Aoshi correu para o ginásio o mais rápido que pode. Ele não fazia idéia de quem eram os tais garotos que estavam lá e o que tinham a ver com Kaoru, mas ela parecera realmente preocupada com o assunto e ele achou melhor apressar-se. Percorreu os corredores com o cuidado de não chamar muita atenção até chegar a saída. De lá, ignorando o olhar reprovador que o jardineiro e dois professores lhe lançaram por estar fora da sala, seguiu direto pela portinha meio escondida que dava no ginásio.
Os corredores dos vestiários estavam vazios e silenciosos como sempre. Aoshi costumava ir até ali quando se cansava das aulas ou simplesmente quando queria ficar sozinho. Gostava de deitar-se no chão e aproveitar a quietude do lugar para pensar. Assim como a cobertura do prédio era o seu lugar especial quando estava em casa, aquele o era quando estava na escola. Ele olhou em volta sem perceber nada de anormal. Não havia nenhum sinal de que alguém estivesse escondido ali, mas isso nada significava uma vez que havia vários armários vazios onde antes eram guardados uniformes e outros utensílios que os atletas utilizavam nas competições e estes eram suficientemente espaçosos para abrigar um ser humano de seu porte e estatura, além disso, havia a sala dos treinadores e o quartinho das bolas, dobrando o corredor. Ele só teria que procurar.
- Cuidado!
Uma voz amedrontada soou de repente, vinda exatamente do lado para onde ele estava indo. Aoshi estancou confuso. Aquela voz era de uma mulher e Kaoru falara em três garotos. A voz era familiar e ele não precisou pensar muito para reconhecer como a de Megumi, aquela garota que estava sempre bajulando algum professor com o propósito de um dia ingressar na faculdade de medicina com ótimas recomendações. Mas o que ela estaria fazendo ali em pleno horário de aula? O ginásio era o lugar preferido de alunos retardatários, ele sabia, mas lembrava-se perfeitamente de ter visto Megumi na rua do colégio muito antes do início do primeiro horário. Se não tivesse se distraído por tanto tempo com aqueles jogos eletrônicos instalados na frente da banca de revistas do centro, certamente teria chegado ao mesmo tempo em que ela.
- Não seja histérica, Megumi! Não deve ser nada demais...
Todas as dúvidas de Aoshi se dissiparam no instante em que ouviu aquela outra voz. Era Enishi Yukishiro, indiscutivelmente. Ele reconheceria aquele tom arrogante em qualquer lugar do mundo. Aquilo fez com que recomeçasse a avançar. Sabia dos sentimentos de Kaoru pelo jovem popular, mas não gostava nem um pouco dele. Na sua opinião, Enishi era um rapaz fútil e egoísta, que não se importava com ninguém além dele mesmo. Seja lá o que estivesse fazendo, junto com Megumi, naquele local isolado da escola, não podia ser boa coisa e os amigos de Kaoru poderiam estar com problemas, sem falar nela mesma se descobrissem que escondera desconhecidos na escola.
Ele dobrou para o outro corredor quase correndo e o que viu foi exatamente o que imaginara: Uma assustada Megumi segurava firmemente os ombros de Enishi que tinha uma das mãos na porta do quartinho das bolas. Ele parecia estar indeciso se a abria ou não e na mesma hora Aoshi teve uma idéia clara do que acontecera. Os amigos de Kaoru estavam lá. Enishi e Megumi deveriam ter ouvido algum ruído e decidido investigar. Se ele não fizesse alguma coisa e rápido, Kaoru poderia acabar obtendo um grande problema.
- O que estão fazendo aqui? – Aoshi perguntou com a voz firme e autoritária, de modo a chamar atenção.
Imediatamente, Megumi virou-se com um gritinho de surpresa. Enishi largou a porta e acompanhou os olhos dela até rapaz alto que os encarava com um olhar divertido.
- Eu não tenho que te dar explicações, Shinomori. – respondeu Enishi já fazendo menção em voltar ao que estava fazendo. Megumi, por sua vez, parecia assustada. Seja lá o que estivesse pensando quando resolvera entrar no ginásio, a última coisa que esperava era ser pega. Os olhos dela, implorantes, eram como os de um animal acuado e sem saída.
- Sabe, Yukishiro, eu não concordo com você sobre não terem que me dar explicações. – continuou Aoshi tentando atrair a atenção de Enishi para longe daquela porta. Ele tomou cuidado em deixar bem claro que queria explicações dos dois. Megumi era a mais desconfortável na situação e ela poderia ser de alguma ajuda se os convencesse de que não teria escrúpulo em denuncia-los se assim desejasse. – Vocês estão fora da classe em horário de aula.
Enishi sorriu.
- E você? Por acaso também não está?
- Eu não sou o Mr. Popularidade da escola e não estou concorrendo a nenhuma bolsa em faculdade de medicina. – respondeu Aoshi imperturbável.
Pela primeira vez, Enishi pareceu hesitar. Ele olhou para Megumi que estava visivelmente assustada e franziu a testa contrariado.
- Se nos denunciar, vai acabar tendo problemas, Shinomori. Você também está aqui quando não deveria estar. – disse ele em uma última tentativa de ganhar a discussão.
