Quebrando as Regras
Capítulo 13
Botan estava cansada. Passar noites em claro
sempre foi um hábito para ela, mas era mais divertido quando estava lendo ou vendo
sites inúteis ao invés de ficar deitada, ouvindo os roncos nada harmoniosos de
dois marmanjos de dezesseis anos e tentando desesperadamente não imaginar a
reação de Shuuichi quando soltasse de repente: “O que você achou da aula de
álgebra hoje? Podíamos combinar de estudar mais tarde. A propósito, pare de me
chamar de Touya, meu nome é Botan e eu sou uma garota”.
- Você está com o aspecto de quem não dorme há
uma semana – disse Kuwabara, aparecendo de repente por trás e causando um
sobressalto na garota. – O que está fazendo ai parada no
corredor, quer se atrasar para a aula? Lembre-se que hoje teremos - o
garoto olhou para cima e começou a contar nos dedos – perguntas dissertativas,
trabalho em equipe, aquela redação no último horário... Eu nem estou contanto
com o ensaio da banda à tarde.
A banda! Havia ainda mais essa. Ela tinha
esquecido completamente aquela história de festival com os últimos
acontecimentos. Olhou para o colega de dormitório com um sorriso envergonhado.
Por mais que soubesse a verdade sobre ela, aparentemente Kuwabara estava longe
de entender que ela não tocava guitarra coisa nenhuma e tinha que dar um jeito
de contar a ele antes que a obrigassem a subir em um palco na frente do colégio
inteiro. Olhou em volta, não havia ninguém a vista. Talvez aquele fosse o
momento ideal. Só precisava torcer para que o garoto não tivesse uma crise de
nervos, desmaiasse nem nada assim.
- Kuwabara, há uma coisa que você precisa
saber...
- Sabe – ele a interrompeu. – Ontem quando eu
consegui que me liberassem da enfermaria, já era muito tarde e você estava
dormindo. Eu esqueci de comentar sobre a sua tia Kokou.
Ela é estranha, não?
- Estranha?
- Eu nunca vou esquecer do que aconteceu: –
Kuwabara riu. – Eu ali no meio do corredor, tentando impedir que aquela mulher,
que mais parecia ter saído de um episódio de Ally McBeal, entrasse no quarto e descobrisse tudo, quando
aparece Shuuichi Minamino com sua costumeira preocupação com relação ao melhor
amigo que, a propósito, não existe porque é você. Quando o vê, sabe o que a sua
tia faz? Uma mãe normal teria cumprimentado o amigo do filho e insistido para
entrar no quarto dele, certo? Ela pensava que o tal Touya estava doente... Mas
não, ela estava ocupada demais dando em cima do recém-chegado para se lembrar
disso. O melhor foi o olhar de Genkai. Acho que ela não sabia se a denunciava
por pedofilia ou saia pelas salas, procurando pelo vórtice que a trouxe a essa
dimensão paralela... Botan, você está bem?
A garota acenou fracamente enquanto se apoiava
mais firmemente contra a parede. Kokou tinha dado em
cima de Shuuichi? O que ele pensaria dela? Que o melhor amigo dele era filho de
uma pervertida? Cobriu o rosto com as mãos e balançou a cabeça negativamente.
Aquilo não podia estar acontecendo, não com ela. Pelo menos o fato adicionava
mais um bom motivo pelo qual ela deveria contar toda a verdade ao amigo o mais
rápido possível: deixaria de ser o filho da louca de saltos que deu em cima
dele na frente da diretora para se tornar a sobrinha da mesma. Isso devia ser
um pouco melhor.
- O que o Shuuichi disse sobre isso? – perguntou, sem saber se queria saber a resposta.
- Nada... O que queria que ele fizesse,
fugisse com ela? – Kuwabara começou a rir, mas parou ao perceber que Botan não
estava achando aquilo engraçado. Ela na verdade parecia nervosa, como se
estivesse se preparando para fazer alguma coisa que não queria. – Você está bem
mesmo?
- Não é nada, só não dormi muito bem ontem à
noite.
- Aposto que ficou pensando na cara que o Minamino
vai fazer quando descobrir o seu segredo, não tenho
razão?
- Na verdade... – Botan suspirou. – Eu estava
pensando na cara que ele vai fazer quando eu
contar o meu segredo.
Kuwabara estacou como se tivesse recebido uma
tapa no rosto e ficou encarando-a testa franzida, tentando se convencer de que
tinha entendido aquilo direito.
