O dia seguinte amanheceu bonito. O céu muito azul parecia indicar o término de uma tempestade. Mas para Kenshin Himura, que desde a madrugada estava apoiado na janela do dojo com vista para a porta dos fundos da casa, aquele novo dia significava apenas o começo de seus problemas. Ele estava muito apreensivo. A maior parte por causa da busca que começaria naquela tarde, mas havia também um outro motivo: ele não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido na casa depois que saíram na noite anterior.
Kenshin lembrava-se de ter corrido para o dojo exatamente como Kaoru ordenara. Sano e Soujirou discutiam qualquer coisa sem muita importância que ele não deu maior atenção. Todos os seus sentidos estavam concentrados nas mudanças no ki de Kaoru e da senhora pela presença da qual tiveram que se esconder com tanta urgência. Ele se lembrava de ter tido a impressão de que uma séria discussão ocorria lá dentro e a verdade era que a muito custo evitara se aproximar. Não podia ser tão tolo a ponto de ignorar os apelos da jovem senhorita que se arriscara para ajuda-los – e segundo prometera, continuaria se arriscando – por causa de sua curiosidade. O que poderia acontecer de tão mal? Afinal, era a mãe de Kaoru que estava lá, não um bandido. Ele estava se preocupando a toa, não? Apesar da razão dizer que sim, ele não conseguiu sair de perto daquela janela. Apoiou-se embaixo dela tentando acompanhar seus amigos no aconchego dos braços de Morfeu, mas foi impossível. Quando o primeiro resquício de luz apareceu anunciando que não faltava muito para o sol aparecer, ele não suportou mais e levantou-se, se apoiando o mais discretamente possível na pequena janela. Kaoru apareceria logo... Ela tinha prometido. E ele estaria bem ali para ajuda-la no que fosse, com a mesma gentileza que ela tivera quando os deixara pernoitar em sua casa sem ao menos conhece-los, sem nenhuma prova sólida de que diziam a verdade.
- Sonhando acordado?
Era a voz de Sano. Kenshin não se deu ao trabalho de se virar para responder. Pela voz sonolenta do amigo, era improvável que ele soubesse há quanto tempo estava ali parado, esperando a sua bela anfitriã aparecer. Ele não tinha que se preocupar com nenhuma piadinha insinuando algo sobre suas intenções.
- Eu apenas pensava o quanto este mundo é diferente do nosso. – respondeu com em tom distante, como se estivesse contemplando algo além do que podia ver naquela casa e no quintal mal cuidado que a rodeava. Disso isso para fugir de suas reais divagações, mas não era de todo mentira. Ele realmente tinha pensado no assunto durante as primeiras horas de insônia e um pouco mais observando aquela casa de arquitetura tão singular. – Estava pensando também que tivemos muita sorte em encontrar a senhorita Kamiya. Estaríamos perdidos andando sozinhos por aí, não concorda comigo?
Sanosuke pareceu pensar por alguns instantes antes de soltar um grunhido que tanto podia significar que sim, como que não. Ele não estava muito preocupado com o que aconteceria lá fora, estava quase se acostumando a ver a humanidade um passo a frente toda vez que voltava a sua consciência humana. O que o preocupava era que ele não viveria para ver o próximo grande passo. Não aquele grande passo que custava um século inteiro para se completar. A questão era se conseguiria ter uma vida normal, como qualquer garoto de dezenove anos, ou se seria condenado a passar o resto de seus dias como um animal; sem consciência do que acontece a sua volta, sem sonhos, sem nenhuma ambição além de um prato de comida três vezes ao dia e um lugar para dormir.
- Ela é muito bonita, não é? A Jo-chan. – essa foi à resposta de Sano, para a surpresa de Kenshin. O jovem ruivo pensou em se virar e olhar nos olhos do amigo de modo a ver se aquela era uma de suas diretas sarcásticas, mas acabou desistindo. Continuou fiel em seu posto na janela, esperando um segundo comentário que nunca veio.
