Quebrando as Regras
Capítulo 6
Pesadelo. Tinha que ser um pesadelo. Botan olhou para o sapo esticado em cima do balcão, bem a sua frente, e deixou escapar uma exclamação de asco. Por que de todos os espécimes existentes no reino animal, o tal professor Ichigaki tinha que escolher exatamente um sapo para dissecarem como forma de começar as aulas de biologia aquele semestre?
Os estudantes estavam organizados em duplas, embora ninguém ainda tivesse aparecido para acompanhá-la na atividade. Passou os olhos pelos instrumentos que teria que usar para abrir o animal e precisou fazer um esforço enorme para não sair correndo. Mais a frente, já segurando o bisturi, Yusuke discutia com Kuwabara sobre alguma coisa sem importância, de vez em quando lhe lançando olhares debochados, como se a desafiando a permanecer firme apesar de tudo.
Infeliz! Botan estremeceu com raiva. Ele sabia muito bem sobre a aversão que ela tinha por sapos e, ao invés de ajudá-la a escapar, ficava se divertindo as suas custas.
Os dois últimos alunos da classe apareceram nesse momento, Hiei estranhamente sorridente, Shuuichi parecendo contrariado com alguma coisa.
Ao vê-los, Botan esqueceu completamente de sua resolução de não se aproximar mais do garoto ruivo e acenou para ele, torcendo para que viesse fazer dupla com ela. Se tinha alguém que não a obrigaria a encostar no bendito sapo, esse seria Shuuichi. Talvez até pudesse inventar algum trauma de infância com sapos e provavelmente ele aceitaria a explicação sem questionar, demasiado educado para ficar fazendo perguntas.
O viu acenar de volta, sorrindo educadamente, mas antes que pudesse pensar em vir em sua direção, Hiei já tinha lhe tomado à frente e sentado ao lado dela, mantendo aquele sorriso estranho com o qual entrara. Um sorriso que a fazia lembrar-se de Touya, quando estava planejando alguma coisa.
- Parece que vamos dissecar um sapo – ele disse sem olhar para ela.
- Que ótimo, não?
- Estupendo. Não sabe como senti falta disso. O tato gelado da pele do sapo, o barulho suave do bisturi cortando essa mesma pele... – olhou para ela. – Aulas de biologia não são as suas favoritas?
Botan se sentou, pensando que aquele baixinho não podia ser normal. Como alguém em sã consciência podia sentir prazer em interagir com um sapo? Ainda mais morto? Olhou novamente para Yusuke, mas ele estava virado para frente. Mesmo que tivesse a atenção dele, provavelmente ainda estava muito irritado com o episódio da noite anterior para querer ajudá-la. E tudo porque ela o puxara de volta para o quarto, impedindo-o de ver o vulto misterioso. Era um mal agradecido mesmo. Ela provavelmente salvara a vida dele e olha só como ele a tratava.
Hiei começou a contar uma história grotesca sobre uma vez que um sapo voltara à vida bem no meio da autopsia e Botan forçou-se a não escuta-lo. Desviou a atenção para os outros alunos que conversavam animadamente enquanto esperavam que o professor aparecesse, nenhum parecendo sequer estar pensando na atividade do dia. Parou em Shuuichi, sentado um pouco mais atrás, parecendo entediado enquanto, ao seu lado, Kaitou tinha o rosto enterrado no livro de texto.
Todos ficaram em silêncio de repente. Botan olhou para frente, arrumando a postura. Parado perto da lousa, um homem baixinho e sorridente escrevia o nome enquanto cantarolava alguma coisa quase inaudivelmente.
- Ah, o velho Ichigaki – disse Hiei. – Ele adora essas experiências esquisitas. Dizem que ele produz mutantes em um laboratório secreto no porão da casa dele.
Botan estremeceu.
- Por acaso há algum professor aqui que não seja louco?
- Isso depende muito do ponto de vista.
