Quebrando as Regras


 

 

Capítulo 7

 

 

Botan andava pelo corredor em direção ao quarto. Tinha deixado Kuwabara e Shuuichi no pátio, discutindo aquela história de banda para a apresentação do colégio, e saído de fininho, querendo mais que tudo pular os muros altos que cercavam o lugar e voltar para casa, onde poderia se esconder debaixo da cama e esquecer que nos limites da cidade existia um colégio Meiouh.

Alguma coisa como aquela ia acontecer cedo ou tarde, ela devia saber. Uma banda... E ela como guitarrista... As coisas não podiam ficar piores. O que aconteceria quando aparecesse no ensaio e eles percebessem que sequer sabia segurar uma guitarra? Provavelmente nada tão desastroso como o que Yusuke faria se descobrisse que ela estivera ocupada demais contemplando Shuuichi Minamino e não se dera conta do que estava autorizando Kuwabara a fazer.

Entrou no quarto olhando para o chão, sentindo-se cansada e irritada consigo mesma. Aquela farsa tinha sido divertida até então, mas pela primeira vez estava se dando conta de que se fosse descoberta as coisas ficariam mais sérias do que tinha calculado a princípio. Começou a caminhar até a cama, querendo se deitar ali até que Yusuke aparecesse para discutirem os últimos problemas, quando a voz do primo soou atrás dela, sobressaltando-a.

- Ele sabe!

Botan se virou tão rapidamente que perdeu o equilíbrio e caiu sentada na cama. Colocou a mão sobre o coração e respirou fundo, encarando o primo que a olhava de perto da porta, escorado à parede com os braços cruzados e expressão irritada.

- Yusuke! Você está querendo me matar no coração?

- Não tenho culpa se você agora deu para entrar nos lugares olhando para os pés.

Ele saiu de onde estava e caminhou rapidamente até estar sentado ao lado dela.

- Ouviu o que eu acabei de dizer?

- Ele sabe?

- Sim.

- Quem sabe o que? – Botan apertou as mãos nervosamente. “Ele sabe” não era uma afirmação que soava nada animadora em sua atual situação. – Por favor, não me diga que...

- Hiei sabe.

- Hiei sabe... Como assim, Hiei sabe? – Botan deu um salto, ficando de frente a Yusuke e olhando-o acusadoramente. – Você não andou contando nada a ele, não é? Eu já tenho problemas suficientes agora que Kuwabara me inscreveu para tocar guitarra no show da escola para ter que me preocupar com Hiei sabendo... Afinal, o que é que ele sabe?

- Kuwabara te inscreveu para tocar guitarra no show da escola? – Yusuke começou a esboçar um sorriso, mas ficou novamente sério ao ver o rosto de Botan. Ela parecia estar fazendo um grande esforço para não chutar alguma coisa ou torcer o pescoço de alguém e, no caso, ele era o único alguém dentro de seu campo de visão.

- Nós discutimos isso depois. Fale você primeiro sobre Hiei.

Yusuke suspirou e fez um gesto para que a prima voltasse a se sentar. Relutantemente, ela obedeceu.

- Eu não sei como foi que ele descobriu... Você até que não faz um garoto tão ruim, priminha... – ele deu um sorriso amarelo, fitando os polegares timidamente. – O fato é que Hiei sabe que você é uma garota...

- O que? – Botan gritou e levantou-se outra vez. – Yusuke, seu idiota – segurou a frente da camisa dele, com os olhos chamejando –, você tem cinco minutos para me convencer de que não falou para o baixinho que eu sou uma garota ou eu vou ter que descontar todas as frustrações do dia nessa sua cabeça oca e imprestável...

- Espera ai, minha filha – Yusuke se levantou e a encarou de volta. – Ele já sabia muito antes dessa detenção. Se você não ficasse por ai dando bandeira ninguém teria percebido, tudo bem? Ou por acaso vai querer me convencer que não fica o tempo todo encarando aquele ruivo delicado quando acha que ninguém está olhando?

- Ele não é delicado!

Botan empurrou Yusuke que caiu deitado na cama. O garoto girou os olhos, passando a mão pela nuca como se tivesse se machucado.

- Você gosta desse cara...

- Isso não é da sua conta!

