Aoshi acompanhou Misao até a esquina da casa dela. Os dois se despediram com um breve “até amanhã” e ela correu em direção a porta da garagem por onde entraria com mais descrição. Já era um pouco tarde e o melhor era tentar chegar ao quarto sem que os pais a vissem e fingir mais tarde que havia chegado há mais tempo, assim evitaria levar um sermão.
Assim que viu Misao desaparecer pelo portão largo de ferro, Aoshi seguiu pelo caminho contrário em direção ao prédio modesto de três andares onde vivia com o pai. Os dois ocupavam um simpático apartamento no segundo andar que Okina vivia decorando com os objetos mais estranhos que comprava em lojas de antiguidade. Essa era uma de suas manias. Aoshi se lembrava da vez em que ele levara para casa uma estátua horrível que lhe disseram ser de uma deusa indígena e que lhe traria boa sorte. Nada de fato mudou depois disso, mas o cachorro fugiu de casa e eles deixaram de receber as visitas freqüentes das primas solteiras de Okina que estavam sempre por lá sem nenhum motivo importante, certamente apenas como desculpa para não permanecerem em casa durante o dia inteiro. Bom, por esse lado, talvez a estátua merecesse algum crédito.
Aoshi olhou para o relógio de pulso e suspirou. Àquela hora ainda era muito cedo para Okina estar em casa. Ele gostava de passar em uma certa boate no centro depois do trabalho na esperança de encontrar alguma mulher que aceitasse sair com ele. Geralmente aparecia à meia noite, bêbado e sozinho. Tinha sido assim desde que Aoshi se lembrava, provavelmente antes mesmo dele nascer. Okina nunca tinha se casado e sua única companhia sempre fora ele, o menino órfão que perdera toda a família em um acidente quando ainda era um bebê e que o bom homem adotara desde então. Quase ninguém sabia que o comerciante, dono do freqüentado restaurante Aoia, não era seu verdadeiro pai e ele desconfiava que o velho preferia assim para que os outros pensassem que pelo menos uma vez na vida alguma mulher se interessara por ele. Sendo ou não por isso, era melhor assim, pelo menos ninguém o incomodava com perguntas irritantes sobre seus verdadeiros pais.
Não demorou muito a chegar ao edifício, mas ir para casa aquela hora não era uma boa idéia. Ele faria o jantar, comeria sozinho e ficaria assistindo televisão esperando o pai chegar aos tropeços para joga-lo na cama. Sentindo uma súbita aversão a idéia, Aoshi entrou no prédio, mas passou direto para a cobertura no último andar. Era um espaço comprido e aberto onde os filhos dos moradores gostavam de brincar durante o dia correndo por entre os lençóis que algumas senhoras estendiam por lá para que secassem mais depressa. À noite o lugar ficava vazio e silencioso, perfeito para alguns momentos de meditação. Nos últimos tempos tinha ido lá quase diariamente. Os problemas com Okina e seus vícios, sua própria conduta cada vez mais reprovável e principalmente sua situação com Misao faziam com que ele tivesse muito no que pensar.
- Misao...
O nome saiu subitamente, sem que ele mesmo percebesse, e flutuou pela noite sem obter resposta. Talvez se ele não fosse tão problemático... eles poderiam ter tido um futuro. Desde muito jovem Aoshi começara a andar com péssimas companhias, no início apenas para chamar a atenção de Okina que nunca passava tempo com ele, mas depois a coisa foi ficando mais séria a ponto dele não conhecer outro modo de vida. Descobrir que foi adotado apenas piorou as coisas. Quando se viu obrigado a mudar de escola, dois anos antes, e conheceu Kaoru e Misao, sua vida mudou radicalmente. Elas eram as melhores amigas que ele jamais pensara em ter. O aceitaram mesmo sabendo de todos os seus problemas e com elas ele podia dizer que passara alguns dos melhores momentos de sua vida, ainda que não admitisse abertamente.
O céu estava bonito naquela noite, cheio de estrelas como não se via há um bom tempo. Olhando para elas, Aoshi pensava como seria se tivesse feito escolhas diferentes na vida dele. Era um pensamento que o fazia sofrer, mas do qual não podia fugir. De vez em quando ele era tomado por uma sensação confortável de que talvez não estivesse tudo perdido, de que poderia mudar se quisesse. Parecia fácil a linha entre fazer ou não o que era certo e ele tinha certeza que o quer que decidisse fazer, Kaoru e Misao o apoiariam.