Ichigaki mandou que abrissem os livros e começou uma longa recapitulação da anatomia dos anfíbios sobre o que, segundo ele, tinham estudado no último semestre. Botan achou ainda mais grotesco que a história de Hiei, especialmente quando ele começou a descrever a aparência dos órgãos internos.
- Você está pálido, está se sentindo bem? – o garoto perguntou. E ela teve certeza de tê-lo ouvido rir um pouco no processo.
- Eu só estou cansado – respondeu. – A gente tem que acordar muito cedo por aqui...
- Você quer uma bala de limão?
- Eu... – Bala de limão? Até que viria a calhar. – Eu acho que sim.
- Então estenda a mão.
Botan obedeceu. Abriu a palma sem tirar os olhos do professor. O discurso dele estava começando a ficar distante. Tudo o que ela ouvia agora era o ruído das páginas do livro de Kaitou sendo passadas e barulho do que parecia ser alguém amassando um saco plástico.
- Aqui está – disse Hiei, depositando alguma coisa na mão da garota.
Botan estremeceu quando sentiu a coisa fria em contato com sua pele. Baixou os olhos lentamente, sabendo o que veria, mas sem querer acreditar.
As últimas coisas das quais teve consciência foram a imagem do sapo em sua mão e o sorriso burlão no rosto de Hiei.
-o-o-o-o-o-
Botan abriu os olhos lentamente, sentindo-os arderem ao entrarem em contato com a luz. Piscou duas vezes, sentindo a cabeça pesada e o mundo dando voltas ao seu redor, então olhou para frente, para o que parecia uma mancha borrada de vermelho que se movimentou ao vê-la reagir. A imagem foi ficando mais nítida, entrando lentamente em foco até que ela reconheceu a cabeça ruiva de Shuuichi Minamino, com os olhos verdes cheios de preocupação, encarando-a bem de perto.
- Touya, você está bem?
A garota tentou se levantar, apoiando-se com as mãos, mas ainda estava tonta e acabou caindo sentada, escorada ao que agora percebia ser o balcão que dividia com Hiei. Franziu a testa, tentando se lembrar o que estava fazendo ali. Imediatamente, a recordação da pele gelada do sapo em contato com sua mão retornou e ela pulou para frente, engatinhando para longe do balcão. Teria se movido até a porta se não fosse por um par de mãos rígidas que se fecharam em volta de seus pulsos e a puxaram para cima.
- O que você pensa que está fazendo, garoto? – Yusuke perguntou, olhando para ela com um misto de raiva e medo. Abaixou o tom de voz de maneira que só ela escutasse as palavras e então falou novamente: – Quer me matar de preocupação desmaiando no meio da aula de biologia?
Aquela altura o mundo tinha voltado ao normal e ela percebeu todos os alunos da sala cercando o grupo formado por ela, Yusuke, Shuuichi, Hiei e Kuwabara e deu um sorriso amarelo.
- Está tudo bem! – anunciou alegremente. – Eu não dormi muito bem ontem à noite, sabem como é – deu um riso nervoso –, e acabei cochilando, caindo... Que loucura, não?
Ninguém em volta pareceu acreditar muito naquela história e o sorriso debochado que Hiei exibia em sua direção não ajudava nada. Mas por que raios o baixinho tinha resolvido fazer aquela brincadeira de mau gosto justo com ela? Será que havia percebido sua aversão a sapos?
Os alunos estavam sussurrando uns para os outros e ela sentiu-se subitamente envergonhada. Procurou pelo apoio de Yusuke, mas ele apenas a encarava interrogativamente, com os braços cruzados, em uma postura que a fazia lembrar de Ayame quando a estava censurando. O professor não estava na lousa e como não havia nenhum responsável a vista, aproveitou para sumir dali o mais rápido possível, sequer lembrando de pegar suas coisas em cima da mesa. Em menos de um minuto estava no corredor, de cabeça baixa, e se afastado em passos acelerados.
