“Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!!!!!!!”
Kaoru Kamiya sentou-se na cama com os olhos ainda fechados. Tateou na mesinha de cabeceira em busca do despertador, mas não encontrou nada além do suporte quebrado do abajur – que ela mesma tinha quebrado ao realizar o mesmo ritual na manhã anterior – e da caixa onde guardava um par de óculos muito velhos que somente usava para ler tarde da noite.
O despertador continuou fazendo aquele ruído irritante e ela finalmente abriu os olhos. Lembrou-se que sua mãe o colocara na penteadeira do outro lado do quarto a fim de que pela manhã ela não pudesse simplesmente desligá-lo e voltar a dormir. Agora teria que se levantar se quisesse que o barulho parasse. De qualquer maneira já passavam dois minutos das sete horas e o melhor era vestir-se depressa e correr para a escola, onde lhe esperavam aulas tediosas e alunos irritantes prontos a aborrecê-la. Seu consolo era que passados mais alguns dias ela estaria livre das aulas para sempre. Depois da formatura pensaria no que fazer; talvez pudesse finalmente dedicar-se a passar adiante o Kamiya Kasshin Ryuu, estilo de espada de sua família.
- Kaoru, é bom que esteja de pé!
Gritou a mãe dela do andar de baixo. Em seguida, um grande ruído de peças de alumínio caindo no chão foi ouvido. Era assim todas as manhãs desde que Kaoru se lembrava. A mãe acordava mais tarde do que deveria e acabava provocando uma verdadeira guerra na cozinha tentando apressar-se com o café da manhã. Quando descesse certamente encontraria torradas e ovos mexidos esperando por ela em meio de uma bagunça comparável a um verdadeiro campo de batalha.
Kaoru vestiu o uniforme do colégio depressa. Era uma roupa bonita, branca com detalhes azuis, semelhante a um uniforme de marinheiro. Ela odiava. Todas as manhãs ao vestir-se daquela maneira só conseguia pensar em quão terrível seria seu dia. Sempre fora o alvo preferido das brincadeiras de mau gosto dos colegas, não era nada popular e seus únicos amigos eram o arruaceiro Aoshi Shinomori e a rainha da sala de detenção, Makimashi Misao. Juntos eles faziam o grupo dos excluídos.
- Você vai se atrasar! – a voz da mãe novamente.
Como se ela se importasse. Quanto mais tempo passasse longe daquele lugar, menos aborrecimento teria, todavia não era uma boa idéia contrariar Kamiya Keiko. A mãe conseguia ficar assustadora quando estava zangada.
Sem mais demora, ela pegou a mochila jogada de qualquer maneira no chão ao lado da cama e desceu para a cozinha. Como pensara, o café da manhã, torradas e ovos mexidos, já esperava por ela. Na pia, uma montanha de panelas e pratos sujos aguardavam para ser lavados.
- Eu deixei cair algumas coisas. – explicou Keiko. – Não se preocupe, deixarei tudo brilhando quando chegarmos no final da tarde.
Kaoru limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente. Não adiantava discutir sobre aquilo, sua mãe nunca ia mudar. Ela olhou para o prato e começou a brincar com a comida sem muito interesse. Não estava com fome; não quando passaria um dia inteiro suportando o professor Hajime Saitou e seus longos e tediosos seminários sobre a era Meiji. Ele era tão detalhista que até parecia que estivera lá.
“Triiiiiiiiiiiiiim!”
O telefone. Tinha a mesma campainha insuportável do despertador, mas felizmente mais baixa.
- Coma tudo. – disse Keiko apontando para o café da manhã intocado da filha. Em seguida se dirigiu para a sala onde o aparelho do telefone repousava em uma estante de madeira muito antiga.
Kaoru não tomou o café. Ficou com os ouvidos apurados em direção a sala para ouvir quem estaria ligando tão cedo da manhã. A mãe dela apenas dava uma ou outra resposta monossilábica para fosse lá quem estivesse na linha. Alguma coisa séria tinha acontecido.