- Você disse “eu contar o meu segredo”?
- Foi o que eu disse.
- Yusuke sabe que está pensando nisso?
Botan cruzou os braços e deixou escapar um
grunhido de insatisfação.
- Em primeiro lugar, eu não preciso contar ao
Yusuke todos os detalhes da minha vida. Em segundo, eu não estou pensando em
contar ao Shuuichi, eu estou decidida a fazer isso – ela estremeceu. – Só de
imaginar a possibilidade de ele ficar sabendo disso por Hiei já me faz sentir
doente... Sem falar que... – lembrou-se novamente da banda. Era agora ou nunca.
– Kuwabara, você lembra quando Yusuke começou a se gabar das surpreendentes
habilidades de Touya como guitarrista?
- Claro – o garoto respondeu animadamente. – É
uma sorte ter alguém que toque tão bem na nossa banda.
- Hm... Como eu falo
isso de uma maneira que você entenda...? Kuwabara...
- Botan? – o sorriso dele enfraqueceu um
pouco.
Ela repetiu, dessa vez lentamente:
- Lembra quando Yusuke falou das
surpreendentes habilidades de Touya
como guitarrista?
- Das suas
surpreendentes habilidades como guitarrista... – Kuwabara assegurou, dessa vez
sem nenhuma sombra do sorriso de antes.
- Isso não está funcionando – Botan abaixou a cabeça
por um momento e quando a levantou novamente, mostrava uma expressão decidida.
– Eu vou ser o mais direta possível. Kuwabara, eu não toco guitarra. Touya toca
guitarra. Touya! Meu primo. Aquele por quem eu estou me passando. A única coisa
que eu já toquei durante a minha vida foi um apito na peça sobre trânsito do
pré-escolar. Você terá que dar um jeito nessa história de banda e... Kuwabara?
O que é que você tem...?
-o-o-o-o-o-
Yusuke acordou de repente, dando um salto da
carteira ao ouvir o grito vindo do corredor. Olhou em
volta, os alunos estavam todos se levantando e indo até a porta,
aproveitando-se da ausência do professor para ver o que estava acontecendo.
- Você não vem? – perguntou Shuuichi, passando
por ali rapidamente e parecendo preocupado. Antes de chegar à porta, virou-se
de volta e acrescentou: – Parecia a voz do Kuwabara.
- Kuwabara?
Yusuke levantou-se e saiu correndo, quase
derrubando o ruivo e mais meia dúzia de alunos aglomerados na porta ao passar.
Como suspeitava, Botan tinha sido o motivo do grito. Quase não conteve uma
gargalhada diante da cena: Kuwabara sentado no chão, escorado a parede com a
expressão chocada de quem tinha acabado de ser abduzido por alienígenas ou
visto um T-Rex passeando pelo centro de Tokyo, e
Botan ajoelhada a frente dele, passando a mão diante de seus olhos na tentativa
de fazê-lo esboçar alguma reação. Ao perceber os estudantes observando-os,
Botan levantou-se e sorriu sem graça.
- Acho que ele ficou um pouco chocado quando
falei sobre todas as atividades reservadas para hoje...
Dois garotos apressaram-se para ajudar
Kuwabara e Botan afastou-se para junto de Yusuke.
- Eu não posso acreditar! – falou em voz
baixa. – Eu tinha realmente pensando na possibilidade dele desmaiar quando eu
falasse que não sei tocar guitarra, mas foi só porque a imagem mental disso era
engraçada.
- Veja pelo lado bom, ao menos ele deslizou
pela parede ao invés de cair em cima de você.
Botan ignorou isso e continuou acompanhando um
Kuwabara meio desmaiado ser levado para a enfermaria com ar preocupado.
- O que vamos fazer sobre o ensaio se ele não
acordar?
- Esqueça o ensaio! – disse Yusuke. – O que
vamos fazer se ele delirar na enfermaria e falar sobre você? Acho melhor eu ir
junto e me certificar que ele fique de boca fechada.
O garoto fez menção de correr, mas Botan o
segurou pelo braço.
- Você está preocupada com a possibilidade de
eu ser descoberta ou procurando desculpa para matar aula?
- Você nunca ouviu falar em unir o útil ao
agradável?
Ele sorriu zombeteiramente e desvencilhou-se
do aperto da prima, correndo na direção em que os estudantes levando seu colega
de dormitório tinham ido.
- Yusuke é mesmo impossível!
