Lovely Cats


 

 

 

Capítulo 4 - A Última Lua Nova do Ano

 

 

 

 

 

 

Keiko terminou de ordenar o salão de treinamento do dojo com um suspiro aliviado. Ela costumava entrar ali para tirar a poeira duas vezes ao mês, mas estivera tão cheia de trabalho nos últimos tempos que há quase seis semanas não o fazia.

 

Enquanto recolhia o material que utilizara na limpeza, se descobriu encarando as placas com os nomes dos alunos que eram penduradas nas paredes por toda parte circulando o cômodo comprido até um pesado armário de ferro onde eram guardadas as espadas de madeira e bambu usadas nos treinos. Estava tudo exatamente como o marido deixara. Quando ele morreu, ela não tivera coragem de tocar em nada, não só porque alguns jovens estudantes ainda vinham treinar ali de vez em quando, mas principalmente porque aquele lugar era como um santuário para Kaoru que nunca superara totalmente a morte do pai. Ela sabia que a jovem costumava entrar ali em silêncio tarde da noite e treinar alguns balanços com a bokken quando as lembranças se tornavam dolorosas demais. Se ao menos as duas pudessem conversar sobre o assunto.. mas, desde que acontecera, as coisas entre elas tinham seguido um caminho difícil. Mais se tratavam como duas estranhas que viviam sob o mesmo teto que como mãe e filha e nenhuma das duas tinha coragem de iniciar um diálogo para mudar isso.

 

Keiko olhou para o relógio de pulso e balançou a cabeça contrariada. Já passavam das dez da noite e Kaoru ainda estava na casa de Misao. Ela avisara antes de sair pela manhã que iria até lá depois das aulas estudar história, matéria na qual constantemente se dava mal. Prometera voltar antes das nove, mas até aquele horário não tinha aparecido ou sequer telefonado.

 

- O que eu vou fazer com essa menina... – suspirou a jovem mulher enquanto saia e trancava o salão do dojo.

 

Perder a hora quando ia à casa de Misao era um hábito que Kaoru não perdia. Keiko não costumava repreender-lhe porque sabia o que significava para ela. Misao tinha pais e um irmão. Uma família bonita e unida, coisa que ambas já tiveram e que agora era coisa do passado. A casa da amiga devia ser um ambiente muito mais confortável que aquele casarão vazio com vista para um dojo abandonado.

 

O que podia fazer agora era telefonar para Misao e pedir que Kaoru viesse para casa imediatamente antes que ficasse mais tarde e as ruas se tornassem ainda mais perigosas. Com esse pensamento, ela entrou pela porta da cozinha onde largou os itens de limpeza e seguiu para a sala, direto para o telefone.

 

 

-o-o-o-o-o-

 

 

Kaoru andava pelas ruas de Shitamachi sem pressa de chegar em casa. Já era muito tarde para ela estar sozinha por ali, mas seu estado de espírito fazia com que ignorasse qualquer noção de perigo que pudera desenvolver em todos os anos em que vivera naquele bairro.

 

Naquela noite o clima da cidade estava particularmente frio, mas o céu não dava nenhuma indicação de chuva. As estrelas rodeando a lua nova quase invisível brilhavam sem o empecilho de nenhuma nuvem. Olhando para o céu, Kaoru de repente se lembrou do livro que seu tio lhe deixara. A história não falava qualquer coisa sobre a última lua nova do ano? A lua, os gatos...

 

Uma rajada de vento a atingiu e ela apertou os braços cruzando-os sobre os ombros esquecendo completamente do pensamento que tinha começado a se formar em sua mente. O uniforme da escola não era nem um pouco apropriado para caminhar em uma noite fria como aquela, mas a manhã tinha surgido com a promessa de um dia quente e ela não saíra coma intenção de voltar para casa tão tarde, por isso não dera importância aquele detalhe.

 

O que podia fazer agora era ir para casa. Já caminhara o suficiente para esfriar a cabeça e nada poderia mudar os acontecimentos daquela manhã na escola.

 

 

Misao acenou sorrindo assim  que a viu chegar. Como era de se esperar, aquela altura, a notícia da herança já tinha se espalhado por toda a escola. Antes de entrar na sala, porém, Misao insistira que ela devia descobrir o que Enishi achava da novidade.

