Quebrando as Regras
Capítulo 5
Hiei quase saiu voando da sala no instante em que Yomi apareceu na porta, mais carrancudo que de costume, e anunciou que todos os alunos, a exceção de Shuuichi Minamino e Touya Ichijo, deveriam se dirigir para o pátio imediatamente. Provavelmente eles ficariam apenas lá, esperando em silêncio até ser permitido entrarem nos dormitórios, mas qualquer coisa era melhor do que ficar ouvindo um professor chato falar por horas e horas sobre assuntos que ele não tinha o mínimo interesse em escutar.
- Andem logo, não tenho o dia todo! – Ele ouviu a voz de Yomi vindo de trás.
Virou-se e deu com a visão de um aborrecido Kurama acompanhando um cabisbaixo Touya, ambos seguindo o professor de química. Certamente estavam indo para a biblioteca, terminar com a detenção que pegaram graças a discussão que tivera com Urameshi no dia anterior. Hiei sorriu. Urameshi não parecia apenas um contador de vantagens como a maioria dos metidos a valentões que apareciam todo semestre. Mais dia menos dia teria a chance de trocar alguns socos com ele e mal podia esperar por isso.
Deu dois passos a frente, acompanhando os outros alunos para fora, quando algo chamou sua atenção e olhou para trás novamente, mais especificamente para Touya que já desaparecia dobrando o corredor atrás de Kurama.
Estranho.
Ele parecia estar evitando encarar as costas do garoto de cabelos vermelhos e seu rosto estava corado, quase como se estivesse com febre.
- Touya Ichijo... – disse Hiei pensativamente em voz alta. Havia alguma coisa de muito estranha com aquele garoto e mais cedo ou mais tarde ele ia descobrir o que era.
Pensou em ir até a biblioteca, dar uma boa olhada no comportamento de Touya, mas acabou mudando de idéia. Apesar de que não seria grande novidade para ele, a idéia de pegar uma detenção naquele dia não o animava muito e era exatamente o que aconteceria se algum professor o pegasse bisbilhotando os outros dois estudantes quando deveriam estar trabalhando isolados. Bateu com o punho na palma da outra mão, contrariado por ter que esperar. Era duro não ter nada melhor para fazer que certificar-se dos motivos para um colega de classe parecer tão deslocado no meio dos outros...
- Ei, baixinho, você vai fazer o que no show de calouros desse semestre?
Hiei deu um pulo quando Kuwabara apareceu do nada ao lado dele, perguntando com sua voz ligeiramente esganiçada e absolutamente inconsciente de qualquer outra coisa que não fosse a própria necessidade por uma resposta. Lutou contra o impulso de gritar com ele ou responder com “não é da sua maldita conta”, uma de suas frases favoritas, mas então se lembrou do detalhe de que Touya estava hospedado no mesmo dormitório que ele. Talvez se perguntasse com jeito, poderia descobrir alguma coisa.
- Eu vou fazer o de sempre – disse tentando soar neutro.
- Que eu saiba, desde que te conheço, você nunca participou do show... – Kuwabara observou, franzindo a testa em confusão.
Hiei girou os olhos, olhando para o lado, mais uma vez xingando o outro mentalmente de maneira a não deixar escapar nada pela boca.
- Pois então? Como sempre, eu não farei nada!
Os dois continuaram andando pelo corredor, dessa vez em silêncio. Vendo que Kuwabara não parecia disposto a dizer mais nada, Hiei achou que era hora de introduzir algumas perguntas na conversa.
- Você está no mesmo dormitório que aquele...
- Você toca baixo, não é mesmo? – Kuwabara o interrompeu.
Hiei contou até dez em voz baixa. Se tinha uma coisa que odiava mais do que perguntas estúpidas, era ser interrompido quando estava tentando falar.
- Eu toco baixo – respondeu sem esconder o aborrecimento. – Você vai perguntar de uma vez seja lá que estupidez está pensando para que eu possa falar ou está difícil?
Droga! Sua irmã Yukina tinha razão quando dizia que ele precisava aprender a controlar o gênio. Kuwabara estava com aquela velha conhecida veia saltando na testa, a mesma que já tinha feito com que os dois brigassem dezenas de vezes, consequentemente resultando em pelo menos metade de seu histórico de detenções.