Botan cruzou os braços e ficou olhando como a
aglomeração de alunos aos poucos ia se desfazendo à medida que os curiosos
voltavam para a sala. Só esperava que o primo pelo menos fosse útil o
suficiente para acalmar Kuwabara quando ele voltasse a si e assimilasse o fato
de que sua banda perfeita tinha perdido a suposta estrela da apresentação.
Depois ela só teria que se preocupar com o ataque que provavelmente Itsuke
daria quando soubesse que não precisariam de sua
famosa calça de couro vermelha e, o mais difícil, contar a verdade sobre ela e
Touya a Shuuichi.
- Touya?
Falando no diabo... A garota teve que fazer um
grande esforço para não gritar quando ouviu a voz do amigo soar próxima a seu ouvido. Quando ele tinha se aproximado tanto?
Ela tinha que ficar mais atenta ao ambiente a sua volta. Ter Shuuichi Minamino
invadindo seu espaço de repente enquanto ela pensava no seu grande segredo não
era muito saudável para os seus nervos.
- Shuuichi. Há quanto tempo, não?
O ruivo sorriu.
- Sim, desde ontem à noite.
Botan sorriu de volta, chutando-se mentalmente
por não conseguir pensar em nada menos estúpido para dizer. Respirou fundo,
pensando na situação. Não adiantava tentar evitar o ruivo como tinha feito
quando acontecera aquele pequeno acidente
no corredor. Se ia contar a ele, era melhor começar a
ir se acostumando com a idéia de que estariam frente a frente quando isso
acontecesse. Que os olhos verdes que ela achava tão incríveis estariam fixos
nela e que o olhar que ele lhe lançaria quando ela terminasse não seria
exatamente a do melhor amigo de Touya. Ela provavelmente conheceria o lado
Kurama dele e não tinha certeza se iria gostar.
- Você não devia ter vindo para a aula hoje,
Touya, ainda parece doente.
- Pareço?
- Bom, você está um
pouco pálido...
Shuuichi aproximou o rosto do de Botan, de maneira
a se certificar do que estava dizendo, mas a garota pulou para trás e abaixou a
cabeça na mesma hora, virando-se para o outro lado. A última coisa que
precisava era do ruivo dando uma boa olhada em seu rosto e desconfiando de
alguma coisa antes que ela decidisse qual a melhor maneira de abordar o assunto
com ele. Ela esperou que ele perguntasse o que estava acontecendo, mas antes
que isso pudesse acontecer, a voz de Hiei surgiu do outro lado, os
interrompendo.
- Ei, Kurama, não vá
esquecer sobre hoje à tarde, no lugar daquele ensaio idiota – Botan se virou
bem a tempo de ver o sorriso sarcástico no rosto do baixinho. – Depois de hoje
não se sabe quando vamos ter outra oportunidade de aproveitar algumas horas na
piscina.
Shuuichi sorriu, assentindo, e Botan achou que
estava começando a se sentir doente de verdade. Aquela história de piscina de
novo? E onde estava Yusuke quando precisava de alguém para apoiá-la na decisão
de não se aproximar de lá?
- Touya – Hiei sempre pronunciava o nome com
certo tom de exagero –, eu soube que você não estava se sentindo bem ontem, nem
mesmo pode ver a sua mãe. Que peninha, não? Mas não se preocupe, natação faz
muito bem para a saúde. Se você não tiver roupa apropriada, eu tenho certeza
que o Shuuichi aqui poderá te emprestar.
- Hiei – o ruivo o encarou com desconfiança. –
Eu não sei por que não estou gostando do seu tom. Você tem algum problema com o
Touya?
- Quem, eu? Com o Touya? O outro garoto aqui
presente?
O baixinho saiu rindo como se tivesse acabado
de ouvir a piada do século, deixando Shuuichi bastante confuso e Botan se
perguntando onde estava Enma Daioh
quando precisava que um raio caísse do céu bem na cabeça dela.
- Hiei está ficando cada vez mais estranho, você não acha?
Botan apenas deu de ombros e caminhou de volta
para a sala com uma postura derrotada. Shuuichi a acompanhou
com os olhos, ainda preocupado sobre o estado de saúde dela. Ele
lembrou-se do dia anterior, de ter tido um vislumbre de reconhecimento ao olhar
para o rosto do amigo parcialmente oculto pela escuridão.Uma
imagem do sonho que tivera aquela noite o assaltou em seguida: ele estava
parado no corredor, segurando os ombros da garota misteriosa e forçando os
olhos na direção dos contornos de seu rosto. De repente, sentiu que suas mãos
estavam suspensas no ar e que ela afastava-se dele. O corredor começou a ficar
mais claro e a última coisa que viu antes de acordar, foi o boné do Arquivo X
de Touya caindo para trás enquanto ela corria para longe.
