Kamiya Keiko saiu de casa bem cedo, antes mesmo que os raios se sol atingissem o jardim dos fundos, próximo ao dojo. Deu uma olhada no quarto de Kaoru que ainda dormia profundamente e desceu para a cozinha. Tomou um copo de leite gelado, rabiscou um bilhete avisando que voltaria na hora do almoço e saiu pegando a pasta com os papéis de trabalho em cima da mesa no caminho, em um gesto rápido, quase automático.
A mulher de meia idade andou firmemente até a porta e manteve a postura enquanto atravessava o jardim. Os ombros largos para trás, as costas eretas sob o sobretudo escuro em uma pose de rainha. Foi quando chegou ao portão que ela começou a hesitar. A mão que segurava a pasta caiu para o lado, quase derrubando o objeto. Ela olhou para cima, para a janela do quarto da filha e uma terrível sensação de tristeza apossou-se de seu peito. Lembrou-se da noite anterior com um misto de infelicidade e resignação. O que fazia com que se sentisse tão mal não era o fato de saber que Kaoru tinha razão, mas a de que estava fugindo da conversa que esclareceria tudo. Ela não tinha coragem de encarar a própria filha... Assim como não tivera de encarar o marido e arrumar as suas vidas até que fosse tarde demais.
É tudo minha culpa... O ponto em que chegou essa situação é minha culpa...
Sem prestar muita atenção para onde estava indo, Keiko atravessou a rua onde morava e subiu pela ladeira que levava ao centro. Ainda era muito cedo para ir ao trabalho e ela queria aproveitar o clima agradável da manhã para caminhar. Andar pela cidade sempre a ajudara a pensar melhor, ainda mais pelo bairro em que vivia. Tinha muita sorte de morar em um locar tão tranqüilo da cidade. Ali podia gozar de alguma segurança e ainda observar a bonita vista da rua cercada por árvores e do parque que se enchia de cores na primavera, quando as cerejeiras começavam a florir e o vento a espalhar suas pétalas pelas redondezas.
Perdida em seus pensamentos, não percebeu que a casa, o parque, o bairro, os lugares que costumava percorrer, iam ficando para trás, cada vez mais distantes. Quando deu por si, já estava próxima ao centro comercial. Àquela hora não havia tanta gente quanto costumava circular por ali, mas à medida que a manhã avançasse, elas sem dúvida começariam a chegar.
A princípio apenas caminhou pala frente das vitrines que começavam a ser arrumadas por uma ou duas funcionárias sonolentas, conversando sobre assuntos triviais, ainda sem os sorrisos falsos com os quais receberiam os primeiros clientes do dia. À medida que foi ficando mais tarde, ela começou a se dar conta de que apesar de estar mais tranqüila, não tinha pensado no que fazer quando encontrasse Kaoru na hora do almoço e resolveu que precisava parar em algum lugar para ordenar as idéias. Era assim que sempre terminavam as caminhadas de Kamiya Keiko, em um café ou lanchonete qualquer. Justo ela que reclamava tanto à filha para não comer qualquer coisa por aí...
Todos os estabelecimentos que vendiam comida estavam cheios àquela hora. A maioria dos funcionários do comércio e fábricas mais centrais parecia preferir tomar o café barato das muitas lanchonetes do centro comercial a faze-lo em suas casas. Keiko teve que andar quase dois quarteirões antes de encontrar um lugar com uma mesa livre. Era um bonito café em um pequeno shopping com vista para uma praça. Ela se sentou escolhendo um lugar de onde pudesse apreciar a visão das as árvores, no meio das quais crianças corriam de um lado a outro, rindo e se divertindo. Um garçom não demorou a se aproximar com o cardápio. A jovem mulher sequer olhou para quaisquer dos dois, pediu chá e um pedaço de bolo e continuou a fitar, hipnotizada, aquelas crianças do outro lado da rua. Já fazia tanto tempo desde que Kaoru fora uma criança como aquelas... Ela lembrava-se de ter desejado que a filha crescesse logo, achando que assim ela se tornaria mais fácil de manejar... Como estivera enganada. Fora muito feliz e não percebera até ser tarde. Mas quem haveria de culpa-la? Não é normal no ser humano nunca estar completamente satisfeito com o que tem e só perceber a felicidade depois que ela passa?
