Quebrando as Regras


 

 

  

Capítulo 12

 

 

 

 

 

 

– Bo... Touya, acho melhor você correr. Sua mãe está na sala de Genkai, veio te visitar. E ela não parece nada contente...

 

Botan piscou uma, duas, três vezes. A informação estava demorando a chegar ao cérebro. A mãe de quem estava na sala de Genkai? A mãe dela não podia ser. Àquela hora ela devia estar tomando sol em algum lugar do ocidente com seu novo namorado americano. Kuwabara a chamara de Bo... Touya? A mãe de Touya estava na sala da diretora? E como assim não parecia contente? Ela tinha descoberto? Ela tinha descoberto! Ela não podia ter descoberto...

 

– Touya – Shuuichi aproximou-se, sorridente, e tocou o ombro de Botan. – Sua mãe veio ver você, isso não é ótimo?

 

A garota não soube o que responder. Olhou para o colega de quarto de maneira implorante, depois para o ruivo, que agora tinha uma expressão levemente perturbada no rosto. Situação irônica aquela: Shuuichi queria estar com a família e eles não apareciam para vê-lo, ela tudo o que menos precisava era uma visita e, vejam só, ali estava sua querida tia querendo ver o filho só para complicar ainda mais sua situação.

 

– Eu acho que é melhor nos vermos depois – disse ela ao amigo ruivo. – Minha mãe odeia esperar. Deve ser por isso que não parece contente...

 

– Ou então Genkai telefonou para ela e contou que você ficou na detenção no primeiro dia de aula – disse Kuwabara.

 

Sim! Tinha que ter sido por causa da estúpida detenção. E eis que ela tinha mais um motivo para querer matar Yusuke. Estava tendo muitos impulsos assassinos com relação ao primo nos últimos dias. Ele que não ousasse negar ajuda naquele momento difícil ou... Botan suspirou derrotadamente. A quem estava tentando enganar? Era definitivamente o fim. Como continuar fingindo ser o Touya quando a mãe dele estava no colégio para vê-lo? Ela estava completamente perdida.

 

– Touya, é melhor nós irmos até o quarto – Kuwabara a puxou pelo braço.

 

– Quarto? – Botan franziu o cenho, sem saber se seguia o garoto ou ficava simplesmente ali parada, esperando que as coisas acontecessem. – Eu pensei que a minha mãe estivesse na diretoria...

 

– Mas você esqueceu aquilo no quarto...

 

Kuwabara começou a torcer a boca na direção do prédio, olhando para Shuuichi de soslaio. O ruivo devolveu um olhar divertido, encarando Botan interrogativamente.

 

– Há alguma coisa errada sobre a sua mãe, Touya? – ele perguntou. – Parece que o Kuwabara não quer que eu a veja. Ou por acaso vocês estão planejando algo que eu não posso saber?

 

– Planejando? – a garota perguntou. – Não estamos planejando nada. O que eu poderia estar planejando quando tenho que ver a minha mãe e Genkai ao mesmo tempo, ambas certamente furiosas com o meu comportamento...?

 

Ela olhou para os pés, tristemente, e Shuuichi a tocou novamente no ombro, parecendo compadecido.

 

– Não se preocupe, Touya. Você só tem que explicar que a culpa foi do Yusuke e ela não terá do que reclamar. – ele riu. – Acho melhor vocês irem. Vou andar por ai mais um tempo, procurando o que você já sabe. Mais tarde espero que haja tempo de você me apresentar sua mãe.

 

Botan exibiu um sorriso amarelo que manteve até o momento em que o ruivo saiu de visão. Conhecer a mãe do Touya? A tia era uma boa pessoa a maior parte do tempo, mas quando se tratava do filho, das encrencas nas quais ele costumava se meter e principalmente dos Shinobi, ela se convertia em uma verdadeira fera. Olhou em pânico na direção de Kuwabara que ainda a segurava pelo pulso.

 

– Diga que está tirando uma com a minha cara.

 

– Eu estou tirando uma com a sua cara.

 

– Verdade? – Botan segurou as mãos de Kuwabara esperançosamente.

 

– Não, mas foi o que você pediu que eu dissesse...

 

A prima de Yusuke soltou um grunhido irritado e afastou-se, andando em círculos pelo pátio. Cruzou os braços apenas para descruzá-los no mesmo instante, repetindo o gesto uma e outra vez. Olhou para o prédio. Felizmente a janela da diretoria se abria para o outro lado, mas e daí? Se bem conhecia a mãe de Touya ela não iria embora enquanto não lhe desse uma bronca.

 

– Você vai ficar rodando ai o dia todo? – o garoto perguntou. – Eu vim aqui para te levar para o quarto.

 

Botan riu nervosamente.

 

– Diga isso perto de Yusuke e você vai levar uma surra que não esquecerá tão cedo.

 

– Depois eu tenho a mente depravada... Não é nada disso! – Kuwabara protestou. – Acontece que o seu primo e o salva-vidas de aquário do Hiei estavam na frente da sala de Genkai quando ela me pediu que a procurasse. Yusuke me disse que eu devia te levar para o quarto e dar um jeito de escondê-la, nem que fosse debaixo da cama. A gente inventa alguma coisa para a mãe do Touya, mas se quiser se manter nesse colégio, ela não pode ver você.

