O dia na escola passou de arrastando. Kaoru desejava ardentemente conversar com os amigos, Misao e Aoshi, mas na aula de história de Saitou era impossível. Naquele momento o professor alto, magro e de expressão intimidadora falava incessantemente sobre o, segundo ele, maravilhoso pelotão do Shisengumi. Relatava as lutas na época do Bakumatsu com riqueza de detalhes e com a voz cheia de paixão. Kaoru não podia deixar de se perguntar se as paredes da casa de Saitou não seriam cobertas por pôsteres de suas adoradas figuras históricas.
O sino que anunciava o intervalo para o almoço tocou como uma bênção. Imediatamente, Kaoru, Aoshi e Misao correram para o pátio e ocuparam sua habitual mesa que ficava discretamente afastada do espaço que a maioria dos alunos costumava ocupar.
- Adivinhem. – disse Kaoru em tom enigmático.
- Você finalmente convenceu sua mãe a deixá-la largar a escola? – perguntou Misao abafando um risinho.
Kaoru ignorou o comentário.
- Aoshi?
- Não faço idéia. – ele respondeu e começou a mordiscar um enorme sanduíche de frango frito e verduras que tinha uma aparência um tanto suspeita.
Como sempre, Aoshi Shinomori, conhecido como um maluco arruaceiro e último garoto com quem sua mãe aprovaria vê-la conversando, preferia ouvir suas novas sem dar palpite.
- Meu tio Hiko morreu. – ela explicou.
Misao e Aoshi a fitaram compadecidos e estavam prestes a falar alguma coisa quando ela continuou:
- E me deixou uma herança!
Imediatamente os dois rostos sofreram uma transformação. Misao deixou escapar um gritinho radiante enquanto Aoshi abriu os olhos ainda mais, interrogativamente.
- Kaoru!!! – gritou Misao. – Isso quer dizer que você ficou rica??
- Não é nada disso. Eu não faço a menor idéia do que ele me deixou. – explicou Kaoru enquanto abria o embrulho do almoço que a mãe lhe preparara.
- Então pode ser qualquer coisa! – continuou Misao esquecendo totalmente que para que Kaoru estivesse para receber uma herança, o tio dela tivera que morrer. – Imagine só, se você conseguir muito dinheiro será finalmente notada pelos babacas classe alta do colégio.
- Misao! – gritou Kaoru zangada. – Eu não me importo nem um pouco com isso.
-Sei... – a menina deu uma risadinha zombeteira. – Nem mesmo se um certo rapaz alto de cabelo esquisito descobrir que você existe?
Com este comentário, Kaoru adquiriu uma cor vermelho vivo. Misao sorriu triunfante enquanto Aoshi limitou-se a continuar observando em silêncio.
Do outro lado do pátio estava o rapaz em questão conversando com a popular Megumi Takani. Kaoru, entre quase todas as garotas da escola, o achava o máximo. Aquele físico perfeito, aquela aparência rebelde, aquele sorriso sempre despreocupado. Assim, observado de longe, Enishi Yukishiro parecia ainda mais bonito.
- Você acha? – perguntou Kaoru sem perder a coloração avermelhada que se apossara de seu rosto.
- Claro que sim!! – respondeu Misao muito animada.
Era incrível como Misao parecia estar sempre feliz. Até mesmo depois que confessara seus sentimentos a Aoshi e ele lhe dissera que não sentia o mesmo, ela não deixara um só minuto de sorrir. Às vezes Kaoru desejava ser um pouco mais parecida com Makimashi Misao. Ela sabia que se um dia confessasse a Enishi tudo o que sentia e ele a ignorasse como mais uma das suas fãs, o que ela tinha quase certeza de que ele faria, o mundo dela ia desmoronar, ela achava que se esconderia embaixo de sua cama e nunca mais teria coragem de sair.
- Vocês duas estão se animando demais. – disse Aoshi inexpresivamente. – Talvez não seja nada de valor material.
- Ah, como você é chato, Aoshi. – reclamou Misao com um beicinho. – Eu estou cheia de esperanças e tentando animar Kaoru-chan, portanto você ajuda mais se ficar em silêncio.