O pedido não demorou a chegar. O café estava fraco e o bolo um tanto quanto sem sabor, mas Keiko não se importou. Comeu devagar, pensando no passado, talvez como uma forma de evitar pensar no futuro. Depois, quando sentada na mesa de escritório do trabalho, pensasse sobre esse momento, não saberia dizer o que exatamente a impulsionou a olhar para o lado quando todas as suas atenções estavam concentradas em uma direção completamente distinta, mas o fato foi que ela o fez. Sentado na mesa ao lado, com o rosto escondido atrás das páginas de um jornal, beliscando um pedido semelhante ao dela, um homem muito alto, vestindo um sobretudo preto que parecia quentíssimo apesar do clima agradável daquela manhã, tomava seu café. Dava para perceber pelo físico bastante evidente que praticava algum esporte ou freqüentava uma academia. Os cabelos estavam escondidos dentro de um chapéu de caçador e podia-se notar que usava óculos de sol. De qualquer maneira aquele físico não podia pertencer a um homem velho e isso não havia como camuflar.
Mas o que chamou a atenção não foi à roupa de frio em um dia quente, o modo nada sutil como estava disfarçado, tampouco o porte incomum. O que muito a impressionou foi a incrível semelhança que o estranho tinha com seu recém falecido irmão. Os mesmos ombros largos, curvados em uma postura bastante descuidada sobre a mesa, o mesmo jeito de ler o jornal, enterrando a face contra ele como se não estivesse enxergando as letras direito – e talvez não as enxergasse, Hiko nunca admitiria estar precisando de óculos –, a mesma maneira de segurar a xícara, pegando no fundo da peça com a mão em concha, ao invés de segura-la pela asa, como qualquer pessoa faria... Ela teve que se valer de todas as suas forças para não se levantar e ir averiguar com seus próprios olhos que Hiko Seijuurou não estava ali, na mesa vizinha a dela, tão vivo como em suas lembranças.
O que aconteceu depois se passou tão rápido que ela nem mesmo conseguiu assimilar até que tudo acabasse. Um garçom descuidado tropeçou derrubando um prato de macarrão ao molho em cima de uma mulher. A mesma começou a gritar com o pobre empregado da lanchonete como se tivesse acontecido alguma tragédia. Soltava toda sorte de insultos aos gritos chamando muita atenção tanto dos outros clientes, quanto de pessoas que passavam pela calçada. Keiko não pode deixar de desviar a atenção para a cena. Quando entendeu que tudo não passava de uma bobagem e voltou-se novamente para a mesa ocupada pelo estranho tão parecido com o seu irmão, este já tinha desaparecido, deixando apenas a xícara vazia e o prato cheio de migalhas em cima da seção de finanças do jornal. A mulher suspirou decepcionada. Nem ao menos tinha tido tempo de dar uma boa olhada no rosto dele...
Ela deixou uma nota sobre a mesa e já ia embora com a intenção de seguir direto para o trabalho, antes que a ilusão de ter saído mais cedo que de costume a fizesse se atrasar, quando um papel trazido pelo vento enganchou-se em seu sapato, chamando-lhe a atenção. O primeiro impulso de Keiko foi afasta-lo com o outro pé e deixar que o vento continuasse brincando com ele, mas acabou mudando de idéia e, em um impulso, o pegou. Qual foi a surpresa que teve ao deparar-se com o nome escrito em letras de forma, com uma tinta vermelho vivo, de modo a destaca-lo das outras informações no pequeno cartão. Aquelas duas palavras eram no mínimo desconcertantes. O que os olhos de Kamiya Keiko registravam agora, que seria motivo do esquecimento de todos os seus problemas para dar lugar a uma inquietação bem pior era apenas um nome comum: KANRYUU TAKEDA.
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O dia estava escuro. Nuvens de chuva cobriam o céu do reino parecendo posicionar-se propositadamente de maneira a completar o espetáculo de terror que se desenrolava na terra. O ar estava imerso em uma nuvem de poeira, irritando os olhos dos poucos homens que ainda continuavam de pé sobre o cenário e impregnando-lhes as narinas com um odor insalubre de terra, fumaça e sangue terrivelmente combinados. A fragrância da guerra.
A primeira coisa que ele percebeu ao avançar na direção contrária a que todos corriam foi que o barulho de espadas estalando uma contra outra havia acabado. Aquilo era bom. Nada de disputas indesejáveis pelo caminho para atrapalhar no que ele tinha que fazer.
- Vocês continuam aí? – ele perguntou em um tom de voz apenas alto o suficiente para que seus dois companheiros o ouvissem. Apesar de ter um ótimo senso de direção, tinha um certo receio de que se olhasse para trás, se perderia naquela névoa macabra e não conseguiria retomar a direção certa a tempo.