-o-o-o-o-o-
- Ela não sabe tocar guitarra...
- Pois é, não sabe...
- Ela não sabe tocar guitarra...
- Nem baixo, nem contrabaixo, nem piano, nem
bateria, nem apito, nem mesmo bater com uma colher em um copo...
- Ela não sabe tocar guitarra...
Yusuke suspirou e deu uma tapa na cabeça de Kuwabara,
fazendo com que o queixo dele batesse com força no tórax antes de voltar ao
lugar. O garoto saiu da letargia na qual se encontrava e avançou contra o
colega de quarto, segurando-se com força pelo pescoço e puxando-o para perto. O
encarou furiosamente:
- Por que fez isso, idiota?
- Por que é isso que as pessoas fazem com as
vitrolas antigas quando estão tocando um disco arranhado – Yusuke respondeu
tranquilamente.
- Ela não sabe tocar guitarra!
- Ah, por favor, não vamos começar tudo outra
vez – ele girou os olhos. – E daí que ela não sabe tocar guitarra? Eu também
não sei e o mundo continua girando, os pássaros
cantando e o sol despontando no horizonte todas as manhãs. Afinal, qual o seu
problema com isso?
- Qual o meu problema com isso? – Kuwabara
empurrou Yusuke para trás e segurou a cabeça, encarando a parede em frente com
os olhos muito abertos. – Você esqueceu da banda? Do festival? Touya era o
nosso astro!
O primo de Botan girou os olhos novamente e se
sentou na primeira cadeira que encontrou por perto, pondo-se a observar o
colega de dormitório que agora estava sentado na cama da enfermaria.
- É só cancelarmos tudo – disse como se fosse a coisa mais óbvia no mundo.
- Cancelarmos tudo? – Kuwabara o encarou ainda
com os olhos abertos e as mãos despenteando os cabelos e Yusuke retesou-se na
cadeira, imaginando que teria mãos apertando-se em volta de seu pescoço a
qualquer momento. Quando nada aconteceu, deu um sorriso amarelo e encolheu-se
onde estava, esperando o outro continuar: – Vamos
esquecer que você me contou que a Botan não sabe tocar guitarra. No dia da
apresentação ela vai estar sabendo nem que você tenha
que ir buscar o verdadeiro Touya em Osaka.
Ele balançou a cabeça, parecendo estar dizendo
a si mesmo que aquela era realmente uma boa idéia.
- Kyoto – corrigiu
Yusuke. – É lá que o verdadeiro Touya está. E você não pode estar falando sério
sobre ignorar isso. Se colocar a Botan em um palco com uma guitarra, o máximo
que vai conseguir é deixar a platéia surda e em choque.
- Então dê aulas de guitarra a ela, oras.
- E quem foi que disse a você que eu sei tocar
guitarra?
- Vocês são família!
- Habilidades musicais não são passadas nos
genes!
- Então compre uma dessas revistas com passo a
passo, procure aulas na Internet... Por acaso você não pensa?
- E por acaso você pensa alguma coisa que faça
sentido?
A essa altura Yusuke tinha se levantado da
cadeira e ofegava, encarando Kuwabara de perto. Se olhares pudessem matar, os
dois já estariam caídos, fulminados, no chão. O primo de Botan foi o primeiro a
voltar a si. Não podia continuar brigando com o colega de quarto daquele jeito,
não quando ele era o único com alguma chance de desfazer aquela história de
banda antes que fosse tarde demais e sem levantar suspeitas
do verdadeiro motivo. De súbito uma imagem de Itsuke tendo um ataque e dando
gritinhos surgiu em sua mente. Se Kuwabara tinha desmaiado com a notícia, não
queria nem pensar no que o coordenador faria.
- Não temos tempo para ficar brigando – disse,
respirando fundo. – Você tem que parar com essa frescura
toda e dar um jeito nessa história de banda sem envolver a Botan. – Kuwabara
abriu a boca para protestar, mas Yusuke acrescentou antes que ele tivesse a
chance: – A não ser que faça questão que a sua querida Yukina
fique sabendo dos seus desmaios essa semana. É o
segundo em dois dias, francamente. E por causa de uma bobagenzinha
de nada.