- Eu estou querendo tocar no show de calouros – disse Kuwabara, acalmando-se de repente. – Acho que você sabe que eu toco um pouco de bateria...
Ele sabia. Yukina passara todo o verão falando do adorável Kazuma e como ele era – ou dizia ser – talentoso. Um dia talvez até chegasse a ser um músico com fama internacional. Maldita hora que os pais levaram a irmã para visitá-lo no colégio e ela conhecera aquele imbecil. Ele tinha muita sorte de nunca ter tido oportunidade de tentar algo com ela ou certamente os dois não teriam ficado só em uma ou duas pequenas trocas de socos nos corredores e detenções suaves.
- E o que é que eu tenho a ver com isso? – perguntou nada feliz.
- Eu convidei aquele garoto novo, Touya, para me acompanhar na guitarra – disse Kuwabara, indiferente a hostilidade de Hiei –, mas ele recusou...
- Ele é um cara esperto.
- Se acha bom demais para me acompanhar, só porque tem uma banda de rock que já se apresenta por ai.
- Banda de rock?
Então Touya se interessava por música e até mesmo tinha uma banda... Talvez isso explicasse as ridículas calças picotadas que ele estava usando no dia anterior. De qualquer maneira, o garoto parecia recatado demais para quem queria ser músico profissional. O vira conversar com Kuwabara e Yusuke, um pouco com Kurama, mas ninguém mais fora esses.
- Você tem certeza de que ele tem uma banda de rock?
- Ele mesmo confirmou ontem no almoço – disse Kuwabara. – Yusuke também falou a respeito e, sendo primo dele, deve saber.
- Yusuke deve saber muitas coisas sendo primo dele... – disse Hiei, pensativamente, andando mais rápido do que vinha até então e já saindo para o pátio.
Kuwabara ficou quieto, parado no corredor, apenas observando o baixinho avançar. Ele nem sequer tinha respondido se o acompanharia ou não... O que será que estava havendo com todo mundo aquele semestre?
- Você tem sorte por Yukina ser sua irmã! – gritou.
Mas Hiei já estava longe demais para tomar conhecimento.
-o-o-o-o-o-
Eu tenho que parar de pensar nisso ou vou acabar ficando maluca, Botan pensou. Então desviou os olhos do enorme volume que segurava e mirou Shuuichi que tentava organiza-los da melhor maneira possível equilibrando-se em um banquinho que não estava lá muito firme.
Aquilo estava começando a ficar ridículo. Que espécie de pervertida ela tinha se tornado para não conseguir olhar para o garoto ruivo sem lembrar-se de como ele ficava estonteante meio despido e completamente molhado? Ela já tinha visto muitos homens embaixo do chuveiro, certo? Tudo bem que pela televisão (se Yusuke e Touya debaixo de uma bica na praia não contassem), mas eles não deixavam de ser homens e ela não ficava se ruborizando como uma colegial toda vez que via os mesmos atores em um cartaz de cinema.
Mas ela era uma colegial... E, convenhamos, a maioria dos tais atores não eram tão bonitos quanto Shuuichi Minamino. E o fato dele parecer não fazer a menor idéia disso o tornava ainda mais interessante.
- Touya, você está bem mesmo? – Shuuichi perguntou, parecendo legitimamente preocupado.
- Ótimo! – Botan respondeu rapidamente. – Eu só estava... Estava...
- Pensando?
- Pensando! – ela riu nervosamente. – Pensando sobre onde poderia ter ido Sensui para perder sua grande estréia, se é que me entende.
- Eu também estava pensando nisso – Shuuichi admitiu, voltando a pegar os livros que Botan lhe passava e organiza-los por ordem alfabética como lhes ordenaram. – Hiei me contou uma história maluca sobre ele ter uns ataques – ele riu. – Acho que deve ser uma dessas bobagens que eles contam nas escolas para assustar calouros.
Botan imediatamente olhou para ele, subitamente esquecida dos pensamentos nada pudicos que estava tendo até segundos atrás.
- Ataques? Como assim ataques?
Shuuichi guardou um volume, bateu as mãos uma da outra para livrar-se de parte da poeira e apoiou o braço na estante, encarando Botan com um sorriso divertido.