Mal tinha andado dois metros, ouviu a voz de Shuuichi atrás dela.
- Touya, espera ai.
Ela o ignorou. Por algum motivo, sentia-se especialmente envergonhada pelo que acontecera diante dele. Mas por que sapos? Nunca fora um exemplo de garota de sorte, mas um sapo morto em sua primeira aula de biologia e um parceiro de laboratório como Hiei eram azar demais até mesmo para ela.
Começou a andar mais rápido, mas Shuuichi não demorou a alcançá-la, seguindo a seu lado.
- Não é prudente sair correndo depois que você acaba de desmaiar – disse ele. – Você não quer correr o risco de repetir a cena, não é? – Ele viu o rosto furioso de Botan e esticou as palmas na direção dela. – Perdão, não foi bem isso que eu quis dizer.
- Eu sei o que você quis dizer. E eu já disse que não desmaiei. Eu dormi. Aquela coisa que a gente faz quando está com sono!
Ela cruzou os braços, mas descruzou-os na mesma hora, ganhando mais velocidade com eles. A essa altura os dois estavam quase correndo e Botan se perguntou por que Shuuichi insistia em segui-la. Se ele queria fazê-la se sentir melhor, ia ter que se esforçar mais nos argumentos.
Os dois ficaram um instante em silêncio, então ele soltou de repente:
- Não é vergonha ter medo de sapos.
Botan estancou. Quantas pessoas na sala tinham notado sua fraqueza com relação aos detestáveis anfíbios? O ruivo parou mais a frente, sorrindo compreensivamente, esperando que ela dissesse alguma coisa.
- Eu não tenho medo de sapos... – foi a resposta balbuciada que não soou nem um pouco verdadeira.
- Então por que esperou que Hiei colocasse o sapo morto na sua mão para cochilar em pé?
- Ele colocou o sapo morto na minha mão!
Ela olhou para a mão direita e, esquecendo-se completamente do que estavam falando, disparou para o vestiário, só parando quando estava com as mãos debaixo da água, cobertas por metade do sabonete líquido disponível em cima da pia.
- Touya... – Shuuichi apareceu na porta, observando, divertido, como ela lavava as mãos freneticamente. – Você realmente odeia sapos, não é?
- Eu odeio qualquer coisa fria e lisa e que possa pular em cima de mim – ela o encarou. – Na verdade eu odeio qualquer coisa que possa pular em cima de mim e isso inclui Ichigaki quando descobrir que não estamos na sala. Por que você não está na sala, a propósito?
- Eu estava preocupado com você.
A resposta franca fez com que seu ânimo voltasse ao normal. Botan desligou a água e enxugou as mãos, respirando fundo e pensando um pouco mais claramente. E daí se todos soubessem do seu medo quase irracional de sapos e outros bichos da mesma categoria? Todo mundo tinha medo de alguma coisa. Yusuke tinha medo de galinhas. Que espécie de bad boy foge de um estúpido pássaro que nem mesmo é capaz de voar?
- Isso não foi muito masculino de minha parte, não é mesmo? – ela perguntou, escorando-se na parede, imaginando o pouco que Shuuichi entenderia sobre a implicação da pergunta.
- Sapos não são exatamente agradáveis – ele riu. – E todo mundo tem medo de alguma coisa.
- Do que você tem medo?
Shuuichi não respondeu imediatamente. Ele estava pensando na mãe e no padrasto, que naquela hora deveriam estar no trabalho enquanto seu irmão ia andando para a escola. Ele tinha medo que eles o esquecessem, que o deixassem no colégio o tempo que lhe restava de estudante e passassem a ser mais felizes com esse arranjo. A possibilidade era tão aterradora que ele estava começando a se sentir culpado por não ter dado uma chance a Hatanaka. Talvez se o tivesse pelo menos ignorado, a essa hora estaria em sua velha escola, esperando pela sua velha aula de biologia onde não havia sapos a serem dissecados no primeiro dia...