Aoshi respondeu simplesmente:
- Eu não tenho nada a perder.
Os três ficaram por um minuto em silêncio. Sessenta segundos que pareceram muito mais tempo. Todos ali sabiam que Aoshi estava com a razão. Ele já era suficientemente encrencado para se preocupar com mais uma repreensão.
Megumi foi a primeira a falar:
- Enishi, vamos. – ela puxou o rapaz pelo braço e ele a acompanhou sem tirar os olhos de Aoshi. Aquele olhar prometia que aquilo não ficaria assim.
- Shinomori, você não perde por esperar. – ainda disse.
Aoshi não respondeu. Apenas observou o casal se afastar e desaparecer ao dobrar o corredor. Ele esperou no mesmo lugar até ouvir o bater da porta por onde entrou e um pouco mais para ter certeza de que não teria mais nenhuma surpresinha desagradável. Quando conseguiu finalmente respirar aliviado, caminhou até a porta do quartinho abrindo-a de uma só vez. Olhou para dentro com indisfarçável surpresa. O lugar estava vazio.
-o-o-o-o-o-
Kaoru não pode evitar um sorriso ao ouvir o sinal tocar para a terceira aula. Ela guardou os livros dentro da bolsa e esperou até Saitou sair para levanta-se e esticar os braços para cima, aliviada por finalmente poder dar uma olhada em Kenshin, Sano e Soujirou pessoalmente.
- Kaoru, está se sentindo melhor? – perguntou Misao aproximando-se.
- Eu estou ótima, Misao! – Kaoru sorriu, mas o sorriso morreu no momento em que ela imaginou o porquê de Aoshi estar demorando tanto. Será que ele tivera algum problema? E se Kenshin e os outros pensaram que se tratasse de alguma ameaça e o tivessem atacado? Ela não queria nem pensar nessa possibilidade. – Eu preciso dar uma passada... No meu armário! – disse e saiu correndo, antes que Misao pudesse oferecer-se para acompanha-la.
- Mas o que será que está acontecendo com ela hoje? – perguntou-se Misao sem entender nada. Agora eles teriam aula de música e ela não gostava nada. Cantar nunca fora o seu forte e as músicas antigas que a professora apresentava davam-lhe dor de cabeça.
Antes que alguém aparecesse para leva-los até o salão de música, ela escapuliu entre os alunos, que aproveitavam os momentos sozinhos para conversarem e percorrerem a sala de um lado para o outro em busca dos amigos, e correu atrás de Kaoru. Os armários não ficavam longe e depois as duas poderiam ir para a biblioteca e ficarem lá até a hora do intervalo. Prestando mais atenção em quem poderia estar observando-a de trás do que no caminho que percorria, ela acabou esbarrando em alguém e caindo de costas no chão.
- Mas por que você não olha por onde anda? – reclamou Misao com raiva. Será que agora não podia nem caminhar pelo corredor sem correr o risco de algum idiota derrubar-lhe no chão?
- Eu sinto muito, senhorita, eu... Não foi minha intenção.
Ela ouviu aquela voz chamando-a de... Senhorita? Quando ergueu os olhos para o rosto do rapaz que a derrubara, ele já tinha se agachado e a ajudava a levantar-se. Misao sorriu agradecida e passou a mão pelo uniforme a fim de limpar qualquer resquício de poeira que pudesse ter ficado preso nele.
- Eu não quis ser grosseira. – disse Misao, desculpando-se. – Estava distraída, não foi de todo sua culpa.
O jovem sorriu e Misao prestou mais atenção nele. Tinha os cabelos escuros, curtos, e olhos azuis que a encaravam com gentileza e preocupação. Ele estava usando jeans e camiseta, roupas que certamente não lhe pertenciam porque ficavam grandes demais para ele. Em nenhum momento o rapaz pareceu perceber o olhar avaliador da jovem em cima dele. Ele estava ocupado em também avalia-la, parecia não estar completamente convencido de que ela estivesse bem.
- Eu deveria ter prestado atenção. – ele disse e sorriu gentilmente.
Misao não pode evitar sorrir de volta. Ia perguntar o nome do rapaz, mas ele se adiantou.
- Meu nome é Soujirou Seta e eu estou meio perdido por aqui. – disse ele. – A senhorita por acaso não viu um ruivo, pouco mais alto que eu, acompanhado por um cara com o cabelo parecido com uma crista de galo?
Ele esperou a resposta com o rosto sério e ansioso e Misao achou a expressão muito engraçada. Ela começou a rir deixando o jovem confuso.
- Eu disse alguma coisa engraçada? – ele perguntou.
- Não... – disse Misao entre o riso. – Foi a maneira que você falou... – ela riu mais um pouco, tentando imaginar o tal Crista de Galo e se perguntando se ele falava mesmo sério. Quando conseguiu controlar-se, disse: - Sou Misao Makimashi e você não parece um estudante desse colégio.
- Talvez porque eu não seja. – disse Soujirou. Agora ele sorria ainda mais animado. Aquela garota, Misao, parecia confiável. Talvez fosse melhor contar tudo a ela e esperar que o ajudasse. – Uma amiga nos trouxe até aqui, até o ginásio, sabe... Mas nós precisamos sair de lá bem depressa. Eu preciso encontrar os dois homens dos quais falei ou essa jovem, Kaoru...