- Segundo Hiei, nosso professor de história tem seis personalidades assassinas. E quando elas se manifestam, ele fica louco e sai por ai perseguindo os alunos pelos corredores.
Ele riu ao terminar de falar, mas Botan não achou nem um pouco engraçado. Aquilo era como as histórias horríveis sobre psicopatas sedentos de sangue atacando colegiais indefesas que Ayame adorava contar quando queria desencorajá-la a sair. Pelo menos ela sabia que estava segura dos malucos estando em casa, mas se havia um professor lunático bem ali dentro daquele colégio...
- Touya, eu estou ficando louco ou você está com medo?
- Que? – Botan despertou do choque e conseguiu esboçar um sorriso fraco. – Eu, com medo? De jeito nenhum. Professor psicótico... – riu – Que piada, não?
- E das boas.
Perfeito. Agora além de se preocupar com o fato de que alguém poderia descobrir que não era um garoto a qualquer momento, havia um professor maluco rondando o colégio à noite para não deixa-la dormir. As pessoas não sairiam falando sobre isso se não tivesse um fundo de verdade, não é mesmo? História para assustar calouros, Shuuichi tinha dito. Se o objetivo era esse, tinha acabado de ser alcançado com louvor.
- Quantos livros faltam? – perguntou Shuuichi.
Botan olhou para as publicações amontoadas nas quais se apoiava e sorriu.
- Menos de vinte agora.
O ruivo sorriu de volta. Quando acabassem com aquele trabalho, trataria de nunca mais chegar perto de Hiei quando este estivesse a menos de dez metros de Yusuke e vice versa. Desceu do banco um minuto, olhando para as mãos com uma expressão de desagrado.
- Não me dou bem com toda essa poeira – disse, virando o rosto. – Importa-se que eu vá banhar as mãos? Só vai levar um minuto.
- Não, claro que não – respondeu Botan, sem desviar os olhos dos livros. – Eu não vou sair daqui.
Botan esperou ouvir o som dos passos de Shuuichi afastando-se, então olhou na direção por onde ele foi e suspirou. Estava começando a dar bandeira. Depois daquele dia faria como Yusuke dissera e trataria de ficar longe dele.
Olhou para todos os livros separados que segurava e então para o banquinho. Por que esperar se ela mesma poderia organizar todos eles e terminar com aquilo antes que ele voltasse? Pegou um dos livros menores e subiu no banco cuidadosamente. O pequeno móvel de madeira balançou, mas continuou firme. Repetiu o processo com todos os outros livros até que o último estava guardado em seu devido lugar.
Botan sorriu. Era o fim da detenção. Sua primeira e, esperançosamente, última – isto é, se fosse suficientemente esperta para ficar longe das confusões de Yusuke.
Agora ela tinha apenas que esperar que Shuuichi voltasse e os dois poderiam sair dali e se juntar aos outros no pátio. Com certeza sem nenhum motivo para ficarem se encontrando, ela logo esqueceria aquelas imagens dele no banho e talvez, apenas talvez, dentro de um ou dois dias ela poderia olhar de relance para ele durante as aulas sem que seu rosto se tornasse completamente enrubescido.
- Ué, Touya, você já guardou tudo?
Botan estava tão concentrada nos próprios pensamentos que não percebeu a aproximação de Shuuichi até que ele falou. A pergunta soando de repente a assustou, fazendo-a desequilibrar. Colocou as mãos sobre a boca, contendo um grito e fechou os olhos, esperando sentir os braços baterem contra o chão, mas antes que isso acontecesse, sentiu mãos a segurarem pelos ombros, erguendo-a novamente sobre os pés.
- Cuidado, esse banco não está muito firme.
Shuuichi riu. Botan abriu os olhos e por um instante ficou a encará-lo. Era a primeira vez que olhava para o rosto dele tão de perto. Dessa vez ele não estava sério ou com um meio sorriso educado como ficava a maior parte do tempo. Seus lábios estavam entreabertos em um sorriso mais largo que o usual e os olhos verdes brilhavam, parecendo cheios de diversão.
Nesse momento ela soube por que não devia chegar perto dele novamente. Seria fácil demais começar a pensar cada vez mais em coisas que não deveria pensar. Não enquanto estivesse sendo Touya, pelo menos. E tendo o azar de ter conhecido Shuuichi naquelas circunstâncias, isso queria dizer que eles jamais teriam uma chance.