 

– Ela não vai sair daqui enquanto não falar comigo... – Botan choramingou. – Com o Touya. Comigo! Ah, você entendeu.

 

– Não seja pessimista!

 

Ele a puxou novamente pelo braço, falando o tempo todo sobre como daria tudo certo se ela confiasse nele. Confiar em Kuwabara... Tudo bem que ela não tinha lá muitas opções no momento, mas o que ele podia fazer contra a diretora e a mãe do primo? Tranca-las no armário da cozinha? Nada que ele pudesse fazer a salvaria de alguém que sabia exatamente como Touya se parecia.

 

– Kuwabara, eu sei que a sua intenção é boa, mas...

 

– Nada de “mas”!

 

O garoto continuou puxando-a até que entraram no dormitório. O lugar estava vazio. Provavelmente àquela hora Yusuke estava ainda começando com a detenção que pegara por faltar à prova de Yomi. Hora perfeita para isso. Justo quando ela mais precisava.

 

– Muito bem – disse Kuwabara. Sorriu e friccionou as mãos. – Tire a roupa.

 

Botan acertou uma tapa bem na face esquerda do colega de dormitório.

 

– Pervertido! O que está pensando? Só porque eu estou nervosa e em um momento de instabilidade emocional não quer dizer que eu vá ceder a esse tipo de depravação. – gritou, irritada. – Por que não vai dar ordens a sua avó?

 

– Mas do que é que você está falando? – Kuwabara massageou o rosto no local atingido, franzindo a testa e parecendo magoado. – Eu quis dizer para você colocar o seu pijama! Sua mãe não vai poder vir te ver se estiver com uma febre de quarenta graus por causa de alguma doença muito contagiosa! Eu não sou nenhum tarado não, heim? Olha lá...

 

– Pijama? – Botan repetiu em voz baixa. Febre de quarenta graus? Doença contagiosa? Uma idéia estúpida daqueles só podia ter vindo de Kuwabara.

 

– Quarenta graus é um exagero!

 

– Modo de falar... Foi febre, nos serve...

 

A garota pensou nas opções por um instante. Se a mentira fosse bem planejada, talvez o plano desse certo. E quem sabe ela ganharia até uns dias de folga das aulas de bônus?

 

– É uma possibilidade...

 

Eu aqui, tentando ajudar, e você me bate! – Kuwabara reclamou, ainda parecendo chateado.

 

– Me manda tirar a roupa, o que queria que eu pensasse? Você é um garoto de dezesseis anos transbordado de hormônios!

 

– Eu? – o garoto apontou para si mesmo, indignadamente. – Essa sua mente é que é um perigo! Mas, afinal, o que se pode esperar dos parentes do Urameshi, não é mesmo?

 

– Saia daqui! – Botan apontou para a porta.

 

– Está me expulsando do meu próprio quarto?

 

– Como você espera que eu me troque com você me olhando?

 

Os dois se fitaram por um instante antes que Kuwabara sorrisse e atendesse ao pedido de Botan. A garota esperou que ele saísse e correu para o armário, espalhando tudo enquanto procurava pelo pijama. Assim que o encontrou, trocou-se o mais depressa que pode e abriu a porta novamente. O garoto a estava esperando escorado na parede e olhando para todos os lados de maneira exagerada.

 

– Vem logo!

 

Botan segurou Kuwabara pela manga da camisa e o puxou para dentro do quarto. Colocou as mãos nos quadris, esperando que ele dissesse qual era o próximo passo. Quando o silêncio entre ambos permaneceu, perguntou impacientemente:

 

– E agora? Eu me deito e finjo que estou morrendo ou algo assim? – cruzou os braços. – Se Genkai achar que preciso de um médico, podem me descobrir!

 

– Não vão te descobrir. – respondeu Kuwabara. – Só tem que dizer que está com muita dor de cabeça e precisa apenas de um pouco de repouso. – apontou para a cama. – Deite lá e cubra-se o máximo que puder. Dor de cabeça exige ausência de luminosidade. A mãe do Touya vai entender isso, não acha?

 

Ele piscou confiantemente, mas Botan não se sentiu melhor. Se estivesse em seu juízo perfeito sequer cogitaria a possibilidade da mãe de Touya cair naquela mentira. Juízo perfeito... Pois sim. Para começar só poderia estar completamente demente quando aceitou se disfarçar de garoto e freqüentar aquele colégio. Novamente seu velho receio do que Ayame e Koenma fariam se a descobrissem a assaltou. Bom, pelo menos mais tarde ela poderia tranqüilizar-se, pensando que tinha feito de tudo para evitar ser descoberta.

 

Desfez a cama e deitou-se, puxando o lençol até o pescoço. Tudo o que podia fazer agora era pagar para ver.