Naquele momento, ele abriu os olhos e olhou para baixo onde um carro atravessava o portão para estacionar na garagem. Um pouco mais atrás, Okina vinha cambaleando a procura da escadaria. Diante daquilo, todas as lembranças e sensações desapareceram tão rápido quanto haviam surgido. Estava na hora de voltar a realidade.
-o-o-o-o-o-
- Isso é impossível, irreal, nunca ouvi tamanha loucura...
Kaoru mancava de um lado para outro na sala repetindo as mesmas palavras uma e outra vez. Ela só podia estar louca em associar os três jovens sentados no sofá com os gatinhos desaparecidos, não? Agora não tinha mais tanta certeza... Não podia simplesmente ignorar a incrível semelhança dos três com as mascotes deixadas por seu tio. Quando olhava para Kenshin, quase podia ver o gatinho vermelho no lugar onde ele estava. Tinham os mesmos olhos e, ainda mais estranho: tinham a mesma cicatriz...
- Senhorita Kamiya... – começou Kenshin analisando as reações de Kaoru cuidadosamente. Não queria assusta-la, mas sentia-se na obrigação de se explicar. – Se há alguma coisa que a senhorita queira saber, nós responderemos, mas eu sugiro que volte a se sentar ou vai acabar machucando o seu pé ainda mais.
Kaoru não deu sinais de ter ouvido uma palavra. Sua mente ainda estava avaliando as circunstâncias que não pareciam ter uma explicação lógica, que desafiavam sua personalidade cética a tal ponto que ela começava a se perguntar se não era ela quem estava ficando louca. Decidida a tirar a limpo toda aquela situação, virou-se para Kenshin e os outros com um olhar duro e intimidador e disse:
- Pois muito bem. Os três têm cinco minutos contados para explicar o que estão fazendo em minha casa e a verdade sobre de onde vieram ou vão sair daqui escoltados por um carro de polícia.
Era uma tentativa desesperada de obter uma resposta diferente da que a atormentava nos últimos trinta minutos. Talvez assim eles ficassem com medo e dissessem que eram ladrões do subúrbio ou algo assim. Apesar do perigo que isso representava, ela se sentiria bem mais tranqüila se soubesse que falava com três rapazes de sua época, estranhos, mas, no geral, perfeitamente normais.
Mas ao contrário do que ela esperava, os três se entreolharam confusos e começaram a discutir entre si o que seria um carro de polícia.
“Isso não pode estar acontecendo...”, Kaoru pensou, “Você tem que ficar calma, Kaoru, muito calma. Lembre-se que gatos são gatos, homens são homens e gatos não se transformam em homens. É impossível! Você não tem nem que cogitar uma possibilidade tão descabida quanto essa”.
- Senhorita Kamiya?
- O que??? – Kaoru deu um salto.
- Eu acho que a senhorita já entendeu quem nós somos... – disse Kenshin encarando o chão fixamente. – Eu sinto muito termos aparecido assim de repente, mas como poderíamos saber que não estaríamos mais nas mãos da família Arada?
- Arada...?
- Eu poderia ter explicado toda essa confusão antes, mas nós não lembramos tudo de imediato. – continuou Kenshin. – Em um minuto você é um gato cuja única preocupação é comer e dormir, no instante seguinte sua mente começa a receber mil e uma imagens e lembranças e você se converte em um ser humano... O que posso dizer além de ‘é desgastante’?
- Isso é verdade. – disse Sano falando pela primeira vez. Até então ele tinha se limitado a permanecer sentado, devorando uma caixa de biscoitos que encontrara na cozinha. Kenshin era bem melhor para dar explicações do que ele e em um caso como aquele, o melhor era ficar quieto e confiar no amigo. Ele só falara agora porque a transformação era um ponto delicado, era a parte que ele achava mais desgastante, exatamente como Kenshin dissera. Seu corpo demorava a acostumar-se com aquilo e, quando conseguia, já tinha se passado o tempo limite para se manter como humano e nada de conseguirem voltar ao normal. Tinha sido assim durante os seis séculos anteriores, mas agora era a última chance de quebrar o encanto e ele não estava disposto a desperdiçar. Faria qualquer coisa para não ter que voltar a forma animal, qualquer coisa...
