Capítulo 9 – Estação de Portais Key Stroke
Olho-Tonto Moody acordou Harry bem cedo naquela manhã.
Lupin estava envasando a poção do ex-auror quando o garoto se levantou,
bocejando no final da madrugada.
- Dia’ – resmungou, coçando a cabeça com força,
levemente desconfiado de que pegara uma infestação de pulgas no colchão velho e
suspeito em que dormira nestes dias na Casa Forte.
- Moody está fazendo o café – disse Lupin, arrolhando
a poção e guardando o frasco no bolso do casaco. Harry, mais acostumado com a
comida do seu anfitrião, teve um leve estremecimento e se aproximou de Lupin,
observando a coleção de garrafas que ele arrumava sobre a mesa.
- Poção mata-cão. Muito útil para os próximos dias –
disse o ex-professor de Hogwarts, apontando para uma folhinha do calendário,
onde uma lua cheia brilhava entre as nuvens mágicas dali a exatos três dias.
Harry assentiu, enquanto segurava com mais força o
cobertor nas costas, espantando o frio úmido do porão. Pouco depois, a perna de
pau de Moody ecoava pelo chão de pedra e Olho-Tonto atirou algumas torradas
engorduradas sobre a mesa.
- Vamos, comam! Não temos muito tempo – rosnou,
agarrando uma torrada e mastigando com vigor.
Lupin e Harry trocaram olhares cúmplices. Com um
sorriso incerto, o garoto se sentou à mesa, puxando um pedaço de pão e tomando
um gole de um leite rançoso.
Comeram em silêncio e, enquanto Lupin ajudava Moody a
tirar a mesa, Harry foi se trocar. Seu malão já se encontrava parcialmente
arrumado e o garoto atirou rapidamente seu pijama para dentro do baú. Ele
sentiu um leve toque de nostalgia ao encarar a arca que o levara tantas vezes a
Hogwarts. Agora, no entanto, o garoto seguiria para um caminho totalmente
diferente.
Balançando a cabeça, tratou de se vestir, fechando o
malão com um estrondo.
- Está pronto? – resmungou Moody, acercando o garoto,
passando o olho mágico com atenção sob as roupas do rapaz. Eles passariam por
diversos locais freqüentados por trouxas até atingir a Estação Key Stroke e a
discrição era fundamental. Vestido com uma calca jeans e uma blusa xadrez,
Harry passaria facilmente por um garoto comum. Moody enfiou um boné embolorado
na cabeça do rapaz, sem fazer cerimônia.
- Esconda isso – falou, apontando a famosa cicatriz em
forma de raio. O garoto suspirou fundo e enfiou o boné na cabeça, ocultando a
marca terrível entre os cabelos despenteados.
Infelizmente, Lupin e Moody não tiveram tanta perspicácia
para escolher seus disfarces. Lupin estava mais discreto, o paletó cinza chumbo
surrado era de duas décadas atrás, mas combinava com o bigode escovinha. No
entanto, a blusa roxa berrante destoava do conjunto. Mas o pior era Alastor
Moody. Apesar de esconder habilmente o olho mágico com um lenço de cetim, o
ex-auror trajava um saiote escocês que deixava mostras a perna de pau e duas vistosas meias grossas,
de lã esverdeada. Uma botina pesada, de couro marrom, estava fortemente
amarrada no pé direito. Usava uma blusa vermelha, suspensórios floridos e um
chapéu de aviador da primeira guerra como um gorro.
Harry mordeu os lábios para não cair na gargalhada.
Sabia que chamariam atenção até do mais fleumático trouxa, mas não tinha
certeza de como falar sobre as roupas ridículas sem parecer desrespeitoso. No
fim, resolveu deixar os dois como estavam.