Dois gritos afirmativos foram ouvidos e ele suspirou em alívio. Era um guerreiro poderoso, tanto que era incumbido pelo rei para as missões mais secretas, aquelas as quais sua majestade não podia confiar a mais ninguém, mas ele não se sentia como um. Suas vestes nobres não deixavam dúvidas sobre sua identidade, mas seus olhos sim. Ele tinha os olhos de um menino assustado, andando sem rumo, querendo apenas ser deixado em paz.
- Estamos perto? – ele não soube qual dos companheiros fez a pergunta. Durante a guerra, todas as vozes lhe pareciam iguais, todas querendo a mesma coisa, avançando pela mesma coisa, dever e sobrevivência.
- Faltam só alguns metros! – respondeu no mesmo tom de antes. Não tinha certeza de que era verdade, mas precisava dizer alguma coisa.
Os próximos passos foram dados em silêncio. De vez em quando seus pés batiam em alguma coisa sólida que ele tinha a terrível certeza de saber o que era, mas não ousava olhar. Não podia fraquejar na missão e tinha a impressão de que se visse claramente no que estava pisando, a missão iria para o diabo juntamente com o seu juízo.
A aldeia não demorou a ser alcançada, ou o que restava dela. Tudo que ele podia ver eram cinzas, corpos e sentir aquele odor ainda mais forte. Ele manteve o sangue frio enquanto caminhava e revistava cada ponto daquele lugar. Mais atrás podia ouvir o som dos passos firmes dos outros e o barulho de escombros sendo arrastados de um lado a outro a fim de que nada ficasse sem uma boa revista. Será que eles também sentiam o cheiro da guerra impregnando todo o ar? Ou seria sua imaginação? Talvez a parte dele que sabia que não deveria estar ali estivesse lhe pregando uma peça, tentando afasta-lo para o mais longe possível antes que fosse tarde demais.
Mas ela poderia continuar tentando, porque ele não iria a lugar nenhum. O guerreiro a serviço do rei era mais forte e não o deixaria sair dali até que estivesse acabado. A missão tinha que ser cumprida e tudo o que ele podia fazer era rezar para que estivessem todos mortos pelas mãos dos soldados e não precisasse fazer nada além de procurar.
- Encontrei um! – novamente ele não soube qual deles fez o anúncio, embora, pelo certo desdém com que falava, ele pudesse imaginar quem foi. Não seria daquela vez que o poupariam de ser um monstro mais uma vez. E não havia nada que pudesse fazer a respeito.
As duas espadas que levava na cintura pesaram como se dessem uma risada sarcástica, gritando para que ele esquecesse, lembrando-lhe que por mais que prometesse, nunca poderia fugir. Ele nunca estaria livre delas.
Quase como em transe, ele caminhou em direção a voz. Os pés pareciam mais leves que antes, como se algo o erguesse no ar tirando-lhe a vontade. Logo as silhuetas borradas de seus companheiros tomaram forma e ele pode ver que além deles havia um outro homem, velho e muito magro, ajoelhado a seus pés. Ele tinha os cabelos completamente brancos e os olhos azuis quase violeta. Os olhos extraordinariamente parecidos com os dele mesmo.
- O que tem a dizer? – perguntou ao homem. Ao contrário do que esperava, a voz saiu fria, sem demonstrar nem um resquício da intensa perturbação que sentia.
O homem respondeu cuspindo em seus pés e lançando-lhe um olhar desafiador. Normalmente ele ou um dos outros teria batido no velho depois daquela afronta, mas não fizeram nada disso. Não adiantava. Aquele homem já estava morto e mais uma vez não havia nada a ser feito.
Ainda em transe, o clima tóxico do lugar agindo nele como um anestésico mental, ele tirou uma das espadas da cintura, a mais pesada, e a ergueu sobre a cabeça do velho, atravessando o corpo frágil com um só golpe.
A missão estava cumprida, agora ele era livre para lamentar.
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- Kenshin!
O grito alto em seu ouvido o sobressaltou. Kenshin sentou-se no banco de praça, olhando de um lado para o outro de um jeito engraçado. Kaoru deu risada.
- Kenshin, você estava dormindo em um banco de praça! Eu saí apenas para comprar esses hambúrgueres e te encontro assim... Você está cansado?
Só então ele percebeu os sanduíches nas mãos dela e se lembrou de onde estava. Já fazia um bom tempo desde que saíram do colégio naquela busca infrutífera pelos gatos supostamente perdidos. Se não fosse pela insistência de Aoshi e Misao em acompanha-los, estariam fazendo alguma coisa mais útil, como procurar pistas do mago, por exemplo. Apesar de tudo, eles não podiam ser culpados, uma vez que não sabiam o que estava acontecendo. Uma tarde perdida seria melhor que passar os próximos dias dando explicações no caso de mais alguém descobrir, inclusive Keiko.