 

-o-o-o-o-o-

 

Yusuke soltou a respiração e tossiu brevemente. Ao ver os três pares de olhos na sala virarem em sua direção, retomou o porte reto e expressão séria, torcendo para que nem Genkai nem a tia lhe fizessem perguntas e, mais importante, para que Hiei não soltasse nenhum comentário maldoso.

 

Aquilo era tudo o que faltava para tornar sua vida perfeita. Uma visita da mãe de Touya. Como se já não tivessem problemas suficientes por causa da banda, das pessoas que sabiam de tudo, daquela idéia de piscina que o Minamino tinha tirado sabe-se lá de onde e provavelmente por causa de alguma outra coisa que Botan não estava lhe contando, mas ele estava resolvido a descobrir. Isso se tudo não acabasse naquele dia mesmo. Nesse caso tudo o que podia fazer era pedir aos céus que a mãe escolhesse um reformatório que tivesse pelo menos televisão aos domingos.

 

– Então acho que nos resta apenas leva-la para falar com ele, senhora Ichijo – dizia Genkai. – Estou certa de que seu filho entendeu as nossas normas. Depois do ocorrido relatado ele tem tido um comportamente impecável.

 

“Comportamente impecável”, Yusuke sorriu de lado. Se elas soubessem...

 

– Pudera – disse a mãe de Touya com um tom de voz ligeiramente rouco que dava a impressão de que ela estivera gritando por muito tempo mais cedo. – Se ele tivesse ido parar na detenção duas vezes na primeira semana seria caso para reformatório!

 

Genkai olhou de esgoela para os dois garotos parados mais atrás, mas nada disse. Voltou à atenção novamente para a mulher sentada a frente. Kokou Ichijo não era o que ela costumava esperar de uma mãe. Era alta e magra, os cabelos louros arrumados em um penteado extravagante que a muito saíra do lugar. As roupas estavam amarrotadas e podia sentir o hálito de bebida meio disfarçado por um odor fraco de hortelã. Ela parecia mais ter saído de uma boate que do trabalho, como dissera ao chegar. As impressões da diretora não foram boas. Com uma mãe como aquela, surpreendia-se que Touya não fosse um desses roqueiros tatuados que fogem da escola no meio do colegial para seguir algum plano maluco de sucesso.

 

– Prefere conversar agora com o seu filho? – perguntou a diretora.

 

– Agora? – Kokou levantou-se desajeitadamente. – Não vai me falar das péssimas notas dele ou dos comentários sarcásticos durante as aulas?

 

– Para falar a verdade ele tem se saído um aluno excelente.

 

A mulher loura deu um passo em falso, quase desequilibrando e caindo para trás. Seu rosto refletia um olhar chocado, como se Genkai tivesse acabado de dizer que tinha marcado casamento com o Orlando Bloom.

 

– O Touya? Ótimo aluno? – repetiu incredulamente.

 

A diretora moveu-se desconfortavelmente na cadeira, incomodada pelo tom informal da outra. Na posição que ocupava estava acostumada a ser tratada com o máximo respeito e nunca nenhum pai de aluno tinha duvidado de suas palavras tão descaradamente. Limitou-se a balançar a cabeça.

 

– Meu filho Touya? Tem certeza de que não o está confundindo com outra pessoa? – quando viu que Genkai continuava firme, Kokou sorriu e perguntou: – Então é verdade que vocês tratam dos garotos nesse lugar na base da pancada, não é?

 

Foi a vez de a velha senhora parecer chocada e Hiei e Yusuke, que observavam a discussão um pouco mais atrás, abafaram um riso. Mais para livrar-se da mulher que qualquer outra coisa, Genkai apressou-se em levantar-se e estender a mão para a porta.

 

– Se me permite, eu mesma a levarei até o pátio. Touya deve estar ainda lá conversando com o novo amigo, Shuuichi Minamino. Outro excelente aluno, se me permite dizer.

 

Kokou balançou a cabeça novamente com o mesmo sorriso incrédulo de antes.

 

– Boas notas, sem comentários sarcásticos nas aulas... E até fez amizade com um CDF! Vou dizer a todos os meus amigos para mandarem seus filhos para cá. A lavagem cerebral que vocês fazem é excelente. – Virou-se para Yusuke. – Só não funcionou com você, não é mesmo, querido? Vou ter que dizer a Atsuko para não parar de pensar na possibilidade daquela outra escola.

 

O garoto girou os olhos, sabendo muito bem o que ela queria dizer: não podia perder a oportunidade de se gabar que o filho agora tinha entrado nos eixos. Ah, se ela soubesse... Teve que morder a língua para não dar uma gargalhada e deixar toda a verdade escapar. Olhou para Genkai que tinha uma expressão de puro sofrimento estampada no rosto e respirou fundo. Era agora que faria sua parte, depois só podia torcer para Kuwabara ter conseguido convencer Botan de que tinham uma chance de escapar de mais aquela. A garota conseguia ser uma tremenda cabeça dura quando estava disposta.

 

– Velh... Senhora Genkai? – chamou. Quando viu as duas mulheres pararem e olharem para ele prosseguiu: – Não vai encontrar o Touya no pátio. Ele está no quarto, coitado, com uma febre de quarenta graus...