Em sua época, Sanosuke fora um conquistador incorrigível. Ele costumava ser visto com uma mulher diferente todas as semanas e não era muito difícil de acreditar que continuava com tais pretensões, esperando apenas uma boa oportunidade. Seria o interesse dele por Kaoru mais que agradecimento? Ele não parecia exatamente deslumbrado por ela quando a encontraram naquela noite, mas com Sano era difícil saber.
Por algum motivo Kenshin sentiu uma súbita irritação. Não gostava da imagem do amigo tentando conquistar Kaoru com presentes e galanteios baratos. Sanosuke que não chegasse perto dela se soubesse o que era bom para ele.
- Nós temos outros interesses mais sérios. – disse Kenshin mais rispidamente do que pretendera. – Devemos estar gratos à senhorita Kamiya pela ajuda e é só isso.
Desta vez não houve resposta. Sano parecia ter percebido algo na voz de Kenshin e agiu exatamente como teria agido setecentos anos antes, quando eram guerreiros de verdade e estavam a serviço de um rei. Em uma época em que Kenshin era conhecido como mais temido entre os mais temidos e que uma cicatriz como a que ele levava no rosto era uma honra, um orgulho e acima de tudo um sinal de respeito, porque as pessoas não precisavam fazer um grande esforço para imaginar o que tinha acontecido com fosse lá quem fora o autor da mesma. Como um bom guerreiro, Sano conhecia suas limitações e, prudentemente, escolheu permanecer em silêncio.
Kenshin não fez nenhuma menção de começar uma outra conversa. Continuou prestando atenção na porta dos fundos como se hipnotizado. Ele mal ouviu quando Soujirou acordou e cumprimentou-os, sorridente como sempre, com um alegre ‘bom dia’, e não se preocupou em responder. Ele estava disposto a sair e averiguar a casa caso Kaoru não saísse dentro da próxima hora, mas não foi necessário. Mal o pensamento lhe ocorreu, a porta dos fundos se abriu e por ela atravessou a jovem carregada de sacolas e pacotes, além da mochila da escola. Pelo menos à distância, ela parecia tão bem quanto no dia anterior. Kenshin sentia o coração ficar mais leve à medida que ela se aproximava do dojo. Sem pensar duas vezes, ele correu para a porta para que pudesse ajuda-la com tudo o que trazia. Sano e Soujirou, ao entenderem o que se passava, se levantaram e pararam a seu lado.
Kaoru não demorou a entrar. Tinha tido alguns problemas em girar a fechadura com toda aquela carga, mas quando finalmente atravessou a porta para o salão de treinamento, seus três hóspedes especiais a livraram de todo o peso levando tudo para um armário de prateleiras meio empoeirado onde um único troféu de um torneio de kendo há muito passado, ocupava espaço. As sacolas estavam cheias com comida, algumas roupas e cobertores. Tinha sido impossível trazer tudo na noite anterior, mas agora eles poderiam permanecer no dojo com mais conforto.
- Eu sinto muito por vocês terem passado a noite no chão. Foi indelicado de minha parte não lhes ter trazido nenhum cobertor ontem à noite. – disse Kaoru abaixando a cabeça. Eles tinham problemas bem mais sérios que os dela e ela não queria que eles vissem, dentro de seus olhos, que no momento não estava tudo bem.
- Não tem nenhum problema, Jo-chan! – disse Sano enquanto vasculhava as sacolas em busca de qual das iguarias atacava primeiro.
- Nós estamos muito agradecidos. – completou Soujirou tentando fazer com que Sano não comesse tudo sozinho.
- E você, Kenshin, não está com fome? – perguntou Kaoru.
O jovem ruivo a estudou por um momento, decidindo se deveria ou não perguntar sobre a noite passada. Ela parecia estar bem, mas indiscutivelmente diferente. Por fim, escolhendo cuidadosamente as palavras, disse:
- Eu agradeço muito tudo o que está fazendo. Está se arriscando diante de sua mãe... – ele viu Kaoru encolher-se um pouco ao ouvi-lo mencionar a mãe dela, mas foi um movimento muito sutil, quase imperceptível, que ele notou apenas por ter sido treinado exatamente para não deixar nada escapar. – Tem certeza que não vai ter problemas? Que... Está tudo bem?
