Lovely Cats


 

 

 

Capítulo 5 - A Visita Noturna de Três Desconhecidos

 

 

 

 

 

Misao saiu correndo da sala de aula sem ao menos esperar que o sino que anunciava a saída parasse de tocar. Aquilo não era surpresa para ninguém. Ela sempre parecera a todos odiar as aulas tanto quanto Kaoru e nunca se importara em desmentir essa impressão. A realidade era que Misao apreciava os dias na escola, principalmente as aulas de história e redação. Sonhava em algum dia ser uma escritora de romances tão boa quanto as dos que costumava ler quando estava sozinha, tarde da noite. O problema era que tinha um espírito rebelde que não suportava receber ordens e aquilo tornava impossível seu comportamento no colégio.

 

O pátio e o estacionamento estavam tomados pelos estudantes que, como ela, também estavam indo embora. Seria difícil avistar Kaoru uma vez que as duas não combinaram exatamente onde se encontrariam. Misao estava muito curiosa para saber o motivo da ligação tão urgente da amiga na noite anterior. Ela apenas tinha dito qualquer coisa sobre precisar de ajuda para encontrar algo que perdera na cidade, mas preferira dar os detalhes pessoalmente. As duas tinham marcado no pátio ao meio dia e já passavam cinco minutos daquele horário. O melhor era esperar em algum lugar até que Kaoru a avistasse ou provavelmente elas ficariam perambulando durante um longo tempo sem conseguir se encontrar.

 

Próximo a entrada de fornecedores da cantina havia um banco pequeno semelhante aos que se via em parques e jardins e Misao resolveu que esperaria ali. Sentou-se observando o movimento a sua volta sem vontade de ocupar-se em qualquer outra coisa enquanto o tempo passava.

 

Menos de cinco minutos depois, ouviu passos que pensou a princípio serem de Kaoru. Para sua surpresa, ouviu a voz de Aoshi perguntando-lhe enquanto sentava-se a seu lado:

 

- Ela também pediu a sua ajuda?

 

O rapaz ficou esperando uma resposta, mas Misao apenas olhava para ele sem saber o que dizer. Seria possível que Kaoru também tinha pedido ajuda a Aoshi sem avisa-la? Devia ser mesmo um problema muito grave para ela ter esquecido. Ou será que era tudo um plano para obriga-los a conversar? Se fosse isso Kaoru teria sérios problemas quando a visse outra vez...

 

- Ela pediu. – disse Aoshi. E Misao assentiu automaticamente encarando um carro vermelho que entrava no estacionamento de modo a não ter que olhar diretamente para ele.

                                                                                                                                                                          

Ele pareceu perceber que ela estava sem jeito, por isso também olhou para qualquer coisa no outro lado em silêncio.

 

Era bom que Kaoru chegasse logo, pensava Misao. Não queria ficar sozinha com Aoshi por muito tempo. Desde que ela lhe revelara os sentimentos que tão bem guardara durante anos e ele a recusara, vinha fingindo que estava tudo bem. Telefonava para ele, brincava durante as aulas como sempre e até o convidara uma ou duas vezes para estudar na casa dela.  Naquelas ocasiões, quando tinham de estar juntos, ela sempre dava um jeito para que Kaoru os acompanhasse e não a deixasse sozinha com Aoshi. Certamente o relacionamento dos dois nunca mais voltaria ao clima despreocupado que tinha apenas seis meses antes.

 

- Ela está demorando. – ele comentou com um suspiro.

 

- É mesmo. – respondeu Misao.

 

Aoshi não era bobo e com certeza tinha percebido sua mudança quando estavam sozinhos, mas ele não era do tipo que comentava esse tipo de coisa nem que gostasse de conversar sobre o assunto. Isso era um alívio para ela. Era uma sorte que ainda continuassem sendo amigos, ao menos assim, ainda que não fosse correspondida, ela podia ficar perto dele.

 

Se ela soubesse...

 

Aoshi ainda se lembrava perfeitamente do que tinha acontecido naquele dia.

 

Misao tinha telefonado e dito que queria falar com ele. Parecia nervosa ao telefone. Ele marcou com ela em uma praça próxima à escola esperando que ela não estivesse com nenhum problema. Misao e Kaoru eram as únicas garotas que ousavam se aproximar dele por causa de sua fama de má companhia, mas enquanto por Kaoru ele sentia um carinho fraterno, por Misao era algo diferente, algo que ele nunca tinha experimentado e que não conseguia definir com palavras.