 

– Yusuke, não minta! – a diretora o interrompeu. – Tiyu disse que viu Touya no pátio quando os trazia para cá.

 

– E quem é que vai acreditar no que diz o bêbado do Tiyu? Ele pode ter visto até mesmo um poste e confundido com o meu primo. Touya está de cama desde que saiu das aulas. Isso eu posso garantir.

 

– Bêbado? – Kokou fitou Genkai acusadoramente. A velha senhora apenas olhou para o lado, o rosto corado. Yusuke especulou se ela estaria envergonhada por um dos alunos estar doente sem que sequer estivesse sabendo ou pela menção do vício de Tiyu. – Touya doente? – a mulher loura carranqueou em um esforço mental para decidir qual das informações era mais importante. Voltou-se novamente para o sobrinho. – Você disse quarenta graus de febre?

 

O súbito alarme na voz dela fez com que o garoto se apressasse em se retratar.

 

– Dor de cabeça... Ele estava um pouquinho quente, mas podia ser o calor. Sabe como o clima fica abafado essa época do ano. O que eu sei sobre doenças afinal?

 

– Acho melhor darmos uma olhada no seu primo – disse Genkai. Ainda não estava completamente convencida.

 

Yusuke tentou dizer alguma coisa a mais, mas a essa altura as duas mulheres já saiam da sala e começavam a seguir pelo corredor, rumo aos dormitórios. Se ao menos pudesse ir com elas, mas certamente não o deixariam sair da próxima sala. Olhou para o lado, onde um Hiei mudo, mas parecendo estar se divertindo muito com a cena, o observava.

 

– Que é que está olhando, peão de camundongo? Vai procurar tua turma, vai...

 

-o-o-o-o-o-

 

Aquilo não ia dar certo. Definitivamente não. Genkai não era idiota. A mãe de Touya podia ser um pouco extravagante, mas não seria estúpida a ponto de não perceber que estava vendo a sobrinha ao invés do filho, não? A não ser que tivesse bebido antes de ir até ali... Quais seriam as chances de um milagre como esse acontecer? Botan suspirou. Com a sorte dela, provavelmente nenhuma.

 

Estava deitada na cama agora, com as cobertas puxadas sobre a cabeça e ouvindo vagamente os barulhos dos passos de Kuwabara que andava de um lado para o outro do lado de fora, esperando que Kokou aparecesse acompanhada por Genkai a qualquer momento. Ele tinha lhe dito antes de assumir o posto que faria o possível para convence-las de que Touya só precisava de um pouco de descanso e manda-las embora sem vê-la. Em último caso, se as duas conseguissem entrar, ela tinha que manter a cabeça coberta e não falar absolutamente nada. Isso e pedir a Kami que não resolvessem chamar um médico.

 

Pensou em se virar por um instante e olhar para a porta, talvez puxar conversa com o colega de quarto, mas acabou desistindo. Não seria muito prudente fazer isso quando havia o risco de ser ouvida. Contentou-se em ficar imóvel, apenas ouvindo os sons característicos do vento açoitando o calendário na parede e o tic tac baixo e insistente do relógio de pulso que Yusuke sempre esquecia na mesinha de cabeceira, até que a voz de Kuwabara juntou-se a eles.

 

– Diretora, como vai?

 

No corredor, o garoto as estava cumprimentando mais sorridente do que seria seu normal. A mãe de Touya parecia assustadora diante dele, com seu rosto pintado, cabelo desfeito e os saltos que a deixavam ainda mais alta. Instintivamente, deu um passo para trás, se colocando protetoramente na frente da porta.

 

– Kuwabara, é verdade que Touya está doente? – perguntou Genkai com um olhar que não admitia brincadeiras.

 

– Doente? – ele riu. – Assim, doente mesmo... Depende do que as senhoras entendem por estar doente.

 

– Yusuke disse que ele estava com uma febre de quarenta graus! – disse Kokou, já fazendo menção de entrar no quarto. – Se for tão sério eu espero que chamem um médico imediatamente. Quarenta graus. Dá para fritar um ovo na testa de alguém com tanta febre.

 

Quarenta graus... Por que Yusuke tinha que ter exagerado tanto? Se as duas mulheres entrassem no quarto a força e descobrissem tudo ele não poderia culpá-lo depois. Pensou em Botan que devia estar ficando cada vez mais assustado à medida que ouvia mais fragmentos daquela conversa e depois na alegria que seria para Hiei se houvesse um escândalo. Apesar do idiota com quem dividia o dormitório, tinha dois ótimos motivos para continuar colaborando com aquele plano.

 

– Ele não está com febre, só com muita dor de cabeça – disse tentando parecer convincente. – Precisa de repouso e um ambiente devidamente escuro. Eu entendo como ele se sente, sofro de dores de cabeça como essa desde criança. Minha mãe dizia...

 

– Quieto! – interrompeu Genkai, ordem que Kuwabara atendeu prontamente. – Nós vamos averiguar isso por nós mesmas. Eu tenho certeza que a senhora Ichijo está ansiosa para estar com o filho agora que sabe que ele está doente.

