vai, Urameshi? Amanhã temos aquele maldito teste de cálculo e se eu tenho que ficar aqui assistindo aos dois idiotas estudarem, você vai ter que ficar também!
– Mas ele quer ir embora... – Kuwabara incentivou esperançosamente.
– Lembra do mosquito rodeando a sua cabeça? – perguntou Hiei. E ele mesmo respondeu: – Ele queria muito que essa coisa redonda em cima do seu pescoço fizesse jus a definição para que não precisasse ficar tentando entender o que está vendo, mas pelo menos ele sabe – elevou o tom de voz – que as pessoas não têm tudo o que desejam!
– Ih... Andou levando uns gritos da velha, ô pintor de rodapé?
– E você, o que fez com o imbecil para ele estar com tanto medo de você? – Hiei retrucou irritado. – Por acaso está com o urso de pelúcia idiota dele sob ameaça de morte?
Yusuke grunhiu, mas não respondeu. Kuwabara de súbito ficou muito pálido e levantou-se atrapalhadamente, quase derrubando a cadeira onde estava sentado, e desapareceu entre as prateleiras. Raios! Era bom que Botan se explicasse de uma vez ou o garoto acabaria destruindo a escola com todo aquele nervosismo.
– É melhor você calar a boca e ir procurar o que fazer, tampinha – respondeu irritado. – Ou vou falar para o Kuwabara sobre aquela sua revista só para ter o prazer de vê-lo com um bom motivo para tirar uma da sua cara.
Hiei fuzilou Yusuke com os olhos, mas, aparentemente, a ameaça surtiu efeito. Mesmo que ninguém mais acreditasse que o rei das salas de detenção guardava aquele tipo de material em seu quarto, Kuwabara certamente não pensaria muito antes de começar a ridicularizá-lo sobre aquilo. Uma oportunidade de irritar Hiei era sempre bem vinda. E daí se a informação não fosse verdade?
O primo de Botan sorriu a reação passiva do baixinho e olhou para o colega de quarto que continuava perto das prateleiras. Kuwabara o encarou de volta por um segundo, então desviou os olhos para a porta da biblioteca e começou a voltar para o lugar que ocupava, instantes antes, na mesa, sem desviar da porta o olhar interessado. Yusuke virou-se para ver do que se tratava e viu Botan e Shuuichi caminhando na direção deles. Os dois conversavam animadamente. Ótimo... Ali estava a explicação para o porquê da prima não ter esclarecido ainda as coisas e salvado sua reputação. O ruivo inconveniente era sempre mais importante do que ele.
– Vamos là, Touya, assuma de uma vez – Shuuichi estava dizendo. – Você gosta do urso do rótulo do amaciante.
– Eu queria saber por que você criou essa fixação pelo bendito urso. Além disso, a figura no rótulo está lá de enfeite, o conteúdo é o que importa!
– Perdão – interrompeu Yusuke. – Eu posso saber por que os dois patetas estão discutindo sobre amaciante? Touya, meu caro primo, caso não esteja lembrado, você tem assuntos particulares a tratar com Kuwabara.
– Comigo não! – Kuwabara deu um salto, batendo violentamente com as pernas na mesa. Voltou a sentar-se, massageando o lugar da pancada e lançando um olhar de aviso na direção de Yusuke. – Não tenho nada particular para falar com seu primo. Vocês podem guardar os seus assuntos só para vocês.
Kuwabara acrescentou qualquer coisa sobre Yukina em voz muito baixa para ser entendida. Botan sentou-se na cadeira entre Hiei e o primo e deu um sorriso amarelo.
– Não se preocupe com nada, Kuwabara – disse com um leve tom de ironia. – Teremos muito tempo para falar sobre esse assunto quando estivermos no dormitório daqui a pouco.
O garoto estremeceu, mas não disse nada. A prima de Yusuke sorriu inocentemente.
– Hiei? – Shuuichi olhou para o baixinho interrogativamente, sentando-se na cadeira ao lado. – O que você está fazendo?
– Eu? – Hiei respondeu sem tirar os olhos de Touya. O estava encarando descaradamente, com a aparência de quem estava planejando alguma coisa. – Só estava pensando como o seu amigo Touya ai parece com uma garota...
Shuuichi olhou para Botan que abaixou a cabeça. Yusuke lançou a Hiei seu olhar mais irritado, e bateu o cotovelo de propósito na pilha de livro de Kaitou, fazendo com que a maior parte deles caísse no chão, soando no espaço amplo da biblioteca em um baque surdo.
Hiei sorriu largamente.
– Eu disse alguma coisa errada?
-o-o-o-o-o-
Yusuke entrou no quarto em silêncio, seguido por Botan. Os dois sentaram-se na cama mais próxima, um ao lado do outro, com os rostos emburrados e sentindo-se cansados demais até mesmo para brigar.
– Ele vai ficar fazendo isso o tempo todo – disse o garoto. – Hiei não vai nos deixar em paz enquanto eu não conseguir algo suficientemente constrangedor para mantê-lo de boca fechada.
Botan girou os olhos.
– Esqueça se acha que vou entrar no quarto de Hiei outra vez. Eu quase morri do coração quando fomos pegos pelo Shuuichi. Ainda não acredito que ele engoliu aquela história de que você queria ler os capítulos da novela.
– Por falar em Shuuichi... – disse Yusuke. – Posso saber por que chegou acompanhada por ele à biblioteca quando deveria estar falando com Kuwabara?