 

- Não acho que seja uma boa idéia... – disse Kaoru tratando de seguir na direção oposta.

 

- Se não for agora, quando será? – perguntou Misao batendo o pé no chão. Kaoru às vezes era tão covarde... Nem parecia que passara dez anos de sua vida sendo sua amiga e ouvindo seus conselhos.

 

- Misao, se o Enishi quiser falar comigo, ele vai me procurar. Se tiver de acontecer, vai acontecer.

 

Misao olhou para Kaoru incrédula. Não sabia onde a amiga tinha aprendido aquelas bobagens sobre destino. Para ela se você quisesse que alguma coisa acontecesse, tinha que correr atrás. Aí sim, se não tivesse de ser, não seria.

 

- Nada disso, nós vamos agora!

 

Ela nem deu tempo de Kaoru responder. Empurrou a amiga na direção onde Enishi estava sentado folheando uma revista certamente imprópria em ambiente escolar. Quando viu as duas garotas se aproximando, ele escondeu a revista na bolsa e olhou para elas com um sorriso maroto.

 

- Vejam só se não é a revoltada Makimashi Misao e sua bela amiga Kamiya Kaoru.

 

Bela amiga? Kaoru esbugalhou os olhos, surpresa. Tinha ouvido mal ou Enishi a chamara de bela??

 

- Oi, Enishi! – disse Misao com sua costumeira espontaneidade. – Nós viemos perguntar se você já sabe da última.

 

Kaoru olhou para o chão sem coragem de encarar Enishi enquanto esperava por uma resposta.  Achava muita cara de pau de sua própria parte ter aparecido assim para perguntar sobre aquilo, mas se de algum maneira Misao estivesse certa e algo desse  certo entre eles, tudo valeria a pena. De todo jeito, tinham ido longe demais para voltar atrás.

 

- E então? – insistiu Misao, mas não foi uma resposta de Enishi que elas receberam.

 

- Mas se não é a nova rica!

 

Disse uma voz que Kaoru reconheceu antes mesmo de olhar para trás. Se não era Megumi Takani, a garota mais popular da escola e, podia-se dizer, a mais puxa-saco também. Ela estava sempre pelos corredores a conversar com os professores sobre assuntos que ela mesma parecia não saber do que se tratava. Segundo se sabia, Megumi aspirava uma bolsa em uma faculdade de Medicina e precisava de boas notas e recomendações de seus mestres. Pensando nisso, não perdia tempo em bajulá-los de todas as maneiras possíveis.

 

- Eu já soube que você herdou uma mansão e muito dinheiro de seu falecido tio. – disse Megumi.

 

Mansão e muito dinheiro?? Kaoru olhou para Misao que parecia igualmente confusa. Ela devia saber que Tae Sekihara não se contentaria em espalhar o boato do jeito que chegara a seus ouvidos. Agora do dia para noite, sua herança passara de uma casa velha e cheia de trastes e uma quantia modesta para uma mansão e uma grande fortuna.

 

- Eu não... – Kaoru começou a dizer, mas o olhar que Enishi lançava a todas elas a fez se calar. Não queria passar vergonha justamente na frente dele. Não quando parecia estar mais perto do que nunca de, pelo menos, ficarem amigos.

 

Infelizmente, para ela, Megumi pareceu adivinhar o que ela estava pensando.

 

- Mas claro... – disse a garota enquanto passava os braços pelo pescoço de Enishi. – Eu sei porque você fez todo esse barulho em cima desse dinheiro...

 

- Megumi, eu não acho...

 

Começou Enishi, mas Megumi a interrompeu.

 

- Eu sei que você é apaixonada pelo Enishi, não é? Você está de olho nele desde que eu posso me lembrar...

 

Kaoru ficou gelada. Pelo que podia ver, Enishi não estava acreditando nas palavras de Megumi, mas não seria por muito tempo se ela continuasse falando.

 

- Olha Takani, eu acho melhor você ir circulando. Ninguém te chamou nessa conversa não!

 

Misao ameaçou sem nenhum efeito. Megumi apenas sorriu desafiadoramente e pareceu ainda mais disposta a provocar.