 

Quando chegou à praça, ela já o esperava. Vestia um lindo vestido azul esverdeado que fazia seus olhos brilharem ainda mais. Ele estancou encantado, jamais vira Misao tão bonita quanto ela parecia naquele momento.

 

- Eu estou aqui. – ele disse. – O que aconteceu?

 

Ela respirou fundo e sorriu nervosamente. Seus olhos denotavam uma mistura de medo e expectativa. Quando falou, sua voz soou mais baixa que o habitual.

 

- Não precisa se preocupar, Aoshi, eu não tenho nenhum problema.

 

Ele ergueu as sobrancelhas confuso. Estava feliz por estar tudo bem com ela, mas por que outro motivo poderia tê-lo chamado?

 

- Eu pedi que viesse porque... – ela continuou. Mexia freneticamente os polegares tentando se manter calma. – Porque há uma coisa que há muito tempo eu quero te dizer.

 

Ela abaixou a cabeça e ele ergueu o queixo dela fazendo-a olhar diretamente em seus olhos.

 

- Então diga.

 

Misao apertou os punhos e reunindo toda coragem da qual era capaz, disse as três palavras de uma só vez:

 

- Eu te amo.

 

Por um segundo foi como se o tempo tivesse parado. Parecia que os dois tinham passado séculos naquela posição: Aoshi segurando o queixo de Misao enquanto ela o encarava com aqueles olhos verdes cheios de expectativa.

 

Aoshi mal podia acreditar no que acabara de ouvir. Misao o amava? Seria possível que ela sentia o mesmo por ele? Seu coração se encheu de alegria e ele teve um rápido vislumbre do que aconteceria: ele ia lhe presentear com um de seus raros sorrisos e dizer que também a amava. Os olhos de Misao se encheriam de alegria e ela o abraçaria. Ele então a afastaria com delicadeza e capturaria os lábios dela com os seus em um beijo longo e apaixonado.

 

Ele abriu a boca para dizer que sim e iniciar o que seria um novo começo para ambos quando outra imagem tomou conta de sua mente, a imagem do que viria depois. Misao seria desprezada e criticada por ser a namorada de Aoshi Shinomore, um imprestável arruaceiro de quem todos já tinham desistido e cujo futuro certo era terminar seus dias na sarjeta ou na prisão. Os pais de Misao não concordariam em vê-los juntos, mas ele conhecia suficientemente bem aquela menina para saber que ela não desistiria, que ela ficaria junto dele até o fim ainda que isso a condenasse a uma vida cheia de desafetos e sofrimento.

 

Foi esse último pensamento que falou mais alto quando ele respondeu:

 

- Eu sinto muito Misao.

 

Imediatamente o brilho dos olhos dela desapareceu. Ela abaixou a cabeça e ele pode perceber que fazia um enorme esforço para não chorar.

 

- Pelo menos eu fui sincera, não? – ela perguntou forçando um meio sorriso. – Nós ainda seremos amigos?

 

- Claro que sim. – ele respondeu.

 

Depois disso Misao simplesmente se virou e saiu andando de costas para ele. À medida que ficava mais distante do parque, ela andava mais rápido até que começou a correr e logo desapareceu de vista.

 

Aoshi a observou se afastar sem se mover. Sabia que tinha feito a coisa certa apesar da dor profunda em seu coração

 

- Aí vem ela!

 

A voz de Misao interrompeu os pensamentos de Aoshi. Ele levantou a cabeça e viu que Kaoru se aproximava, pela expressão em seu rosto, muito preocupada com fosse lá para que os chamara.

 

- Desculpem-me por chamá-los assim... – começou Kaoru. – Mas eu preciso que me ajudem em uma coisa importante. Precisam me ajudar a procurar por eles...

 

- Mas eles quem? – perguntou Misao sem entender do que ela estava falando.

 

Agora era hora de contar a verdade sobre sua herança a Aoshi e Misao. Eles eram seus amigos, sabia que não iam trai-la, além disso precisariam saber de tudo se quisesse que a ajudassem a procurar os três gatinhos pela cidade. Desde duas noites atrás, quando vira, ou pensara ter visto, aquele homem ruivo no banheiro de seu quarto, os três gatinhos sumiram de casa e por mais que ela procurasse e perguntasse pelo bairro, não fora capaz de encontra-los.