- Viu – a voz de Botan interrompeu seus pensamentos. – Você não tem medo de nenhum estúpido sapo.
- Não – concordou com ar vago –, mas eu tenho que admitir que não morro de amores por galinhas.
- Galinhas...?
- É...
Afinal, qual era o problema de todos os garotos com galinhas? Eram apenas aves bobas que davam um ótimo jantar. Imaginou Shuuichi e Yusuke correndo em disparada de um grupo de frangos gigantes e não conseguiu se controlar, começou a rir alto.
- Eu não ri de você por causa do sapo – Shuuichi protestou. – O meu medo é muito mais racional. Afinal, galinhas têm bicos afiados e elas também podem saltar em cima de você se estiverem dispostas...
O que era para ser uma explicação séria acabou soando demasiado ridículo e ele também começou a rir. Os dois ficaram assim até que a brincadeira foi perdendo a graça e o riso começou a enfraquecer.
- Você está bem mesmo, meu amigo? – perguntou o garoto ruivo, segurando o ombro de Botan.
Ela olhou para a mão dele ternamente, grata pela preocupação genuína que ouvia em sua voz. Lembrou-se das palavras de Yusuke e da própria resolução de não aproximar-se mais dele, mas tudo lhe pareceu ridículo agora. Que mal havia em ser amiga de Shuuichi? Ela não estava fazendo nada além de aceitar o zelo que ele lhe oferecia, imaginando que era com Touya Ichijo que falava. Uma ponta de culpa a assaltou, mas também a colocou de lado, ciente de que não era importante, uma vez que ele nunca saberia a verdade sobre ela.
- Você pareceu triste de repente – ele disse, retirando a mão do ombro dela.
- Estava pensando que teremos aula de biologia todas as semanas.
- Provavelmente haverá outros sapos.
Botan carranqueou.
- E provavelmente Hiei estará lá outra vez – Shuuichi acrescentou.
- E provavelmente eu estarei dando uma ou duas cenas também – Botan concluiu, desanimada.
- Você pode fazer dupla comigo da próxima vez. Estou certo que Hiei vai se divertir bastante fazendo a vida de Kaitou impossível e eu prometo que vou me comportar.
Ele sorriu e os olhos de Botan se iluminaram.
- E você vai me manter bem longe de sapos e outros bichos saltitantes?
- Palavra – Shuuichi estendeu a mão. – Desde que você me salve se Ichigaki resolver trazer galinhas uma semana dessas.
- Combinado.
Botan apertou a mão do rapaz e os dois sorriram um para o outro, encarando-se sem apartar.
- Sabe que eu acabei de lembrar uma coisa... – disse Shuuichi. – Eu segurei o sapo em cima do meu balcão com essa mão.
Ele deu de ombros e sorriu. E manteve o sorriso enquanto acompanhava com os olhos Botan voltar correndo para a pia e gastar a outra metade do sabonete disponível em cima da mão.
Decididamente era melhor não lembra-lo que o estivera segurando pelo ombro até dois minutos atrás.
-o-o-o-o-o-
- Kuwabara, você viu Yusuke por ai?
O rapaz alto levantou a cabeça do caderno, fechando-o e escondendo fosse lá o que estivera escrevendo antes de responder:
- Acho que está na biblioteca.
Botan sentou-se ao lado dele, olhando-o como se ele tivesse acabado de dizer que o mundo tinha sido invadido por marcianos ou que Brad Pitt era o novo professor de ciências naturais.
- Yusuke está na biblioteca...?
- É isso ai.
- Meu primo Yusuke?
- Você tem mais de um?
- O que divide o quarto conosco?
- Touya...
- Na biblioteca?
- Você está bem mesmo? – perguntou Kuwabara. – Tem certeza que não bateu com a cabeça quando desmaiou?