Auxiliado por Lupin, o garoto carregou o malão para
dentro da passagem secreta que os levou para o segundo andar. Harry ficou
encarregado de chamar um táxi, pois estava mais acostumado a falar pelo
telefone. Enquanto isso, Moody mancou até a sala da frente, a perna oca
estalando na madeira velha do chão de tabuões. Ele se posicionou atrás de uma
cortina velha e apodrecida, permanecendo de vigília até que um reluzente carro
preto parou à sua porta. Dentro, um taxista trouxa espiou para fora,
observando, intrigado, as telhas quebradas do teto caiado e o aspecto abandonado
da casa ancestral, tentando imaginar se não fora vítima de um trote.
Os três bruxos saíram para o alpendre tomado pelo
musgo, acenando para o motorista, que lançou um olhar mais desconfiado ainda
para as estranhas figuras que acompanhavam o garoto. Um pouco envergonhado,
Harry sorriu e ajudou Lupin a colocar o baú no porta-malas do táxi, entrando no
carro logo após Moody e ficando no meio dos dois.
- Westminster, por favor – pediu Lupin.
O carro arrancou, enquanto o sol subia no horizonte,
vencendo debilmente a névoa que circundava a região.
- O
senhor já esteve em... ugh... na minha nova escola? – perguntou Harry,
escolhendo novamente as palavras depois que recebera uma cotovelada nada
amistosa nas costelas.
- Não –
respondeu Lupin, sorrindo – Eu raramente saio da nossa ilha.
- E o
senhor? – perguntou Harry, se virando para Moody, enquanto massageava os ossos
doloridos que o ex-auror lhe causara.
- Duas
vezes. A trabalho – respondeu mecanicamente, dando o assunto por encerrado.
Harry entendeu o recado. Era óbvio que o trabalho de auror não era um assunto
que poderia ser comentado na frente de um trouxa.
Recolhido
ao seu silêncio, o garoto observou o táxi percorrer as ruas pouco movimentadas
de Londres até atingir a City, onde o tráfego já se aglomerava, mesmo nas
primeiras horas da manha. Passando pela Trafalgar Square e seguindo em frente,
o táxi passou pelo Parlamento, entrando em Westminster. Rodando por mais uns vinte
minutos por vielas e ruas pouco iluminadas, finalmente chegaram ao seu destino.
Harry olhou para fora, encarando uma lanchonete abandonada onde uma placa de fechada, já bem amarelada, pendia solta
por um gancho enferrujado.
Lupin
chamou a atenção do garoto, que precisava pagar a corrida, pois nem ele nem
Olho-Tonto tinham muita experiência com dinheiro trouxa. Descarregando o malão
do garoto, o taxista seguiu seu caminho sem olhar para trás. Uma chuva fina
começou a cair e Moody arrastou todos até a frente da lanchonete, observando
atentamente todos os lados até ter certeza que ninguém os espionava.
Grunhindo
de satisfação, seguiu para a porta, puxando a varinha discretamente.
- Falsum vetro – disse, lançando um
feitiço no vidro, que brilho momentaneamente. Apesar da sujeira e pó que se
acumulavam, a porta pareceu um tiquinho mais translúcida.
Satisfeito,
Olho-Tonto avançou para o vidro, para horror de Harry que imaginou que o
ex-auror estilhaçaria o vidro em centenas de pedaços. No entanto, a porta
brilhou em torno do bruxo, que atravessou a grossa janela de vidro como se ela
não existisse. Lupin, olhando para os lados, praticamente empurrou Harry para
dentro da lanchonete, atirando o baú logo em seguida. Com um gesto rápido,
Moody esperou a entrada de Lupin para, com três batidas da varinha na porta, solidificá-la
novamente.
O
interior da lanchonete era tão sujo e apodrecido que o garoto tinha medo de se
mexer e tocar em alguma coisa, o que provavelmente despencaria o teto sobre
suas cabeças.
- Vamos
– sentenciou Moody, olhando de soslaio para um relógio na parede oposta, o
único objeto que parecia estar funcionando. Passando pela bancada de madeira
maciça rachada e por três bancos jogados no chão, Harry ajudou Lupin a carregar
o malão até os fundos do bar, onde uma porta verde-água desbotada dava acesso
ao banheiro.