Aoshi deu de ombros e voltou ao sanduíche que já estava quase acabando. Kaoru olhou para ambos perplexa. Dois meses antes Misao mataria por uma palavra de Aoshi que de maneira alguma teria feito aquele comentário. As coisas estavam mesmo mudando.
Nesse instante, a campainha anunciando o reinicio das aulas tocou.
- Essa não... – lamentou Kaoru olhando para o almoço intocado. – Eu nem tive tempo de comer nada...
Agora não havia mais tempo. Os três se levantaram e saíram juntos, rumo a sala de aula.
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O dia seguinte amanheceu chuvoso, parecendo combinar perfeitamente com o estado de espírito de Kamiya Keiko. A mãe de Kaoru colocou a pouca bagagem no carro automaticamente com a mesma expressão dolorosa que tinha no rosto ao receber a notícia no dia anterior. A filha já tinha perguntado incontáveis vezes se ela estava se sentindo bem e a resposta era sempre a mesma: um sim em voz baixa e um sorrido desanimado.
As duas entraram no carro e Kaoru acomodou-se no banco de trás observando as ruas que passavam enquanto ouvia um K7 de rock (que emprestara de Misao fazia meses e nunca se lembrava de devolver) em um walk man já muito velho, mas que ainda funcionava razoavelmente bem.
Apesar da música alta em seus ouvidos, sua mente estava no presente que receberia de Hiko. Na noite anterior, queimara os neurônios pensando no que poderia ser, mas nem uma idéia agradável lhe surgia. Só conseguia lembrar-se dos quadros e das garrafas de sake de todos os tipos que havia no sótão da casa do tio. Ela só esperava que ele não tivesse lhe pregado nenhuma peça póstuma. Podia até visualizar-se recebendo toda aquela tralha sob o olhar do espírito muito sorridente de Seijuurou Hiko.
Logo o K7 acabou e ela não teve vontade de procurar por outro. Olhou para a mãe que dirigia em silêncio sem tirar os olhos da estrada. Nunca pensara que ela podia sofrer tanto pelo irmão que não via havia cinco anos, desde que se mudaram definitivamente para Tokyo. Pensou em tentar iniciar uma conversa, mas mudou de idéia, talvez Keiko apenas quisesse ficar sozinha com seus pensamentos.
A cidade estava ficando para trás. Àquelas horas Aoshi e Misao deviam estar na sala de aula, era muito cedo para já terem aprontado alguma coisa e estarem na detenção. Kaoru encostou-se no banco com um sorriso no rosto lembrando-se das provas que ficaram para trás. Não demorou muito, dormiu.
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- Nós já chegamos, Kaoru.
A jovem acordou com a voz da mãe que a chamava com uma certa urgência. Parecia que tinha dormido por muitas horas. Ela afastou o walk man cujos fones ainda pendiam sobre seu pescoço e se levantou para olhar pela janela.
- A casa do tio Hiko...
Era o mesmo lugar do qual ela se lembrava. A casa branca, velha e mal cuidada, cujas paredes gritavam por uma nova pintura. Na frente havia um detalhe diferente: uma pequena plantação de nabos da qual ela não se lembrava. Desde quando o tio se interessava por horticultura? Bom, agora ela não saberia.
- Kaoru...
A mãe parecia apressada. Kaoru desceu do carro deixando a bagagem onde estava. Seguiu com Keiko até a porta da frente, não estava trancada. As duas entraram devagar acendendo as luzes por onde passavam. Apesar de ainda ser dia, com todas as janelas fechadas, o ambiente se encontrava muito escuro. O interior da casa também não tinha sofrido grandes mudanças, a não ser pelos móveis estarem cobertos por lençóis brancos e os quadros de Hiko terem sido retirados.
- Menos mal... – Kaoru pensou em voz alta.