 

- Ah, Tanuki, eu sei que você se acha muito importante por ter ganhado esse dinheiro assim sem mais nem menos. – disse Megumi diante de uma perplexa Kaoru – Mas isso nunca vai te fazer se tornar mais do que você é: lixo. Você nunca vai ser uma de nós.

 

Kaoru não conseguia reagir. Tudo o que passava pela sua mente era que Megumi estava ali insultando-a enquanto Enishi continuava parado no mesmo lugar sem levantar um dedo para defendê-la. Talvez ele não quisesse se envolver em briga de mulher. Sim, devia ser isso. Ele era cavalheiro demais para se rebaixar ao nível da Takani.

 

- Quem você está chamando de lixo, sua...

 

- MISAO!

 

Kaoru gritou antes que a amiga dissesse o que não devia e fosse parar na detenção antes mesmo do horário de aula.

 

- Você não ouviu o que ela disse, Kaoru?

 

Perguntou Misao prestes a explodir de uma vez. Megumi Takani costumava ser irritante, mas daquela vez ela tinha se excedido.

 

- É melhor nós irmos... – Kaoru pediu segurando o Braço da amiga.

 

Megumi riu alto. Parecia estar se divertindo com as duas garotas e não estava disposta a deixá-las irem embora sem mais nem menos e tão rápido e assim.

 

- Sabe o que mais? – continuou enquanto soltava o braço de Enishi que permaneceu no mesmo lugar sem tomar partido. – O que você deveria fazer com essa sua... herança... – pronunciou a palavra com desdém – era tentar fazer algo por aquele dojo imundo que você tem em casa. Quem sabe assim conseguiria desenterrar a memória do imprestável do seu pai?

 

Com aquele comentário, Kaoru sentiu o sangue ferver. Não se importava que sua posição no colégio fosse rebaixada nem que insultassem a sua pessoa, ao contrário de Aoshi e Misao, nunca gostara de se meter em confusão, mas daquela vez Megumi Takani fora longe demais. Ninguém falava mal do pai dela. Não na sua frente. Jamais permitiria que manchassem a memória da pessoa que ela mais amava.

 

Quando deu por si, já estava rolando pelo chão agarrada aos cabelos de Megumi. A outra gritava e esperneava enquanto a chamava de selvagem e coisas piores. Em volta das duas, um grupo crescente de estudantes vinha ver o que estava acontecendo, gritando e torcendo por uma delas sem nenhuma intenção de separa-las. Entre eles, Misao gritava eufórica para que ela desse na Raposa a surra que ela há tempos merecia.

 

Pouco depois, atraída pelo barulho, a diretora chegou ao local e separou as duas gritando o quanto o comportamento de ambas era vergonhoso. Como já era de se esperar, Megumi jogou a culpa para cima de Kaoru que não teve armas para se defender. Era a palavra da queridinha dos professores contra a de uma aluna medíocre que andava na companhia de jovens de má fama. Resultado: dois dias de suspensão em pleno período de provas e quando voltasse, precisaria estar na companhia de um responsável.

 

O fato de ter que se esforçar o dobro do que normalmente teria para passar de ano não foi o que mais preocupou Kaoru. Tampouco a certeza de que Keiko lhe daria um bom castigo por mais aquele ato de rebeldia. Tudo o que ela conseguia pensar era que aquela situação embaraçosa tinha se passado na frente de Enishi e que, conseqüentemente, o mais certo era que estragara suas chances de se aproximar dele para sempre.

 

 

Depois de dispensada ela foi embora sem sequer procurar por Misao. Estava infeliz demais com tudo o que acontecera para ter ânimo para falar com quem quer que fosse. Passou o dia na rua, andando sem destino certo. Quando viu que anoitecia, seguiu para casa circulando pelo caminho que lhe parecera mais longo.

 

Agora estava parada em frente ao portão que dava para o dojo e pela primeira vez começara a se preocupar com o que a mãe diria quando soubesse da suspensão. O melhor era que ela não falasse nada naquele mesmo dia. Já tivera aborrecimentos demais nas últimas vinte e quatro horas e uma bronca aquela altura era o que menos precisava.

 

Ela entrou em casa silenciosamente, mas não o bastante. A mãe estava na cozinha trabalhando como sempre, mas ao ouvir o barulho da porta, correu para a sala onde ela estava.