Essa última pergunta foi feita com cuidado, tanto que Kaoru o encarou com um brilho de entendimento no olhar. Ela não tentou sorrir, apenas continuou parada, olhando para Kenshin como se implorasse que não lhe fizesse perguntas. A situação já estava ficando incômoda quando Sano os interrompeu.
- Como faremos para procurar aquele homem? Jo-chan, você vai nos acompanhar mesmo?
Agora as atenções tinham sido desviadas para um assunto mais sério e Kenshin sentiu-se grato.
- Eu preciso que vocês venham comigo agora mesmo. – disse Kaoru. – Há algumas roupas nas sacolas que eu trouxe. Elas pertenceram ao meu pai. Talvez fiquem um pouco grandes, mas foi tudo o que eu pude conseguir. – ela respirou fundo antes de prosseguir, preparando-se para explicar o que tinham que fazer. – Primeiro eu pensei que o melhor fosse vocês me encontrarem depois das aulas, mas eu não quero ter que voltar para casa e vocês não têm condições de encontrarem a minha escola sozinhos. Então o plano é o seguinte: Eu vou deixa-los em um quartinho que temos no ginásio de esportes. O lugar foi fechado para uma reforma que nunca foi iniciada e os treinos estão sendo ministrados em um clube. Vocês estarão seguros enquanto eu estiver na aula. Quando acabar tudo, eu irei até lá e nós sairemos juntos para ver se vocês reconhecem por aí o homem que estão procurando. Alguma objeção?
- Nós vamos te esperar em um lugar seguro enquanto você faz o que tem de fazer e depois nós vamos procurar o mago? – perguntou Soujirou e continuou, sem esperar resposta: - Gostei do plano, por mim está ótimo.
Kenshin e Sano sorriram concordando. Kaoru balançou a cabeça satisfeita.
- Então se vistam e vamos.
- Certo! – responderam os três e seguiram até o armário de prateleiras onde tinham deixado as sacolas que Kaoru tinha trazido. Ela saiu para espera-los do lado de fora enquanto se aprontavam. Tinham tempo para chegar à escola sem se preocupar em atrasar-se para a primeira aula. Naquele dia ela tinha acordado uma hora antes do despertador tocar. Levantou-se decidida a pedir desculpas a Keiko pelas coisas que tinha dito, mas a mãe já tinha saído deixando apenas um bilhete dizendo que voltaria para almoçar. Movida pelo remorso, ela decidiu que não estaria em casa antes do anoitecer. Rabiscou um bilhete dizendo que tinha aula de educação física e foi para o dojo. Aquele seria um longo dia, mas não importava. Quanto mais coisa tivesse para pensar, menos se preocuparia com a conversa que a esperava na hora do jantar.
Naquele instante, Kenshin, Sano e Soujirou apareceram usando os jeans e camisetas que o pai gostava de vestir quando a levava ao porto. Era duro para ela ver aquelas roupas sendo usadas por outras pessoas, mas não era hora de se preocupar com isso. Aqueles três rapazes precisavam delas e seu pai jamais voltaria a usa-las. Como ela pensara, as calças ficaram um pouco compridas e as camisetas largas, mas pelo menos eles não chamariam tanta atenção.
- Vamos logo. – Kaoru disse enquanto fechava a porta do dojo. E os três jovens a seguiram sem hesitar.
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Kaoru conduziu os três guerreiros, que agora não pareciam ser mais que estudantes comuns, com o cuidado de mantê-los caminhando a uma distância pequena, porém segura, atrás dela, de modo que as pessoas não percebessem que estavam juntos. Não queria problemas com nenhum professor que a visse chegar com três garotos, aparentemente em idade escolar, sem uniforme em pleno horário de aulas. Quem sabe o que podiam pensar? Mais tarde, quando fosse seguro, ela trataria de convencer Misao e Aoshi a acompanha-la na busca pelo tal mago e os seis poderiam sair como um grupo de amigos comum. O único problema era o que diria aos amigos sobre aqueles três. Sano e Soujirou tinham uma personalidade mais compatível com a época atual, mas Kenshin agia como um daqueles cavaleiros medievais galantes que se via nos filmes. O que ela diria se ele resolvesse beijar a mão de Misao e chamá-la de ‘senhorita Makimashi’? Ela não podia simplesmente chegar e dizer: “Bom dia, Misao e Aoshi, lembram dos meus gatos desaparecidos? Pois é, eles viraram humanos e agora precisamos encontrar um mago para que eles não voltem a ser gatos. Tenho certeza que vocês terão prazer em me ajudar, não estou certa?”. Sim... Decididamente ela teria que pensar em uma boa explicação.