- Eu não desmaiei, eu... – Botan começou a dizer com veemência, mas desistiu no meio da frase. A quem ela estava querendo enganar? – Que seja. Agora me explique o que é que Yusuke está fazendo na biblioteca.
- Ele foi levado para lá junto com o baixinho...
- Hiei?
- Depois que você saiu correndo, Yusuke e Hiei começaram a discutir. Parece que o anão de jardim fez uma brincadeira qualquer com o sapo que deveria dissecar e o seu primo achou que você passou mal por causa disso. – Kuwabara achou graça. – Passar mal por causa de um sapo... Ainda que você fosse uma garota.
Botan não gostou nada do comentário, mas não discutiu. Se começasse a falar contra o machismo, ele acabaria desconfiando dela e isso era tudo o que menos precisava no momento.
- Yusuke brigou com Hiei por minha causa? – perguntou, sentindo-se um pouco culpada por ter achado mais cedo que ele não se importava com ela.
- Primo legal o seu. Se fosse a minha irmã, e eu falo dela porque não tenho primos, teria rido da minha cara e ainda espalhado a causa do desmaio por ai. A propósito – ele a fitou curiosamente – por que você desmaiou no meio da aula? Está doente?
- Pois é... – Botan pensou se Kuwabara se envergonharia ou riria descaradamente se ela dissesse que tinha tido um ataque exatamente porque Hiei colocara um sapo em sua mão. – Eu fico meio fraco quando não tomo café da manhã. É mal de família.
- O Urameshi...?
- Não! Família paterna.
- Ah, tudo bem...
Kuwabara voltou a pegar o caderno e já ia abri-lo quando percebeu que o colega de classe não parecia ter nenhuma intenção de sair dali tão logo. Olhou em volta, no pátio. Os estudantes estavam todos em volta, formando pequenos grupos e conversando sobre trivialidades. Ele viu quando o novato ruivo, Shuuichi Minamino, apareceu no pátio segurando um livro cuja encadernação reconheceu como da coleção de literatura americana da biblioteca. Franziu a testa. Ele tinha o cabelo comprido demais. Cedo ou tarde Genkai o chamaria para uma conversa sobre isso. Provavelmente depois que conversasse com Touya sobre aquele boné esquisito.
Touya pareceu abandonar seus pensamentos ao ver Shuuichi. Os dois tinham se tornado bons amigos em pouco tempo. Isso era bom. Talvez eles até mesmo começassem a trabalhar juntos nas aulas de biologia. Acidentes costumavam acontecer em volta de Hiei e o único aparentemente imune a eles era Kaitou.
- Você e o Minamino ficaram amigos, não é mesmo? – perguntou a Touya que respondeu com um rápido aceno de cabeça. – Ele toca alguma coisa?
- Toca?
- É, algum instrumento, sabe...? Ou talvez ele cante...
- Eu não sei... – Botan respondeu sem prestar atenção. Estava encarando Shuuichi que tinha se sentado em um banco de cimento do lado oposto do pátio, próximo ao telefone público, e que agora olhava para o aparelho com uma expressão conflituosa.
- Talvez devêssemos fazer alguma coisa juntos para o festival do colégio, sabe?
- Talvez...
Shuuichi estava passando a mão pelos cabelos, segurando o livro como se estivesse pouco ciente da existência dele. Ela o havia deixado na biblioteca e viera falar com Kuwabara, aparentemente ele não a notara ou teria pelo menos a acenado ou lhe oferecido um de seus sorrisos corteses.
- Você acha que ele aceitaria? – Kuwabara continuou perguntando. – Hiei não disse que concordava, mas também não disse que não concordava. Quanto a você... – o rapaz lançou a garota um olhar ofendido, ainda convencido de que ela não aceitara seu convite por orgulho.
- Tudo bem – disse Botan, começando a caminhar na direção de Shuuichi.
- Então posso colocar o seu nome?