 

- Kaoru, você sabe que horas são? – perguntou Keiko com as mãos na cintura no seu melhor tom de é-bom-que-tenha-uma-boa-desculpa-se-não quiser-ficar-de-castigo.

 

- Eu sinto muito... – respondeu Kaoru desanimada. – Eu acabei perdendo a hora...

 

- Você está bem?

 

Kaoru assentiu. Não queria olhar nos olhos da mãe. Talvez ela tivesse telefonado para casa de Misao e quem sabe o que a amiga lhe dissera? A única coisa que ela desejava era poder ir para o quarto, tomar um bom banho e se enfiar debaixo dos lençóis pelos próximos dois dias. Como se adivinhasse os pensamentos de Kaoru, Keiko disse:

 

- Eu telefonei para Misao. Ela avisou que você tinha acabado de sair. Deve ter vindo correndo porque faz menos de quinze minutos que eu telefonei.

 

Ah, Misao. Estava lhe devendo uma...

 

- É verdade... Eu vim quase correndo.

 

- Que bom, porque as ruas ficam perigosas a essa hora da noite. – Keiko sorriu e começou a andar de volta em direção a cozinha. Não sem antes dizer: - Tome um banho e se deite. Amanhã você tem aula bem cedo, se lembre. E não se esqueça de alimentar os gatinhos.

 

Alimentar os três pequenos estorvos. Por que a mãe não podia fazer isso uma vez que fosse? Não tinha ânimo para isso. Ela subiu as escadas ainda remoendo os acontecimentos desagradáveis e sentindo-se mal por eles. A primeira coisa que viu quando entrou no quarto foram os três gatinhos em cima de sua penteadeira. Tinham as patas dianteiras apoiadas na janela e pareciam encarar a lua nova que surgia sem brilho no espaço entre as estrelas.

 

- Vocês estão com fome? – ela perguntou. Em seguida pegou o saco de ração para gatos que guardava em uma sacola pendurada atrás da porta e encheu uma caixa de manteiga que improvisara como prato. Se os gatos estivessem com fome, eles que tratassem de descer dali e procurarem a comida sozinhos. Ela já fizera a parte dela.

 

Miau?

 

O pequeno gato ruivo parecia encarar-lhe interrogativamente. Ele saiu da posição onde permaneciam seus companheiros e pulou da penteadeira levando consigo um porta retratos que tombou no chão a seu lado.

 

- Olha só o que você fez! – Kaoru gritou correndo para apanhar a fotografia. O gatinho, no entanto, não se intimidou permanecendo sentado no chão, próximo à comida.

 

Kaoru não prestou atenção nele. Se sentou na cama examinando o retrato como fizera já tantas outras vezes. Nele aparecia abraçada ao pai em frente a uma lancha no porto de Kyoto em seu aniversário de quatorze anos. Fora tirado dois meses antes do acidente que a manteve quase o mesmo espaço de tempo no hospital e que levara para sempre à parte que ela considerava mais importante de sua família.

 

Lutando para não se render as lágrimas, apoiou o porta-retratos na mesinha de cabeceira e resolveu tomar o banho de uma vez por todas. Ela pegou os sais de banho no armário e os levou para o banheiro onde começou a despejar na banheira devagar, à medida que a enchia com água quente. Quando se deu por satisfeita com o resultado, despiu-se rapidamente e entrou na água permanecendo deitada com olhos fechados. A sensação era relaxante.

 

Absorta em seus pensamentos, não percebeu um barulho estranho que começou de repente no quarto onde os três pequenos felinos estavam sentados no chão em um círculo. Seus olhos tinham um brilho de razão inexistente em animais comuns. Eles ainda estavam se acostumando com a capacidade de pensar, não era fácil passar um século com animais comuns e voltar a raciocinar como seres humanos de uma hora para outra. Mas independente daquilo, uma coisa eles sabiam: algo importante estava prestes a acontecer e precisavam estar preparados.

 

Imersa na banheira, com os olhos fechados e a mente a quilômetros de distância, Kaoru não percebeu que o gatinho ruivo entrara no banheiro e se sentara em frente à janela que tinha uma vista muito melhor da lua pálida que a vidraça do quarto. O que veio em seguida, aconteceu rápido demais e tampouco Kaoru se deu conta.