Enquanto Kaoru divagava nas reações de seus amigos, os três jovens a seguiam sem perder um detalhe das coisas maravilhosas que povoavam as ruas daquela época tão singular. Os veículos agora pareciam caixas coloridas, artesanalmente esculpidas em formas estranhas que não lembravam nada que eles já tivessem visto antes. O mais estranho e espetacular era o fato delas andarem sozinhas, sem a ajuda de nenhum cavalo que pudesse ser visto. Sano se encolheu caminhando para longe da rua. Aqueles veículos pareciam enfeitiçados e ele jurou a si mesmo que por nada nesse mundo chegaria a entrar em um deles. Mas o mais impressionante não tinha sido exatamente os carros, mas as próprias pessoas que tinham uma aparência estranha, como se não fossem completamente humanas. As mulheres usavam roupas mais curtas e mais coloridas, quase ligadas ao corpo, sem falar que podia deixar seus cabelos da maneira que quisesse. Kenshin quase deu de cara com uma árvore ao acompanhar com o olhar uma mulher com os cabelos de três cores usando argolas pequenas no nariz. Ele não tinha certeza se pensava naquilo como um sinal do progresso ou se, simplesmente, na pobre mulher sendo torturada com aquelas argolas sendo espetadas a força em seu rosto.
- Isso não é incrível? – perguntou Soujirou. Era o único dos três que parecia realmente estar aproveitando cada segundo de caminhada. – Eu nunca pensei que viveria para ver um mundo tão divertido.
Nenhum dos outros dois respondeu. Cada um estava absorto em suas próprias impressões e com certeza discordavam que ‘divertido’ fosse a palavra certa pare designar o que viam. Naquele mundo, diferente de sua época, tudo parecia estar fora de lugar, como um quarto de criança precisando de uma boa arrumação. Quando deram por si, Kaoru já os chamava para saírem da calçada e entrarem com ela por uma porta pequena, quase escondida, em uma enorme construção.
“Então é aqui que vamos ficar durante toda a manhã...”, pensou Kenshin admirando a construção como se nunca tivesse visto nada igual. A verdade era que o único lugar assim tão grande onde estivera fora o palácio real. Todas as aldeias eram constituídas de casas tão pequenas que mal conseguiam abrigar uma família de quatro pessoas. “Era assim no meu mundo... Tão diferente desse lugar... Mas o meu mundo não existe mais. Se tivermos sorte, esse passará a ser o nosso mundo e é bom irmos nos acostumando com ele...”
Os três entraram por aquela porta atrás de Kaoru. Passaram por um corredor largo onde vários armários, com números colados nas portas, tinham sido encostados cobrindo as paredes de ambos os lados. Aquilo fora um vestiário antes do ginásio ser desabilitado para a reforma, isso antes do diretor anunciar que estavam sem recursos para tanto. Por fim, entraram em um quarto pequeno, cheio de bolas de basquete vazias. Na parede havia uma prateleira com um troféu velho enferrujado. Sano o examinou de longe em dúvida se deveria ou não toca-lo, mas achou melhor esperar que Kaoru fosse embora para investigar melhor o lugar. Não lhe agradava a idéia de ser repreendido por uma mulher.
- Fiquem aqui até que eu volte, sim? – pediu Kaoru um pouco mais tranqüila. Ela ficara inquieta com a possibilidade de serem vistos, mas felizmente tudo tinha corrido muito bem. – Eu voltarei em algumas horas, assim que o sinal tocar. Por favor, não saiam daqui. É muito importante que vocês não sejam vistos por nenhum professor ou poderemos ter problemas.