 

– Ah, mas se ele está apenas com dor de cabeça não quero incomoda-lo – disse Kokou. – Já estou bastante satisfeita em saber que finalmente posso chamar meu filho de gente. Quem sabe agora ele se concentre em alguma coisa que não tenha a ver com os detestáveis Shinobi. – olhou para o pulso, examinando um relógio prateado pequeno que contrastava com uma enorme pulseira vermelha. – Está quase na hora do Enki vir me buscar. Enki é o meu namorado, sabe? Estamos juntos há dois dias. Tenho certeza que o Touya ia odiá-lo...

 

A mulher riu audivelmente e Genkai a olhou como se estivesse diante de um alienígena. Se aquela era a mãe de Touya, não queria nem pensar como seria a de Yusuke.

 

Kuwabara sorriu aliviado. Se a mãe de Touya desistisse de entrar no quarto, todos os seus problemas estariam resolvidos. Olhou para ela com sua melhor expressão compreensiva e deu um passo relutante para trás, esperando para ver se ela o seguiria.

 

– A senhora tem certeza de que não quer ver o seu filho? – insistiu a diretora.

 

– O rapazinho ai já falou que ele está com dor de cabeça – disse Kokou. – Não acha melhor eu vê-lo outro dia? Não quero incomodá-lo... Sem mencionar que também estou incomodando a senhora. – Genkai esboçou um sorriso que morreu ao escutar as próximas palavras. – Afinal, na sua idade não é bom se agitar tanto.

 

A velha senhora abriu a boca para responder, mas sua atenção foi desviada para alguém que se aproximava pela direção contrária em passos rápidos. Kuwabara se virou, empalidecendo ao ver um Shuuichi sorridente parando bem a seu lado.

 

– Kuwabara, diretora – o ruivo cumprimentou. – Eu vim falar com o Touya...

 

– Ah, então esse é o CDF que anda com o meu filho por ai – disse Kokou lançando a Shuuichi um olhar que Genkai não classificou como menos que impróprio. – Nada mal. É uma pena mesmo o colégio não permitir um acompanhamento mais... íntimo dos pais.

 

Antes que o garoto pudesse responder, a diretora pigarreou e tomou a frente:

 

– Já que a senhora pretende deixar o Touya descansar, acho melhor acompanha-la até a porta...

 

Kokou animou-se:

 

– Aquele zelador interessante vai estar lá?

 

– Perdão – interrompeu Shuuichi. – Está tudo bem com o Touya?

 

– Está doente, pobrezinho – respondeu Kokou com o mesmo olhar de antes. – Como é mesmo o seu nome, querido?

 

– Shuuichi – o ruivo respondeu, olhando rapidamente de Kuwabara para Genkai, como se se certificando de que realmente não estava sozinho com aquela mulher estranha. Não precisava de mais experiências bizarras com mulheres no corredor. – Shuuichi Minamino... O que o Touya tem? – apresou-se em retomar o assunto.

 

– Dor de cabeça – respondeu Kuwabara. – Por isso tem que ficar sozinho, em completo silêncio, com a cabeça coberta, incomunicável...

 

Shuuichi franziu a testa, pensando se ter arrastado o amigo pelo colégio inteiro a procura da garota misteriosa não tinha acabado por deixá-lo doente. Touya tinha uma aparência frágil, mas nunca dera mostras de ter a saúde igualmente delicada.

 

– Eu gostaria de vê-lo – disse.

 

– Impossível! – declarou Kuwabara, dando um passo para mais perto da porta automaticamente.

 

Aquela altura Genkai parecia especialmente ansiosa em afastar a mãe de Touya dos dois estudantes o mais rápido possível e não abriu a boca em favor de nenhum dos dois.

 

– Ele estava bem quando nos vimos no pátio mais cedo – insistiu o ruivo.

 

– As pessoas não precisam de muito tempo para adoecer – o colega de quarto de Botan respondeu, passando a mão pela testa. Shuuichi Minamino não era nem um pouco burro. Pelo contrário, era inteligente o suficiente para somar dois mais dois e entender exatamente o que estava fazendo. Tinha que dar um jeito de terminar com aquilo e já.

 

– Você disse que Touya estava bem até agora a pouco? – Kokou perguntou, de repente interessada em avançar. – Se aquele desocupado estiver fingindo que está doente para não ter que me dar explicações sobre a detenção... Eu vou averiguar isso agora mesmo!

 

A mulher avançou para frente rapidamente. Shuuichi disse qualquer coisa sobre a detenção não ter sido culpa do amigo, mas Kuwabara não conseguiu distinguir as palavras. Tudo o que ele via era a mãe de Touya em toda glória de seus saltos altos e cabelos louros desalinhados vindo em sua direção. Olhou em volta como se procurando um apoio, mas aparentemente não havia escapatória. Se ela entrasse no quarto agora e puxasse as cobertas de Botan, seria o fim. Yusuke o mataria, independente de ele ter feito tudo o que podia. Pior, ele teria falhado em proteger uma dama indefesa. Não, aquilo não podia acontecer ao machão Kuwabara. Era hora de tomar uma medida drástica.