- Disse Kaoru? – interrompeu Misao. Seria desses jovens que ela falava no bilhete que escreveu para Aoshi? – Você é amigo da Kaoru?
- A conhece?
- É minha amiga também...
Soujirou sorriu ainda mais. Por mais sorridente que ele pudesse estar, sempre dava um jeito de parecer ainda mais risonho, à medida que a conversa avançava.
- Então você também vai nos ajudar com... Você deve saber... O nosso problema... Com os gatos...
Misao o encarou com um brilho de entendimento no olhar. Então era isso. Kaoru tinha trazido os tais garotos à escola para ajuda-la com o problema dos gatos. Era uma lástima os três felinos ainda não terem aparecido, devia ser por isso que a amiga andava tão preocupada. Ela ainda se sentia culpada por ter perdido os três pequenos animais e faltado com a última vontade de seu tio Hiko.
- Sim, eu também vou ajudar com isso. É uma situação terrível, não acha? Os três perdidos por aí no meio de tanta gente estranha...
- É exatamente isso! – interrompeu Soujirou ainda mais sorridente. Estava muito feliz que aquela garota tão agradável os compreendesse tão bem. – Eu estou muito feliz que a senhorita também vai nos ajudar. É muito bom ter amigos com quem contar, ainda mais em uma situação tão difícil.
- Tem toda razão. – concordou Misao.
Os dois ficaram parados, em silêncio, por alguns instantes. Misao pensava teriam saído aquele garoto e os outros dois de quem ele falara. Nunca soubera que Kaoru tinha amigos fora da escola e achava que sabia tudo a respeito dela. Pelo menos Soujirou parecia muito interessado com o problema dos gatos. Encontrar os três animaizinhos naquela cidade seria quase impossível, assim, toda ajuda era muito bem vinda.
- A senhorita acha que devemos procurar Kaoru? – Perguntou Soujirou quebrando o silêncio.
Misao hesitou. Mas não era exatamente o que ela ia fazer antes de encontra-lo? Ela não sabia dizer o que, mas havia algo de estranho com aquele rapaz. E porque ele insistia em chamá-la de senhorita? Esperava poder fazer algumas perguntas a Kaoru mais tarde.
- É uma ótima idéia. – respondeu por fim.
- Ótimo. – ele já se virava para seguir adiante pelo corredor, quando a ouviu chamá-lo de volta. – Sim...?
- Me chame de Misao.
Ele assentiu com seu habitual sorriso, agora muito maior do que qualquer pessoa já vira, e os dois seguiram juntos, na direção do armário de Kaoru.
-o-o-o-o-o-
Kenshin olhou para o teto, para as paredes, para o chão e depois novamente para frente. A mulher de cabelos e olhos castanhos o encarava esperando por uma resposta. Ela estava elegantemente vestida com um conjunto preto cuja saia era tão estreita que o jovem ruivo se perguntava como ela conseguia andar sem tropeçar. A elegância dela era um contraste com os jeans desbotados que Kaoru lhe emprestara e que agora também tinham dois círculos escuros, de poeira, nos joelhos. Ele tivera muito trabalho para se arrastar por aquele corredor tão estreito no teto... Como se chamava? Tubo de ventilação? Era algo assim que estava escrito em um papel esquisito colado na grade.
De qualquer maneira, aquela mulher não parecia estar nem um pouco incomodada com a sua aparência. Ela resmungara qualquer coisa sobre a moda estranha dos artistas e o mandara sentar-se. Agora o fitava com um olhar intimidador do qual ele não conseguia se esquivar. Talvez o melhor fosse dizer a verdade desde o início. Não diria nada que ela não se esforçasse em saber, mas tampouco mentiria. Mentir nunca fora o seu forte e sempre causava problemas, desde que o mundo é mundo, e causar problemas a Kaoru era a última coisa que ele desejava. A única coisa sobre a qual ele não falaria era a história dos gatos, ainda que furassem seu nariz a força e o enchessem de argolas, exatamente como aquela mulher que vira na rua mais cedo.
- Sim, senhora. Sou eu o jovem que veio de longe.
Ele esperou que ela dissesse como sabia daquilo, torcendo para que fosse só isso. Se por acaso Sano ou Soujirou tivessem sido encontrados por alguém mal intencionado e falado mais do que deviam, ai sim, estaria com um grande problema. Precisava sair dali e procura-los o quanto antes. Desconcertado, ele viu a mulher sorrir tranqüilamente e começar a fazer anotações.
- Eu sou Yumi Komagata. – disse ela, sem desviar o olhar do que estava escrevendo. – Sou a coordenadora das turmas de formandos e já esperava por sua chegada, senhor...
- Himura. – disse Kenshin automaticamente. – Kenshin Himura! – ele a viu franzir a testa como se aquela não fosse a resposta que esperava, mas não se importou muito com o fato. Estava bem mais preocupado em pensar o que seria uma turma de formandos. Se aquela mulher era uma coordenadora, então deveria ser alguém importante. Na sua época havia coordenadores apenas no exército e nos mosteiros e todos eram pessoas de grande influência.