- Segundo? – Kuwabara interrompeu, indignado.
– Eu acho que não preciso lembrá-lo o motivo pelo qual eu desmaiei ontem. Se
não fosse por mim aquela Ally McBeal
de plataformas teria descoberto a Botan e seqüestrado o Minamino. Esse colégio
está em dívida comigo! A Botan está em dupla dívida comigo!
- Dupla dívida? Como assim dupla dívida? –
Yusuke caminhou pelo quarto e parou na pequena janela um pouco longe da cama.
Virou-se observando a paisagem lá fora sem realmente prestar atenção. Sabia
exatamente do que o colega de quarto estava falando, mas ainda não tinha
certeza do que pensar daquilo. Maldita hora
- Manter o segredo dela – respondeu Kuwabara –
e preservar a integridade física de Shuuichi Minamino. – Olhou para o outro
garoto desconfiadamente. – Não vai me dizer que ainda não percebeu que a Botan
gosta daquele ruivo. Não é de se estranhar, você tem que admitir. Ele é
educado, tem boa aparência, é o melhor aluno da classe, até mesmo melhor que o
Kaitou, se dá bem com todo mundo, inclusive com o baixinho difícil do Hiei...
Se não são melhores amigos, mas pelo menos ele tenta. Eu aposto que se isso
aqui fosse um colégio misto veríamos garotas amontoadas na porta da sala no
horário dele sair.
- Você parece ter reparado em todas as
qualidades do tal Minamino – Yusuke disse irritado. – Por acaso não esqueceu de
dizer que ele é milionário e primo do Antonio Banderas?
- Antonio Banderas?
É do Orlando Bloom que as garotas gostam agora, se é
disso que está falando.
- Não me interessa.
- Você não gosta do Minamino por quê? Que eu
saiba ele nunca te fez nada.
- Ele dificulta as coisas para mim quando fica
seduzindo a minha prima por ai.
- Mas ele não sabe que está fazendo isso.
Kuwabara sentou-se na cama esperando por uma
resposta. Lembrou-se do que Botan dissera quando estavam
indo juntos para a classe, sobre contar toda a verdade para Shuuichi. Pelo visto
ela não dissera nada ao primo e seria a terceira guerra mundial quando ele
ficasse sabendo.
- Não me interessa se ele sabe ou não, me
interessa que está no meu caminho e eu não vou deixá-lo dar uma de Don Juan
para cima da Botan e transformar minha prima impossível em um projeto de Meg Ryan.
- Meg Ryan não faz exclusivamente comédias românticas.
- Mas é isso que eu sou obrigado a assistir
quando estou com a Botan!
Os dois ficaram em silêncio por um instante,
então Kuwabara riu. Yusuke o encarou com seu costumeiro olhar furioso, um que
ele usava muito em seu posto de bad boy nas ruas e
que ultimamente vinha reservando especialmente para Hiei.
- Eu não acho que você vá sentir falta da Meg Ryan se a sua prima ficar
mesmo com o Minamino. Eu acho é que você está com ciúmes! Gostou da brincadeira
de irmão mais velho e agora está disposto a queimar o filme da garota. Que
coisa feia, Yusuke...
- Kuwabara... – o primo de Botan pronunciou a
palavra com um tom de voz baixo e perigoso. – Eu acho que você está querendo
desmaiar uma terceira vez...
Ele começou a se aproximar, um sorriso forçado
no rosto e os punhos cerrados ganhando altura gradativamente. Quando estava a
dois passos da cama, porém, a porta se abriu e uma Genkai parecendo bastante
preocupada entrou na enfermaria. Ela ignorou completamente a presença de Yusuke
e correu para perto de Kuwabara, empurrando o outro aluno de leve enquanto o
examinava melhor.
- Está se sentindo bem, senhor Kuwabara?
- A senhora não faz idéia... – o garoto
respondeu aliviado, um sorriso nervoso brincando no canto da boca.
-o-o-o-o-o-
- Não, eu não sou capaz de fazer isso!
- Como se você tivesse muita escolha...
- Vocês são maus! Algum dia
receberão o castigo pela crueldade a qual estão me submetendo agora...
- Olha só o Kuwabara falando difícil...
- Cala a boca e continua empurrando!