 

Depois de passar um dia inteiro andando pela cidade em uma busca infrutífera, resolvera pedir ajuda aos seus amigos. Não tinha muitas esperanças de encontrar três gatos jovens em uma cidade grande como Tokyo, mas pelo menos tinha que tentar. Ela não se importava em não receber as coisas velhas que o tio lhe deixara, mas a mãe estava furiosa com o que chamava de falta de cuidado por parte dela e ela própria não gostava da idéia de três animaizinhos tão pequenos vagando no frio e sem comida pelas ruas durante a noite.

 

Resumindo o máximo que podia, relatou os acontecimentos desde o recebimento da notícia da morte de Hiko até o retorno de Kyoto. Falou da cláusula do testamento que a obrigava a cuidar dos gatos do tio e de como a mãe dela fizera com que se responsabilizasse pelos animais. Disse também a verdade sobre a herança, que tudo não passava de um grande mal entendido e mentira ao dizer que não tinha intenção de esconder aquilo deles. Quando terminou, ficou em silêncio esperando que os amigos lhe dessem uma resposta.

 

- Isso é incrível! – disse Misao. – Gatos? Por uma herança?

 

Aoshi também parecia surpreso.

 

- O que tudo isso tem a ver com estarmos aqui? – ele perguntou.

 

Kaoru então contou sobre o desaparecimento dos gatinhos omitindo apenas o que dizia respeito ao episódio do ruivo misterioso. Ela andara pensando que o mais provável era que aquele homem tivesse roubado os filhotes, mas Keiko não quisera nem saber daquela hipótese. Para a mãe ela tinha adormecido na banheira e sonhado com o invasor e apesar dela saber muito bem a diferença de quando estava sonhando ou quando realmente via algo, acabara por concordar a fim de não prolongar a discussão.

 

- Então precisamos encontrar os gatinhos para que você não perca a herança? – perguntou Aoshi.

 

- Na verdade... – ela começou a explicar, mas acabou desistindo. Era uma história longa seus motivos para querer encontrar os animais que tanto detestara no início. Pensando bem, talvez houvesse também uma parcela de vontade de rever aquele rapaz tão bonito, ainda que fosse um bandido.  Mas Aoshi também não era visto como um? E ele era uma das melhores pessoas que ela já tinha conhecido.

 

- Kaoru, você está bem? – perguntou Misao. O rosto de Kaoru tinha adquirido um leve rubor e sua expressão se modificado como se ela estivesse pensando em algo muito embaraçoso.

 

- Eu estou ótima! – respondeu Kaoru rapidamente. – Vocês vão me ajudar?

 

Misao e Aoshi concordaram e instantes depois, com a devida descrição dos três pequenos felinos, cada um foi para um lado na tentativa de conseguirem cobrir toda a área da escola as proximidades de Shitamachi até o final da tarde. Kaoru sabia que o centro era grande, mas Aoshi conhecia tudo como a palma da mão dele e Misao costumava andar bem mais por ali do que ela. Tinha um pouco de fé que se os gatinhos estivessem por ali, eles os encontrariam. Mais tarde voltariam a se encontrar na casa de Kaoru para relatar se a busca dera resultados.

 

Enquanto Misao corria na direção do mercado e Aoshi do litoral, Kaoru seguiu pelo centro comercial de Tokyo. Era um lugar extremamente movimentado. Qualquer animal de menos de dois metros ficaria apavorado no meio de tanta gente, isso se não fosse pisoteado e morto bem antes. Kaoru estremeceu diante da visão de algo assim acontecendo aos gatinhos e sentiu uma pontada de remorso por tê-los desprezado em um primeiro momento. 

 

- Ai, o que eu faço se não os encontrar...? – perguntou a si mesma enquanto prometendo que se eles aparecessem mudaria totalmente de comportamento.

 

Continuou andando por ali e perguntando sobre os gatos aos funcionários de lojas e vendedores de rua. Ninguém sabia de nada. Era como se os animaizinhos tivessem sido levados para debaixo da terra.

 

Quando o céu começou a ficar escuro e ela olhou para o relógio de pulso que marcava cinco da tarde, resolveu que estava na hora de voltar para casa. Misao e Aoshi deviam estar tendo a mesma idéia naquele momento e sempre havia a chance deles terem tido mais sorte do que ela na busca.

 

Já passavam das seis quando chegou ao portão de casa. Como imaginou, os amigos já a esperavam sentados no batente. Estranho, havia luz dentro da casa... Por que será que a mãe não os deixara entrar? Será que a má fama de Aoshi chegara aos ouvidos dela? De qualquer maneira ela não deixaria Misao esperando no quintal. Kaoru se aproximou dos dois quase correndo. Ao vê-la, eles se levantaram e olharam em direção a porta.