- Himura...? – ela procurou qualquer coisa entre uma pilha de papéis ordenados a frente dela e olhou para o rapaz visivelmente confusa. – Que estranho... Eu jurava que se chamava Yamada... – o encarou esperando uma resposta, mas como ele se manteve quieto, no mesmo lugar, prosseguiu: – Nós estávamos a sua espera desde a semana passada, senhor Himura.
- Mas não consegui voltar a esta forma até dois dias atrás... – respondeu Kenshin em dúvida. Como poderiam estar à espera dele? Será que essa mulher sabia o que aconteceria na lua nova desde antes? Ele colocou as mãos sobre a boca subitamente ciente do que havia dito. Quase dissera algo comprometedor. Por que esconder as coisas tinha que ser tão difícil para ele?
Yumi ficou em silêncio, pensando no que significavam aquelas palavras enquanto Kenshin ponderava se devia ou não investigar cuidadosamente se aquela mulher sabia algo sobre o mago. Se ela sabia sobre a lua nova, provavelmente poderia lhe dar alguma informação relevante sobre o homem que procurava. O problema era como fazer isso sem falar a respeito de sua condição.
- Entendo o que quer me dizer. – disse Yumi por fim. – Deve ser difícil organizar esse tipo de espetáculo e eu soube que foi muito bem sucedido com o do colégio Matsumoto no ano passado. Deve ter sido muito desgastante para o senhor. Soube que estava em férias até dois meses atrás...
- Bem, eu... – espetáculo? De que espetáculo ela estaria falando?
- Não é preciso que nos dê explicações, senhor Himura, está contratado. – ela levantou-se e estendeu a mão. Imediatamente Kenshin a acompanhou e beijou a mão estendida. Estava tão acostumado a fazer isso que sequer pensava antes de agir.
- Foi um prazer conhece-la, senhorita Komagata. – ele disse sem muita certeza. Não entendia o que acabara de acontecer, mas era óbvio que estava sendo dispensado. Achou melhor ir embora e voltar depois se fosse necessário. Talvez Kaoru pudesse ajuda-lo com isso também, afinal, era algo na escola dela que aquela mulher coordenava.
Yumi sorriu lisonjeada pelo gesto cavalheiresco.
- O senhor é tão galante quanto eu ouvi falar.
Kenshin devolveu o sorriso cada vez entendendo menos. Não esperou que nada mais fosse dito, saiu da sala depressa, voltando para o corredor. Precisava encontrar Sano e Soujirou antes que eles se metessem em problemas, especialmente Sano. Se ao menos soubesse onde estava Kaoru... Torcendo para estar indo pela direção certa e topar com um deles a qualquer momento, ele começou a andar. Resolveu que dessa vez evitaria as portas. Aquele mundo estava cheio de gente perigosa.
-o-o-o-o-o-
- Vai! Vai! Vai! Vai! Vai!
Um grupo de estudantes gritava, fazendo um círculo em torno da briga que se desenrolava no estacionamento da escola. A gangue conhecida como a mais forte da região, não parecia tão forte naquele momento, enquanto eram surrados e largados no chão, um a um, por aquele cara alto, de cabelos castanhos, espetados, que aparecera não se sabe de onde e que ninguém ali nunca tinha visto mais gordo. O desconhecido agora estava agarrado ao colarinho de um garoto que tinha o dobro do seu tamanho. O infeliz o desafiara baseando-se na diferença entre o físico dos dois, mas agora, depois de dois ou três golpes, o encarava com tanto pavor que todos estavam surpresos por ele estar conseguindo evitar molhar as calças.
- Por favor, me solte. – implorava. – Eu juro que não quis zombar de você... Eu não sabia...
Sanosuke olhou para os o covarde com desdém. Odiava gente assim, que começava a implorar sem dar-lhe tempo nem mesmo de se divertir um pouco. Pelo visto, nenhum adversário que pudesse arranjar naquela época seria páreo para ele.
- O que você não sabia? – perguntou Sanosuke. Os que assistiam começaram a sussurrar baixinho, coisa que Sano não gostava nada. Aquilo acabava com a sua concentração e ele enviou a pequena platéia um olhar assassino. Os que não saíram correndo recuaram um passo.
- Eu não sabia que você era tão forte! – respondeu o outro quase chorando.
No momento em que Sano ia dar outra resposta malcriada, ele viu quando os garotos ainda presentes abriram caminho e um rapaz se aproximou. Tinha uma aparência estranha. Os cabelos eram brancos, apesar – se os setecentos anos não fossem levados em conta – deles parecerem ter a mesma idade. Os olhos eram escuros e brilhavam divertidamente enquanto ele caminhava devagar na direção da cena. Um pouco atrás, seguindo-o com uma expressão muito contrariada, estava uma garota alta e muito bonita. Ao vê-la, Sano esboçou um sorriso e pareceu esquecer-se completamente do garoto que ainda segurava e do outro que interferira no clima da luta.
- É o Yukishiro e a Takani... – disse um dos expectadores.
- Enishi Yukishiro é o meu nome. – o rapaz de cabelos brancos apresentou-se. – E eu posso saber quem é você?