Ela apenas acenou indiferentemente, concentrada no que dizer ao ruivo. Perguntaria sobre o que ele estava lendo, talvez. Sim, era uma maneira bem convincente de puxar conversa.
Atrás dela, Kuwabara sorriu amplamente e soltou um exuberante “Isso!” antes de correr para dentro do prédio.
No meio do percurso, Botan parou e olhou para trás, na direção do lugar onde estivera conversando com o colega de quarto até um segundo antes.
Com que mesmo tinha acabado de concordar?
-o-o-o-o-o-
Yusuke estava furioso. Se não fosse pelos olhos atentos do homem por trás do balcão que acompanhavam cada um de seus movimentos, ele havia muito teria avançado para cima de Hiei e partido no meio aquele sorriso debochado que ele fixara no rosto desde que começaram com a maldita detenção que os encarregara de lavar todos os pratos do café da manhã daquele dia.
Raios! E ele se controlara tanto para não fazer nenhuma bobagem... Mas quem ia adivinhar que Ichigaki voltaria para a sala justamente quando estava dando uns empurrões no baixinho?
- Por que não para de fazer essa cara de fome e continua lavando os malditos pratos? – perguntou Hiei entediadamente.
- E por que você não cala sua estúpida boca e continua a enxugá-los? – Yusuke rebateu impacientemente.
Hiei sorriu consigo mesmo. A explosão de Yusuke depois de seu suposto primo ter saído correndo da sala, certamente envergonhado demais por causa do desmaio para encarar o resto da turma, tinha sido a confirmação que estivera almejando. E, vejam só, ela viera muito mais rápido do que ele imaginara a princípio. Garotos como Urameshi não arrumavam confusão por causa de um cara que tem medo de sapos, ainda mais um primo. A reação esperada seria que ele risse da coisa toda ou no máximo seguisse Touya e desse uma boa lição nele por ser o medroso da família. Por outro lado, se seu primo não fosse ‘ele’, mas ‘ela’...
Estava na hora de mostrar todas as cartas.
- Eu não sei por que você é tão nervosinho – disse Hiei empilhando uma dezena de pratos brancos no balcão da pequena pia. – Só porque dei um sustinho naquela garota... Como se ela fosse a única mulher no mundo a ter medo de sapos.
Ele esperara que Yusuke fosse parar onde estava, rir exageradamente ou talvez até ignorar o comentário e continuar o que estava fazendo. Não estava preparado para uma reação mais barulhenta, por isso saltou de onde estava quando o garoto deu um salto, deixando cair dois copos de vidro que se espatifaram pelo chão. No momento em que se recuperou do susto, Hiei sorriu. Copos quebrados era resposta mais que suficiente.
- Mas o que vocês pensam que estão fazendo? – o homem que os vigiava, que na verdade era o zelador, gritou, fazendo menção de pular o balcão da cozinha e ir até onde estavam.
- Não foi nada, já vamos recolher isso – disse Hiei, sem demonstrar nenhum receio. Queria saber por onde andavam todos os professores para que mandassem justamente o bêbado do Tiyu para vigiá-los. Pelo tom de voz que o homem usara, já tinha sorvido pelo menos meia garrafa e o expediente ainda estava longe de acabar.
- Escuta aqui, ô Dunga – disse o zelador –, se vocês quebrarem mais alguma coisa, eu vou chamar a velha para dar um jeito nos dois pessoalmente.
- Faça isso – disse Hiei, ignorando o apelido. – Ela vai adorar saber que você já andou tomando uns tragos por hoje, apesar de ter prometido que não voltaria a beber.
- Você não pode provar!
- Não preciso provar o que se nota a quilômetros!
Hiei abaixou-se para os cacos no chão, acompanhando Yusuke que já os recolhia e os dois ficaram fora da visão do zelador. Na mesma hora, o primo de Botan parou o que estava fazendo e o puxou pela camisa.