Yusuke ignorou o tom irritado da prima e
continuou forçando as costas de Kuwabara na direção do auditório. Desde que
voltou ao dormitório, depois de um exame médico demorado e um mais demorado
ainda discurso de Genkai sobre como precisava cuidar melhor da saúde, o garoto
tinha se abraçado aos travesseiros e se recusado a sair do quarto. A vida dele
tinha acabado, era o que dizia no tom mais dramático possível. Se não ia haver
banda, então ele ficaria trancado ali, imerso em sua própria desgraça até o
semestre acabar.
Botan tinha girado os olhos a isso e, junto
com o primo, o puxado da cama pelos braços e o obrigado a caminhar pelo
corredor exatamente como estava fazendo agora. A única diferença é que ela
tinha se cansado das lamentações com um explícito tom de a-culpa-é-toda-sua-por-não-ser-o-verdadeiro-Touya
e deixado Yusuke sozinho com a tarefa de obrigá-lo a avançar enquanto caminhava
na frente, imaginando qual seria a desculpa que o colega de quarto escolheria
para acabar com aquela história de “astro” na qual ele a tinha metido.
- Eu já disse que não posso fazer isso – disse
Kuwabara, fazendo-se de vítima. – Vocês sabem o que Itsuke vai fazer comigo se
eu disser que ele não terá mais a oportunidade de fazer com que Shuuichi use
aquela calça de couro vermelha? Os olhos do cara até brilham quando fala nisso.
Se ele não morrer do coração, provavelmente vai acabar me matando e... Botan,
não me olha desse jeito, não sou eu quem está usando seu namorado para promover
aquelas roupas esquisitas.
- Ele não é meu namorado!
- Ele não é namorado dela!
Yusuke e Botan gritaram ao mesmo tempo.
Os três pararam de andar. A garota cruzou os
braços e se apoiou na parede, emburrada. O que Kuwabara pensava que estava
fazendo? Tentando tortura-la? Se a imagem de Itsuke perseguindo Shuuichi, com a
calça de couro na mão, não fosse tão ridícula ela já teria mostrado ao colega
de quarto o que ele poderia fazer com aquele tipo de comentário idiota.
- Será que vocês não conseguem esquecer o
estúpido ruivo um instante que seja? – Yusuke lançou a Botan um olhar
desconfiado. – Eu não sei o que anda acontecendo entre você e esse cara,
garotinha, mas fique certa de que vou descobrir.
- Quem é que você está chamando de garotinha?
– Botan aproximou-se, encarando Yusuke com um olhar afiado.
- Deve ser o Kuwabara. Quantas garotinhas você
está vendo aqui?
- Afinal, qual o seu problema com a minha
amizade com o Shuuichi?
- Nenhum, mas eu não acredito que quando você
fica suspirando durante a noite seja porque estava pensando no seu amigo.
Botan afastou-se um passo, olhando para um
irritado Yusuke com uma expressão de choque. No que raios ele estava pensando? A
atitude do primo a confundia. Ele não gostava de Shuuichi por quê? Complexo de
irmão mais velho? Afinal, eles sempre foram muito próximos. Medo de que todos
descobrissem que ele a encobrira no colégio o tempo todo? Yusuke conseguia ser
bastante egoísta quando estava disposto. Uma imagem da outra noite, dela
beijando Shuuichi, lhe veio à mente. Se o primo descobrisse sobre isso... Ah,
por que as coisas tinham que ficar cada vez mais complicadas? O que mais
faltava acontecer?
Como se algum ser superior tivesse ouvido o
último pensamento de Botan, a porta do auditório se abriu e um sorridente Hiei
saiu, imediatamente andando na direção deles.
- Se não são os três patetas parados no meio
do corredor.
- Tinha que aparecer o Dunga para completar o
meu dia...
Ao contrário do que se esperava,
Hiei sequer piscou ao ouvir o apelido. Apenas pareceu sorrir um pouco mais.
- Acabaram-se os apelidos do seu estoque,
Urameshi? Se não me lembro mal, esse você já disse antes.
- O que é que você quer? – Yusuke perguntou,
girando os olhos. Ainda estava irritado com a mais recente discussão sobre
Shuuichi Minamino e a última coisa que precisava era Hiei colocando mais lenha
na fogueira.
- Ah, vocês sabem, o Itsuke cancelou o ensaio.
- Como assim cancelou? – perguntou Botan,
olhando para Kuwabara que praticamente estava deslizando pela parede de alívio.