Sano finalmente largou o arruaceiro no chão, e, ignorando Enishi, caminhou até Megumi. Ele sorriu para ela atrevidamente e disse:
- Sanosuke Sagara, para o que der e vier.
Todos os presentes soltaram uma exclamação de surpresa. Enishi Yukishiro não gostava de ser esnobado e aquilo certamente terminaria em problemas. A pergunta no ar era quem seria o tal Sanosuke que aparecera do nada, dera uma surra na gangue mais perigosa da região e agora flertava com a garota do cara mais popular – e de certa maneira, mais perigoso – da escola, na frente do mesmo e sem nenhum receio. Pela expressão no rosto de Enishi, o cara, forte ou não, não sairia ileso dali.
- Não vire as costas para mim quando eu estou falando. – Enishi colocou a mão no ombro de Sano e o puxou com violência.
- Enishi, vamos embora... – pediu Megumi falando pela primeira vez. Os dois tinham saído do ginásio depois do encontro com Shinomori e acabaram por ser flagrados e repreendidos por Yumi, coordenadora das turmas de formandos. Se aquele ruivo que ela parecia estar esperando não tivesse aparecido, quem sabe que castigo teriam sofrido. O que ela menos precisava no momento, era acabar como pivô de uma briga. – Não vai arrumar confusão por causa desse... – deu uma boa olhada em Sanosuke – desse Crista de Galo.
Enishi gargalhou sonoramente. Os presentes o acompanharam no riso. Apenas Megumi e Sano permaneceram sérios. Ela não estava vendo graça nenhuma na situação e ele pensava que se não bastasse Soujirou, agora outros tinham que começar a chamá-lo por aquele ridículo apelido. Sano olhou Megumi com raiva.
- Então eu pareço com um galo? – ela não respondeu. – Pois se eu sou um galo, você é uma... raposa!
- Ora seu...
Ela começou a protestar, mas foi interrompida por Enishi.
- Fique quieta, Megumi. Eu sou o ofendido aqui. – ele olhou para os que assistiam como se ordenando que se retirassem e todos começaram a sair em grupos, como se de repente lembrados de que estavam em uma escola e tinham coisas mais importantes para fazer que encetando disputas. – Esse cara ousou criar atritos na minha escola e ainda dar em cima de uma garota que me pertence.
- Enishi... – Megumi cerrou os punhos, irritada. Não gostara da atitude violenta do estranho, mas gostara menos ainda de Enishi se referir a ela como propriedade dele. Ela era uma pessoa, não uma coisa. – Eu vou embora.
Antes que perdesse o controle e dissesse algo de que pudesse arrepender, ela se virou e voltou para dentro do colégio. Nenhum dos dois rapazes tentaram impedi-la, apenas a observaram se afastar.
- Viu o que você fez? – disse Enishi a Sanosuke. – Você é grosseiro até com as mulheres. – ele balançou a cabeça e tirou um maço de cigarros do bolso. Pegou um, ofereceu a Sano, que negou sem fazer a menor idéia do que pudessem ser, e acendeu o seu dando uma longa baforada em seguida.
- Eu apenas disse o meu nome. – Sano riu por um minuto, mas logo ficou sério outra vez. Não sabia o que aquele cara queria com ele, mas não estava com um bom pressentimento.
- Eu fiquei impressionado... – continuou Enishi. Ele jogou o cigarro no chão, esmagando-o com o pé, e apontou com um movimento de cabeça os rapazes que ainda tentavam se levantar, mais atrás. – Você não pegou leve com eles por serem colegiais... Gosto disso.
Sano olhou para os rapazes nos quais batera com uma ponta de remorso. Mal se vira livre naquele mundo e já fora arrumando confusão. Tudo bem que eram um bando de covardes e idiotas, mas ele agira impulsivamente. Kenshin ficaria furioso... Kaoru ficaria furiosa... O pior de tudo seria o irritante Soujirou que não ia perder a chance de chamá-lo de estúpido Crista de Galo.
- Eu não estou interessado se você gosta ou não. Preciso ir. – Sano deu as costas ao estacionamento e já ia caminhar de volta para o ginásio, na esperança de que os amigos tivessem voltado para lá, quando sentiu o soco vindo em sua direção. Desviou por pouco, quase perdendo o equilíbrio.
O ex-guerreiro olhou para trás assustado. Enishi tinha mesmo tentado atingi-lo mesmo depois de ver tudo o que fizera? E o soco que quase o atingira fora rápido e preciso. Se Sano não tivesse sido treinado com os melhores mestres em luta de sua época, certamente não teria conseguido se esquivar.
- Impressionado? – perguntou Enishi diante da surpresa do outro.
- Quem é você? – Sano perguntou.
- Isso não interessa, apenas me mostre do que você é capaz.
Mal pronunciou as palavras, Enishi saltou sobre Sano e lhe desferiu um soco no rosto do qual dessa vez ele não conseguiu desviar. Aquele golpe foi bem mais rápido que o anterior, muito diferente dos idiotas que enfrentara minutos antes.
- Vamos, eu não quero que se distraia!
- Se é a sua vontade...