Cerca de meia hora antes, o grupo resolveu se dividir e Soujirou e Aoshi foram para o porto enquanto Sano e Misao checavam o centro comercial. Ele ficara sozinho com Kaoru.
- Você não conseguiu dormir muito bem ontem à noite? – ela insistiu.
- Faz muito tempo que não consigo dormir bem. – Kenshin respondeu enquanto examinava atentamente o hambúrguer. Nunca tinha visto nada igual, aquilo era mesmo comida?
Vendo sua expressão desconfiada, Kaoru riu outra vez. Era tão bom vê-la sorrir daquela maneira, parecendo feliz pela primeira vez naquele dia. Antes ela estivera muito preocupada com a discussão que tivera com a mãe e mais tarde com a possibilidade de Misao ou Aoshi desconfiarem do que estava acontecendo para sorrir daquela maneira. Agora mesmo ainda estava preocupada, mas não tanto quanto antes. Soujirou e Sano disfarçaram muito bem e pareciam mais interessados nas coisas surpreendentes que viam a cada passo que davam que em conversar sobre gatos mágicos e magos misteriosos.
- Pode comer, não faz mal. – disse Kaoru mordendo com vontade o embrulho de pão e carne. – É delicioso.
Kenshin não tinha porque duvidar. Deu uma mordida pequena que se seguiu de uma bem maior assim que ele percebeu o quanto ela tinha razão ao elogiar o sabor daquela comida estranha. Parecia com os pratos de carne temperada, consumidos na corte de sua época, só que melhor.
Os dois passaram algum tempo ali parados, apreciando a tranqüilidade até que Kaoru, falando como se tentasse puxar algum assunto, perguntou:
- Você estava sonhando com alguma coisa?
Kenshin estancou, a boca aberta e o pão na metade do caminho, como se de repente tivesse sido atingido por alguma espécie de raio paralisante. Aquele sonho novamente... Era tão injusto que depois de setecentos anos lembranças como aquelas ainda persistissem em sua memória... Ele daria qualquer coisa para poder voltar atrás e fazer tudo diferente, mas isso era impossível. Tinha que se contentar com o presente e sua mais nova tentativa de continuar a vida de onde parou. Bem, não exatamente de onde parou porque ele preferia ser gato para sempre que o Kenshin Himura que um dia encontrou um mago em um castelo e, pensando que tinha ido ali para mata-lo, acabou vítima de um sortilégio.
- Se foi um sonho ruim, você não precisa me contar. – Kaoru pousou a mão tranqüilizadoramente no ombro dele. Ainda estava sorrindo.
Ela ficava tão bonita quando sorria daquela maneira... Jamais conhecera ninguém que o atraísse tanto quanto Kaoru. Ela tinha o dom de com um simples sorriso como aquele faze-lo sentir que não precisava de mais nada no mundo e que tudo ficaria bem.
Será que se ela soubesse o que ele fora no passado ainda o ajudaria como estava fazendo? Será que ela ainda sorriria para ele daquela maneira? Dois dias antes, quando ela os encontrara em casa e os deixara ficar no dojo, ele decidira que nada diria, mas por Sano e Soujirou. Ele mesmo não tinha motivos para continuar vivendo, mas seus amigos tinham. Os dois eram jovens de espírito e cheios de esperanças sobre coisas que fariam quando tivessem novamente a vida toda pela frente. Costumavam falar sobre isso, à noite, durante horas. Kenshin se sentia meio responsável por eles e faria o que estivesse a seu alcance para que tivessem aquela vida que tanto desejavam.
Mas isso foi dois dias antes, duas luas e dois sóis. Muita coisa acontecia dentro do coração de um homem em quarenta e oito horas e o de Kenshin dera um giro de trezentos e sessenta graus. Quanto mais tempo passava na companhia de Kaoru menos conseguia imaginar um futuro sem ela. Eles se conheciam há apenas dois dias, ele entendera que ela era apaixonada por um colega de escola, mas e daí? Talvez ele só tivesse mais cinco dias como homem neste mundo e se pudesse passa-los vendo aquele sorriso poderia dizer que teve uma vida feliz.
- Foi um sonho do passado, sobre coisas que não são importantes agora e eu não quero estragar esse momento me lembrando delas.