- É da minha conta quando a minha cabeça está em jogo junto com a sua!

A garota cruzou os braços, voltando a sentar-se na cama. O primo estava certo sobre aquilo. Se fosse descoberta, não só ela estaria em problemas como ele e também Touya. Pelo segundo não via motivos para ter muita consideração, uma vez que ele praticamente empurrara o boné em sua cabeça e a jogara no ônibus para que sequer tivesse tempo de pensar a respeito da proposta de substituí-lo. No entanto, Yusuke, apesar de agir como um idiota em boa parte do tempo, a tinha ajudado até então. Não podia continuar pensando exclusivamente em si mesma.

- Eu não sei – disse Botan.

- Não sabe o que? – Yusuke perguntou. Os dois se sentaram novamente, um ao lado do outro, mas o garoto manteve uma distância segura, apenas para o caso da prima se irritar novamente.

- Não sei a resposta para sua pergunta.

- Sobre Shuuichi Minamino? – ele arqueou a sobrancelha. – Não me venha com essa, Botan. Ou você gosta ou não gosta. Não sei o que você viu naquele ruivo sem graça, mas fazer o que... Vocês garotas têm cada mania esquisita.

- Yusuke... – Botan meio sussurrou e apertou os punhos, esquecendo-se completamente do que tinha pensado, instante antes, em zelar pela integridade do primo além da dela. – Em primeiro lugar, eu nunca gostei de alguém para fazer a comparação. Em segundo, Shuuichi Minamino é tudo menos sem graça. E um ‘tudo’ excepcionalmente bom. Em terceiro, você tem que acabar com essa maldita mania de achar que todas as garotas são malucas ou coisa do gênero. Por isso nunca conseguiu que nenhuma chegasse perto de você por mais de cinco minutos sem que fosse parente ou tivesse a intenção de te bater!

- Nunca gostou de ninguém para fazer a comparação. De todas as desculpas esfarrapadas... – Yusuke balançou a cabeça e interrompeu-se. Não queria irritar Botan além do seguro. – Esqueça Shuuichi Minamino e me diga o que vamos fazer com relação à Hiei. Ele vai nos chantagear pelo resto do semestre se não encontrarmos uma forma de fazê-lo calar a boca.

- Quais as opções? – Botan suspirou. – Mata-lo e esconder o corpo na lavanderia?

- Eu adoraria fazer isso, mas acho que alguém iria acabar notando a ausência dele. O cara é baixinho, mas tem uma boca enorme.

Yusuke fechou a cara, lembrando-se da discussão na cozinha. Depois daquilo ele tinha lavado os pratos o mais rapidamente possível e deixado Hiei làainda a enxugílos com aquele sorriso idiota no rosto. Àquela hora ele ainda devia estar por làtrabalhando ou discutindo com Tiyu. Hiei não era, afinal, o tipo de pessoa que apreciava se recolher cedo ao quarto.

Hum... Aquilo lhe dava uma idéia.

- Escuta, Botan, por acaso o Minamino está no quarto dele?

- Como é que eu vou saber?

- O Kaitou deve estar na biblioteca... O Hiei com certeza está aprontando alguma atrocidade por ai... Quanto ao Minamino...

- Eu o deixei discutindo essa conversa de banda com o Kuwabara – disse Botan. – No que é que você está pensando, Yusuke?

- Vem comigo!

Yusuke sorriu, satisfeito. Sem ligar para a pergunta da prima, a puxou pelo braço para fora do quarto. Era agora que o baixinho ia entender que não podia desafiar Yusuke Urameshi sem levar o troco.

-o-o-o-o-o-

- Yusuke, você enlouqueceu?

Botan olhou em volta, para o quarto exatamente igual ao que ocupava junto ao primo e Kuwabara, apenas decorado de maneira diferente. Andou na direção de uma das camas, cuja mesinha de cabeceira ao lado estava abarrotada de livros, e imaginou ser onde Kaitou dormia. As outras duas, no lado oposto, faziam um contraste violento uma com a outra. Enquanto a primeira estava completamente revirada, os lençóis jogados de qualquer jeito, a respectiva mesinha coberta por revistas abertas e papéis de chocolate rasgados, a segunda tinha sido cuidadosamente organizada com o máximo de esmero. Hiei e Shuuichi, pensou Botan. E teve que fazer um grande esforço para resistir ao impulso de se aproximar dos pertences do ruivo e dar uma olhada bem de perto neles.