- Eu tenho que ir! – ela disse, desvencilhando-se dele rapidamente.
- Você...
- Eu estou bem – Botan se virou, rindo da maneira nervosa como sempre ria quando precisava disfarçar o desconforto. – Eu só preciso me livrar de toda essa poeira, eu... Você entende.
Ela praticamente correu para fora da biblioteca, deixando o garoto ruivo de pé no mesmo lugar, entendo pouco mais do que nada. Olhou para as próprias mãos, agora limpas, e depois para o banquinho caído no chão. Havia qualquer coisa sobre os olhos de Touya, ele pensou. Então deu de ombros, descartando o pensamento sem uma segunda avaliação. Endireitou o banco e começou ele mesmo a andar na direção do pátio.
-o-o-o-o-o-
- Droga de pijama! – resmungou Yusuke, enrolando-se com um cobertor. – Onde Atsuko comprou essa coisa, em um brechó de artigos reciclados dos ursinhos carinhosos?
Botan abafou o riso e trocou um olhar cúmplice com Kuwabara. Desde que o primo tinha aparecido com aquele conjunto cheio de estampas do leão Coração Valente, os dois estiveram fazendo um esforço sobre-humano para não começarem a gargalhar. Apenas os olhares assassinos que Yusuke distribuiu pelo quarto os intimidaram a emitir qualquer reação. Mas isso não os impedia de trocar um olhar debochado quando o garoto não estivesse olhando.
- Ah, Yusuke, você ficou tão bonito – disse Botan, feliz por quase todas as roupas de Touya serem pretas ou em outros tons escuros. Excentricidade de roqueiros, ela imaginava.
- Se você quiser, eu te empresto o meu ursinho para combinar – completou Kuwabara.
- Vocês querem calar a boca? – Yusuke gritou, fazendo os dois darem risada e puxarem os seus próprios cobertores para cima das cabeças.
Ele foi para a cama, sem parar de resmungar um só instante. Ursinhos Carinhosos... A mãe dele devia ter bebido mais que o normal no dia que comprou aquilo. Felizmente tinha que dividir o quarto com dois estudantes apenas, caso contrário, ele preferia nem pensar...
- Que mico... Quando eu encontrar Atsuko ela vai ter que me dar uma boa explicação sobre isso, ah se vai...
- Cala essa boca, Urameshi, eu estou querendo dormir! – disse Kuwabara. – Mas se estiver interessado, a proposta do ursinho ainda está de pé...
Yusuke ia gritar o que ele devia fazer com o tal urso, mas nesse instante as luzes se apagaram e ele achou melhor não continuar com aquilo. Quanto antes adormecesse, mais cedo acordaria e se livraria daquele pijama ridículo.
Fechou os olhos e não demorou a adormecer. Estava tendo um agradável sonho no qual andava pela rua de sua antiga escola e encontrava com uma gangue inteira de baderneiros desafiando-o para a luta quando sentiu que alguém o sacudia pelo ombro.
- Para, mãe, hoje é sábado, não tem escola...
Ele estava prestes a dar um soco no líder da gangue. O cara já estava tremendo, na iminência da surra... Nova sacudida.
- Mãe, eu já disse que...
- Eu não sou sua mãe! – alguém gritou em seu ouvido, assustando-o a ponto de fazê-lo saltar e cair da cama de cara no chão.
Yusuke levantou-se, agora completamente acordado, massageando o nariz e encarando Botan, sentada em sua cama, com um olhar quase tão assassino quando o que lançara quando ela mostrara a intenção de comentar seu traje de dormir.
- O que é que...
- Eu ouvi um barulho – Botan agarrou o travesseiro de Yusuke e o abraçou protetoramente.
- Barulho? – ele levantou-se, olhando em volta do quarto sem notar nada diferente sob a luz do luar que entrava pela janela. – Você andou sonhando, menina?
- Eu estou dizendo que ouvi um barulho! – ela repetiu, encolhendo-se mais.
Yusuke arqueou a sobrancelha incredulamente.
- Se está falando dos roncos do Kuwabara...
- Era o Sensui!
- Quem?
- Sensui, o professor de história!