O garoto
arregalou os olhos quando Olho-Tonto os conduziu até dentro do minúsculo
compartimento, onde um vaso rachado e seco fazia companhia para uma pia lascada
de cerâmica acinzentada. Quase não havia mais azulejos na parede.
Estranhamente, pelo aparente abandono do local, o chão parecia muito limpo.
- Se
preparem – resmungou Moody.
“Se
preparar para o quê?” – pensou o garoto sem, contundo, conseguir externar sua
preocupação. Olho-Tonto fechou a porta e girou a maçaneta duas vezes para a
direita, uma vez para a esquerda e mais duas vezes para a direita. Um forte
estampido se ouviu e Harry sentiu seu estômago bater na garganta, enquanto seus
pés subitamente perdiam o peso.
O chão
havia desaparecido sob seus pés. Os três bruxos e o baú desciam a grande velocidade
por um túnel comprido e escuro, serpentando pelo que parecia um cano de metal
muito liso. Harry olhava para baixo, apavorado demais até para gritar. Angustiantes
momentos se passaram, o que pareceu uma eternidade para o garoto. Felizmente,
momentos depois, uma luminescência fraca antevia o fim do escorregador gigante.
O garoto sentiu uma pontada de pânico. Não havia dúvidas que, a esta velocidade,
eles provavelmente quebrariam metade dos ossos.
Sem
conseguir se segurar, ele gritou, fechando os olhos e se preparando para o
impacto.
No
entanto, o fim do túnel foi substituído por uma névoa púrpura morna e densa. O
garoto sentiu seu corpo ficar cada vez mais leve, descendo lentamente até seus
pés tocarem suavemente o chão. Cambaleando, Harry seguiu os companheiros, que
saíram da névoa andando firmes, aparentemente satisfeitos.
Lupin
lhe deu um sorriso condescendente, que Harry respondeu com os olhos baixos e
chateados. Para sua sorte, quase não havia ninguém ali e sua vergonha foi
diminuída pela falta de público. Ainda zonzo, ele empurrou o malão para fora do
gás inebriante, se recostando no baú para recuperar o fôlego. Respirando fundo,
deu sua primeira olhada na Key Stroke, a Estação de Chaves de Portal de
Londres. Lupin lhe contara que as grandes cidades da Europa haviam organizado
as chaves de portais internacionais há muitos séculos atrás, depois que as
perseguições aos bruxos e feiticeiras haviam se tornado mais comuns.
Como as
viagens de vassouras estavam cada vez mais perigosas e o aparatamento não
servia para grandes distâncias, os Ministérios e Departamentos de Magia de todo
o continente adotaram a viagem via chave de portal como uma solução mais
segura. Havia dúzias de cidades ligadas à Rede de Cooperação em Translados
Internacionais, atingindo também cidades na América, Ásia, África e duas
cidades da Oceania.
A
Estação de Portais de Londres, conhecida simplesmente como Key Stroke, ocupava
um grande salão que se espalhava por dezenas de metros. O chão de mármore
branco ajudava na iluminação do local, fornecida por centenas de archotes
dependurados nas paredes, além de diversos candelabros de velas que pendiam do
teto abobadado. No centro, um grande número de cadeiras com estofamento marrom
carmim serviam como assentos para os viajantes em espera. Ao fundo, três
balcões de atendimento vendiam bilhetes de passagem para diversos lugares,
anunciado por dois pergaminhos envelhecidos, dependurados no alto das
bilheterias.
Deslumbrado
com o local, não percebeu que seus companheiros já seguiam adiante, passando à
esquerda do agrupamento de cadeiras. Harry seguiu logo atrás, arrastando o
malão e olhando atentamente uma série de portas de ferro, que pareciam levar a
pequenos compartimentos como cabines telefônicas. Em cima dos espaços
reservados, nomes grafados em metal reluzente anunciavam os destinos: Bruxelas,
Amsterdã, Hamburgo, Barcelona, Edimburgo, Lisboa, Toulouse, Praga, Vladivostok
e Roma. A seqüência era interrompida pelas bilheterias e seguia do outro lado,
levando a diversos outros lugares.