- Eu sei no que está pensando – disse Yusuke com um olhar de censura. – Mas lembre-se que são nas coisas de Hiei que nós vamos bisbilhotar.

Botan estancou imediatamente, querendo protestar, mas sabendo que faria sem nenhuma razão, e foi para perto do primo.

- Eu não gosto dessa idéia – olhou para porta, imaginando o que fariam se alguém entrasse e os pegasse com a mão na massa. – O que você espera encontrar para fazê-lo guardar o meu segredo, uma camiseta da passeata do orgulho gay?

- Seria bom demais para ser verdade.

Yusuke olhou em volta, imaginando por onde devia começar a procurar. Aproximou-se da cama, tocando os lençóis desordenados com certo desprezo. Ergueu o travesseiro e franziu o cenho quando não encontrou nada que o interessasse.

- Não fique aí parada – disse a Botan. – Me ajude a procurar!

- Mas procurar o que?

- Qualquer coisa comprometedora! O que estava pensando? Que tínhamos vindo dar um passeio?

- Isso não vai dar certo... – Botan choramingou baixinho. Só mesmo Yusuke para arrastíla até o quarto de outra pessoa em pleno dia, quando podiam ser pegos a qualquer momento. Se Hiei ou Kaitou entrassem e os pegasse remexendo no que não lhes pertencia, seria um inferno. Eles os denunciariam para Genkai e com toda razão. Por outro lado, se Shuuichi entrasse. Ah, isso não! Logo agora que eles estavam se dando tão bem... – Yusuke...!

- Se não vai ajudar, fique quieta e vigie a porta! – o rapaz ordenou, revirando a mesinha de cabeceira de Hiei e sem se dar ao trabalho de olhar para trás. – Esse cara consegue ser mais desorganizado do que eu... Que é que isso... – colocou a mão dentro da gaveta cheia de papéis amassados relutantemente. – Eu não estranharia se um rato pulasse daqui de dentro.

- Rato? Que rato? – Botan correu para perto de Yusuke. Vigiar a porta sempre era, aos olhos dela, a pior parte de qualquer missão. Se é que remexer as coisas de Hiei procurando algo incriminador pudesse ser chamado de missão.

- Ahá – gritou Yusuke, fazendo a garota desviar-se na sua direção. Ele virou-se rapidamente, com a mão escondida atrás das costas e um sorriso enorme no rosto. – Eu sabia que aquele tampinha tinha que ter um segredinho sujo. Adivinha só o que encontrei por aqui.

- O que? – Botan olhou novamente para a porta antes de voltar os olhos para Yusuke interrogativamente. Se ele tinha achado algo, ótimo. Pelo menos assim eles poderiam sair correndo dali. Quanto antes melhor.

- Ah, adivinha...

- Yusuke...

- Adivinha ou eu não falo!

Que beleza... Eles prestes a serem pegos invadindo a privacidade alheia e Yusuke resolvia brincar de adivinhação.

- Você encontrou a camiseta com o slogan da passeata do orgulho gay.

- Não precisa viajar, não é garota? Não foi tão bom, mas já dá para fazer chantagem – ele sorriu mais ainda. – Tente novamente.

- Uma fotografia dele usando uma fantasia de Barbie Malibu?

Yusuke arregalou os olhos e caiu na risada. Botan suspirou. Dali podia ouvir o barulho de vozes conversando alto e, uma vez que não escutara nada quando entraram, elas não deviam estar vindo do pátio, mas bem mais de perto. Ela abriu a boca para mandar o primo parar com aquela palhaçada, mas antes que pudesse proferir palavra, o garoto recuperou a compostura e mostrou para ela o que estivera escondendo todo aquele tempo.

- Isso é...

- É exatamente o que parece: revista de fofoca da novela das sete! E olha só, não é que os protagonistas ainda não ficarão juntos essa semana? Que enrolação...

Botan teve que se controlar para não cair no chão. Hiei... Fã de novelas. E ainda por cima Yusuke parecia muito por dentro no assunto. O que estava havendo com todos os garotos? Primeiro ela descobria que Kurama tinha medo de galinhas, agora Hiei acompanhava aquele ridículo folhetim romântico de final de noite?