- Nossos corpos ficam debilitados depois da transformação. – disse Soujirou. Ele também não falara até o momento, mas por um motivo diferente: não tinha a mesma fé que Kenshin e Sano de que podiam voltar a ser homens daquela vez. Para ele o mais importante era aproveitar cada minuto na forma humana. Nos últimos instantes estivera apenas esperando o que Kenshin iria propor áquela jovem para decidir se valeria a pena participar ou não de mais uma tentativa de reverter o encanto. – Foi muito difícil escapar de seu quarto quando aconteceu...
Kaoru ruborizou-se furiosamente. Os três tinham passado a última semana em seu quarto. Quantas vezes ela não trocara de roupa na frente deles??? Nunca se preocupara em tira-los de lá, afinal, eram apenas gatos...
Como se adivinhasse seus pensamentos, um leve rubor tingiu a face de Kenshin e ele falou em um tom tranqüilizador:
- A senhorita não precisa se preocupar... Quando estamos na forma de gatos não temos consciência do que acontece a nossa volta.
- Infelizmente... – completou Sano, mas apenas Soujirou ouviu lançando a ele um olhar reprovador.
Kaoru largou-se outra vez no sofá. O pé machucado começava a latejar novamente, mas ela quase não sentia. Perguntava-se intimamente como aqueles garotos podiam falar sobre o fato de terem passado setecentos anos na forma de animais como se comentassem um dia na escola.
- E agora? – ela perguntou enfim. – Eu entendi que vocês estão escondidos no dojo que era do meu pai e não podem ficar lá. Se a minha mãe entra para fazer limpeza ou pegar alguma coisa, ai sim vocês vão acabar na delegacia.
- Nós não temos para onde ir... – disse Kenshin um pouco alterado. Se Kaoru resolvesse expulsa-los de casa não sabia o que iriam fazer. Seria terrível ficarem perdidos naquela época sem conhecerem nada e rodeados por objetos estranhos que eles não tinham a menor idéia de como funcionavam. – Por favor, senhorita Kamiya, deixe-nos ficar. A lua nova só vai durar mais sete dias e se não conseguirmos encontrar o homem capaz de desfazer seja lá o que nos fizeram, seremos gatos para sempre.
Kaoru ficou novamente em silêncio. Era um pedido delicado. Se ela concordasse em ajuda-los estaria escondendo praticamente dentro de sua casa três homens que ela nunca viu antes e teria que fazer isso de modo que a mãe não descobrisse. Ela olhou para o rosto de Kenshin mais uma vez se perdendo naqueles olhos de um violeta profundo que de maneira alguma pareciam pertencer a uma alma que carregasse más intenções. Quando ele desviou o olhar para o chão se preparando para receber uma negativa, o que ouviu foi:
- Tudo bem, vocês podem ficar no dojo.
Sano deixou escapar um grito de triunfo e passou o braço pelo pescoço de um ainda mais sorridente Soujirou quase deixando-o sem ar. Quanto a Kenshin, presenteou Kaoru com um beijo na mão e também sorriu com os olhos brilhando cheios de uma luz que não era mais que esperança. Talvez houvesse uma chance deles finalmente terem uma vida normal e se realmente conseguissem, ele seria eternamente grato àquela jovem mulher.
- E agora? – perguntou Kaoru. – O que vão fazer?
Sano soltou Soujirou e deu uma risada, ainda sob o efeito da boa notícia.
- Vamos procurar o mago. O homem responsável por estarmos aqui agora. Ele é o único que poderá nos fazer voltar ao normal.
Kaoru abriu a boca para dizer que era loucura o tal mago continuar vivo setecentos anos depois, mas acabou desistindo. Estava conversando com três guerreiros nascidos há mais de sete séculos que desafiaram um tirano com poderes mágicos e acabaram por serem transformados em gatos. O que haveria de tão estranho no tal tirano ter agora setecentos anos diante daquilo?
- Amanhã nós começaremos a buscar alguma pista que nos leve até ele. – continuou Kenshin. – Ainda me lembro bem daquele rosto... não pode ser tão difícil encontra-lo nessa aldeia.