- Mas para que tanta violência? – o baixinho perguntou sarcasticamente. – Não podemos resolver isso na base da conversa?
- Por que você falou aquilo, sua imitação de tamagoshi? – Yusuke cerrou os dentes. – É melhor ir me contando direitinho tudo o que sabe ou a próxima coisa que eu vou quebrar vai ser a sua cabeça!
- Ora, eu não tenho culpa se você me contou exatamente o que eu queria saber – disse Hiei. O aperto das mãos de Yusuke, puxando-o pela gola do uniforme afrouxou e ele se sentiu ainda mais confiante. – Quem diria... Você é assim tão pervertido a ponto de não agüentar meio ano sem mulher e trazer uma na bagagem?
- Ela é minha prima, idiota! – Yusuke quase gritou.
- O que é que vocês estão falando ai? – Tiyu gritou. – Vocês pensam que eu não tenho o que fazer? Andem logo com isso!
Hiei balançou a cabeça, fingindo choque.
- Eu não acredito que ele não perdoou nem a própria prima...
Yusuke agarrou o garoto novamente pela camisa.
- Eu não sabia que cabia tanta sujeira em uma cabeça tão pequena – resmungou entre dentes. – Eu não vou te dar explicações, seu moleque. Só vou te dizer uma coisa: fale para alguém sobre Botan e eu vou te mostrar por que me mandaram para esse lugar. E, acredite, você não vai gostar.
- Acho que você esquece que eu também estou aqui por algum motivo – respondeu Hiei. O sorriso tinha desaparecido. Aqueles apelidos zombando de sua baixa estatura estavam começando a irritar. – Sobre guardar o segredinho do seu primo – fez sinal de aspas com os dedos ao pronunciar a última palavra –, eu vou ter que pensar no seu caso.
- Vocês adormeceram ai embaixo? – Tiyu novamente. Pelo som que fazia, parecia estar querendo cumprir a promessa de vir até ali.
Sem esperar resposta de Yusuke, Hiei levantou-se, colocou os cacos de vidro que recolheu na lixeira e voltou a enxugar os pratos, assobiando despreocupadamente uma música qualquer.
Urameshi levantou-se logo em seguida, também retomando seu trabalho. Graças a presença de Tiyu, por hora o baixinho tinha escapado daquela conversa, mas eles não estariam sendo vigiados para sempre. E quando o pegasse sozinho no corredor...
- Ah, quase esqueci – disse Hiei, parando de assobiar. – Eu acho que diante de um segredo tão grande, você não vai achar muita coisa se eu aproveitar para espalhar que você usa pijamas dos Ursinhos Carinhosos.
Definitivamente, o baixinho estava morto.
-o-o-o-o-o-
Entre as aulas, a detenção e as conversas com Touya, Shuuichi tinha que admitir que acabara esquecendo-se de sua resolução de ligar para casa o máximo de oportunidades que tivesse.
Agora mesmo, estava sentado no pátio da escola, um volume de Histórias Extraordinárias entre as mãos e os olhos fixos no telefone. Se por um lado mal podia se conter para ligar para casa e ouvir a voz da mãe, por outro o fato dela não ter estado em casa, esperando por seu telefonema antes, tinha ferido seu orgulho e ele estava receoso de correr o risco de acontecer a mesma coisa novamente. Talvez fosse melhor esperar que a família o procurasse. Se permanecesse quieto e distante, eles pensariam que não se importava em estar longe deles e provavelmente viriam correndo na primeira oportunidade. Não viriam...?
- Essa carranca não combina com você.
O ruivo olhou para cima e deu com o rosto meio camuflado de Touya a encará-lo. Ele continuava com aquele boné esquisito dos X-Men, mas seus olhos apareciam por baixo da viseira. Shuuichi os contemplou brevemente, mais uma vez tendo a sensação de que eles pareciam deslocados no rosto do garoto.