 

Os raios de luar atingiram o pequeno animal e a transformação começou. Ele encolheu-se no chão como se sentisse alguma dor e aos poucos seu corpo foi crescendo e tomando outra forma. Os pelos espalhados pelo corpo desapareceram pouco a pouco enquanto a nuca se enchia com uma vasta cabeleira vermelha e comprida. As unhas afiadas foram diminuindo à medida que as mãos e pés cresciam tomando forma humana. Quando sentiu que seu corpo estava completamente adaptado a uma nova condição, ele levantou o rosto em direção à lua exibindo um par de olhos violetas em um rosto jovem e muito bonito, apesar da profunda cicatriz em forma de cruz que tinha na face esquerda.

 

Ele se levantou devagar passando a mão pelo rosto e cabelos. Andou até janela e percebeu um espelho do outro lado, próximo a porta. Sua imagem refletida continuava a mesma desde a última vez que voltara aquela forma.

 

- Mamãe??

 

Perguntou Kaoru sem abrir os olhos. Tivera a impressão de ouvir passos.

 

O som da voz de Kaoru fez o jovem ruivo dar um salto. Aos poucos tomou consciência da presença da garota dentro da banheira e de algo ainda mais embaraçoso: ele não usava nenhuma roupa.

 

Pegou uma toalha pendurada próxima a pia e se cobriu como pode. Foi nesse momento que Kaoru abriu os olhos procurando pelo chão o autor do barulho que ela agora pensava ser um dos gatinhos. Qual não foi sua surpresa ao dar de cara com um par de pernas humanas que pertenciam ao homem mais bonito que ela já tinha visto na vida?

 

A princípio apenas o encarou com uma expressão abobalhada como se não acreditasse no que estava vendo, mas logo percebeu que aquela pessoa, fosse lá de onde tivesse saído, não desapareceria de um minuto para outro e ela finalmente se deu conta da situação na qual se encontrava.

 

- He... He... HENTAAAAAAAAAAAAI!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

O ruivo deu outro salto diante do grito da garota. Em seguida sentiu o impacto de frascos de produtos de todos os tipos sendo atirados em direção a ele. Kaoru aproveitou a confusão que lhe causara para pegar um yukata que estava pendurado ao alcance e sair correndo pelo quarto em direção as escadas. Desceu até a cozinha, onde a mãe ainda trabalhava, gritando quase histericamente.

 

- Me ajuda!!!!!!!! Tem um homem lá em cima!!!!!!

 

Keiko se levantou e correu ao encontro da filha.

 

- Um homem??? – ela perguntou.

 

Kaoru balançou a cabeça afirmativamente sem conseguir dizer nada. Estava muito assustada.

 

Keiko não esperou mais. Pegou uma réplica em miniatura do monte Fuji em cima da estante que pesava o bastante para deixar alguém desacordado se recebesse o objeto direto na cabeça e andou apressadamente para o quarto de Kaoru.

 

Vasculhou o cômodo mais de uma vez, mas não encontrou ninguém. No banheiro os frascos que Kaoru jogara no tal estranho estavam espalhados pelo chão e a toalha de mão jogada de qualquer maneira em cima da pia, mas nem sinal de que outra pessoa estivera ali.

 

- Eu juro que ele estava aqui. – disse Kaoru entrando devagar no banheiro.

 

- Eu vou dar uma olhada no resto da casa por via das dúvidas. – disse Keiko começando a achar que Kaoru andara imaginando coisas. – Vá se deitar, é o melhor para você.

 

A jovem assentiu e assim que a mãe se retirou, se vestiu com alguma pressa e jogou-se na cama ainda assustada demais para dormir.

 

- Hoje não é o meu dia. – disse ela enterrando o rosto no travesseiro.

 

Preocupada com o estranho que poderia ter invadido sua casa e ainda estar perambulando por ali, ela nem deu pela falta dos três gatinhos no quarto. Se tivesse prestado mais atenção, teria se dado conta que a vidraça da janela estava destrancada e que não havia sinal dos animaizinhos.

 

Lá fora, os vultos do que pareciam três homens correndo pelo telhado puderam ser avistados por alguns segundos sob a luz das estrelas. No instante seguinte, desapareceram completamente.

 

 

 

CONTINUA

 

 

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