Ela não queria nem pensar no que aconteceria se um professor resolvesse interrogar um daqueles garotos. Dois minutos com ele e o mínimo que poderia acontecer era eles serem levados para algum hospital psiquiátrico. Gatos que se transformam em homens a cada cem anos... Ela mesma mal podia acreditar.
- A senhorita não precisa se preocupar – disse Kenshin com um sorriso tranqüilizador –, nós não sairemos daqui.
Kaoru sorriu de volta. A essa altura ela parecia menos preocupada com fosse lá o que acontecera na noite anterior e estava voltando a se parecer com a garota determinada e cheia de coragem da antes. Por algum motivo, Kenshin sentia-se estranhamente feliz diante dessa mudança.
- Pode ir tranqüila, Jo-chan. – disse Sano sentando-se no chão e encostando-se à parede enquanto esticava os braços para trás, apoiando a cabeça nas mãos. O tanto que dormira aquela noite parecia não ter sido suficiente. – Nós não escaparemos daqui.
Com uma última olhada no relógio de pulso e com a expressão de quem temia se atrasar, Kaoru saiu andando depressa, sem dizer mais nada.
Assim que se viu em segurança, longe do olhar de sua boa samaritana, Sano se levantou e pegou o troféu na prateleira examinando-o com atenção. Aquilo não podia ser ouro, mas era dourado e deveria valer alguma coisa. Aquilo ocuparia seus pensamentos por algum tempo. Soujirou não deu importância ao objeto, apenas suspirou resignado esperando que o tempo fosse generoso com ele e trouxesse a tarde rápido, para que ele não precisasse esperar muito. Kenshin também parecia um pouco impaciente, mas não reclamou. Limitou-se a se sentar no chão e começar a brincar distraidamente com uma das bolas de borracha vazias. Uma verdade que não se pode discutir é que as horas se arrastam quando você quer que elas passem depressa.
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Misao vinha correndo alegremente pelo corredor quando viu Kaoru vasculhando seu armário mais à frente, certamente a procura do livro de História do Japão que usariam na aula de Hajime Saitou. Ela começou a gritar o nome da amiga enquanto se aproximava sem se preocupar com os olhares abismados – alguns reprovadores – dos estudantes diante do escândalo que estava fazendo. Kaoru estava tão distraída que não percebeu sua presença até que ela estivesse a seu lado, o que Misao tomou como um sinal claro de que algo estava errado. Era quase impossível não notar a chegada de Misao Makimashi quando esta percorria os corredores da escola.
- Kaoru, você está bem? – Misao perguntou avaliando o rosto da amiga de maneira muito mais detalhista do que fazia todos os dias. Por fim encontrou aquela sombra que ela já conhecia, mas que nunca vira tão evidente no rosto de Kaoru. Ela certamente abordara com a mãe o assunto do dojo novamente. E pelo que se podia notar, a discussão não acabara nada bem.
- Estou sim, Misao. – respondeu Kaoru e não conseguiu evitar franzir o cenho. Era a segunda vez que ouvia a mesma pergunta naquele dia. Mais cedo fora Kenshin. Kenshin... Isso a lembrava... Tinha que pensar sobre como contar a Misao e Aoshi sobre ele, Sano e Soujirou antes do término das aulas. Tinha que abordar o assunto com muito cuidado, como se não fosse nada demais... – Só mais uma discussão com a minha mãe sobre o assunto de sempre, você sabe. Ontem ela descobriu sobre a suspensão e foi bem pior... Nós falamos do meu pai e eu... Eu disse coisas que não deveria ter dito...
Kaoru abaixou a cabeça esperando que Misao dissesse que ela fizera mal, muito mal. Ela queria ser repreendida. Ela precisava disso. Queria livrar-se das dúvidas que bombardeavam sua consciência. Por um lado ela tinha certeza de que estava certa. Keiko não tinha o direito de controlar sua vida, não fora por isso que tudo começou? Ela queria dar aulas de kendo, como o pai, não ser uma mulher de carreira como a mãe. Por que ela não podia entender algo tão simples? Por fim, o que dissera sobre o pai não fora mais que a verdade. Se a mãe não os tivesse mandado naquele passeio, ele ainda estaria vivo. Talvez não estivesse vivendo com ela, mas o que importava? Ele estaria vivo, isso sim importava. Quando Kaoru estava prestes a aceitar esse lado da verdade, um outro pensamento a assaltava, outra certeza que não era mais que o outro lado dos fatos: ela fora egoísta. Ela não pensara um minuto sequer nos sentimentos da mãe quando praticamente a acusara da morte do pai. Não era um direito seu desenterrar recordações assim tão dolorosas.