- Espera ai – Yusuke sentou-se na cama ao lado dela. – Me explica essa história direito, Botan. Você estava sonhando com o nosso professor de história, o que faltou aula hoje? Olha, eu acho melhor você ter cuidado com esses sonhos. Ele é professor e você é menor de idade...
- Seu idiota! – Botan gritou e bateu em Yusuke com o travesseiro. Do outro lado, Kuwabara revirou-se na cama, mas não acordou. – Eu não estava sonhando com o Sensui – disse em voz baixa e irritada. – Eu ouvi um barulho vindo do corredor e hoje o Shuuichi me contou uma história durante a detenção, uma história de Hiei contou para ele.
- E você me acordou por causa de uma história? Botan, eu bem que falei que esse não era lugar para você...
- O Sensui faltou à aula de hoje, certo? – Botan perguntou, ignorando o comentário dele.
- Certo...
- Então! Ele tem seis personalidades assassinas. Ele faltou porque surtou com uma delas! E agora ele está vagando no corredor, esperando encontrar algum aluno para sumir com ele.
- Botan...
- Você tem que ir até lá! – ela disse, largando o travesseiro.
- E por que eu? – Yusuke retesou-se onde estava. Primeiro a prima o acordava no meio da noite com uma história maluca de professor psicótico, agora queria que ele fosse checar? Mas nem morto... – Se ele é um psicótico vagando pelos corredores, posso saber por que está me mandando até lá? Por acaso quer que eu seja a vítima?
- Não vou conseguir dormir sem saber o que era aquele barulho... – Botan lançou seu melhor olhar de gatinho abandonado.
- Eu não vou sair do quarto no meio da noite para investigar um louco homicida com quem você esteve sonhando!
Quando ele pegasse o tal Minamino... Graças a ele agora ficaria a noite inteira acordado tentando convencer Botan de que não havia nenhum assassino fora do quarto. Era exatamente como da vez que ficaram vendo a maratona Sexta Feira 13 durante a madrugada. Depois disso, ela não tinha dormido durante uma semana inteira e, consequentemente, ele também não, convencendo-a de que nenhum monstro ia puxá-la pelo pé enquanto estivesse dormindo.
- Por favor...
Novamente aquele olhar. Quantas coisas malucas ela já o convencera a fazer no passado simplesmente olhando-o daquele jeito? Yusuke suspirou. Seria apenas uma olhadinha rápida. Afinal, não havia nenhum professor maluco lá fora, certo?
- Tudo bem... – ele respondeu. – Mas você tem que vir junto comigo.
- Eu? – Botan gritou e Kuwabara se mexeu novamente. Yusuke a puxou para perto, cobrindo a boca dela com a mão.
- É bom você ficar quieta se não quiser que o idiota ali acorde e perceba que tem uma garota gritando no nosso quarto!
Ele a soltou e levantou-se, puxando-a pela mão na direção da porta.
- Eu não quero ir – Botan choramingou.
Yusuke fingiu estar magoado.
- Se eu posso arriscar meu pescoço diante de um professor psicótico, você poderia pelo menos me acompanhar para dar apoio moral – pousou a mão no peito dramaticamente antes de completar: – Além disso, acredito que terá muito tempo para fugir enquanto ele estiver me matando.
Botan choramingou ainda mais alto e o garoto a puxou com mais força, sem saber se devia preocupar-se com o medo irracional da prima ou rir de toda aquela história. Seis personalidades assassinas, claro... Como se ser professor já não fosse sadismo o suficiente.
Abriu a porta lentamente, de maneira a não fazer barulho e acordar Kuwabara. Colocou a cabeça para fora, mas não viu nada se mover. Havia uma janela de vidro do lado esquerdo que iluminava metade do corredor, mas todo o resto de sua extensão estava completamente escuro.
- Não há nada aqui – disse Yusuke, em meio a um bocejo. – Amanhã me lembre de te amarrar na cama para que não fique me acordando com bobagens. Isso, claro, depois que eu matar Shuuichi Minamino, Kurama, ou seja lá como o chamem, por ficar te contando histórias.
- Mas eu ouvi...
- Nada!
Yusuke empurrou Botan de volta para o quarto e já ia fechar a porta quando um som estalado de passos soou no lado de fora do quarto.