Sanosuke passou a mão sobre o rosto dolorido e se colocou em postura de combate. Não sabia o que aquele outro estava querendo, mas não tinha nenhuma objeção de enfrentar um adversário mais forte. Achava até que seria divertido.
- É uma pena que aquela beleza não esteja aqui para nos ver. – ele avançou sobre Enishi e na hora em que ia ataca-lo, um grito desviou a atenção de ambos, interrompendo a luta. – Mas é...
- Aquela idiota da... Como se chama mesmo?
Sanosuke não ouviu o que Enishi disse. Kaoru estava parada a menos de dois metros dos dois, o rosto rubro de raiva e as mãos na cintura. Ela olhava para ele como se raios fossem transpassar seus olhos e fulmina-lo se ele abrisse a boca para dizer algo errado. De certa forma, Sano estava com medo do que aconteceria. Na sua vida era assim; as lutas eram como jogos para ele, em compensação as mulheres...
- Oi, Jo-chan!
Kaoru encurtou a distância entre eles para um metro. Quando os dois ficaram cara a cara, ela o puxou para o lado, de modo a não serem ouvidos. Olhou de relance para Enishi que parecia surpreso por eles se conhecerem e o vermelho de seu rosto se atenuou um pouco. Ainda assim, Sano sabia muito bem como misteriosamente as mulheres ficavam com um humor violento perto dele e preferiu não confiar muito.
- O que raios você pensa que estava fazendo? – perguntou Kaoru tentando se controlar e não fazer uma cena.
- Foi ele quem começou. – explicou-se Sano, mas Kaoru não deu nenhum sinal de quem tivesse acreditado. Provavelmente algum dos que o viram bater naquela gangue tinha espalhado o boato de que ele estava ali, se entendendo com Enishi Yukishiro, e ela não tinha porque não acreditar que fora ele a começar tudo mais uma vez.
- Eu não estou interessada em quem começou! – disse Kaoru irritada. – Você sabe o que pode acontecer se descobrirem vocês? Sabe o que pode acontecer se os três forem levados para longe? Acham que vão deixar vocês passeando por ai para procurar o seu mago? Ou quem sabe coloquem um anúncio na televisão para ele responder pessoalmente...
Sano abaixou a cabeça. Sabia que ela tinha razão. Encontrar o mago era a prioridade naquele momento e ele estava desperdiçando tempo e se colocando em risco só por causa das provocações de um idiota qualquer.
- Onde estão Kenshin e Soujirou? – perguntou Kaoru mais calma. Ela viu que suas palavras conseguiram acalmar a vontade de sair distribuindo socos do lutador e decidiu mudar de tópico. Fora uma péssima idéia levar aqueles três para a escola e tudo o que ela queria era encontra-los e tira-los dali o mais rápido possível.
- Não sei. Quase nos pegaram lá naquele quartinho do ginásio, mas eu pensei rápido e nós escapamos por um túnel dentro da parede. – a verdade era que Kenshin tivera a idéia, mas Kaoru não sabia disso e Sano não perderia a oportunidade de dar uma de esperto.
- Nós temos que encontra-los. – disse Kaoru.
- E eu posso saber por onde começar?
Os dois olharam um para o outro com uma única resposta em mente: os corredores do colégio.
-o-o-o-o-o-
Misao e Soujirou permaneciam parados em frente ao armário de Kaoru havia quase quinze minutos e nada dela aparecer. Por algum motivo, a escola parecia especialmente movimentada. Alguns alunos passaram correndo instantes antes falando sobre uma confusão no estacionamento envolvendo Enishi Yukishiro. Todo mundo sabia que Enishi era um dos alunos mais ricos da escola e que seu avô, aquele ano mesmo, dera uma generosa doação a biblioteca. Misao achava que por isso nenhum professor ou outra autoridade dera ouvidos aos comentários.
- Você acha que ela ainda virá? – perguntou Soujirou, parecendo alheio a qualquer outra coisa que não fosse encontrar Kaoru e os amigos.
Na verdade ele tinha prestado atenção sim em algo além de seus problemas, ele tinha observado Misao muito bem. Soujirou não era do tipo que não conseguisse viver sem dar em cima de uma mulher. Ele era tão alheio ao sexo oposto que Sano costumava zombar que ele acabaria por tornar-se um monge. Nenhuma garota em sua época nunca lhe chamara atenção. Nenhuma nunca conseguira fazer com que ele olhasse duas vezes e visse mais que uma pessoa qualquer. Nenhuma até agora. Por mais estranho que fosse dizer isso de alguém que acabara de conhecer, havia algo em Misao que ele não saberia descrever em palavras, mas que fazia com que não conseguisse desviar os olhos dela por muito tempo. Talvez fosse aquela personalidade alegre que ela tinha, quem sabe? Talvez estivesse apenas impressionado com uma característica que era comum ás garotas daquela época... Apenas isso.
Não é isso... Eu teria percebido algo em Kaoru. Misao é diferente, ela é...
- Tudo bem com você? – perguntou Misao de repente e só então Soujirou percebeu que estivera encarando-a pelos últimos minutos. – Em que estava pensando?
- Eu?
- Você!
