Lovely Cats


 

 

 

Capítulo 3 - Os Três Guerreiros

 

 

 

 

Kaoru estava sentada na cama com o livro que trouxera de Kyoto aberto sobre as pernas cruzadas. Já fazia dois dias que ela e a mãe tinham voltado de viajem e tudo o que ela fizera no fim de semana fora ler ao invés de estudar para as provas de reposição.

 

O livro que Hiko lhe deixara era muito curioso. Não tinha data nem qualquer espécie de referência que desse uma idéia da época em que fora publicado. Ele falava sobre um reino que existira setecentos anos antes e que fora dominado por um mago tão poderoso quanto perverso. Segundo a história, o herdeiro legítimo do trono, a fim de livrar o povo da tirania do mago, mandou os três mais valorosos guerreiros para derrotá-lo. Apesar dos escolhidos serem muito fortes, não foram páreo para os poderes mágicos do oponente que os transformou em animais.

 

- Mas que bobagem! – disse Kaoru. Apesar de ter se interessado pela história, a achou fantasiosa demais.

 

Ela leu o último parágrafo da página em voz alta.

 

“E durante sete séculos, uma vez a cada cem anos, no primeiro dia da última lua nova do ano, retornarão a forma humana. Se não forem capazes de reverter o encanto em uma dessas oportunidades, não haverá volta e viverão como animais pelo resto de seus dias”.

 

- Que história...

 

As outras páginas do livro estavam completamente em branco, como se a história não tivesse sido terminada.

 

- Mais estranho ainda... – ela disse. No entanto não pensou seriamente no assunto.

 

Kaoru colocou o livro na mesinha de cabeceira cuidadosamente e se deitou de costas para o teto. Dali tinha uma boa visão do cesto onde os três gatinhos dormiam. Desde que chegara a Tokyo tivera que cuidar de tudo relacionado a eles, logo ela que declarara firmemente que não seria babá de animais...

 

- Kaoru, é a Misao no telefone!

 

Gritou Keiko do andar de baixo. Pelo menos a mãe dela parecia melhor. Na verdade, parecia ter esquecido completamente a tristeza que sentira nos últimos dias e agora andava de um lado a outro pela casa eletricamente preparando uma papelada para qualquer coisa que tinha que fazer no dia seguinte. A mãe de Kaoru era advogada e, apesar de trabalhar o dia inteiro, sempre dava um jeito de levar trabalho para casa nos fins de semana.

 

- Já vou! – a jovem gritou de volta. Depois se levantou da cama sem pressa e saiu fechando a porta do quarto atrás de si. Se os gatinhos escapassem, seria mais um problema para ela e sua cabeça já estava demasiado quente com a lembrança das provas de reposição que faria em alguns dias. Que a mãe nunca soubesse daquilo.

 

Desceu as escadas e pegou o telefone que fora apoiado cuidadosamente na estante. Imediatamente, a voz alegre de Misao encheu-lhe os ouvidos.

 

- Então você voltou e não ia ligar para mim, não é?

 

- Boa tarde, Misao... – respondeu Kaoru sem saber o que fazer. O que a amiga diria quando soubesse que herdara uma casa caindo aos pedaços, uma porção de coisas sem valor, um livro velho parcialmente escrito e três gatos? Só havia uma solução para seu dilema: mentir.

 

- E então? – insistiu Misao. – Me conta logo o que você herdou.

 

- A casa do tio e todas as coisas dele... – respondeu desinteressadamente como se falasse de um objeto qualquer.

 

Misao deu um grito do outro lado da linha fazendo com que Kaoru afastasse o telefone do ouvido.

 

- Eu disse que você ficaria rica!!!!!!

 

Rica...”, pensou Kaoru, “pois sim. Rica em objetos inúteis e sem valor. Sem falar que para ficar com eles tenho que pajear os gatos do tio. Que raiva! Isso só pode ter sido uma grande piada daquele coroa rabugento”.

 

- Você disse... – ela respondeu a Misao em meio a um sorriso sem graça. – Mas não posso usufruir nada até a maior idade. Lembre-se que ainda tenho dezessete.

 

- E daí??!! – Misao estava mesmo animada. – Desde que o Enishi saiba... Por falar nisso encontrei hoje com a Sekihara e contei tudo, ela disse que não espalhava, ou seja,  amanhã toda a escola ficará sabendo.

 

Kaoru ficou congelada, perplexa, sem saber o que dizer. O que raios passara pela cabeça de Misao para falar de sua herança para a garota mais fofoqueira da escola? Ah, Misao...

 

- Você se adiantou! – disse Kaoru em um tom mais irritado do que planejara. – Não era para ninguém ficar sabendo, Misao. Só eu, você e Aoshi.

 

- Ah, é? – perguntou Misao divertida. – Não era também para o Enishi ficar sabendo?