- Você ouviu? – a garota agarrou-se firmemente aos ombros dele, empurrando-o de volta para fora. – E agora, espertinho, nós dois estamos sonhando?
Yusuke franziu o cenho e atravessou a porta, bem a tempo de ver a silhueta de alguém se aproximando pelo lado escuro do corredor.
-o-o-o-o-o-
Hiei estava mortalmente entediado. Kurama há muito tinha adormecido e Kaitou continuava embaixo das cobertas, com a lanterna acesa e um livro de história, tentando devorar o conteúdo da aula que não tiveram naquele dia e também as das próximas semanas.
Ele não estava com sono, sua mente estava muito concentrada em um probleminha que o perseguira durante todo o dia, o que quer que estivesse fazendo: Touya Ichijo.
Odiava aquela sensação de que alguma coisa estava errada, sem, no entanto, entender o que podia ser. Olhou para a janela, onde os raios de luar entravam abundantemente e deixou escapar um resmungo, irritado por estar trancado naquele lugar quando havia tantos outros mais interessantes lá fora que poderia estar explorando.
Bom, talvez o novato Touya fosse servir para alguma coisa afinal. Levantou-se devagar, com cuidado para não chamar atenção dos outros, e foi até a porta. Pousou a mão na maçaneta e olhou para trás, na direção de Kaitou. Aquele CDF nunca lhe dirigira a palavra, apesar de estar ali há tanto tempo quanto ele, mas tinha uma séria desconfiança de que havia dedo dele em todas as ocasiões nas quais fora pego fora do quarto depois do horário permitido. Deu de ombros. Ele que fizesse o que quisesse. O que não era uma opção era continuar no quarto e se afogar no próprio aborrecimento.
Girou a maçaneta e saiu.
O corredor estava escuro, apenas iluminado pela luz da lua proveniente da janela no final do percurso. Olhou em volta, pensando onde poderia ir. As opções não eram muitas, uma vez que saindo dali, a possibilidade de ser ouvido e pego em flagrante cresciam. Mais duas portas adiante ficava o quarto onde dormiam Yusuke, Kuwabara e Touya. Talvez se estivessem dormindo, ele pudesse descobrir alguma coisa.
Andou silenciosamente até lá e colou o ouvido à porta bem a tempo de ouvir alguém gritar. Parecia a voz de... uma garota?
Permaneceu ali, com a curiosidade atiçada, mas tudo o que pode ouvir depois foram vozes sussurradas. Voltou para a parte escura do corredor tão silenciosamente quanto antes, pensando no que poderia significar o que acaba de ouvir. Yusuke Urameshi teria sido estúpido o suficiente a ponto de levar uma garota para o quarto quando Touya e Kuwabara estavam dormindo a menos de dois metros de distância? A não ser que a tal garota tivesse se esgueirado durante o dia e passado toda a tarde escondida embaixo da cama dele, era uma possibilidade bastante improvável.
Mas então... – Hiei cruzou os braços. – Se não havia garota, apenas Yusuke, Touya e Kuwabara, aquela voz...
- Não pode ser... – disse em voz alta.
Deu dois passos pelo corredor quando ouviu uma porta se abrir.
- Não há nada aqui. Amanhã me lembre de te amarrar na cama para que não fique me acordando com bobagens. Isso, claro, depois que eu matar Shuuichi Minamino, Kurama, ou seja lá como o chamem, por ficar te contando histórias.
- Mas eu ouvi...
- Nada!
Eram as vozes de Yusuke e da garota.
Não resistiu ao impulso de se aproximar, foi quando viu as cabeças de ambos surgirem pela porta, certamente atraídos pelo som de seus passos.
Era impressão dele ou Urameshi estava usando um pijama com estampa de ursinhos?
- É o Sensui! – gritou a garota e Yusuke foi puxado para trás, para longe da entrada.
Hiei rapidamente recuou e, antes que eles pudessem voltar, entrou no próprio quarto, encostando-se a porta pelo lado de dentro, com um sorriso malvado no rosto.
Havia mesmo uma garota no quarto de Yusuke. E a não ser que Kuwabara tivesse um sério problema de identidade, Touya não era exatamente o que parecia ser.