- Eu estava lendo... – ele começou a responder, parando quando Botan balançou a cabeça.
- Você estava olhando para o telefone público como se quisesse chutá-lo ou qualquer coisa assim...
Shuuichi riu.
- Como assim “como se quisesse chutá-lo”? Há mesmo uma cara específica para isso?
- Yusuke faz essa cara quando está entediado – Botan explicou. – Mas geralmente ele realmente acaba chutando alguma coisa. Ele chutou o tornozelo de uma velha senhora sem querer uma vez. Foi engraçado vê-lo carrega-la até o hospital enquanto ela batia com o guarda-chuva na cabeça dele.
Os dois riram, então silenciaram. Botan pensou que ele diria o que estava errado, mas ou se tratava de uma bobagem qualquer ou ainda não eram tão amigos a ponto de falar sobre certos assuntos pessoais. Ela olhou em volta, onde os estudantes continuavam conversando em grupos. Kuwabara tinha desaparecido dentro do prédio e não havia sinal de Yusuke e Hiei.
- Eu não vou chutar os tornozelos de Genkai, se isso o preocupa – disse Shuuichi.
- Os...
- Ela é a única velha senhora por aqui...
Botan sorriu brevemente. A conversa estava soando um tanto quanto sem jeito. Shuuichi parecia imerso em seu próprio mundo enquanto ela não sabia exatamente o que pensava que estava fazendo. Olhou em volta mais uma vez, quase inconscientemente. Talvez fosse melhor afastar-se dali antes que Yusuke aparecesse, a visse conversando com o garoto ruivo e os dois brigassem novamente. Já tinha tido provas mais que suficientes que brigar com o primo enquanto estivesse naquele colégio não era uma atitude muito sábia. Da última vez acabara no banho junto com Shuuichi Minamino.
- Touya, você está bem? Seu rosto ficou vermelho de repente...
Botan deu um salto, como se tivesse levado uma espetada nas costas e riu nervosamente. Abriu a boca para se dizer que tinha que ir, mas no momento em que se virou, deu de cara com um Kuwabara muito sorridente, segurando alguns papéis.
- Ah, ainda bem que vocês estão ai – ele ergueu os papéis. Era uma série de fichas preenchidas com uma letra rabiscada. – Como você concordou em participar, Touya, eu tomei a liberdade de inscrever você, Hiei e o Minamino ai para o festival.
Ele sorriu amplamente. Botan piscou duas vezes.
- Você pode repetir? – ela pediu em uma voz quase sussurrada.
- Eu...
- Você me inscreveu também? – Shuuichi se adiantou e pegou a ficha com o nome dele das mãos de Kuwabara. – Mas eu não sei tocar nem apito...
- Mas você pode cantar e nós precisamos de um vocalista – disse Kuwabara, sem deixar morrer o sorriso. Antes que o ruivo pudesse contestar, insistiu: – E não adianta dizer que não sabe cantar. Todo mundo sabe cantar, ainda mais que teremos três meses inteiros para ensaiar.
- Kuwabara, você pode dizer quando foi que eu disse que podia me inscrever?
- Ah, foi agorinha mesmo enquanto você estava de pé, olhando para o Minamino...
- Eu não disse que podia me inscrever! – a voz dela estava soando rouca de pânico. Se tivesse realmente que tocar naquele show, eles descobririam que nunca sequer tinha pego em uma guitarra, consequentemente...
- Talvez seja divertido – Shuuichi sorriu.
As coisas não tinham como ficar piores. Se a descobrissem, ela podia dar adeus ao pescoço. Certamente Ayame não ia ser indulgente com sua pequena travessura.
- Eu trouxe uma ficha a mais, caso Urameshi queira se inscrever também – disse Kuwabara.
- Ah, ele vai sim – Botan quase conseguiu sorrir.
De uma coisa ela podia ficar segura. Não perderia a cabeça sozinha.
Continua