 

Kaoru não respondeu imediatamente. Claro que queria que Enishi fosse gentil com ela, mas será que daquela maneira? Ter um homem interessado por ela apenas por causa de sua situação financeira não parecia a Kaoru uma situação muito agradável.  Apesar disso não podia negar que a deixava muito feliz o pensamento de que de uma forma ou de outra houvesse a chance dela e Enishi terminarem o ano juntos.

 

- Tudo bem, Misao... Melhor falarmos disso amanhã. Você sabe que tenho muito que estudar para as provas de reposição. – Kaoru mentiu.

 

Em resposta, Misao deixou escapar uma sonora gargalhada.

 

- Você estudando?? Ah, Kaoru, melhor inventar uma outra desculpa se quiser se livrar de mim. Eu sei que você ficou sem jeito porque falei do Enishi, mas não se preocupe, eu preciso mesmo desligar, ainda tenho que dar as boas novas para o Aoshi.

 

- Você vai ligar para o Aoshi??

 

Aquilo sim era uma surpresa. Fazia muito tempo que Misao só falava com Aoshi na escola. Desde que ele negara sentir algo por ela. Kaoru não acreditava que Aoshi fosse indiferente a Misao, mas deixara as coisas como estavam. Aquele era um problema dos dois e ela faria mal se intrometendo.

 

- Por que não? – perguntou Misao como se nada daquilo que Kaoru pensara tivesse passado ou como se, simplesmente, não tivesse importância. – Eu sei que o telefone não é a melhor maneira de falar com alguém que nunca diz mais que algumas palavras em uma conversa, mas não acha que eu vou na casa dele só para dizer isso, não é? Aquele velho, o pai dele, me assusta.

 

Kaoru deu risada. Okina era um velhote simpático, mas às vezes parecia não ter bom juízo. Na primeira e última vez que foram visitar Aoshi em casa ele dera um abraço tão apertado em Misao levantando-a do chão que ela passara dias com as costas doendo.

 

- Então ligue para Aoshi e dê as novas, afinal, amanhã toda a escola vai saber, não é? – disse Kaoru com um humor muito melhor.

 

- É assim que se fala, amiga! – Misao respondeu antes de desligar.

 

Kaoru colocou o fone no gancho e foi para a cozinha onde a mãe trabalhava com a metade da mesa coberta de papéis. Usava uns óculos de grau naquelas ocasiões que a deixava com ares de intelectual. Ao ver a filha, retirou os óculos do rosto e a encarou.

 

- E então? – perguntou com um suspiro cansado. Já fazia quase duas horas que estava ali tentando adiantar um processo. – Misao falou se haveria algo importante no colégio essa semana?

 

- Nada importante. – respondeu Kaoru com uma pressa suspeita. – Apenas aulas e nada mais.

 

Keiko sorriu para a filha. Tinha muito trabalho para terminar e não tinha tempo para investigar a vida escolar de Kaoru mais a fundo naquele momento. O que podia fazer era confiar nela como sempre fizera.

 

- Você já jantou? – perguntou.

 

- Não... – respondeu Kaoru enquanto tirava do armário um saco com batatas fritas.

 

- Então largue isso e se sente. – Keiko largou o que estava fazendo e se levantou com um sorriso. – Vou preparar alguma coisa para nós.

 

 

-o-o-o-o-o-

 

 

Pouco depois que Kaoru fechou a porta, os três gatinhos acordaram confusos. Aquela casa ainda era estranha para eles e sentiam falta do senhor grande e um pouco rabugento que lhes dava comida todos os dias. Agora estavam sendo cuidados por aquela garota bonita, porém de expressão enfezada. Ela não parecia nem um pouco satisfeita em ter que cuidar deles. Por que será que os levara até sua casa? E onde estaria o seu dono anterior?

 

O gato vermelho foi o primeiro a pular do cesto. Começou imediatamente a investigar o ambiente com a típica curiosidade dos felinos. Encontrou as sandálias que Kaoru calçava ao se preparar para dormir e começou a brincar agarrando-se a elas e mordendo-as alegremente. A essa altura, seus dois companheiros já ouviram o barulho e juntaram-se a ele na brincadeira. Os três pulavam e rolavam uns por cima dos outros graciosamente quando, de repente, uma ponta de razão cruzou a mente do gatinho vermelho. Ele largou a sandália e se afastou.

 

“Miau!”

 

Foi todo o som que conseguiu emitir ao abrir a boca, embora tivera uma estranha certeza de que seria capaz de fazer bem mais.

 

Os outros dois gatinhos continuaram brincando com as sandálias da menina e um novo flash assaltou o pequeno animal avermelhado.

 

“O nome dela é Kaoru!”