“Aldeia”?! A palavra ecoou sem sentido na cabeça de Kaoru. Tokyo, uma aldeia? Ela sentia quase compaixão pelos três garotos. Encontrar quem eles estavam procurando em Tokyo sem nenhuma pista sólida seria o mesmo que recuperar um anel perdido no fundo do mar sem nenhum equipamento de mergulho.
- Ouçam, não podem sair sozinhos por ai procurando por um cara que vocês não vêem há... anos. – disse Kaoru a autoridade de quem sabia do que estava falando. – Amanhã eu volto para a escola, vocês me encontrarão depois da aula e eu os ajudarei.
Kenshin mais uma vez sorriu agradecido.
- Fará isso por nós, senhorita Kamiya?
- Sim. – ela respondeu devolvendo o sorriso e perguntando-se intimamente o que estava pensando oferecendo ajuda àqueles três estranhos como se eles fossem velhos conhecidos. – Mas parem de me chamar de senhorita Kamiya e me chamem de Kaoru.
Sano e Soujirou concordaram satisfeitos. Kenshin abriu a boca para dizer alguma coisa, mas nesse momento, um barulho na fechadura da porta da frente fez com que Kaoru desse um salto. Ela caiu para trás outra vez com a súbita pontada de dor que o esforço causara no pé machucado. Mas como pudera ser tão estúpida? Passara todo aquele tempo tão absorta na situação incomum em que se encontrava que acabou esquecendo que a mãe chegaria do trabalho a qualquer momento.
- Rápido! – a jovem disse em voz baixa sem tentar disfarçar o pânico. – Vocês têm que sair daqui e voltar para o dojo imediatamente. Se a minha mãe vir vocês, eu nem quero pensar no escândalo que fará.
Impulsionados pela urgência na voz de Kaoru, os três garotos se adiantaram o mais rápido que puderam para a porta da cozinha sem questionar.
- Senhorita Kami... Kaoru! – Kenshin chamou antes de sair para a segurança do jardim dos fundos.
- O que? – perguntou Kaoru olhando para trás de modo a interar-se dos movimentos da mãe dentro de casa.
Muito obrigado. – disse ele beijando novamente a mão dela em um gesto cavalheiresco para em seguida desaparecer pela porta correndo na direção do salão de treinamento do dojo onde há muito Sano e Soujirou já se embrenharam.
Assim que o ruivo sumiu de vista, Kaoru trancou a porta e correu para a sala onde a mãe a esperava com uma expressão nada amigável no rosto.
“Essa não...”, pensou Kaoru apavorada, ”Ela os viu sair e agora vai me encher de perguntas sobre o que eu fazia com aqueles três garotos em casa enquanto ela não estava... Agora sim eu estou com sérios problemas”.
- Eu fui até a escola hoje na hora do meu intervalo da tarde. – disse Keiko Kamiya parecendo muito contrariada.
Kaoru começou a se desculpar, mas parou ao assimilar aquelas palavras. Se a mãe estivera na escola, provavelmente soubera de sua suspensão. Ela, afinal, não vira Kenshin e os outros. Aquela situação que em outras circunstâncias a deixaria muito assustada com o castigo que lhe esperava, encheu-lhe de alívio. Por fim, o que era uma suspensão perto de ter que explicar a mãe sobre gatos transformados em homens e magos de setecentos anos?
- Não faça essa cara divertida, Kaoru. – Keiko gritou ainda mais irritada. Sem querer Kaoru tinha sorrido e a mãe interpretara aquilo como uma expressão desafiadora. – Você acha engraçado ser suspensa da escola por dois dias por estar se atracando com uma garota em pleno pátio do colégio?
- Eu não tive culpa, ela...
- Eu sei muito bem que você teve culpa! – a mãe gritou com impaciência. Tivera um dia estressante no trabalho e ao chegar em casa ainda tinha que suportar a rebeldia da filha que sequer tinha a decência de admitir os próprios erros. – A diretora me contou toda a história. Se aquela garota tivesse feito alguma coisa, eu entenderia, mas aquilo tudo por causa de um garoto? Ou vai negar que Enishi Yukishiro teve muito a ver com essa história?
Kaoru ficou quieta, de cabeça baixa. Isso ela não tinha como negar. Apesar da briga em si ter tido início por causa das provocações de Megumi, tudo começara por ela ter se aproximado de Enishi.