- Yusuke...

- Que? – o rapaz levantou os olhos da revista. – Malditas novelas e seus capítulos intermináveis...

- Você acompanha a novela, Yusuke?

- Claro que sim.

Novamente Botan quase desmorona no chão.

- Então você quer chantagear o Hiei com uma coisa que você mesmo faz? Se você falar sobre isso por ai, ele falará sobre você e...

- Espera um minuto ai – Yusuke dobrou a revista na mão e sentou-se na cama de Kaitou, fazendo um gesto para que Botan ficasse em silêncio. – Para começo de conversa, eu só assisto isso aqui – apontou para a revista – porque qualquer coisa é melhor do que estudar. E você sabe como lá em casa só conseguimos sintonizar um canal... – ele girou os olhos e resmungou qualquer coisa sobre Atsuko ser uma mão de vaca. – Em segundo, Hiei não tem que saber sobre o que eu assisto ou deixo de assistir, tudo bem? E por último, o que é essa informação nas minhas costas perto da que eu ajudei a minha prima a se infiltrar no colégio como um homem?

Botan ia responder, mas, nesse momento, dando razão a todos os seus temores, a porta do quarto se abriu e ela se viu olhando para os olhos espantados de Shuuichi Minamino. Ele tinha entrado distraído, olhando para um papel que trazia na mão, mas no instante em que levantou o rosto e percebeu os outros dois estudantes no quarto, parecendo paralisados, um deles segurando uma das revistas de Hiei, parou no lugar onde estada e os encarou com uma expressão que era um misto de surpresa, curiosidade e censura.

Yusuke encarou de volta e exibiu um sorriso amarelo:

- Você vai acreditar se eu disser que estávamos só procurando saber em que pé está indo a novela?

-o-o-o-o-o-

Botan esperou que a terra tremesse, as paredes começassem a balançar e um buraco se abrisse sob seus pés, engolindo-a para os confins da terra, bem longe do quarto de Hiei, do sorriso bobo de Yusuke e da terrível expressão de reproche no rosto de Shuuichi. Dois minutos de completo silêncio se passaram e, quando ouviu Yusuke bater a revista contra a cama e amassa-la ainda mais entre as mãos, levantando-se com os olhos fixos na porta do quarto, ela percebeu que nenhum terremoto a salvaria daquela situação. Teria que se conformar com a sua velha conhecida falta de sorte.

- Então...? – pediu Shuuichi. – Estou esperando vocês explicarem o que fazem nesse quarto – olhou para a mesinha de cabeceira que ainda estava com a gaveta aberta, papeis soltos pendendo para fora – e revirando as coisas de Hiei sem que ele esteja presente.

Yusuke olhou para a revista, que já começava a torcer nervosamente, e a escondeu rapidamente nas costas, dando de ombros sem desfazer o sorriso tolo. Olhou em volta, levando a mão ao queixo, então se dirigiu a Botan:

- Eu sabia! Viu como te falei que esse não era o nosso quarto? Mas não, você e sua mania de achar que sempre está certo. – Olhou para Shuuichi com a expressão mais cara de pau que ele já tinha visto. – Eu disse ao meu primo idiota aqui que o colégio não ia de repente mudar a posição dos móveis e colocar revistas de novela na minha mesinha de cabeceira, mas quem disse que ele me escutou?

- Então vocês se confundiram de quarto? – perguntou o ruivo, agora de braços cruzados.

- Era exatamente isso que eu estava tentando explicar! – disse Yusuke. – Não é ótimo quando a gente tem a oportunidade de tratar com pessoas inteligentes? – O garoto caminhou pausadamente até a prima e a segurou pelo braço, empurrando-a para a porta. – Agora que o mal entendido foi esclarecido, nós podemos ir embora e...

- Podem ir parando onde estão. – Shuuichi balançou a cabeça e suspirou. Não sabia se ficava irritado ou se gargalhava da desculpa de Yusuke. De todas as explicações, aquela era provavelmente a mais esfarrapada que poderia esperar. – Eu tenho certeza que vocês não estavam fazendo um concurso de quem conseguia chegar primeiro ao quarto tateando as paredes de olhos fechados, por isso é melhor pensarem em uma resposta menos... Eu nem tenho um adjetivo para isso.