 

- Parece que não tem ninguém... – disse Misao e Aoshi concordou com um aceno de cabeça.

 

- Que estranho... – respondeu Kaoru enquanto procurava pelas chaves no bolso do jeans. A mãe nunca saía para deixar as luzes acesas. Era verdade que àquela hora ainda deveria estar trabalhando, mas então, como foi que as luzes da sala e, aparentemente, também da cozinha se acenderam? Ainda era dia claro quando ela saiu.

 

Abriu a porta o mais depressa que podia e os três entraram.

 

- Mãe?? – Kaoru gritou. Esperou um pouco e como não obteve resposta, começou a procurar pela casa.

 

- Kaoru! – chamou Misao na sala.

 

Kaoru voltou para perto deles ainda confusa. Keiko ainda não tinha chegado. Será que ela viera em casa mais cedo e saíra de novo esquecendo as luzes acesas? Se tivesse sido isso a mãe devia ter saído com muita pressa, pois se havia uma coisa que ela não tolerava era desperdício, inclusive de energia.

 

- Não tem ninguém, eu devo ter esquecido as luzes acesas quando sai. – mentiu Kaoru. – Mas vocês não me disseram se tiveram sorte com as buscas... – perguntou lembrando-se do motivo de estarem ali. Com a confusão sobre as luzes acabara esquecendo de perguntar.

 

- Não tivemos sorte... – respondeu Misao.

 

- Encontrei pelo menos uns cinqüenta gatos. – completou Aoshi. – Mas nenhum chegava nem perto da descrição que você nos deu.

 

Kaoru deixou-se largar no sofá desanimada. Ela devia saber que era impossível encontrar os gatinhos perdidos em Tokyo, além disso, se aquele homem os tivesse levado como ela pensara, eles poderiam sequer estar em Tokyo.

 

- Obrigada assim mesmo... – disse abatida.

 

Misao se sentou ao lado dela tentando dizer algo que fizesse a situação parecer melhor.

 

- Não desanime, Kaoru. Quem sabe eles voltam sozinhos?

 

- Obrigada Misao. – Kaoru sorriu. Duvidava que os gatos conseguissem descobrir sozinhos o caminho de casa. Eles não tinham passado muito tempo ali e não eram animais de cinema que amavam seu dono a ponto de atravessar paises só para vê-lo outra vez. De qualquer maneira agradecia o esforço de Misao em tentar anima-la.

 

- E se fossemos amanhã ao abrigo de animais? – sugeriu Aoshi. – Talvez eles os tenham encontrado.

 

Um brilho de esperança apareceu nos olhos de Kaoru. O abrigo de animais, claro, como não tinha pensado naquilo antes?

 

- Ótima idéia Aoshi! Amanhã mesmo eu vou até lá.

 

Misao sorriu.

 

- Se quiser podemos ir com você.

 

- Não, melhor não. – recusou Kaoru. – Vocês têm aula e lembrem-se que eu ainda estou suspensa.

 

Isso a recordava que ainda tinha que falar com a mãe sobre o fato de que dali a dois dias tinha que ir à escola acompanhada de um responsável. Até então vinha mentindo que estavam havendo apenas aulas de revisão para as provas e que ela preferia estudar, mas não ia conseguir sustentar a mentira por muito tempo. O melhor era falar a verdade naquela mesma noite, não ia conseguir sair da confusão sozinha e ela sabia que quanto mais adiasse a notícia, mais zangada a mãe ficaria quando soubesse.

 

- Eu preciso ir... – disse Misao olhando para o relógio. Os pais dela pediram que chegasse antes do jantar quando dissera que ia ajudar Kaoru com algo depois da aula e se desobedecesse eles ficariam muito zangados. – Kaoru, você sabe que se precisar de alguma coisa, é só me ligar.

 

- Sim, Misao. Muito obrigada. – respondeu Kaoru com um sorriso.

 

- Eu também vou indo. – Aoshi deu uma rápida olhada para o relógio de parede. Todos sabiam que ele não se preocupava com horário para chegar em casa, mas provavelmente achou mais prudente sair junto com Misao. Aquilo evitaria comentários desagradáveis por parte da vizinhança, se é que já não iam haver. – Misao, se você quiser, te acompanho até em casa.