- Eu estava pensando... – por um instante ele cogitou mentir, mas acabou desistindo da idéia. Soujirou tinha uma natureza sincera. Estava acostumado a dizer sempre o que pensava, sem nunca esconder suas opiniões e agora não seria diferente. – Eu estava pensando que nunca conheci ninguém como você.
Ele sorriu e Misao sentiu o rosto esquentar. Ninguém nunca tinha dito algo assim a ela tão diretamente. Jamais esperara ouvir aquela resposta de um garoto que conhecera há apenas meia hora. De repente sentiu-se triste. O único de quem esperara ouvir palavras como aquelas, nunca as diria.
Ela deve ter se assustado, nós acabamos de nos conhecer..., pensou Soujirou ao ver a mudança na expressão de Misao, Mas por que eu me importaria? Sete dias talvez seja o que me resta. A vida é muito curta para a gente se preocupar com detalhes.
- Você é muito alegre, Misao. – continuou Soujirou. – As garotas da minha época, as que passaram pela minha vida, eram todas tão diferentes... Tão sérias... Tão tediosas...
Misao sorriu sem graça.
- Você deve ter estudado em alguma espécie de escola militar... Tantas garotas sérias...?
- Nenhuma delas era como você. – respondeu Soujirou se perguntando quando começaram a aceitar garotas como militares.
- Ah, é? – ela perguntou bem humorada. – Nos conhecemos há pouco mais de meia hora e você já acha que sabe como eu sou?
- Eu sou um homem que não perde tempo.
- Estou vendo... – disse Misao se perguntando o que ele queria exatamente dizer com aquilo.
Soujirou abriu a boca para dizer alguma coisa quando uma voz soou atrás deles.
- Misao!?
Aoshi estava parado no meio do corredor. Nenhum dos dois tinha percebido sua aproximação, mas pela expressão em seu rosto, era óbvio que tinha escutado toda a conversa.
- Oi, Aoshi.
Misao cumprimentou, olhando dele para Soujirou. Ela sentiu que seu rosto esquentava ainda mais que minutos antes. Aoshi a vira conversando com toda intimidade com aquele outro garoto, o que ele ia pensar dela? Abriu a boca para dar uma explicação, dizer que as coisas não eram como ele provavelmente estava pensando, mas desistiu na última hora. Eles não eram namorados, não é mesmo? Eles eram apenas amigos e por escolha de Aoshi. Afinal, não era da conta dele com quem ela falava ou deixava de falar.
Os dois rapazes se encararam, Soujirou com o sorriso de sempre, Aoshi com o rosto fechado. Nenhum dos três disse nada por um período de tempo que mais tarde não saberiam dizer quanto. Foi Misao quem quebrou o clima pesado, apresentando-os:
- Esse é Soujirou, ele é um dos amigos da Kaoru. – disse ela, porém sem olhar nos olhos de nenhum dos dois. – Soujirou, Aoshi é nosso amigo. Ele também tentou ajudar com o problema dos gatos...
- Ah, que bom! – cortou Soujirou, feliz. Quanto mais gente estivesse disposto a ajudar na busca do mago, melhor. –muito prazer. – ele estendeu a mão, mas Aoshi não a acolheu, limitou-se a permanecer parado, com o rosto sério, olhando acusadoramente para Misao. – Oh... Sinto muito, eu não sabia... – disse Soujirou um pouco desconcertado.
- O que você não sabia? – perguntou Misao.
- Que vocês dois estão... Sabe... Juntos.
Ao ouvir aquilo, Aoshi olhou para Misao sem saber se deveria dizer alguma coisa. No entanto ela não gostou nada daquilo. Não queria que Soujirou pensasse o que não existia. Os dois estava conversando e se dando muito bem até chegarem Aoshi e sua carranca.
- Ele não é meu namorado! – ela disse mais alto do que pretendera.
- Mas eu pensei...
- Aoshi, você encontrou Kaoru por aí? – perguntou Misao na tentativa de levar o assunto a outra direção.
Ele relutou antes de responder um quase inaudível “não”.
- Então vamos procura-la.
Sem esperar resposta por parte de nenhum dos dois, ela saiu correndo rumo ao pátio.
Soujirou e Aoshi a observaram se afastar e só quando perderam-na de vista, a seguiram. O jovem ex-guerreiro estava muito feliz pela resposta de Misao, Aoshi, no entanto, estava quase chocado. Ele olhou para Soujirou a seu lado e no sorriso dele encontrou toda a certeza que não estava nas palavras da garota: Misao finalmente o esquecera.
-o-o-o-o-o-
Kenshin estava começando a ficar desesperado. Logo ele que sempre se gabara de ter um excelente senso de direção, agora não tinha nenhuma dúvida de que estava perdido. Já subira e descera as escadas repetidas vezes, andara por mais corredores do que imaginara existir dentro daquele prédio e cruzara com meia dúzia de garotas esquisitas que não perdiam tempo em querer “conhece-lo melhor”. Até então conseguira livrar-se de todas elas com a desculpa de que estava com pressa, mas achava que se não conseguisse encontrar rápido a saída, acabaria nunca voltando a ver Kaoru, Sano e Soujirou.