- Adjetivo... – Yusuke parou onde estava. – Ao invés de ficar me enrolando com palavras complicadas, devia se envergonhar por desconfiar de nós. Olhe nos meus olhos e diga se eu pareço estar mentindo!

- Touya?

Shuuichi ignorou aquele último pedido e olhou para o outro garoto que estava de pé próximo à porta, com a cabeça baixa e os punhos fechados ao lado do corpo. Ao ouvir seu nome ele levantou a cabeça lentamente, deixando os olhos meio cobertos pela aba do boné a mostra. Ele parecia envergonhado. O ruivo sorriu um pouco, aliviado por ao menos um dos primos não estar tentando engana-lo.

- Você não tem nada a me dizer?

Botan hesitou por um instante, então ergueu o rosto completamente e apontou para Yusuke.

- A culpa foi dele!

- Minha? – o rapaz a encarou furiosamente, parecendo esquecer por um instante a presença de Shuuichi. – Como assim minha? Por acaso você esqueceu o motivo de estarmos aqui?

- Claro que não esqueci! – respondeu Botan. – Mas desde o início eu falei que se você queria tanto saber sobre os capítulos recentes da maldita novela, devia pedir emprestado a revista diretamente a Hiei. – ela revirou os olhos dramaticamente. – Eu não sei o que eu fiz para merecer um primo como você. Se os baderneiros da nossa velha escola descobrem que você assiste aquele folhetim romântico e ainda torce pelo casal principal ia ser um massacre... Mas se o Hiei assiste também, não sei qual o problema em você dividir esse pequeno segredinho com ele!

- Eu...

Yusuke ficou olhando de Botan para Shuuichi sem saber o que dizer. Se negasse, teria que encontrar uma outra explicação, coisa que podia piorar ainda mais a situação. Por outro lado, se confirmasse, o ruivo poderia muito bem espalhar para toda a escola aquela informação e, nesse caso, não queria nem imaginar as conseqüências. Se o segredo da prima não estivesse pairando exatamente em cima de sua cabeça, ele provavelmente já teria dado com a língua nos dentes. Os Shinobi e sua apresentação em Kyoto não valiam aquele sacrifício.

- Eu assisto a novela – ele acabou por dizer. – E daí? Você tem algum problema com isso? É melhor que aqueles filmes depravados que passam no mesmo canal no final da noite...

- E que você também não perde por nada no mundo – completou Botan.

- Touya... – disse Yusuke entre dentes cerrados. – Eu sei que você está por dentro de cada passo que dou na vida... Mas será que podia calar a boca pelo menos enquanto esse ruivo metido está presente? Eu não o quero fazendo um relatório da minha vida particular para o colégio inteiro!

A última frase foi gritada e Botan cobriu os ouvidos com as mãos, olhando para o primo com hostilidade.

- Shuuichi está no quarto dele. Acho que os metidos aqui somos nós – disse, controlando-se para não gritar.

- Ah, claro, você tem que defender seu amiguinho ai. Aposto que não ia me dizer se descobrisse que ele gosta de tomar banho de sapato alto!

Botan corou furiosamente a menção do episódio do banho.

- E por que você ia querer saber uma coisa dessas? Por acaso andou mudando de time e não me disse nada?

- Não seja idiota Bo... Touya! Você sabe muito bem o que eu estou querendo dizer! O seu primo aqui, que nunca te deu nenhum motivo para reclamação, que o apóia incondicionalmente em todos os seus segredinhos sujos, está sempre em segundo lugar quando se trata de estranhos. – Yusuke assumiu um falso ar magoado. – Eu aposto que se você tivesse que atirar em um de nós dois agora mesmo, me escolheria sem nenhuma hesitação.

- Acredite, eu não precisaria ter que escolher, bastaria ter uma arma... – Botan respondeu, cerrando levemente os dentes..

Shuuichi estava olhando para os dois com um ar absolutamente perplexo. Não imaginava que a relação entre os primos fosse tão atribulada. Franziu o cenho, contrariado sobre a parte que o tocava, mas o que realmente lhe chamou a atenção foram às últimas palavras pronunciadas por Yusuke.