 

Kokou estava a centímetros do rapaz quando os olhos dele giraram como se estivesse tendo uma vertigem.

 

– Acho que peguei a doença do Touya – foi a última coisa que disse, antes de desmaiar em cima da visitante.

 

-o-o-o-o-o-

 

– Você não pode estar falando sério...

 

Hiei riu de lado, apoiando-se na parede de braços cruzados, com uma expressão de quem não acreditava em nenhuma palavra que Yusuke acabara de dizer. Mas ele tinha que admitir para si mesmo que não era de todo impossível. Urameshi era idiota o suficiente para realmente pular a janela da sala de Genkai e ir a socorro da prima. Só não sabia se ele fazia aquilo por estupidez ou se realmente se preocupava que ela fosse descoberta. Deu um suspiro cansado. Provavelmente se tratava das duas coisas.

 

– Eu estou falando muito sério!

 

Yusuke estava de pé na cadeira da diretora, forçando o vidro da janela para fora como se sua vida dependesse disso. As dobradiças estavam enferrujadas e o máximo que conseguira até então fora que elas reagissem com um ranger nada promissor. Parou um instante e passou o braço pela testa, enxugando as gotas de suor que começavam a surgir. Se ao menor pudesse sair pela porta, mas nesse caso teria que passar pela secretaria e todos que estavam trabalhando tinham visto quando ele e Hiei entraram ali seguidos por uma Genkai nada satisfeita, gritando a palavra “detenção” para quem quisesse ouvir.

 

– Quanta burrice junta em uma só pessoa... – disse o baixinho. – Eu não vou viver o suficiente para ver outro caso crônico como o seu.

 

– Só porque você não consegue alcançar a cadeira para tentar escapar não quer dizer que tenha o direito de encher o saco de quem pode, tudo bem? – Yusuke grunhiu. Desceria dali e daria umas pancadas no outro se não tivesse pouco tempo para fazer alguma coisa por Botan. – Se não vai ajudar, vê se não atrapalha!

 

Voltou ao esforço inútil contra o vidro quando ouviu a voz irritada de Hiei:

 

– Se tivesse um mínimo de cérebro saberia que nunca vai abrir a maldita janela se não destravar a tranca antes de empurrar.

 

E não é que o baixinho tinha razão? Yusuke deu um sorriso amarelo antes de puxar as trancas e empurrar facilmente a janela para fora.

 

– Agora eu vou,

 

Disse com um dar de ombros e passou as pernas para fora, girando de maneira a poder se segurar na parede até sentir os pés seguros contra o chão. Ainda parado no mesmo lugar, Hiei revirou os olhos ao ouvir o garoto gritar.

 

– Será possível que nem o detalhe de estarmos no primeiro andar você consegue se lembrar?

 

– E só agora você me avisa? – Yusuke gritou com uma voz mais fina que o habitual. – Eu odeio lugares altos.

 

Felizmente a parede do prédio não era completamente lisa. O primo de Botan apoiou os pés no que parecia uma espécie de marquise, embora estreita demais para servir de abrigo a quem estivesse embaixo. Olhou para cima, tentando ignorar a altura, e forçou-se a pensar. Vizinha à sala de Genkai havia alguma coisa, o que mesmo? Laboratório? Sala de música? Era difícil raciocinar quando se estava prestes a cair de uma altura de cem... duzentos metros e morrer.

 

– Para de choramingar e volta logo, idiota! Se Genkai descobrir você fora daqui vai levar muito mais que uma simples detenção.

 

A voz debochada de Hiei trouxe Yusuke de volta a realidade. Com o corpo colado à parede, olhando sempre para cima, começou a se afastar para o lado, pedindo silenciosamente que ninguém o visse de baixo e que conseguisse continuar se equilibrando até chegar à janela mais próxima. Continuou assim, avançando lentamente, por um tempo que pareceu uma eternidade, até que sentiu o corpo bater contra um vidro aberto. Estava quase chorando de felicidade ao segurar-se na borda da janela e puxar o corpo para dentro, caindo de qualquer maneira sobre um amontoado de lençóis brancos espalhados pelo chão.

 

Levantou-se rapidamente, olhando ligeiramente em volta, para o quarto que mais parecia um depósito de roupas velhas, e correndo para a porta. Puxou a maçaneta duas vezes até entender que estava trancada. Brilhante. Escorou-se na parede, deixando o corpo deslizar lentamente por ela, sem saber o que fazer. Talvez se voltasse a andar por fora, conseguisse entrar por algum dos dormitórios e pudesse voltar aos corredores. Com um pouco de sorte, quem sabe, até mesmo por seu próprio dormitório. Fez o caminho de volta para a parede oposta, olhando para fora como se estivesse prestes a ser jogado de uma prancha ao mar aberto. Quantos metros eram mesmo?  Sacudiu a cabeça, mandando o pensamento para o fundo da mente enquanto tentava escalar a parede, de volta para a janela.