– Eu o encontrei por acaso... – Botan sorriu nervosamente. Quando o primo ia acabar com aquela paranóia sobre ela e o garoto ruivo? – Nós ficamos conversando sobre... Assuntos...
– Assuntos, claro... Devo perguntar que conversa era aquela sobre amaciante? – balançou a cabeça. – Esqueça, eu não quero saber. Agora...
Yusuke foi interrompido por batidas na porta. Antes que pudesse gritar que estava destrancada, a entrada se abriu e Tiyu apareceu, arrastando Kuwabara pela manga da camisa.
– Esse é o seu dormitório – disse o zelador, com uma voz que sugeria que já tinha passado e muito da segunda dose aquele dia. – Você não pode dormir no pátio!
Kuwabara fez cara feia ao sentir o hálito acre esbarrar contra seu rosto. Segunda dose? Ele provavelmente tinha ingerido uma garrafa inteira.
– Eu não posso ficar nesse dormitório – disse em voz baixa.
– E eu posso saber por que não?
O garoto lançou um olhar na direção de Yusuke e Botan, ponderando o que seria prudente falar, mas acabou suspirando em derrota. Se dissesse o que tinha visto na noite anterior, ele provavelmente seria incluído no mesmo barco.
– É que... – gaguejou. – Esse dormitório é assombrado.
– Pela sua cara? – grunhiu Tiyu.
– E você por um acaso já se olhou no espelho hoje?
Tiyu levantou o punho, como se fosse bater em Kuwabara, mas este se soltou rapidamente e correu na direção da própria cama, com um sorriso bobo no rosto.
– Já entendi o recado.
O zelador resmungou qualquer coisa ininteligível e saiu, batendo a porta. Quando os passos dele afastando-se desapareceram completamente, Kuwabara correu para a porta e teria saído se Yusuke não fosse mais rápido e ficasse no caminho.
– A sua discussão com o Tiyu foi bem interessante, mas agora é a nossa vez de ter uma conversinha...
Kuwabara arregalou os olhos e correu de volta para perto da própria cama. Botan, ainda sentada, apenas observando a cena, deixou escapar um risinho baixo.
– Não é nada disso que está pensando, estrupício! – gritou Yusuke. – Agora eu entendo porque Hiei vive chamando-o de imbecil, francamente... Eu só quero que você preste atenção um segundo porque a Botan tem uma coisa para te dizer.
– Yusuke! – Botan protestou. – O que é que você pensa que está fazendo?
– Se você não vai começar, eu faço a introdução para você.
– Botan? – Kuwabara franziu a testa, olhando estranhado para Yusuke. – Você chama o seu primo com nome de mulher? Isso é algum tipo de joguinho entre vocês...? Não que eu esteja curioso.
– Botan, você tem cinco minutos para convencer esse idiota de que eu e você temos um relacionamento estritamente inocente e familiar antes que eu arranque esse boné e esfregue a verdade na cara dele.
– Você não vai fazer nada disso! – Botan levantou-se e caminhou rapidamente até Yusuke. – Eu já falei que não me sinto a vontade com todo mundo sabendo você sabe o que.
– Não é todo mundo que vai ficar sabendo, é só o Kuwabara!
– E o que me diz do Hiei?
– Esse descobriu de bisbilhoteiro que é! E a culpa foi sua por ficar dando chiliques e encarando o Minamino!
– Eu não fico encarando o Shuuichi!
– Não, que é isso, eu quem fico. Não foi você que estava assumindo a possibilidade de gostar dele outro dia?
– Yusuke!
Kuwabara acompanhou a discussão olhando de um para o outro na medida em que os gritos escapavam. Aproximou-se lentamente, parando ao achar que estava a uma distância segura. Franziu o cenho, confuso, ao perguntar:
– Hiei sabia?
– O que? – perguntaram Yusuke e Botan ao mesmo tempo, parando de discutir.
– Nós ficamos no mesmo dormitório e eu juro que não desconfiei de nada.
– Botan! – gritou Yusuke. – Os cinco minutos estão acabando!
A garota segurou o boné com as duas mãos e comprimiu-o ainda mais contra a cabeça.
– Eu não vou falar nada!
– O Minamino tem que saber disso – disse Kuwabara. – Ele não pode ficar andando por ai com você, Touya, desavisado quando claramente tem segundas intenções para com dele.
Botan arrancou o boné da cabeça em questão de um segundo.
Kuwabara aproximou-se do rosto dela, estudando-o atentamente. Ao lado, Yusuke sorriu aliviado porque finalmente as horas de suplício, com o fantasma do colega de quarto pairando sobre sua cabeça, iriam acabar.
– Você parece ainda menos com um homem do que o Minamino, heim? – disse Kuwabara. Yusuke e Botan o fitaram incredulamente. – Mas, enfim, qual é o grande mistério sobre esse boné?
– Kuwabara... – disse Yusuke. – Eu ainda tinha um pouco de fé na sua inteligência... – segurou Botan pelos ombros e acrescentou em voz mais alta: – Ela não parece um homem, porque ela não é um homem!
– Ela? – repetiu Kuwabara, estudando novamente o rosto de Botan.
A garota abriu um sorriso.
– Surpresa.
Kuwabara ainda conseguiu sorrir de volta, antes de despencar com tudo de encontro ao chão.
Continua