Misao pareceu pensar um pouco e quando falou, não disse exatamente o que Kaoru esperava ouvir. Elas eram amigas, não eram? Os amigos não acusam uns aos outros. Os amigos tentam ajudar a entender os problemas, compartilhando dos mesmos. Eles tentam mostrar qual o caminho certo, ainda que não obtenham sucesso.
- Sinto muito, Kaoru. Isso ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde.
- Misao... – Kaoru a encarou confusa.
- Desde que o seu pai morreu, você guarda todas essas dúvidas com relação à conversa que ele ia ter, o papel da sua mãe nisso tudo... Lembra sobre o quanto nós conversamos sobre isso quando aconteceu? – Kaoru se lembrava. Como poderia esquecer? Ela não teria conseguido seguir em frente se não fosse pelo apoio de Misao. Ela estava lá quando mais precisara, quando sentira que estava completamente sozinha e isso jamais poderia esquecer. – Vocês não quiseram conversar sobre isso, Kaoru... As duas são culpadas se as coisas fugiram do controle. Desculpe-me por dizer isso.
- Eu entendo. – Kaoru abaixou a cabeça. – Agora não dá mais para fingir que está tudo bem, não é?
- O que a sua mãe disse?
- Nada. Ela saiu antes que eu acordasse. Deve estar tão confusa quanto eu, imagino. Espero que ela não ache que eu a odeio. Eu não a odeio, sabe...?
No momento em que Misao ia responder, foi interrompida pelo sinal que tocou estridentemente. Na mesma hora, Saitou apareceu no corredor segurando um dos volumes de sua preciosa enciclopédia sobre o Japão do século XIX. Kaoru suspirou antecipadamente cansada. Em seguida acompanhou Misao para a sala enquanto imaginava qual seria a figura histórica daquele dia.
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- Vamos, Enishi, o sinal já tocou!
Megumi puxou Enishi pelo braço, na direção do ginásio de esportes. Desde que o lugar fora desocupado com aquela história de reformas, a quadra e principalmente os corredores dos vestiários serviam apenas para alunos retardatários passarem o restante da primeira hora, de modo a fingir que tinham chegado no colégio a tempo e não terem que dar explicações – ou simplesmente para aqueles que não queriam assistir essa ou aquela aula. Era exatamente esse o caso de Megumi. Ela esquecera-se completamente de uma lista de exercícios de matemática que deveria ser entregue resolvida naquele dia e agora preferia faltar à aula e depois dar uma desculpa qualquer de modo a sair impune de sua irresponsabilidade. Não que aquilo fosse algo que acontecesse sempre, mas o dia anterior fora uma eventualidade. Ela resolvera passar a tarde no porto com Enishi e alguns amigos e acabara esquecendo de todo o resto. Agora sua única saída era esconder-se no ginásio por todo o primeiro horário.
- Por que você não faz isso sozinha, Megumi? – perguntou Enishi não muito satisfeito. – Eu tenho aula de história.
Aula de história? Pois sim... Megumi gargalhou alto. Desde quando Enishi se importava com aula de história ou qualquer outra aula?
- Eu tenho que ficar aí dentro e tenho medo de ir sozinha. – ela respondeu em um tom de voz que prometia muito mais do que apenas companhia. – Quero que você fique comigo... Para me proteger...
Enishi balançou a cabeça de um lado para o outro. Megumi sabia como convence-lo a fazer o que ela queria. Ele deixou-se conduzir até a porta do ginásio sem mais protestos e continuou pelos corredores onde antes ficavam os vestiários sem soltar a mão da garota.