Passando
por uma família bruxa que estava acomodada nas primeiras fileiras, onde a mãe
segurava um bebê de colo e passava uma descompostura no mais filho mais velho,
enquanto o pai seguia lendo seu jornal, Harry correu até onde estavam Lupin e
Moody, quase esbarrando em um bruxo que saia de uma porta lateral. Trajando uma
veste comprida de tom esverdeado, onde uma chave antiqüíssima estava bordada no
peito, o senhor de meia idade se desvencilhou do garoto e seguiu seu caminho.
Harry murmurou um pedido de desculpas para o bruxo, desconfiando que ele
trabalhava no local.
Lupin
voltou para ajudar o garoto e, logo, os três já se aproximavam da bilheteria. Neste
instante, um bruxo grisalho, de óculos redondos e uma careca protuberante,
levantou-se da primeira fila, se dirigindo diretamente a Moody. Usava uma
túnica longa, roxa e branca, e trazia consigo uma volume grosso e muito antigo,
que estivera consultando antes da chegada dos três bruxos.
-
Senhor Alastor Moody, eu presumo – disse ele, fazendo uma leve reverência de
forma muito respeitosa.
Olho-Tonto, que notara a aproximação do homem
assim que ele fizera menção em se levantar, graças ao seu fabuloso olho mágico,
se virou com cautela para o ancião, segurando a varinha em punho.
- Sim? – perguntou, examinando de alto a baixo
o seu interlocutor.
- Eu sou Ivo Loyd, o defensor de Alvo
Dumbledore – respondeu solenemente. Seus fiapos grisalhos adornavam duas
sobrancelhas finas, o nariz adunco e a expressão taciturna moldavam uma face
que parecia ter sido esculpida no tempo. Ele aparentava calma e formalidade,
duas características difíceis de se obter no mundo dos bruxos, mas que convinha
a um homem na sua posição.
- Como está, Loyd? – disse Lupin, de forma
jovial, deixando o malão no chão e se aproximando do defensor.
Loyd cumprimentou o recém chegado com
tranqüilidade, se virando rapidamente para o garoto.
- E este deve ser...
- Todos
nós sabemos quem ele é! – cortou Moody, olhando nervosamente para os lados.
Loyd encarou discretamente a mecha de cabelos
que ocultava a cicatriz de Harry, antes de fazer um leve aceno, entendendo
rapidamente a situação.
- Dumbledore me pediu para entregar isso para
o garoto – continuou, entregando um envelope para Moody – Ele me disse que o
senhor provavelmente gostaria de ... hmmm... testar a procedência da mensagem.
Moody praticamente arrancou o envelope das
mãos do defensor, examinando com atenção o timbre, a composição do pergaminho e
até mesmo o cheiro. Depois de tentar alguns feitiços nele, aparentemente se
convenceu de que o mesmo era apenas uma carta comum.
Harry apanhou a carta com açoitamento,
murmurando um agradecimento ao velho bruxo, que assentiu com um breve aceno.
Depois de cumprimentar os bruxos adultos, o Sr. Ivo Loyd se retirou, os passos
leves ecoando quase desassossegados pelos corredores da Estação. Enquanto Moody
comprava os bilhetes para Paris, Harry abriu o envelope. Havia dois
pergaminhos. O garoto pegou o primeiro e leu com sofreguidão.
Prezado Harry
Infelizmente, não tivemos
a oportunidade de conversar sobre os últimos acontecimentos. Na falta de
alternativas, tomei a decisão que me pareceu a mais adequada, tanto para você,
quanto para seus amigos. Eu sei que você já deve estar cheio de ouvir isso, mas
não se preocupe com eles, Harry. Hogwarts sempre foi um refúgio para os que
buscavam a verdade e pregavam a tolerância. Estes valores não podem ser
maculados tão facilmente.
Deixo-lhe também uma
carta de apresentação para a Madame Maxime, Diretora de Beauxbatons a qual,
naturalmente, você já conhece. No entanto, devemos ser corteses, mesmo nos
momentos mais difíceis.