- Vai dizer que esqueceu,
Touya... – Hiei riu alto. – Seu amigo Shuuichi teve tanto trabalho para
reservar uma hora na piscina. Você não faria a desfeita de não aparecer, não é
mesmo? – olhou para os dois garotos que o encaravam com um ar chocado e
acrescentou: – Claro, vocês também estão convidados.
Eu, pelo menos, não perderia isso por nada no mundo.
Ele saiu rindo na direção oposta ao auditório,
deixando os três garotos parados no meio do corredor, nas mesmas posições em
que estavam quando receberam a notícia, como um trio de estátuas.
Botan foi a primeira a reagir.
- Ele falou piscina? – perguntou.
- Ele falou piscina – disse Kuwabara. – O que
você vai fazer?
- O que eu vou fazer? – a garota olhou na
direção de Yusuke.
O primo riu debochadamente.
- Agora precisa de mim para saber o que fazer?
Esqueça! Isso é o que você ganha andando por ai com aquele ruivo – ele deu meia volta e começou a andar na direção
- Desertor! – Botan gritou antes que ele
saísse de vista. – E agora? – perguntou a Kuwabara. – Eu não posso ir à piscina
por motivos óbvios!
- Você pode ir até lá e explicar ao Minamino
que não está a fim de nadar...
- Acha que vai funcionar?
- Não me pergunte. Yusuke é o especialista em
esconder garotas em colégios masculinos.
Ótimo! Por que ela não tinha continuado na
cama o dia inteiro? Será que havia uma única coisa que pudesse fazer ali dentro
sem que aparecesse um letreiro luminoso em sua testa escrito “Garota na área”?
Precisava mesmo falar com Shuuichi o mais rápido possível e aquela seria a
ocasião perfeita. Ele com certeza entenderia quando
ela explicasse seus motivos. Ele era músico como Touya, não a condenaria por
cobrir o primo enquanto ele iniciava sua estrondosa carreira internacional. Ela
não tinha com que se preocupar, certo?
Certo?
Não estava nem perto de estar segura disso.
-o-o-o-o-o-
- Botan, se você não quer ir, invente uma
desculpa, finja um desmaio, se esconda no armário da cozinha... Qualquer coisa
assim, porque a esse passo nós não vamos chegar lá nem no início do próximo
semestre.
Kuwabara parou um momento, esperando que a
garota o acompanhasse. Já era a terceira vez que aquilo acontecia: começavam a
andar no mesmo passo e de repente ela começava a avançar cada vez mais devagar
até estar quase parando.
- Yusuke não estava no dormitório – disse mais
a si mesma que para o colega de quarto. – Será que realmente ele não vai fazer
nada para me ajudar?
- Não fique tão preocupada – Kuwabara riu. –
Yusuke só está com ciúme.
- Ciúme?
- Ele era o único cara com quem você contava
até o Minamino aparecer. Além disso, Shuuichi tem todas aquelas qualidades de genro-que-a-sua-mãe-pediu-a-deus e ele não tem nenhum motivo para implicar com ele. É só por isso que
está tão zangado.
- Você acha mesmo? Yusuke pode ser um idiota,
mas eu não vou sobreviver aqui dentro sem ele.
- Absoluta. Preocupe-se agora com o que você
vai fazer quando entrar lá – Kuwabara apontou uma porta de madeira. – Porque
atrás dessa porta fica a piscina do colégio.
- Ah, não... – Botan agarrou-se ao braço de
Kuwabara. – Sabe o que você disse sobre fingir um desmaio ou se esconder no
armário da cozinha?
- Botan, você chegou até aqui...
- Mas eu não estou pronta para dizer a verdade
para ele...
- E quando você vai estar pronta?
- Depois da formatura...
- Botan...
-... na Universidade?
- Botan!
- Ele vai me odiar.
- Você gosta mesmo dele...
- Não! Quer dizer, sim... Mas não como você
está pensando.
- Claro... – Kuwabara sorriu de lado. – Você
vai entrar ai ou eu vou ter que arrasta-la?
Botan cruzou os braços.
- Você não ousaria.
Dois minutos depois, uma Botan muito vermelha
– mais pela iminência do encontro com Shuuichi que pela raiva – e um Kuwabara
muito sorridente a empurrando, assim como Yusuke tinha feito com ele menos de
meia hora antes, passavam pela porta de madeira. A garota levantou lentamente a
cabeça ao sentir uma corrente de ar atingir-lhe as mechas de cabelo que caiam
do boné. O lugar era completamente diferente do que imaginava. A piscina,
apesar de bom tamanho, não chegava a ser apropriada para prática de esporte.