- Esse lugar não te dá arrepios, Enishi? – Megumi perguntou, de repente, olhando para os lados como se esperasse que a qualquer momento alguém fosse aparecer e flagrar-los ali. – Eu não gosto de lugares assim, vazios...
- Não seja boba, Megumi. – ele respondeu encostando-a de costas para um dos armários. – Só estamos nós dois aqui... Entende?
Os dois riram um para o outro atrevidamente. Megumi passou os braços pelo pescoço do rapaz e ele a beijou de uma maneira rude e sem cerimônias. Os dois não eram oficialmente namorados, mas costumavam se divertir juntos. A sua maneira, Enishi gostava de Megumi. Quanto a ela... Ela precisava de Enishi pelo mesmo motivo que todas as garotas vivam atrás deles: ele era popular. Todas as garotas, com exceção, talvez, de Kaoru. Megumi a achava tão chata e bobinha, mas Kaoru tinha algo que ela achava que nunca teria: amizades desinteressadas. Talvez fosse esse o motivo maior dela gostar tanto de estar com aquele rapaz: Kaoru gostava dele.
Megumi sentiu os lábios de Enishi separarem-se dos seus bruscamente.
- O que... – ela começou a perguntar, mas ele fez um gesto para que ela permanecesse em silêncio.
- Acho que ouvi alguma coisa...
- Que bobagem, eu não ouvi...
Crac!
Um barulho baixo, seco, como o de uma porta rangendo, chegou aos seus ouvidos.
- Ouviu agora? – Enishi perguntou já caminhando pelo corredor na direção do som.
- Sim... – respondeu Megumi assustada.
Ela correu até tocar os ombros dele. A última coisa que tencionava era ficar ali parada, sozinha. Em sua mente, a imagem de um zelador que viera buscar qualquer coisa no ginásio, tomou forma substituindo a do lugar assustador que ela pensara minutos antes. Se isso fosse verdade, ele iria denuncia-los ao diretor e ela não só seria repreendida por faltar com a lista de exercícios, como também por perambular em uma parte isolada do colégio em pleno horário de aula.
- É melhor nós sairmos daqui, Enishi. Se for o zelador, pode nos denunciar.
- Não é o zelador... – Enishi respondeu parecendo um pouco preocupado. – Esse barulho vem do quartinho onde guardam as bolas e outros materiais que usam nos treinos. Aquele lugar não é limpo há meses... Zelador nenhum vem até aqui.
Megumi olhou para Enishi interrogativamente. Como ele sabia que o lugar não era limpo há meses? Será que andava por ali com outras garotas? Ela sentiu o sangue subir-lhe a face. Não era a namorada de Enishi, não podia reclamar do que ele fizesse, no entanto aquilo fazia com que ela se sentisse tão pouca coisa... Apenas mais um passatempo nas mãos do Mr. Popularidade da escola.
- A porta está aberta... – a voz de Enishi interrompeu seus pensamentos.
- E se houver alguém lá? – perguntou Megumi apartando com mais força os ombros do rapaz. A última coisa que precisava era ser pega, no entanto não parecia que algum funcionário do colégio estivesse ali. Aquela porta entreaberta... O silêncio que reinava desde o último ruído, minutos antes... Se fosse uma pessoa autorizada não tentaria se esconder, não é mesmo?
- Deve ser algum idiota que veio fumar ou fazer qualquer outra coisa às escondidas.
Dizendo isso, Enishi começou a andar mais rápido, a cada segundo se aproximando mais do quartinho de despejo.
Enquanto isso, na mesma posição em que Kaoru os deixara, Kenshin, Sano e Soujirou ouviram o barulho de passos que se aproximavam e, imediatamente, se levantaram colocando-se na defensiva.
- Essa não... – disse Soujirou olhando para os rostos dos dois companheiros que pareciam estar prestando atenção no ambiente, procurando escutar melhor os estranhos que se aproximavam.
- Eles estão falando alguma coisa, mas eu não entendo nada... – disse Sano. – Droga! Eu pensei que Jo-chan tivesse dito que ficaríamos seguros aqui até ela voltar.
- Está com medo, Sano? – Soujirou perguntou provocativamente.