Keiko lançou-lhe um olhar interrogativo que ela ignorou. Continuou a observar a casa até que chegaram ao escritório, o único cômodo onde os móveis não tinham sido cobertos e que mantinha os objetos de decoração. O advogado de Hiko, Kanryu Takeda, ocupava a mesa enorme de madeira que, junto com uma estante cheia de objetos pequenos, esculpidos na madeira, e duas cadeiras de modelos diferentes, consistia em toda a mobília no lugar. Quando viu o quadro na parede, por trás a mesa, Kaoru sufocou um grito de surpresa. Era um horrível auto-retrato pintado por Hiko. Nele o tio aparecia sentado em uma postura autoritária. Apenas pelos cabelos compridos e pela capa que costumava usar nos dias frios se percebia que era ele, pois o rosto fora retratado de forma disforme e irreconhecível.
O advogado fez um gesto para que se sentassem. Elas obedeceram. Keiko ainda parecia triste, mas agora tinha um ar menos melancólico.
- Senhora Kamiya, como eu disse ao telefone, as chamei aqui porque o falecido Hiko Seijuurou deixou uma coisa para sua filha.
Keiko concordou com um aceno de cabeça e Kaoru fitou o advogado com expectativa.
- Como vocês sabem – continuou o advogado – Hiko não era um homem de muitos pertences. Ele possuía apenas essa casa, o dinheiro que ganhava em sua aposentadoria como soldado, que não era muito e costumava ser gasto quase todo com bebida, e uns poucos objetos pessoais, incluindo os móveis e alguns quadros...
Kanryu pigarreou e por sua expressão Kaoru pode perceber que ele apreciava tanto a arte de seu tio quanto ela própria.
- Por favor, senhor Takeda – pediu Keiko – eu peço que sejamos breves. Quero fazer uma visita ao túmulo de meu irmão ainda hoje e amanhã bem cedo voltaremos para casa.
Keiko não parecia satisfeita em permanecer muito tempo por ali. Assim era ela. Apesar do que estivesse sentindo, ia querer resolver aquilo tudo o mais rápido possível e continuar a vida de onde parou. Kaoru reprovara isso na ocasião da morte de seu pai, mas naquele caso sentia-se grata. Ela também não morria de amores pela idéia de passar um fim de semana naquela casa.
- Muito bem. – o advogado tirou alguns papeis de dentro da gaveta e os passou a Keiko. – Seu irmão deixou essa casa com tudo o que há nela para sua filha Kaoru. Os móveis, os objetos de decoração, até mesmo um pouco de dinheiro. Pertences que ela receberá na condição de tomar conta do que ele se referia como seu único bem de valor.
Kaoru e Keiko olharam uma para a outra sem entender. Kanryu percebeu a confusão das duas e sorriu. Em seguida contornou a mesa se dirigindo a porta.
- Venham comigo e verão por si mesmas. – disse antes de sair.
Ele as conduziu até um quarto nos fundos. O lugar tinha uma janela muito grande que estava aberta deixando a luz do sol entrar abundantemente. Não havia móveis ali. Apenas uma cesta grande onde dormiam de costas uns para os outros três pequenos gatinhos.
Kaoru piscou duas vezes. Depois continuou piscando sem dizer uma palavra. Keiko, a seu lado, parecia igualmente surpresa. Hiko nunca fora um amante de animais domésticos e nenhuma das duas nunca ouvira falar que ele gostasse de gatos. De onde podiam ter saído àquelas três pequenas criaturas?
- São eles. – disse o advogado com um meio sorriso. – A senhorita Kaoru Kamiya precisa tomar conta dos três para receber os outros bens de seu tio.
Keiko sorriu e se aproximou da cesta observando os três animaizinhos. Kaoru continuou de pé no mesmo lugar. Acabar tendo que tomar conta de três gatos não era como ela imaginara que ia acabar aquela viagem. A casa, os pertences de seu tio... não havia nada que realmente valesse a pena. Já podia até ver os rostos debochados de Misao e Aoshi quando ela dissesse o que foi que recebera.
- Muito bem... – disse Keiko e Kaoru podia jurar que ela recusaria levar os três filhotes para casa.