- Segredinhos sujos? – perguntou. – Que espécie de segredos? Sem querer me intrometer...

- De maneira alguma – disse Yusuke. – Você e Touya são amigos. Tenho certeza que ele não vai se importar de dividir com você sua vasta experiência com relação a, você sabe...

- Eu sei...? – perguntou Shuuichi, ainda mais interessado.

- É, você sabe, ele...

- Yusuke... – Botan ameaçou, apertando o ombro dele com força.

- Ora, primo, não seja acanhado. Não é vergonha nenhuma para um garoto assumir que tem uma vasta experiência no atribulado território chamado “variedade feminina”.

- Variedade...

Botan começou a repetir, mas foi interrompida por um incrédulo Shuuichi:

- O Touya?

- Ah, é. Não há uma garota em todo o nosso antigo colégio na qual esse aqui já não tenha passado a conversa.

Yusuke deu uma tapa nas costas de Botan, lançando-a para frente. Ela rapidamente tratou de voltar para onde estava, novamente apertando o ombro dele, dessa vez com um olhar tão duro que o garoto pareceu pensar um momento antes de sorrir e acrescentar:

- E depois ele reclama que eu assisto certos filmes...

Botan ia matílo. Não, antes ela o torturaria lenta e dolorosamente até fazer com que Yusuke implorasse para morrer. O que Shuuichi ia pensar? Que Touya, ela no momento, era alguma espécie de maníaco depravado ou coisa pior.

- Eu entendo... – disse Shuuichi. – Eu realmente não pensei que você fosse assim tão... popular, Touya. Deve ter algo a ver com a sua banda. Garotas ficam loucas por caras segurando uma guitarra.

Ele sorriu compreensivamente e Botan relaxou. Pelo menos aparentemente a questão dela e o primo terem entrado as escondidas no quarto dele tinha sido posta em segundo plano.

- Sim, é isso mesmo, a guitarra... – ela sorriu fracamente. – A banda faz algum sucesso no colégio e elas aparecem... Yusuke quem exagera quando fala disso! – os olhos dela disseram claramente ao primo que mesmo que o ruivo não pensasse o pior sobre ela, ele não escaparia de um castigo doloroso mais tarde.

- Bom, eu vim apenas guardar esse papel – Shuuichi mostrou a folha de inscrição que Kuwabara entregara mais cedo. – Acho melhor vocês saírem daqui antes que Kaitou ou Hiei apareçam. Acho que você não vai querer que eles o vejam com essa revista, não é mesmo, Yusuke?

- Não, claro que não. – Yusuke sorriu. – Eu vou apenas dar uma lida e devolvo mais tarde. Você sabe como é, tanto tempo aqui sem televisão...

- Mais alguns dias sem saber da novela e ele acabaria sendo o primeiro a saltar o muro e escapar para Tokyo, não é mesmo Yusuke? – Botan disse com um sorriso doce.

Yusuke fez um ruído irritado com a garganta, mas não respondeu. Os três saíram juntos para o corredor e Shuuichi despediu-se, dizendo que ia ver algo na biblioteca. Botan sorriu para ele e esperou que ele desaparecesse da ala dos dormitórios antes de agarrar o primo pela manga da camisa e arrasta-lo diretamente para o quarto.

- Calma, ai, minha filha, você vai costurar essa camisa se ela acabar estragando.

- Você não vai precisar de camisa se estiver morto.

-o-o-o-o-o-

As aulas do dia seguinte passaram em um ritmo bem mais normal. Botan não estava falando com Yusuke, uma vez que sempre que abria a boca perto dele, tudo o que conseguia era chamílo dos adjetivos menos lisonjeiros. O primo passou todo o dia mandando sorrisos debochados para Hiei que revidava da mesma maneira, cada um esperando o momento certo de mostrar as cartas e exigir algo por meio de chantagem. Felizmente, o baixinho não tinha falado com ela uma única vez. Pelo menos não teria que lidar com fosse lá o que ele pretendia fazer com a informação de que ela era uma garota tão cedo. Quanto a Shuuichi, este passou as aulas da mesma maneira como tinha estado em todas desde que chegaram no colégio: olhando para a janela sonhadoramente, os pensamentos muito bem escondidos sob sua expressão indiferente.