- É claro que não! – respondeu Sano cerrando os punhos. – Mas se eles nos encontrarem aqui, o que vamos dizer? Não podemos sair de perto da Jo-chan ou acabaremos perdidos nessa bagunça de cidade, sem ninguém para nos ajudar. Lembre-se que nesse mundo, nós não existimos. – essa última frase foi pronunciada com ênfase, de modo a encerrar a discussão. E deu certo, pois Soujirou mudou a expressão divertida para uma preocupada e ficou em silêncio. – Kenshin, alguma idéia?
- Kaoru tem aulas aqui, não? – disse Kenshin com a mão sob o queixo, pensativamente. – Se alguém aparecer, mentimos que também somos alunos. Simples, não? – ele tentou sorrir, mas falhou na tentativa de parecer calmo. Sabia que as palavras de Sano eram verdadeiras e lhe apavorava a idéia de que pudessem ser levados para algum lugar desconhecido, onde não teriam a mínima chance de obter ajuda.
- Deve ser algum idiota que veio fumar ou fazer qualquer outra coisa às escondidas!
A voz de Enishi soou assustadoramente perto sobressaltando-os. No instante seguinte, os passos começaram a aproximar-se mais rápido. O dono da voz logo estaria ali.
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- Kaoru, o que está acontecendo com você? – perguntou Misao em um sussurro. Kaoru estava torcendo nervosamente a folha de respostas do exercício que Saitou acabara da passar. Primeiro ela pensara que ainda fosse o problema da discussão com a mãe que estava deixando a amiga nervosa, mas agora já não tinha tanta certeza. A verdade é que parecia que algo mais estava acontecendo, algo que Kaoru não quisera ou não tivera tempo de contar.
- Eu estou bem, Misao, não se preocupe. – respondeu Kaoru sem desviar os olhos do papel amassado. Nos últimos minutos fora tomada por uma sensação estranha a respeito dos três jovens escondidos no ginásio. Estava preocupada, quase paranóica, com a possibilidade de eles serem descobertos. O que ela queria acima de tudo naquele momento era dar uma escapada e ver se estava tudo bem, mas na aula de Saitou era impossível. O professor olhava para eles como um lobo faminto, ansioso por um motivo para reprova-los nisso ou naquilo. Kaoru pensou que preferia mil vezes colocar a mão na boca de um crocodilo a pedir a Saitou permissão para sair.
- Tudo bem com vocês? – Aoshi olhou para trás, na direção de Misao e Kaoru, curioso. Não tentara nem um pouco disfarçar a pergunta abaixando a voz. E Saitou não o repreendeu. Para o professor de história, Aoshi era um caso perdido e não valia a pena perder tempo com ele. Era preciso muita coisa para o jovem ser recriminado em suas aulas. – Eu me atrasei um pouco... Perdi alguma coisa?
- Um pouco... – sorriu Misao. Só Aoshi para considerar entrar na aula meia hora depois do início um pequeno atraso.
Kaoru estava prestes a responder automaticamente que estava bem quando uma idéia lhe ocorreu. E se pedisse a Aoshi para checar o ginásio por ela? Saitou ficaria muito feliz em livrar-se dele se ele decidisse sair. Rapidamente, ela escreveu um bilhete para o amigo pedindo que ele fosse até o ginásio e procurasse por três garotos que estavam lá. Era apenas para ver se estava tudo bem com eles, ela explicaria depois. Ao terminar de escrever, passou o bilhete para o Misao que o leu rapidamente sem entender nada e em seguida passou para Aoshi.
O rapaz leu e sorriu em assentimento. Um motivo para sair da aula chata de história do Japão, para ele era como ganhar na loteria. Na mesma hora, levantou-se dizendo que precisava de ar e saiu sem esperar resposta. Saitou também não se preocupou em responder, mas lançou a Kaoru um olhar de quem estava sabendo o que ela fizera. Kaoru corou com medo de que mais tarde fosse repreendida, mas o sentimento não persistiu. Havia algo bem mais importante para pensar naquele momento: Kenshin e os outros estariam bem? Ela só podia esperar que sim.
CONTINUA