 

-o-o-o-o-o-

 

Botan puxou os lençóis e saltou da cama quando ouviu o grito de Kokou. Mas o que Kuwabara estava fazendo com a mãe de Touya? Correu o mais silenciosamente possível até a porta e encostou o ouvido na superfície. Pode distinguir claramente a voz de Genkai e Shuuichi chamando pelo garoto enquanto a tia berrava a plenos pulmões que o tirassem de cima dela. Mal pode conter o riso diante dos sons. Se as coisas continuassem daquele jeito, eles provavelmente esqueceriam dela e escaparia de mais aquela.

 

Voltou para cama, na intenção de continuar deitada até tudo acabar, quando ouviu uma batida vindo da janela. Esperou que ela se repetisse antes de se levantar e caminhar até ela cautelosamente. Os dormitórios eram suficientemente altos para evitar que alguém se pendurasse na grade, será que alguém estava jogando pedrinhas do outro lado?  Por via das dúvidas voltou e pegou o boné e o cobertor, colocando o primeiro sobre a cabeça, de maneira a esconder quase completamente os cabelos, e enrolando o corpo com o segundo. Kuwabara tinha fechado a cortina antes de sair e o quarto estava quase completamente escuro, fazendo-a tropeçar mais de uma vez em obstáculos antes de conseguir chegar ao destino.

 

– Eu nem sabia que havia cortinas nesses dormito...

 

Interrompeu a frase com um grito ao descobrir a janela e dar de cara com o rosto muito pálido de Yusuke olhando para ela.

 

– Fantasma! – Botan disse, dando um passo para trás, tropeçando e caindo deitada na cama de Kuwabara.

 

Do outro lado da janela, Yusuke fez um gesto implorante e bateu novamente no vidro. Olhando bem, aquele fantasma parecia estar bem vivo.

 

Botan levantou-se com cuidado e aproximou-se apenas o suficiente para olhar bem para aquele rosto. O primo disse qualquer coisa impossível de compreender e assumiu uma expressão quase desesperada. A garota quase despencou novamente para trás. Era realmente Yusuke.

 

Abriu a janela com uma expressão acusadora. Imediatamente o garoto jogou-se para dentro, quase derrubando a mesinha de cabeceira de Kuwabara no processo.

 

– O que estava fazendo lá fora, Yusuke?

 

– Brincando de King Kong, o que é que você acha?

 

O garoto levantou-se e passou as mãos pela roupa, livrando-se da poeira. Olhou em volta, para o ambiente escurecido, mas intacto, e depois para Botan com uma interrogação no olhar.

 

– Kuwabara me mandou ficar na cama enquanto dava um jeito de se livrar da diretora e da Kokou. – A garota explicou. – A última vez que ouvi alguma coisa, nossa querida tia estava berrando a plenos pulmões “tirem esse garoto de cima da mim”. Acho que prefiro não saber.

 

– Isso quer dizer que eles não entraram aqui? – perguntou Yusuke.

 

– Eu estou bem na sua frente ao invés de levada à sala de Genkai como uma criminosa, pelos corredores, sob os olhares acusadores de todos... – Botan choramingou. – Você tem que se certificar que eles foram embora!

 

– Raios... Se eu soubesse que tinha saído tudo bem não teria pulado a janela da diretoria... Genkai vai me matar!

 

Botan arqueou a sobrancelha.

 

– Você pulou a janela da diretoria?

 

– Como acha que vim parar aqui? Voando?

 

– Mas fica no primeiro andar e você morre de medo de altura!

 

– Eu não morro de medo de altura! Às vezes fico levemente tonto e é só.

 

– Ah, é mesmo? – Botan sorriu maldosamente. – Então é mentira aquela história que a sua mãe conta sobre você ter ficado berrando, pendurado no berço por três horas quando tinha cinco anos só para não ter que pular? A propósito, você dormia mesmo em berço aos cinco anos? Devo perguntar sobre chupetas e fraudas também?

 

– Ah, cala essa boca! – Yusuke ficou vermelho. – Não me provoca não ou eu grito. Se eles entrarem aqui vai ser uma cena e ai...

 

– E ai eu digo que você me ajudou a me manter aqui todo esse tempo! – Botan interrompeu, irritada. – Ou você acha que vão acreditar que você não percebeu que era a sua prima no lugar do seu primo esse tempo todo?

 

O garoto abriu a boca para discutir, mas nesse instante a porta se abriu, fazendo com que os dois saltassem para trás. Por um terrível instante, Botan viu a figura de Kokou parada, apontando para ela com o rosto lívido de raiva. Abaixou a cabeça e piscou os olhos, recuando para perto de Yusuke. Quando olhou novamente para frente era Shuuichi quem estava lá. Parecia preocupado.

 

– Touya, se sente melhor? – perguntou enquanto se aproximava.

 

– Só faltava mesmo Shuuichi Minamino aparecer para completar o meu dia...

 

Botan pisou com força no pé de Yusuke e ele se calou bem a tempo do ruivo não ouvir o que estava dizendo.

 

– Você me paga – sussurrou pelo canto da boca.