 

Foi um pensamento rápido que ele não soube exatamente o que significava. Aquela nova consciência fazia com que ele não conseguisse distinguir as coisas com clareza. Sabia que não estava agindo como gato, mas não tinha idéia do que pudesse estar acontecendo.

 

Tão de repente quanto havia surgido, a capacidade de pensar se foi. O gatinho parou surpreso sentindo como se uma luz tivesse apagado em sua mente primitiva. Mas avaliar não estava em sua natureza, sendo assim, logo a sensação foi esquecida e ele voltou a rolar pelo chão como qualquer felino.

 

 

-o-o-o-o-o-

 

 

Kanryu Takeda estava fechando a porta do escritório no final do expediente. Era uma porta pesada, de ferro que ele instalara dias antes para evitar a onda crescente de assaltos que assolava a região. Além do material em si,  a entrada contava ainda com duas fechaduras e três cadeados que eram sempre firmemente trancados e apenas ele e sua secretária guardavam as chaves. Assim que a segunda fechadura foi trancada, quando ele preparava-se para começar com os cadeados, sentiu a presença de alguém a observá-lo por trás. Imediatamente tentou olhar por cima do ombro, mas estava muito escuro para perceber claramente de quem se tratava.

 

- Quem está aí? – ele perguntou.

 

Em resposta, uma risada que conhecia muito bem soou da escuridão. Àquelas horas a rua já deveria estar iluminada, mas por algum motivo a luz do poste que ficava mais perto não fora acesa na hora de sempre. Ele imediatamente se virou ficando frente a frente com seu cliente mais antigo.

 

- Ah, é o senhor. Perdoe-me, não o reconheci nessa escuridão.

 

O advogado voltou a abrir o escritório. Fez isso com pressa, seu cliente não podia ser visto, ainda mais falando com ele.

 

Quando conseguiu destrancar a porta, entrou na frente acendendo as luzes de modo que o outro homem pudesse caminhar por ali sem empecilhos. Apesar de sempre conversarem no escritório, algumas mudanças tinham sido feitas recentemente e seu cliente não estivera a par das mesmas, embora tivessem sido pagas com o dinheiro que recebera dele pelo serviço mais estranho que já prestara na vida.

 

- Sente-se, por favor. – pediu enquanto apontava para uma cadeira de frente a mesa que ocupava sua secretária. A sala dele ficava trancada quase tão firmemente quanto a porta da frente quando não havia ninguém e ele achava que o assunto que aquele homem viera tratar tornava a entrada em sua sala desnecessária.

 

- Eu vim porque queria saber o que aconteceu. – disse o homem alto ao advogado. Naquele dia parecia ainda mais imponente que de costume com as roupas negras que usava e aquela capa estranha da qual ele gostava tanto.

 

- Correu tudo como o senhor ordenou. Está livre do problema com a próxima lua nova. – respondeu Kanryu com um leve tom interrogativo.

 

- Sim... – concordou o homem pensativamente. – A lua nova será em três dias. Não imagino como minha sobrinha Kaoru vai lidar com isso...

 

- Senhor Seijuurou, não sei o que há de tão terrível com aqueles gatos, mas não acha que sua sobrinha e sua irmã terão problemas?

 

- Eu não sei... – respondeu Hiko sinceramente – Mas agora é problema da minha sobrinha. Se ela quiser ficar com minha casa e meus maravilhosos quadros, terá que se virar com os três pestinhas.

 

Ao ouvir o “maravilhosos quadros”, Kanryu fez uma carranca que Hiko não notou ou fingiu não notar.

 

- Se ela tem o meu sangue – completou Hiko – saberá se defender.

 

Kanryu deu de ombros. Não adiantava discutir com aquele homem. Só não entendia o porquê dele ter armado todo aquele teatro só para entregar três gatos que ficavam um pouco mais agitados com as mudanças de fase da lua. Aquilo tudo era muito estranho, mas Hiko pagava muito bem e ele estava no negócio a tempo suficiente para aprender que quando havia muito dinheiro envolvido, não era inteligente fazer perguntas.

 

- O senhor precisa de ajuda para sair da cidade? – perguntou tentando finalizar aquele encontro de uma vez por todas e assim poder ir para casa.

 

- Não se preocupe com isso, eu posso me virar muito bem.

 

Hiko disse isso e foi embora sem dizer mais nada. Nenhuma pista do que faria, nenhuma palavra de agradecimento, nenhuma explicação para suas estranhas atitudes... Kanryu não se importou. Pegou as chaves da porta e começou a fechar tudo mais uma vez. Certamente Seijuurou Hiko voltaria a contatá-lo, mas não naquela noite.

 

Uma vez trancado o último cadeado, guardou as chaves no bolso e desapareceu pela escuridão da noite.

 

 

 

CONTINUA

 

 

 

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