Botan suspirou. Yomi estava novamente dando aula de química. Quantas eles teriam no decorrer da semana? Felizmente faltavam apenas cinco minutos para a campainha soar e estarem finalmente livres para outras atividades como... Ler, estudar, fazer a pilha de lição que ela estivera acumulando desde o primeiro dia... Por que mesmo tinha aceito ir para aquele colégio?

Deitou-se sobre os braços na carteira e estava quase cochilando quando a campainha soou. Levantou-se sonolentamente, torcendo para que Yomi já tivesse saído e não a tivesse visto dormindo na aula dele. Felizmente não havia sinal do professor. Aparentemente ele estava tão feliz em livrar-se da turma como todos em se verem livres dele.

- Touya!

Botan quase derrubou todos os livros sobre a mesa no chão ao ouvir o grito de Kuwabara. Virou-se com a intenção de reclamar, mas o sorriso enorme no rosto dele e a presença de Shuuichi a seu lado a fizeram silenciar. Ela estava se sentindo mais envergonhada diante do garoto ruivo por causa das coisas que Yusuke dissera no dia anterior que quando os dois estiveram juntos no vestiário. Abaixou a cabeça, esperando que o colega de quarto dissesse o que queria. Assim que ele falasse, estava pronta para evaporar dali. Passaria uma tarde tranqüila trancada no quarto, estava decidido. Não queria correr o risco de ter mais alguma surpresa aquela semana.

- Que bom que você não saiu ainda. Está na hora do ensaio! – disse Kuwabara alegremente.

- Ensaio...? – perguntou Botan. – Que ensaio?

Ele a puxou pelo braço antes mesmo de responder. Botan pensou que devia ainda estar dormindo porque não entendia do que o garoto poderia estar falando. Eles já estavam na metade do corredor quando ela ouviu Shuuichi, que os seguia mais atrás, explicar:

- O ensaio da banda para o show de talentos. Você esqueceu, Touya?

- O que?

Botan soltou-se de Kuwabara e recuou como se ele tivesse tirado uma cobra do bolso do uniforme.

- Ensaiar para o show de talentos? Com instrumentos de verdade? Desde quando nós temos que fazer isso hoje?

- Ah, é verdade – Kuwabara bateu na própria testa. – Eu esqueci de te falar do ensaio. Ontem você e o Yusuke desapareceram... A propósito, o Yusuke resolveu se vai participar?

Com toda a confusão no quarto de Hiei ela nem mesmo tinha se lembrado de falar sobre aquilo com o primo. Olhou em volta, a procura do mesmo, mas não havia sinal de Yusuke em nenhum lugar. Na pior das hipóteses ele tinha ido procurar Hiei para falar sobre a descoberta do dia anterior. Andava confiante demais por causa de uma mísera revista de fofocas sobre novelas. Quem garantia que o baixinho ia se deixar chantagear por causa de uma coisa tão banal?

- Hoje nós só vamos nos sentar e falar sobre como faremos quanto à apresentação – disse Kuwabara. – Eu sei que você está ansioso para se exibir com a guitarra, Touya, mas precisa ser paciente.

Ele colocou a mão sobre o ombro de Botan e começou a empurríla novamente para frente. A garota expirou em alívio. Por hora estaria salva, mas e quanto aos ensaios futuros? Um dia ainda daria um soco em Touya por tê-la metido naquela enrascada. E outro em Yusuke, por sempre desaparecer quando ela precisava que ele usasse sua lábia.

Estava muito imersa em um agradável pensamento dos primos sendo atacados por galinhas furiosas e só percebeu que haviam entrado em um auditório quando já desciam à rampa na direção do palco. Botan olhou em volta, impressionada que houvesse um lugar tão grande dentro do colégio e perguntando-se como ele passara despercebido por alguém curiosa como ela. Franziu o cenho ao entender a resposta: ela andara preocupada com coisas bem menos agradáveis para pensar em explorar o prédio em seu tempo livre.

- Incrível como eu não me dei conta desse lugar antes – disse Shuuichi, como se lendo seus pensamentos. – Será que é aqui que vamos ter que nos apresentar?