Com pressa, quase correndo, Kenshin atravessou um corredor acabando por chegar em outro que ele tinha certeza já ter percorrido antes. Levou as mãos à cabeça com vontade de gritar. Quem sabe assim alguém o escutasse e ele conseguisse sair dali ainda naquele dia? Não, gritar não era uma boa idéia. Chamar atenção demais podia acabar causando-lhe problemas. Raios! Tudo naquele mundo parecia que acabaria causando problemas. Como é que em sã consciência ele cogitara que seria fácil adaptar-se ali?
O jovem respirou fundo, mais calmo. Desesperar-se não lhe traria nenhuma vantagem. Resolveu continuar caminhando e assim o fez. Não tinha avançado mais de dois metros quando passou por um rapaz de cabelos brancos e olhos negros, resmungando alguma coisa que Kenshin não entendeu. O momento em que ficaram lado a lado foi como se uma onda elétrica os atingisse. Ambos olharam um para o outro e assim como o jovem ruivo teve certeza de que conhecia aquele rapaz de algum lugar, estava certo de que o outro sentira o mesmo.
- Você... – começou não muito certo do que ia dizer. O outro, no entanto, passou direto como se não o tivesse visto, ou dado qualquer importância àquela sensação estranha que se apoderara dos dois.
Foi nesse instante que ele foi interrompido por alguém chamando seu nome no final do corredor e assim, o episódio estranho do encontro com o rapaz de cabelos brancos foi imediatamente esquecido.
- Kenshin, até que enfim encontrei você!
Kaoru correu na direção do ruivo e parou na frente dele com um grande sorriso no rosto. Kenshin também sorriu, aliviado. Finalmente um rosto conhecido em meio a toda aquela confusão. Ele não se lembrava de ter ficado tão feliz em ver alguém como estava agora. Tve vontade de abraça-la, mas não o fez. O que ela ia pensar?
- Então aí está você. – disse Sano aproximando-se. Kenshin não tinha notado a presença dele até então.
- Sano...
- Nós temos que encontrar Soujirou e sair daqui. – disse Kaoru, interrompendo-os. Eles poderiam conversar sobre fosse lá o que tivesse acontecido enquanto estavam sozinhos, mais tarde.
Os três recomeçaram a andar. Kaoru com certo receio de serem vistos, uma vez que o movimento dos corredores já tinha diminuído para um ou outro retardatário e quase todos os alunos se encontravam em aula. Ela guiou Sano e Kenshin até o andar de baixo pela escadaria com todo o cuidado para não fazer barulho. Quando já estavam descendo o último degrau, uma voz conhecida chamou-lhes a atenção.
- Eles têm que estar por aqui, não podem ter evaporado, não é?
Kaoru quase gritou satisfeita. Saltou para o corredor de baixo dando de cara com Misao.
- Kaoru!!!!
As duas correram uma para a outra e começaram a falar ao mesmo tempo. Sano e Kenshin se juntaram a Soujirou e os três esperaram pacientemente que as duas acabassem de falar.
- Ainda bem que encontramos vocês. – disse Misao voltando-se para Aoshi e Soujirou. – Agora você vai nos explicar quem são os seus amigos? Já sabemos que os chamou para ajudar a procurar os gatinhos, mas de onde foi que eles saíram?
Procurar os gatinhos? Kaoru se perguntou o quanto de verdade Misao estaria sabendo. Soujirou deveria ter falado alguma coisa, mas ou ela entendera tudo errado ou ele fora prudente o suficiente para inventar uma história qualquer. Mais tarde ia interrogar os três e eles teriam que contar em detalhes tudo o que fizeram enquanto estavam sozinhos. Esperava que não tivessem falado nada sobre os gatos ou sobre estarem na casa dela. Se Keiko descobrisse... Ela preferia nem pensar.
- Kaoru...? – insistiu Misao que ainda esperava por uma resposta.
- Misao, eu tenho que ir embora agora. – disse Kaoru. O quanto antes tirasse Kenshin e os outros dali, melhor. – preciso levar os três para casa... Para as casas deles, antes que causem mais algum problema. – ela olhou para Sanosuke acusadoramente. – Eu te ligo quando chegar em casa...
- Mas de jeito nenhum! – protestou Misao. – Se vocês vão procurar os gatos agora, eu também quero ir!
Soujirou sorriu de trás e Aoshi, que até então permanecera em silêncio, com a cara amarrada, esperando as explicações de Kaoru, disse:
- Eu também vou.
Todos o encararam surpresos e Soujirou se perguntou se toda aquela prestatividade não tinha a ver com sua nova amiga de encantadores olhos verdes.
Kaoru olhou de um lado para o outro procurando uma desculpa pra que Misao e Aoshi ficassem na escola. Ainda não sabia o que dizer a eles sobre os novos amigos e também não falara com os três sobre o que podiam ou não dizer a respeito dos gatos, do mago e de estarem hospedados no dojo em sua casa.
- Nada de desculpas, Kaoru. – disse Misao como se adivinhasse seus pensamentos. – Eu vou e não há nada que você possa fazer para me impedir.
Diante dessa resposta, Kaoru suspirou resignada. Aquele prometia ser um longo dia.
CONTINUA