A mãe nunca fora muito fã de bichos de estimação. Quando pequena ela implorara muitas vezes para terem um cachorro, mas Keiko nunca permitira. Não tinha dúvidas que acabariam saindo dali de mãos vazias, o que no momento não lhe parecia tão ruim. Mas para sua surpresa, Keiko disse:
- Se é a última vontade de meu irmão, com certeza Kaoru tomará conta deles.
Kanryu abriu a boca para dizer alguma coisa, mas a jovem o interrompeu.
- Eu quem deveria dizer se quero ou não cuidar desses animais, não a senhora. – ela reclamou quase elevando a voz. – Não me importo com essa herança. Uma casa caindo aos pedaços, móveis velhos e aqueles quadros horríveis? Não me importo de ficar sem isso!
- Kaoru! – Keiko repreendeu. – Não se trata da herança! Lembre-se que essa foi a última vontade do seu tio, ele devia gostar muito desses gatos.
Kaoru cruzou os braços zangada. Se a mãe queria tanto que ela aceitasse aqueles animais, ótimo, ela aceitaria, mas não seria ela a pagea-los, isso nunca. De qualquer maneira, procurando não discutir na frente do advogado, ela caminhou até a cesta para observar melhor os três gatinhos.
- Eles têm nome, pelo menos? – perguntou olhando para Kanryu.
- Não sei... – ele respondeu. – Acho que não. Seu tio costumava referir-se a eles apenas como “aqueles animais”.
- Sim... – disse Kaoru debochada para a mãe – Ele devia gostar muito desses gatos, não?
Keiko lançou a ela um olhar reprovador que ela fingiu não ver desviando a atenção para os filhotes. Um deles tinha o pelo vermelho e liso e os olhinhos violeta. Ele abriu a boca em um bocejo e olhou para Kaoru miando feliz. Ela o segurou próximo ao rosto analisando-o bem. O pequeno animal deveria gostar de brigar, em seu rosto havia uma cicatriz pequena, em forma de cruz, quase imperceptível em meio ao pelo e por baixo dos bigodes. Os outros dois gatos, ao ouvirem o miado do companheiro, também despertaram. Um deles tinha o pelo marrom muito arrepiado. Kaoru pensou que ele mais parecia um galo que um gatinho. O terceiro já pulara da cesta e ronronava enquanto acariciava com a cabeça as pernas de Keiko. Tinha o pelo azulado e olhando para ele, a impressão que se tinha é que estava sorrindo.
- Eles são uns amores! – disse Keiko acariciando o gato azulado.
Kaoru devolveu o filhote avermelhado a cesta e cruzou os braços mais uma vez. Não conseguia imaginar o tio cuidando de três animais de estimação. Primeiro uma plantação de nabos, agora gatos? Hiko enlouquecera em seus últimos anos de vida? Aquilo de maneira alguma era de seu feitio.
- Mas que cabeça a minha! – disse o advogado de repente. – Me esperem um pouco, sim?
Ele desapareceu pela porta apressadamente e voltou instantes depois carregando um embrulho.
- Isso aqui é para você. – disse estendendo o embrulho quadrado para Kaoru.
Ora, ora, as coisas estavam melhorando. Quem sabe finalmente tivesse ganhado algo que lhe servisse de alguma coisa. Ela abriu o embrulho rapidamente.
- Um livro! – exclamou decepcionada.
- Sim. – disse Kanryu. – Seu tio mandou que entregasse junto com os gatos. Bom, se não se importa, senhora Kamiya, pode vir comigo acertar os últimos tramites para o recebimento da herança?
- Claro! – Keiko sorriu. – Kaoru, fique aí. Quando eu voltar nós tiraremos nossas coisas do carro e nos acomodaremos antes de visitar o túmulo de seu tio.
Kaoru não respondeu. Sentou-se no chão sem prestar atenção aos gatos. O marrom voltara a dormir, o avermelhando estava sentado olhando para ela e o azulado acariciava seus pés. Ela pegou o livro que Hiko lhe deixara e começou a examiná-lo. Não tinha nenhum título, só uma capa preta bastante gasta. O livro parecia ser tão velho quanto o resto dos pertences de seu tio. Sem nada melhor para fazer, ela abriu o livro em uma página qualquer e começou a ler.
CONTINUA