Os dois olharam para frente e não disseram mais nada. Kaoru parecera satisfeita com aquela resposta. Quanto a Kenshin, ele sabia que cedo ou tarde ela descobriria sobre quem ele fora, ele mesmo teria que contar a ela. Mas não já, não naquele momento.
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Misao, Aoshi, Sano e Soujirou se encontraram em uma rua próxima ao porto pouco tempo depois de se separarem. Àquelas horas a cidade estava em alvoroço, cheia de pessoas andando para todos os lados, fazendo compras e entregas, correndo contra o tempo para cumprir a lista de afazeres destinados aquele dia, e isso dificultava muito as coisas para eles. Era difícil perguntar por três gatinhos desaparecidos a gente pouco disposta a ajudar, achando que tinham mais o que fazer que responder as perguntas de um bando de garotos vadios que deveriam estar na escola.
Aquela altura do dia, há muito Misao desistira de obter algum sucesso na busca. Estava cansada e faminta. Nenhum deles tinha sugerido uma parada para o almoço e não houve tempo de passar na cantina do colégio antes de saírem de lá. Um pouco frustrada, ela se sentou no banco de uma parada de ônibus e suspirou longamente. Aoshi não demorou a acompanha-la ficando a seu lado. Ela olhou para ele, intrigada. Sua costumeira expressão neutra tinha se convertido em uma preocupada. Ele tinha o cenho franzido e a boca entreaberta enquanto encarava os outros dois com um olhar duro.
- Aoshi? – Misao chamou, confusa. – Tudo bem com você?
- Eu estou ótimo. – ele respondeu sem desviar a atenção de Sano e Soujirou. Os dois estavam parados de pé na calçada, encarando fixamente os objetos na vitrine de uma loja de esportes. – Olha aqueles dois...
Misao seguiu o olhar de Aoshi e não pode deixar de franzir sua própria testa.
- O que eles estão fazendo lá?
- Por acaso não notou nada estranho enquanto estava sozinha com Sanosuke? – perguntou Aoshi.
Ela abriu a boca para perguntar o que ele queria dizer com “algo estranho”, mas acabou fechando-a assim que percebeu exatamente sobre do que se tratava. Durante todo o tempo em que estivera sozinha com Sano, ele não levantou um dedo para ajuda-la a procurar pelos gatos, passou todo o tempo olhando a sua volta como um bobo, como se nunca tivesse visto edifícios, postes, lojas e outras coisas ridiculamente comuns antes. Sim, Aoshi tinha razão, aqueles amigos de Kaoru eram mesmo estranhos.
- Deixa eles... Vai ver vieram de outro país. – ela disse sem muita convicção. Aqueles jovens pareciam tão japoneses quanto eles mesmos. Ela tinha que admitir que só estava tentando desviar a atenção de Aoshi para outras coisas. Sabia que quando ele desconfiava de algo, não descansava até descobrir o que estava errado e não havia motivos para desconfiarem daqueles dois, havia? Isto é, se houvesse alguma coisa a mais, Kaoru teria lhes falado. Mas, depois de tudo, por que era mesmo que Aoshi estava ali com ela?
- Sei... Eles só parecem japoneses e falam o nosso idioma com perfeição por coincidência, não é?
- Aoshi... – Misao não estava disposta a continuar com aquela conversa. – Ao invés de falarmos sobre coisas que não são da nossa conta, você bem que podia me explicar por que insistiu tanto em nos acompanhar. Eu sabia que você era prestativo com os amigos e odiava assistir aulas, mas eu fiquei com a impressão de que não foi só isso.
Ela sorriu interiormente ao terminar de falar e olhou fixo para frente, esperando uma resposta. Ouviu quando a respiração funda de Aoshi tornou-se mais forte, mas nenhuma palavra veio. Quando estava prestes a olhar de lado e insistir, ele respondeu:
- Você não acha realmente que eu teria te deixado sozinha com esses caras, acha? E se eles fossem perigosos? Kaoru não nos disse como os conheceu e...
- Aoshi! – Misao o interrompeu enérgica. – Você nunca se importou com quem eu saio ou deixo de sair, sabe muito bem que sei me defender se for o caso. Você também não parece preocupado em deixar Kaoru sozinha com Kenshin... Agora deixe de enrolar e responda!
- Misao?!