- Vejo que não vai negar. – Keiko continuou, mais calma. – O que eu faço com você, Kaoru? Você não liga para os estudos, anda com garotos de péssima conduta e agora deu para brigar na escola...
Garotos de péssima conduta? Kaoru encarou a mãe furiosa. Ela estaria falando de Aoshi? Mas o que ela pensava que sabia para referir-se a ele daquela maneira? Aoshi era um amigo maravilhoso apesar de todos os problemas que enfrentava e ela não ia permitir que pintassem um quadro distorcido dele daquela maneira.
- Aoshi não é assim. – disse com ênfase e, agora sim, seu olhar expressava apenas desafio. – Aoshi é um ótimo amigo e você não o conhece para falar dele assim.
- Me disseram tudo o que eu precisava saber sobre ele e eu não quero mais saber de vocês andando juntos, ouviu bem? – a jovem mulher respirou fundo e continuou. – Tenho certeza que os pais de Misao concordarão comigo.
Não, isso não. Se a mãe falasse com os pais de Misao seria o fim de qualquer chance que os dois tivessem para ficar juntos. O que ela podia fazer? Não podia permitir que por culpa dela os amigos tivessem problemas, no entanto não havia nada que pudesse fazer no caso de Keiko insistir naquela idéia absurda.
- Misao não tem nada a ver com isso... – foi tudo o que pode dizer.
- Ela é uma menina rebelde na escola, assim como você. Nenhuma das duas costumavam ser assim alguns anos atrás. Isso tudo só pode ser culpa desse tal de Aoshi. – ela olhou para a filha que levantara a cabeça de modo a evitar que as lágrimas que enchiam seus olhos começassem a escapar. – Você não pode continuar assim, Kaoru. A partir de amanhã vai ter que entrar na linha. Eu vou começar a acompanhar mais de perto a sua vida escolar e você não vai mais poder fazer tudo o que quiser.
- Dentro de duas semanas eu vou me formar, esqueceu? – disse Kaoru com a voz rouca, quase em um sussurro.
- E vai começar a estudar para o vestibular.
- E se eu não quiser fazer vestibular? – agora ela não conseguia mais segurar as lágrimas. Quando foi que chegaram aquele ponto? A conversa, por acaso, não devia ser sobre a sua suspensão? – E se eu quiser passar adiante o estilo de espada do meu pai?
- Kaoru, isso não é uma opção.
As duas já tinham tido calorosas discussões a respeito daquilo. Keiko não queria que a filha fosse apenas uma professora de kendo como o marido fora. Ela queria que Kaoru fosse alguém na vida, assim como ela. Mas Kaoru não parecia exatamente radiante com a idéia. Seu desejo sempre fora tomar conta do dojo e depois que o pai morrera, vê-lo novamente cheio de alunos tornara-se um sonho.
- Você não entende, não é? – Kaoru encarou a mãe com o rosto cheio de raiva e desespero. – Não entende que eu não quero ser igual a você?? – ela agora elevou a voz e estava quase gritando. – Isso não aconteceria se o meu pai estivesse vivo. Não aconteceria se você não tivesse mandado ele me levar naquele maldito passeio de barco. Isso é tudo culpa sua e eu não vou fazer o que você manda se isso não me fizer feliz!
Dizendo isso, ela correu pelas escadas e não parou até atravessar a porta do quarto e fecha-la com violência atrás de si.
No andar de baixo, Keiko continuou imóvel no mesmo lugar, as palavras de Kaoru ecoando em sua mente. Não aconteceria se você não tivesse mandado ele me levar naquele maldito passeio de barco. Ela nunca imaginara que Kaoru soubesse daquilo. Quando o acidente aconteceu, ela decidira esquecer a conversa que tivera com o marido no dia anterior pensando que se a filha soubesse, a odiaria. Agora tudo fazia sentido: a maneira rude com que Kaoru a tratara nos dias que se seguiram a tragédia, a distância que a menina deixara instalar-se entre as duas... Sim, Kaoru tinha razão, era tudo culpa dela.
Perdida em meio a uma corrente de lembranças que a muito não a assombravam e ao som dos soluços abafados da filha no andar superior, Kamiya Keiko ajoelhou-se lentamente ali mesmo, no meio da sala, e chorou.