Botan sentiu o estômago torcer. Lembrou-se rapidamente da última vez em que estivera em uma apresentação: tinha sido uma peça no primário sobre ecologia. Ela tinha que fazer o papel de um coelho e falar duas frases sobre como todos deviam amar a natureza. Na hora de dizê-las, porém, acabou entrando em pânico e saiu correndo do palco sem se importar com os gritos da professora ordenando que voltasse. Aquilo era perfeito. Se não bastasse não saber sequer segurar uma guitarra, ela teria que lidar com seu pânico de público.

- Touya, você está se sentindo bem? – perguntou Kuwabara. – Ficou pálido de repente...

- Devem ser essas lâmpadas florescentes...

- Ah, lá está ele!

Kuwabara gritou, apontando para frente, na direção de um homem sentado na primeira fileira de cadeiras, fazendo anotações em um bloco. Ele tinha os cabelos compridos, presos em um rabo de cavalo, e vestia uma espécie de túnica estampada com figuras meio disformes que lembravam ursos de pelúcia. Botan apertou os lábios para não rir, imaginando o que Yusuke diria se soubesse que não era o único a exibir um gosto sofisticado para roupas.

- Aquele deve ser Itsuke – disse Shuuichi. Pela expressão no rosto dele também estava se divertindo com a cena.

- Itsuke?

- Coordenador de eventos ou qualquer coisa do gênero... Kuwabara disse que ele vai acompanhar os ensaios para a apresentação. A propósito... – o ruivo sorriu. – Você faz alguma idéia de quando Yusuke pretende devolver a revista de Hiei? Ele ainda não percebeu, mas quando isso acontecer vai ser a terceira guerra.

Botan sentiu o rosto esquentar. Em parte por causa da vergonha ao lembrar-se dos acontecimentos do dia anterior, mas principalmente por raiva ao trazer de volta as palavras de Yusuke sobre a suposta popularidade de Touya.

- Eu não posso te responder... – disse sinceramente. – Acho que agora mesmo ele deve estar por ai, fazendo uso do material...

- Você quer dizer lendo os capítulos da novela?

- Alguma coisa parecida com isso...

Naquele momento apostaria que Yusuke estaria segurando a revista bem na frente do rosto de Hiei, com um sorriso dos mais debochados nos lábios, ameaçando-o de alguma maneira irritante e provocadora.

- Vocês vão ficar batendo papo ai o dia todo? – Kuwabara gritou, acenando de perto de Itsuke que agora estava de pé, observando-os de braços cruzados.

Botan e Shuuichi olharam um para o outro e desceram até eles, ambos imaginando que espécie de profissional seria aquele e o que ele os obrigaria a fazer.

- Então são esses os seus companheiros – As palavras deslizaram da boca do coordenador calma e arrastadamente, em um tom de voz baixo, mas que parecia ecoar pelo espaço em volta. Ele olhou para os dois recém-chegados com interesse, avaliando-os da cabeça aos pés. – Mas de que Olimpo você saiu? – perguntou a Shuuichi com um meio-sorriso. – Não poderia haver melhor escolha para um vocalista. Bonito, postura maravilhosa... Vamos ver depois se você canta bem.

O ruivo torceu as mãos embaraçadamente e olhou para o lado, encarando a parede como se fosse a coisa mais interessante que já tinha visto.

- Quando a você... – Itsuke olhou para Botan curiosamente. – Um pouco baixo e franzino demais para um garoto. Tem certeza que tem dezesseis anos?

- A-Absoluta – a garota respondeu, instintivamente abaixando ainda mais a cabeça coberta pelo costumeiro boné.

- Não tem importância. O que conta mesmo são as suas habilidades com a guitarra. Afinal, você será o astro do show!

- Astro? – Botan perguntou mais alto do que pretendia.

- Kuwabara não disse nada? – o coordenador olhou para o rapaz de pé mais atrás e arqueou uma sobrancelha. – A música que vocês vão tocar tem um longo solo de guitarra, meu bem. Sem você, não temos um show.

Botan prendeu a respiração, mal percebendo o sorriso encorajador de Shuuichi e o grito animado de Kuwabara. Se as coisas continuassem daquela maneira, a estadia de Touya Ichijo no colégio Meiouh seria mais curta do que ela imaginara a princípio.

 

Continua

 

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