Subitamente, imagens do dia em que Misao expusera seus sentimentos passaram como flashs pela mente de Aoshi. Ele se lembrou do olhar conformado com o qual ela o encarara antes de sair correndo, da maneira como ambos fingiram que nada tinha acontecido depois, embora ele se sentisse destruído por dentro e soubesse que tinha feito o mesmo a ela. Por que ele estava ali? Ele podia admitir a si mesmo que não tinha nada a ver com superproteção de amigo. Ele estava ali porque não gostara do modo como Soujirou olhara Misao e de como ela sorrira para aquele rapaz que acabara de conhecer. Ele estava ali porque apesar de tê-la deixado livre naquele dia, ainda sentia que de alguma maneira ela pertencia somente a ele e por mais que a razão insistisse que aquilo era uma loucura, seu lado rebelde não estava disposto a deixa-la ir tão facilmente.
- Talvez eu não tenha gostado de ver a maneira como aquele cara olhava para você. Posso ter imaginado coisas, mas senti que devia vir junto... para protege-la. Chame de machismo se quiser. – ele riu. – Eu não posso ignorar meus instintos ainda que admita que você pode cuidar de si mesma.
Por um instante Misao pareceu decepcionada. Ele olhou para os carros que passavam, disposto a mudar de assunto, mas não foi o que aconteceu. Ela insistiu mais enérgica do que nunca:
- Eu pensei que você estivesse com ciúmes!
Ótimo, ela tocara no ponto. Ciúmes. Era exatamente esse o motivo, mas ele não estava exatamente disposto a admitir.
- Misao, do que...?
- Você é um rapaz muito estranho Aoshi. Você me diz todas aquelas coisas sobre seus sentimentos, ou a falta deles, por mim, mas agora... Agora me deixa pensar que ainda haja uma esperança. O que você quer de mim? Que eu suplique que reconsidere? Sabe que não vou fazer isso, não é?
Agora ela o encarou com expectativa. Aqueles olhos verdes fixos no azul dos dele como o oceano que em sua placidez é capaz de conter a força de um rio selvagem. Ela arriscou tudo naquelas palavras e fosse lá o que ele desejasse responder seria definitivo.
Ela piscou como se insistisse, mas ele continuou em silêncio, sem desviar dos olhos dela, as palavras “sinto muito” tomando forma em sua boca enquanto sua mente lutava contra o desejo de jogar tudo para o ar e arriscar. Naquele momento ele poderia te-la beijado. Ele tinha a assustadora certeza de que teria feito isso, se não fosse pela voz animada de Soujirou que os interrompeu:
- São tênis! Foi o que disse o homem da loja. É uma loja, não é? O espantoso é que ainda não entendo qual a diferença deles e dos sapatos comuns... Não temos disso na minha terra. As coisas teriam sido mais fáceis por lá se tivéssemos todas essas coisas...
Naquele momento Aoshi não sabia se sorria agradecido ou se o segurava pelo pescoço até que ele deixasse de respirar. Misao sorria com cortesia para as palavras incoerentes de Soujirou lançando um olhar de esgoela como se o avisasse para não esquecer, que ela continuaria esperando uma resposta.
- Talvez devêssemos olhar no porto outra vez... – disse Sanosuke pensativamente. – Ou na praia, se houver uma. Se há um porto deve haver uma praia.
Ele não esperou resposta e começou a caminhar tomando distância. Aoshi e Misao ficaram parados, vendo Soujirou sorrir e acompanha-lo, ambos pensando em uma boa razão para três gatos terem ido parar justamente na praia. Gatos não gostam de água. Por que iriam para perto do mar, em um lugar onde não vivia nenhum ser humano?
- Eles são realmente muito estranhos. – disse Aoshi antes de estender a mão, convidando Misao a seguir na frente.
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Quinze minutos se passaram antes que Kaoru se levantasse e olhasse para Kenshin com impaciência. Os dois tinham ficado ali sentados por muito tempo, apreciando a companhia um do outro sem pronunciar nenhuma palavra. Ela aproveitara aquele momento o máximo que pode, mas seus pensamentos teimavam em desviar-se para Misao e os outros. O que estariam fazendo? Já teriam chegado em casa? E se desistissem de esperar, deixassem Sano e Soujirou sozinhos e acontecesse alguma coisa?
- Kenshin, eu estou preocupada com os outros, acho melhor voltarmos para casa.
O rapaz ruivo assentiu de bom grado. Se dependesse dele os dois não saíram dali tão logo, mas ele sabia que não podia se apegar a uma tranqüilidade imaginária. Existia um mago lá fora, seus dois companheiros e um grande problema quando as duas coisas se combinavam. Ele não podia ignorar a realidade por tanto tempo quanto sua alma cansada desejava.