Quando voltou, Keiko olhou para Kaoru com uma expressão de pura infelicidade.
- Mamãe?
A mulher de cabelos escuros e olhos castanhos parecia ter envelhecido dez anos naqueles dez passos até o telefone.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou Kaoru cada vez mais preocupada. Não via aquela expressão no rosto da mãe desde que seu pai morrera três anos antes.
- Você se lembra de Seijuurou Hiko? – Keiko perguntou. – Seijuurou Hiko, seu tio, meu irmão...
Kaoru não precisou de tempo para se lembrar. Seijuurou Hiko fora a figura mais aterrorizante da sua infância. Ele adorava contar histórias horríveis sobre as coisas que vira enquanto estivera na guerra, sempre salientando o quanto fora corajoso em situações extremas e como torturava cruelmente os malditos que ousavam desafiar a sua força, sem falar que estava constantemente bêbado. Foram muitas tardes que passara com o tio enquanto seus pais trabalhavam e ela não tinha com quem ficar. As únicas tardes em sua vida que desejara fervorosamente estar na escola.
- E-Ele vem nos visitar...?? – perguntou Kaoru sem conseguir pensar em algo pior.
- Ele morreu. – disse Keiko tentando parecer o mais tranqüila possível. Ela sempre evitara passar muito tempo com o irmão, mas agora que ele tinha morrido sentia-se realmente mal por causa disso.
A jovem recebeu a notícia perplexa. Seijuurou Hiko, morto??? Aquilo parecia impossível. Se havia alguém no mundo que podia seu imortal, este era seu tio Hiko. Aquela era a última coisa que Kaoru esperara ouvir e não sabia como reagir. Mas uma coisa era certa: não há bem nem mal que cem anos dure, e isso devia se aplicar a homens grandes e esquisitos também.
- O que aconteceu? – ela perguntou – Como ele morreu?
- Foi um problema no fígado. – respondeu a mãe dela. – Você sabe que seu tio Hiko bebia muito... Kaoru, amanhã nós vamos a Kyoto. O enterro já aconteceu, mas eu quero prestar minha última homenagem ao meu irmão. Além disso, o advogado dele deseja falar com você.
- Advogado... falar comigo??
- Sim, parece que Hiko deixou uma coisa para você. O advogado não me disse o que era.
Aquilo surpreendeu Kaoru ainda mais. Se não bastasse Hiko ter morrido repentinamente, tinha deixado alguma coisa para ela?? Nunca pensara que o tio pudesse lembrar dela em vida, quanto mais em morte. Ela sempre achara que era um estorvo para ele. Um problema com o qual ele tentava se divertir. Mas o que Hiko poderia ter lhe deixado? Ele nunca fora um homem de muitas posses. Seu maior tesouro eram alguns quadros horríveis que ele mesmo pintara e pendurara na sala para que todos vissem. Pensando bem, eles ficariam perfeitos nas paredes do porão.
Subitamente uma certeza lhe assaltou.
- Isso quer dizer que amanhã não preciso ir ao colégio? – perguntou desinteressadamente.
- Não. – Keiko respondeu. – Amanhã é sexta feira. Acho que não tem problema se você faltar. Mas é bom que não fique feliz com isso. Lembre-se que é da morte de seu tio que estamos falando.
Kaoru saltou da cadeira sufocando um gritinho de triunfo. Parece que seu tio Hiko lhe fizera um grande favor. Ela pegou a mochila e o embrulho do almoço e correu até a porta.
- Já vou!
- Espere, Kaoru! Não tomou o seu café!
- Não estou com fome!
- Você não tem provas amanhã não é? – perguntou Keiko a filha que já cruzava a porta da rua.
- Não, mamãe. Não precisa se preocupar. – gritou de volta antes de sair.
Uma mentirinha inocente. Tinha quatro provas no dia seguinte.
CONTINUA