 

Ela abriu a boca para dizer que não, mas pensou que Aoshi só estava sendo gentil e pareceria suspeito ela recusar.

 

- Tudo bem.

 

Os dois se despediram de Kaoru e saíram juntos em direção a casa de Misao. Ela ainda ficou um longo tempo a observa-los da janela até que desapareceram de vista. Misao parecia ter pensado antes de concordar em Aoshi acompanha-la, o que significava que tudo não estava tão bem quanto ambos se esforçavam por parecer. Talvez ela devesse falar com a amiga sobre o assunto uma outra hora. Não gostava de sentir aquele clima desconfortável entre seus melhores amigos.

 

Depois de fechar a janela, a mente de Kaoru voltou a se concentrar nas luzes acesas e um calafrio percorreu-lhe a espinha. Se não tinha sido ela a responsável e tampouco sua mãe, isso poderia significar quem alguém estivera ali em sua ausência. O homem ruivo? Seria possível?

 

Com um misto de medo e expectativa, Kaoru começou a procurar novamente pela casa. Sua mente estava dividida entre o medo de estar sozinha com um desconhecido e a vontade voltar a ver aquele estranho.

 

“Kaoru no baka!”, ela pensou, “Como pode querer rever aquele pervertido? Já pensou que ele pode ser um marginal perigoso? Muito bonito, mas perigoso...?”

 

Ela procurou pelo andar superior sem nenhum sucesso, mas quando descia as escadas, um barulho vindo da cozinha lhe chamou a atenção.

 

“E agora, o que eu faço?”, se perguntou congelada. Seu lado racional lhe dizia que saísse dali e buscasse ajuda o mais rápido possível, mas um outro lado com o qual não costumava ter contato lhe ordenava que enfrentasse a situação sozinha. Guiada por esse lado, ela apanhou a mesma estátua pesada do monte Fuji que sua mãe empunhava enquanto  procurava pelo invasor dias antes e caminhou lentamente para a cozinha.

 

Aproximou-se da porta silenciosamente, quando chegou o mais perto que podia sem que fosse vista por quem quer que estivesse lá dentro, entrou em um salto com um grito:

 

- VOCÊ!

 

O invasor estava na frente da geladeira com um pacote de pão, um pedaço de queijo e algumas latas de sopa em conserva nas mãos. Era o mesmo rapaz ruivo do outro dia e, apesar de já esperar por aquilo, Kaoru se assustou tanto ao vê-lo que deixou cair a escultura direto no pé esquerdo.

 

 O ruivo ficou ciente de sua presença ao ouvir o grito de dor que ela deixou escapar ao sentir o peso espatifar-se na superfície desprotegida de seu pé que contava apenas com uma sandália baixa e fina. Sua reação inicial foi fugir dali o mais rápido que podia, mas aquela menina parecia estar com problemas e ele não podia deixa-la sozinha.

 

- A-A-A senhorita está bem? – perguntou ele se aproximando.

 

Kaoru se afastou arrastando-se até a parede e se colocando em uma posição defensiva. O rapaz percebeu isso e a encarou confuso sem largar a comida que tinha pego na geladeira. Ela então pode avaliar bem melhor sua aparência: ele tinha os cabelos ruivos presos para trás com o que ela reconheceu como uma das fitas azuis que usava para prender o seu próprio cabelo quando ia a escola. Estava vestido com um dos conjuntos de gi e hakama brancos que costumavam  ser utilizados pelos alunos do estilo Kamiya Kasshin Ryu durante os treinos com a espada e que agora deveriam estar guardados no salão de treinamento do dojo. Os pés estavam descalços e vermelhos como se ele tivesse andado pisando em solo arenoso sem nenhuma proteção. A avaliação geral de Kaoru em cima do invasor era que não parecia invasor experiente, mas um ladrãozinho de rua passando por dificuldades.

 

- Quem é você? - ela perguntou. – O que está fazendo na minha cozinha, usando as roupas do nosso dojo??

 

O garoto abaixou a cabeça e voltou a ergue-la afastando a franja do rosto e deixando a mostra aquela curiosa cicatriz em forma de cruz.

 

- Eu sinto muito, senhorita. Estávamos com fome e não temos dinheiro... Eu não tinha a intenção de fazer-lhe mal... a senhorita está bem?

 

- O que você acha? – perguntou Kaoru sarcasticamente. O pé estava ficando inchado e latejava dolorosamente. Provavelmente ela não conseguiria ficar de pé sozinha. – Você vai ficar ai me olhando e não vai me ajudar?