Kaoru se levantou e Kenshin a acompanhou sem nada dizer. Os dois saíram da praça e seguiram pela calçada na direção de Shitamachi, o bairro onde ela vivia e agora ele também. As ruas por ali eram todas constituídas de conjuntos residenciais e pequenos prédios de apartamentos de não mais que três andares. Era um lugar bem tranqüilo e o silêncio que ali reinava tornava o clima agradável de final de tarde ainda mais evidente. O sol que enfraquecia pouco a pouco, se refletia lindamente nos vidros das janelas ao redor deles e o vento fresco acariciava as folhas das árvores levando-as de um lado a outro em um compasso lento e relaxante. O clima estava perfeito, a companhia estava perfeita e Kenshin não lembrava a última vez que se sentira tão feliz.
- Você está sorrindo. – disse Kaoru.
- Estou feliz. – respondeu Kenshin.
- É a primeira vez que eu te vejo sorrir assim, como se estivesse realmente feliz.
Sim, ela tinha razão. Era a primeira vez que ele sorria porque queria sorrir e não apenas para parecer que estava bem.
- Kenshin, pode me contar como era o lugar onde você vivia na sua época? – ela pediu inocentemente.
O lugar onde ele vivera... O que poderia dizer do palácio real além de que era uma montanha de concreto erguida de modo intimidador no alto de uma colina? Poderia falar do fosso ao redor dele, de onde nenhum homem conseguira sair vivo. Poderia falar da névoa venenosa que rodeava o lugar e pela qual a supersticiosa rainha culpava os camponeses e suas crenças. Para ela todos eles eram bruxos que mereciam morrer. Ele poderia falar das guerras, do cheiro de sangue impregnado no ar e dos gritos soando terrivelmente reais em seus pesadelos. Sim, ele poderia. Mas por que encheria a cabeça de Kaoru com lembranças tão amargas e tristes? Quanto a isso ele tinha duas opções: mentir ou falar da única época de sua vida que recordava com afeto, de quando ainda era jovem, inocente e feliz.
- Eu nasci e cresci em uma casa simples em uma aldeia. Meus pais eram camponeses e eu tinha muitos irmãos, uma porção deles. Lembro de minha irmã mais velha, ela tinha os cabelos ruivos como os meus. Ela cuidava de mim enquanto minha mãe se preocupava com afazeres domésticos.
- Isso é maravilhoso! Digo, você se lembrar de sua família.
- Sim. Eu lembro bem do rosto do meu pai. Ele me levava nos ombros pela aldeia todas as semanas quando ia comprar o arroz. Nós conversávamos e ríamos... Éramos felizes como qualquer família. – ele disse com carinho.
- O que aconteceu com eles? – Kaoru perguntou, mas ao ver a expressão desolada de Kenshin, arrependeu-se imediatamente. – Desculpe, eu não queria...
- Eles morreram na guerra, todos eles. Eu fui criado por um homem que me ensinou a lutar e graças a ele sobrevivi muitos anos difíceis.
- Sinto muito...
Kaoru baixou a cabeça francamente arrependida. Kenshin não disse mais nada. Os dois continuaram andando em silêncio, novamente mais cientes do tempo que de si mesmos. Não faltavam muitas quadras para entrarem em Shitamachi e logo eles estariam em casa. Chegando lá, Kaoru teria que enfrentar seus problemas com a mãe dela enquanto ele voltaria ao dojo e a seus companheiros. Aqueles eram os últimos momentos que passariam juntos naquele dia, mas ele pensaria nela como pensara durante toda a noite anterior. Um pouco mais esta noite, ele desconfiava, e com certeza com mais sentimento.
- O que vamos fazer amanhã? – Kenshin perguntou na tentativa de iniciar uma conversa.
Quando Kaoru não respondeu, ele parou e olhou para trás, só então percebendo que ela tinha interrompido a caminhada alguns metros antes e olhava fixamente para dentro de uma casa. Imediatamente ele voltou se colocando ao lado dela.
- Senhorita Kaoru, aconteceu alguma co...?
Ele não pode completar a frase. Kaoru o ignorou e entrou pela porta que tanto observava. Não era uma casa, mas uma loja de antiguidades. Um lugar muito luxuoso pelo que se podia perceber. A frente da construção era de arquitetura moderna, embora seu interior desmentisse essa impressão. O principal atrativo era a vitrine ricamente decorada com relógios antigos e quadros retratando casas de campo cercadas por lagos e florestas. Kenshin não perdeu tempo apreciando as telas, correu para dentro a procura de Kaoru.
- Senhorita Kaoru?