Havia cadeiras de praias cercando a água dando ao todo uma aparência de área
recreativa. O teto era coberto por um material transparente que ela não tinha
certeza de como chamar. Teria perdido mais tempo analisando o ambiente em volta
se seus olhos não tivessem esbarrado com um Shuuichi muito sorridente, usando apenas
um calção de banho, caminhando direto na sua direção.
- Isso não está acontecendo...
- Boa sorte, Botan – Kuwabara sussurrou antes
de se afastar. – Eu estarei torcendo por você.
- Kuwabara...
Tarde demais. O garoto já tinha corrido na
direção onde um Yusuke sem camisa, espalhado em uma das cadeiras em volta da
piscina, usando um par de óculos de sol tirados sabe-se lá de onde, ainda mais
estando em um espaço onde mal havia sol, tentava disfarçar muito mal o fato de
estar olhando diretamente para Shuuichi e Botan.
- Touya, você finalmente chegou – disse o
ruivo com um sorriso. – Eu mal posso esperar para ver os dotes de nadador dos quais você tanto se gabou no outro dia... – fez uma pausa
antes de arquear a sobrancelha e perguntar: – Você está me ouvindo?
- Eu...
Ela estava ouvindo. Como não ouvir quando ele
fazia um convite para sua sentença de morte? Sim, porque se alguém descobrisse
que ela era uma garota, Ayame e Koenma ficariam sabendo e a trancariam em casa
para o resto da vida, onde ela teria uma morte lenta e solitária não tendo nada
melhor para fazer que ler os livros de contabilidade do cunhado e ver às
novelas favoritas da irmã tardes inteiras. Tudo bem que ela sabia as
conseqüências, mas era impossível conseguir encarar Shuuichi quando ele estava
a menos de um metro de distância com toda a glória de seu dorso desnudo, ali,
torturando-a. Como então ela ia ter cabeça para pensar em uma maneira de
confessar seu segredo sem chocá-lo muito? Tinha que ser brincadeira.
- Eu tenho uma coisa importante para dizer –
ela conseguiu falar, respirando fundo.
Shuuichi continuou parado, olhando para ela
com aquele sorriso despreocupado, completamente inconsciente que estava prestes
a perder um amigo e conseguir uma completa desconhecida no lugar. Como ele
podia ter uma expressão tão inocente e um corpo tão... tão...
tão...
- Touya!
- O que? – Botan olhou rapidamente para o
rosto do ruivo, implorando mentalmente que ele não tivesse percebido os olhos
dela passeando pelas partes despidas de seu corpo.
- O seu rosto está vermelho... – ele balançou
a cabeça. – Entendi o que você veio me dizer.
- En-Entendeu?
- Mas não precisa se envergonhar por causa
disso, eu realmente entendo.
- Shuuichi... – do que ele estava falando? Ele
não podia ter entendido realmente o que ela ia dizer, podia?
- Você estava realmente mal ontem, é natural
que ainda se sinta doente. Por acaso tem febre?
Ele se aproximou ainda mais para tocar a testa
dela e Botan se perguntou a que tipo de febre ele estaria se referindo.
Imediatamente, balançou a cabeça e se afastou, antes que sua mente se enchesse
com mais bobagens como aquela.
Respirou fundo, aproximando-se da piscina e
olhando
- Touya... – Shuuichi a segurou pelo ombro de
repente, assustando-a. – Você está estranho. Acho melhor voltar para o quarto.
Foi burrice da minha parte insistir para que você
viesse hoje.
- Verdade? – Botan perguntou esperançosamente,
mantendo ainda os olhos fixos na água. Era sua chance de escapar daquela
conversa ao menos por aquele dia. O único problema era que tinha vindo
preparando-se mentalmente para isso. Se não dissesse agora, talvez não tivesse
coragem de falar depois. Iria passar o resto do semestre remoendo o assunto e
acabaria indo embora e separando-se dele, deixando-o com aquela lembrança falsa
do bom amigo Touya. Não. Precisava falar e tinha que ser agora. – Shuuichi, o
que eu queria te dizer...
Botan nunca pode completar a frase. Nesse
instante um grito de “sai da frente” cortou o ar e, quando se deu conta, estava
sendo arremessada piscina adentro, com um Shuuichi tão confuso quando ela
caindo a seu lado.