 

Por um instante ele ficou parado no mesmo lugar olhando de Kaoru para a comida que ainda descansava em seus braços. Perecia estar tentando decidir se fugia aproveitando que a garota não podia ir atrás dele ou se ficava para ajuda-la. Por fim largou tudo em cima da mesa e ajoelhou-se no chão tocando levemente o pé ferido da jovem.

 

- Cuidado! – Kaoru pediu enquanto ele continuava a examina-la.

 

- Não parece estar quebrado, mas não vai conseguir andar. - Ele ergueu Kaoru do chão antes que ela pudesse dizer qualquer coisa e a levou até o sofá. – Tem gelo naquela caixa engraçada onde vocês guardam a comida, eu vi. – disse ele voltando para a cozinha.

 

- Caixa engraçada...? – repetiu Kaoru. Aquele rapaz era mesmo muito estranho. Por que será que a estava ajudando correndo o risco que ela o denunciasse por roubo? Não devia ter deixado que ele a carregasse, muito menos que permanecesse tanto tempo em casa, mas a dor era tão incômoda que ela não tinha coragem de manda-lo embora. Isso e uma boa dose de curiosidade. Quem seria aquele ruivinho? Como entrara em casa sem ter as chaves? OS GATOS! Mas que cabeça! Ela esquecera de perguntar sobre os gatos.

 

- Eu vou colocar o gelo no pé da senhorita. – disse o garoto ruivo se aproximando com algumas pedras de gelo dentro de um saco plástico. Ele encostou no pé de Kaoru fazendo-a estremecer ao contato gelado. – Se sente melhor?

 

- Sim, obrigada. – ela respondeu. – Mas eu acho que você me deve uma explicação.

 

Ele olhou para ela parecendo envergonhado.

 

- Sinto muito, senhorita... Eu não tenho como explicar o que estava fazendo no seu quarto de banho e não tenho desculpa para tentar roubar sua comida, mas meus amigos e eu estávamos com muita fome... – ele respondeu confuso. – Sano principalmente, ele come muito... Soujirou não reclama, mas eu sei que sente fome também... Perdão, senhorita, juro que não queria fazer nenhum mal, foi só porque eu e meus amigos...

 

- Tudo bem! – interrompeu Kaoru. As explicações do rapaz ruivo eram muito confusas, ela precisava que ele fosse mais claro. – Eu tenho três perguntas: de onde vocês vieram; o que faz na minha casa e principalmente, o que fizeram com os meus gatos.

 

As perguntas pareceram deixar o rapaz ainda mais confuso, mas ele tentou responder da melhor maneira possível.

 

- Nós vivíamos com um homem em Kyoto, não sei o que aconteceu com ele... eu só me lembro que vim parar na casa da senhorita... nós três viemos. Sobre os gatos... eu não tenho certeza a que está se referindo.

 

Aquelas eram respostas muito vagas e Kaoru não gostou nada. Ou o ruivo na sua frente era muito inocente ou estava tentando dar uma de esperto.

 

- KENSHIN!!!

 

Kaoru deu salto. Dois outros rapazes apareceram na sala vindo da direção da cozinha. Um deles era alto, tinha os cabelos castanhos arrepiados e devorava dois pães ao mesmo tempo enquanto se aproximava. O vinha bem atrás, era pouco mais baixo que o ruivo, tinha os cabelos curtos, lisos e estava sorrindo.

 

- Sano, Soujirou, eu disse que me esperassem! – reclamou o ruivo que, pelo que parecia, se chamava Kenshin.

 

- E ficar lá morrendo de fome enquanto você se diverte ai com a garota? – perguntou o que Kenshin chamara de Sano.

 

Kaoru ficou vermelha com esse comentário, mas logo o rubor deu lugar a uma expressão apavorada.  Naquele instante uma série de lembranças invadiam sua mente todas ao mesmo tempo.  Ela olhou para os três rapazes na sala e quase pode ver os gatinhos no lugar deles: o ruivinho com uma cicatriz no rosto, o castanho de pelo arrepiado, o preto-azulado que estava sempre feliz... O dia em que sofrera aquele susto ao dar de cara com o garoto ruivo quando estava no banho não tinha sido na noite de lua nova? A última lua nova do ano, exatamente como dizia o livro que Hiko lhe deixara...

 

Ela olhou mais uma vez para os três rapazes agora não tão desconhecidos na sala antes de perder os sentidos.

 

 

 

CONTINUA

 

 

 

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