Ele percorreu os primeiros metros no que parecia uma seção de móveis até juntar-se a ela. Kaoru estava quase agachada por trás de uma estante cheia de livros, observando por meio de uma fresta a sala adjacente onde dois homens conversavam com discrição.
- Você não vem aqui faz tempo. – disse o mais velho. Era baixo e tinha os cabelos completamente brancos. Estava sentado em um banquinho e parecia muito incomodado com isso, o que se tornava visível pelo modo como ele segurava as próprias costas meio curvadas, como se com medo que seu corpo frágil fosse se desmontar de repente.
- Só agora tive um bom motivo.
O segundo homem era o oposto do primeiro: alto, jovem e de postura impecável. Tinha nas mãos uma xícara de chá ou café, não havia como dizer. Ele tinha os olhos vivos, observando o outro homem como um lobo faria com sua presa. Em seus lábios se formava um pequeno sorriso, fixo, desprovido de sentimentos. Pelo menos assim parecia a Kenshin.
- Quem é ele? – Kenshin perguntou quando os dois começaram a falar em voz baixa.
Kaoru fez um gesto impaciente para que ele não fizesse barulho, mas foi em vão. Os dois homens tinham baixado o tom de voz como se soubessem que estavam sendo ouvidos e nenhuma outra palavra chegou aos ouvidos dos dois jovens.
- Ele é meu professor de história, Hajime Saitou. O mais jovem, o outro não conheço. – ela respondeu finalmente. – Eu... – Kaoru olhou pra Kenshin com um pequeno sorriso, o rosto adquirindo uma leve coloração. – Eu só estava curiosa, você não tem com que se preocupar.
Ela sorriu ao ver os músculos da face de Kenshin relaxarem. Tinha olhado para dentro da loja sem razão nenhuma e viu quando Saitou entrara acompanhando o homem mais velho. Tão sem razão quanto antes, ela o seguiu.
- Desculpe, Kenshin... Eu não costumo ter esses surtos de curiosidade. Realmente não sei o que me deu...
- Tudo bem, vamos embora.
Os dois caminharam para fora apressados, mas ao chegar à porta, foi a vez de Kaoru encontrar-se sozinha.
- Kenshin?
Ela olhou para trás e viu o jovem ruivo parado pouco atrás dela. O rosto dele estava lívido e os olhos cheios de um sentimento que parecia um misto de surpresa e terror.
O primeiro impulso de Kaoru foi olhar na direção em que Kenshin olhava, mas não teve tempo. De relance ela viu a silhueta do velho senhor – provavelmente o dono da loja – caminhando na direção deles. Não pensou duas vezes antes de puxar o ruivo pelo braço e arrasta-lo dali o mais rápido que podia.
- Hei, garotos!
Fora o velho? Ela não parou para olhar. Continuou puxando Kenshin pelo braço por dois quarteirões abaixo até que estavam longe suficiente para que um homem daquela idade pudesse alcança-los.
- Essa foi por pouco. – Kaoru respirou fundo, recuperando o fôlego. – Que idéia foi aquela de ficar parado no meio da loja, Kenshin? Ele podia ter nos pego. Pior, Saitou poderia ter nos pego e eu não sei o que aconteceria.
Kenshin não respondeu, ainda em choque. Primeiro o sonho que tivera na praça, agora aquilo. Fazia muito tempo desde que ele empunhara aquelas espadas, mas ele as reconheceria em qualquer lugar. Eram elas, as mesmas bainhas de bronze, cruzadas, adornando a parede da loja de antiguidades. Por que isso tinha que acontecer justo agora? Fora um sinal para que ele soubesse que não poderia recomeçar como um novo homem? Ele estaria preso aqueles malditos pedaços de metal para o resto de seus dias?
- Kenshin, está tudo bem?
Ele olhou para o rosto preocupado de Kaoru e sorriu. O sorriso forçado de antes.
No céu, as nuvens brancas começavam a ficar alaranjadas, cobrindo o sol, preparando-se para o cair da noite.
- Kaoru, você gosta de ver o pôr do sol?
Ela estranhou a pergunta, mas responder assim mesmo, talvez por algo que estivesse vendo nos olhos dele, talvez por ser a primeira vez que ele a tratava por você.
- Sim. Eu amo isso. O final de um dia é sempre um conforto para mim, porque posso esperar algo melhor daquele que virá.
Ela sorriu para ele e segurou sua mão enchendo-lhe de alívio. Como ele pensara antes, ela era tudo o que ele precisava. Enquanto pudesse ver aquele sorriso, não haveria outra certeza se não a de que tudo estaria bem.
CONTINUA
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