 

– Fique quieto, idiota, quer que nos descubram? – a garota respondeu meio a um sorriso forçado. Dirigiu-se a Shuuichi: – Estou bem melhor. Minha febre até já passou?

 

– Febre? – o ruivo aproximou-se e colocou a mão sobre a testa de Botan. – Não era dor de cabeça que você tinha? – ele a olhou mais de perto. – Seu rosto está vermelho, mas a temperatura parece normal.

 

– Febre, dor de cabeça... Sabe como é. Acho que me resfriei um pouco – a garota riu nervosamente, imaginando que história ele teria ouvido de Kuwabara.

 

– Entendo... O que eu não consigo compreender é por que o Kuwabara reagiu tão violentamente a um simples resfriado...

 

– Que...? – Botan e Yusuke perguntaram ao mesmo tempo.

 

– Ele desmaiou bem no meio do corredor, em cima da sua mãe – disse Shuuichi, olhando para a porta como se ainda estivesse vendo a cena. – Ela está bem, mas depois disso fez questão de sair correndo daqui. Kuwabara está na enfermaria, acho. Genkai o levou... Por que vocês estão apertando os lábios dessa maneira?

 

– Não é nada! – Yusuke apressou-se em dizer. Estava fazendo um esforço tremendo para não rir. Imaginar Kokou deitada no chão, esperneando sob um adolescente de um metro e oitenta e sabe-se quanto de massa muscular desmaiado, bem na frente do olhar chocado de Genkai, era uma cena no mínimo circense. Só lamentava não ter estado presente, com uma filmadora de preferência.

 

– Touya, eu sinto muito, você nem mesmo pode falar com a sua mãe...

 

– Verdade – disse Yusuke. – Você estava tão ansioso...

 

– Primo, você não tinha que está em certa diretoria, acompanhado de certo Hiei, esperando que certa Genkai declarasse certa detenção?

 

– Eu... Certamente?

 

Botan exibiu seu sorriso mais inocente.

 

– E o que está esperando para correr?

 

Yusuke correu para a porta, mas no instante em que ia sair, vozes de alunos soaram do outro lado, fazendo-o recuar. Olhou para Botan e Shuuichi desconsoladamente antes de caminhar para a janela.

 

– Que jeito...

 

Apoiou-se na mesinha de cabeceira próxima e passou as pernas pela abertura com alguma dificuldade. Botan teve um impulso de pedir para ele tomar cuidado, mas o que saiu foi:

 

– Se você morrer, eu posso ficar com o boné?

 

Ela ainda ouviu um resmungo por parte do primo antes que ele desaparecesse, se arrastando para longe.

 

– Você acha que ele vai ficar bem? – perguntou Shuuichi.

 

– O máximo que pode acontecer é ele cair, quebrar um braço e passar uma semana de cama.

 

– Touya!

 

– O que? É de Yusuke que estamos falando, ele ia adorar.

 

O ruivo riu e Botan voltou a puxar a cortina da janela, deixando o ambiente novamente às escuras. Quando se virou, Shuuichi continuava parado no mesmo lugar e ela podia ver apenas os contornos do rosto dele na pouca luminosidade. Foi assaltada por uma sensação de déjà vu. Era como se tivesse voltado àquela noite no corredor, mas de certa maneira pior, porque ele sabia que era Touya, o primo de Yusuke, quem estava ali. Imaginou se ele não estaria pensando na mesma coisa e apressou-se em voltar para a cama. Sentia-se bem, mas se a diretora viesse averiguar sua condição de saúde, preferia não dar margem a desconfianças.

 

– Eu acho melhor ir embora e deixar você descansar – disse Shuuichi em voz baixa.

 

– Tudo bem, você pode ficar mais um pouco.

 

Botan se deitou, tomando cuidado para manter o boné seguro onde estava enquanto ele permanecesse ali. Fechou os olhos, pensando em Kokou e nos problemas daquela tarde, imaginando quantos mais teria que superar até se encontrar livre novamente. De repente se sentiu pouco segura e encolheu-se sob o lençol, pensando que bom seria se pudesse permanecer ali pelo resto do semestre, a salvo.

 

– Touya?

 

A garota abriu os olhos. Pensara que Shuuichi já havia ido embora, mas ele ainda estava parado, observando-a do mesmo lugar.

 

– Sim?

 

– Não é nada... Só que olhar para você deitado ai me fez lembrar de alguém.

 

– Quem?

 

A voz de Botan soou sonolenta, como se não estivesse mais ciente das próprias palavras.

 

– Não é importante. Melhore logo, sim? Preciso de ajuda para encontrar aquela pessoa e eu só posso confiar em você.

 

Dessa vez não obteve resposta. Shuuichi esperou um minuto antes de sair, andando devagar para fora do quarto. Quando bateu a porta atrás de si, Botan abriu os olhos e encarou o lugar onde ele estivera. Não podia levar aquilo por muito tempo mais. Yusuke ficaria furioso, mas ela faria prevalecer sua vontade. Contaria toda a verdade a Shuuichi Minamino. O quanto antes melhor.

 

 

 

 

 

Continua

 

 

 

 

 

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