Mantendo o sorriso, Hiei caminhou para a cama e deitou-se, apoiando a cabeça nas palmas e cruzando as pernas em uma postura relaxada. Já estava com as pálpebras pesadas, quase se entregando ao sono quando uma informação veio à tona. Ele levantou-se de brusco e olhou desconfiadamente para a figura adormecida de Kurama.
- Ela disse Sensui?
-o-o-o-o-o-
- Você pode parar de folhear esse estúpido livro e responder a minha pergunta?
Shuuichi desviou os olhos do livro de botânica e balançou a cabeça negativamente.
- Nós temos aula de biologia em menos de dez minutos, o que queria que eu estivesse lendo? Revistas de fofoca?
Hiei abriu a boca para reclamar, mas acabou por fechá-la diante do olhar significativo que o ruivo estava lhe lançando. Mas será possível que nada escapava dos olhos dele? Trataria de guardar suas coisas em lugar mais seguro dali em diante. Não que as revistas fossem dele, mas, raios, ele não tinha que ficar dando explicações.
- Esqueça o livro! – grunhiu. Ficaria muito feliz em saber por qual motivo Kurama parecia sempre muito satisfeito em não cooperar com ele. – Eu só estou perguntando se você falou sobre Sensui para alguém ontem, depois que conversamos.
- Por quê? – Shuuichi perguntou, voltando a leitura. – Você não me disse que era segredo.
- Não é segredo... Ah, isso não tem a menor importância agora. Você contou ou não contou?
- Eu acho que contei sim. Sabe como é... Uma ameaça tão grande quanto um professor que mata alunos rebeldes deve ser do conhecimento de todos. – ele fechou o livro, fazendo uma expressão de quem tinha acabado de se lembrar de algo importante. – A propósito, Hiei, você saiu do quarto hoje de madrugada e milagrosamente conseguiu voltar vivo. Com quantas personalidades assassinas do Sensui você teve que lutar antes disso?
Mas que ótimo... Além de pouco cooperativo, Kurama estava se aproveitando da pergunta para tirar uma com a cara dele. Afinal, será que além de reparar em todos os detalhes, ele também não dormia?
O boato sobre Sensui ter outras personalidades existia, ele só tinha adicionado a parte delas serem assassinas e saciarem sua sede de sangue à noite pelos corredores. Ele estava entediado, Kurama tinha cara de bom menino... Quem podia culpá-lo por tentar assustar um estúpido calouro?
- Por que é que você não responde logo a maldita pergunta e se livra de mim? – perguntou sem disfarçar a raiva.
- E por que eu faria isso quando estou me divertindo tanto? – Shuuichi perguntou parecendo irritantemente inocente. – Além disso, somos amigos, não é mesmo, Hiei? Eu jamais tentaria me livrar de você.
- Responda a pergunta!
Os olhos de Hiei se estreitaram. Shuuichi riu.
- Se é tão importante para você saber a identidade dos detentores do segredo... – encarou Hiei com falsa surpresa. – Você não vai me matar depois que eu te der a informação, não é mesmo?
- Eu vou te matar se continuar me enrolando desse jeito!
Shuuichi olhou para o relógio. Faltavam menos de cinco minutos para a aula agora. Hiei era tão fácil de aborrecer, mas imediatamente não tinha tempo para ficar discutindo com ele.
- Eu falei ontem com Touya enquanto estávamos na detenção. Não que eu tenha achado que ele ia sair no corredor à noite para se certificar que a história era verdadeira...
- Touya – Hiei abriu um sorriso. – Claro. Eu devia ter adivinhado... – cruzou os braços e sorriu perversamente.
- No que está pensando? – Shuuichi parou de andar e perguntou, pela primeira vez parecendo sério.
- Não é da sua conta.
- É da minha conta se tem a ver com o meu amigo.
- Ah, então ele é seu amigo? – aquilo estava ficando cada vez mais interessante.
- Não o coloque em confusão, Hiei...
O tom era mais de uma ordem que de um pedido. O baixinho deu de ombros e seguiu para a sala, satisfeito demais com o que acabara de ouvir para se preocupar se Kurama o estava ameaçando a sério ou apenas dando uma de bom amigo. Ainda estava sorrindo quando o chamou sem se virar:
- É melhor você andar se não quiser perder sua preciosa aula de biologia.
Continua