-o-o-o-o-o-
Enquanto, para Kaoru, a noite fora cheia de revelações que fariam com que sua vida nunca mais voltasse ao que era apenas uma hora antes, para Seijuurou Hiko as coisas eram bem diferentes. As últimas quatro horas foram as mais sem sentido que ele se lembrava já ter vivido. Passara todo aquele tempo no terceiro andar de um pequeno edifício de apartamentos de onde tinha uma excelente visão da casa onde vivam sua irmã e sua sobrinha. De lá ele vira quando Kenshin rodeou o lugar a procura de uma janela aberta até que acertou com a chave extra da porta da cozinha embaixo de algumas pedras no jardim. O garoto fora esperto em testar a chave porta por porta até conseguir entrar. Ele vira também quando Kaoru chegou com os amigos e quando se despediu dos mesmos logo depois. Mas o que esperava que acontecesse, na verdade não aconteceu.
- Essa garota é uma caixinha de surpresas. – sorriu consigo mesmo.
Esperara todo aquele tempo pensando que Kaoru chamaria a polícia ou que os vizinhos fariam isso quando ela saísse de casa aos berros gritando que três estranhos tinham invadido sua casa. Ele estaria de prontidão para tirar os três rapazes – ou apenas Kenshin se não encontrassem os outros dois – da prisão antes que se passassem os sete dias restantes e eles perdessem a última oportunidade de voltarem ao normal. Para sua surpresa, nada disso aconteceu. Ele viu quando Sano e Soujirou também entraram na casa e esperou até que voltaram com Kenshin ao dojo e ainda assim, tudo continuou quieto. Pouco depois, Keiko apareceu, mas a noite seguiu tranqüila, sem nenhuma indicação de que algo de anormal rompera a rotina da casa da família Kamiya.
Talvez a sobrinha não fosse mais a menina mimada e arredia que conhecera dois anos antes. Talvez ela tivesse se compadecido dos três garotos sozinhos e sem teto que encontrara. Talvez, simplesmente, os deixara ficar para desafiar as normas da mãe. Fosse o que fosse, a presença dele não fora necessária daquela vez.
- Sete dias mais bancando o anjo da guarda. – ele disse e sorriu novamente. Manteria o plano e continuaria a ser a sombra de Kaoru e dos gatinhos até que tudo acabasse.
De qualquer maneira estava tudo terminado por enquanto e não havia mais nada que precisasse fazer. Assim, com a certeza de que não seria mais útil pelas próximas horas, tirou uma garrafa de sake que levava sempre amarrada na cintura, bebeu um longo gole e saiu da sacada em direção as escadas.
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No quarto dela, Kaoru ainda chorava deitada de bruços com o rosto enterrado no travesseiro. Estava triste por tudo o que a mãe dissera, pelo que ela quisera fazer com os seus amigos, com sua insistência absurda de torna-la alguém que ela não queria ser, mas principalmente pelo que ela própria dissera. O acidente tinha acontecido há tantos anos e ela não tinha porque ter desenterrado aquelas recordações.
De súbito se lembrou dos três garotos que naquele momento estavam escondidos no dojo. Levantou-se devagar e foi até a janela sem acender as luzes. O salão de treinamento estava tão escuro e silencioso como todas as noites. Ninguém desconfiaria que ele abrigava três hóspedes quase de outro planeta.
- Gatos que se transformam em homens. – ela disse em voz alta na esperança de que aquilo tomasse uma forma lógica em sua mente, mas foi em vão.
Desarrumou a cama depressa e se trocou em silêncio. Depois se deitou encarando o teto sem nenhuma intenção de dormir. Queria pensar sobre tudo o que acontecera e no que faria no dia seguinte. Pensou na escola e se a mãe cumpriria as promessas que fizera. Sim ou não, pelo menos ela voltaria a ver Enishi e imaginar o dia em que diria a ele tudo o que sentia. Adormeceu com os pensamentos voltados ao jovem de cabelos claros e aparência rebelde, mas, ao contrário do que esperava, foram as imagens de um rapaz ruivo, dono de um par de olhos violetas vivos e sinceros, que povoaram os seus sonhos pelo resto da noite.
CONTINUA