Esperando nos encontrar
com o máximo de brevidade,
Alvo
Dumbledore
A segunda carta era uma simples apresentação
de Harry à Madame Maxime, dando-lhe autorização para viajar e freqüentar a
Escola Beauxbatons, bem como regressar a Hogwarts. O garoto sentiu uma pontada
de frustração ao terminar de ler as cartas. Apesar de já conformado com a idéia
de abandonar a escola inglesa, ele viu a aparição do Sr. Loyd como a última
tábua de salvação. Esperava que ele trouxesse a notícia da liberação de
Dumbledore, mas o defensor ancião se retirou, levando junto as últimas
esperanças de Potter.
Cabisbaixo,
ele acompanhou Moody e Lupin para os assentos, suspirando de insatisfação.
- Nós
devemos partir em poucos minutos – resmungou Olho-Tonto, examinando os bilhetes
com atenção.
- E é
aqui que eu devo deixá-los – emendou Lupin, olhando bondosamente para Harry. O
garoto forçou um sorriso amarelo para o ex-professor, sem convencer ninguém.
Lupin
colocou a mão direita sobre o ombro esquerdo do garoto, se abaixando até encará-lo nos olhos.
-
Qualquer coisa, por mais insignificante que seja, você deve nos avisar, Harry.
Beauxbatons é um lugar seguro, mas todo o cuidado é pouco – insistiu.
- Pode
deixar.
- E não
se preocupe com seus amigos. Eles vão ficar bem – concluiu, afagando os cabelos
desregrados de Harry, que torceu os lábios. Já estava ficando irritado com
aquela mania de todos insistirem com ele em não
se preocupar com os amigos. Se realmente não houvesse motivos para
preocupação, eles não estariam tão empenhados em mantê-lo longe de Hogwarts –
pensou.
Lupin
cumprimentou Moody com um aceno e se retirou, os passos secos ecoando pelo
soalho lustro, o som só entrecortado pelos gritos da mãe das duas crianças, que
exibia uma enorme dificuldade para controlar os dois rebentos.
Pouco
depois, o funcionário da Key Stroke que Harry avistara se aproximou da família.
Um senhor de idade, que permanecera encoberto pelo jornal até então, se
levantou com dificuldade e, apoiado na mulher, caminhou trôpego até a cabine de
Edimburgo. Harry não conseguiu vislumbrar nada pela porta entreaberta, pois a
luminosidade era muito baixa dentro da cabine. Em poucos momentos, a porta foi
fechada com toda a família e seus pertences. Um estampido rápido e um clarão
fustigante escaparam pelas frestas a porta.
O
silêncio voltou a reinar no estabelecimento. A funcionária que vendera os
bilhetes para Moody fazia um enorme esforço para se manter acordada, sem muito sucesso. O ponteiro de um relógio
de carrilhão, no canto esquerdo, se movia devagar, o ritmo monótono arrancando
bocejos de Harry.
Alguns
minutos depois, a porta lateral se abriu novamente e o mesmo funcionário entrou
no salão da estação. Com um aceno rápido, ele chamou Harry e Moody. Sem
pestanejar, o velho auror levantou seu corpanzil, ajudando o garoto a arrastar
o malão para o lado direito. Eles atravessaram várias cabines – Rabat, Oslo,
Bangladesh, Tóquio – até alcançar Paris, que ficava entre as cidades de Moscou
e Montreal. O funcionário abriu a porta e Harry entrou em uma cabine
ligeiramente espaçosa, onde as paredes estavam cobertas por um tecido grosso de
cor arroxeada. Uma pequena vela flutuava magicamente pelo ar, fornecendo a
única iluminação do ambiente.
-
Tecidos abafadores – resmungou Moody, notando o interesse do garoto nas paredes
roxas – Impedem que os demais passageiros sofram os incômodos de vários portais
sendo abertos ao mesmo tempo.
Harry
respondeu com um aceno. Ele havia viajado com uma chave de portal somente duas
vezes. A primeira fora com a família Weasley, quando eles assistiram a final da
Copa Mundial de Quadribol. A outra, muito mais horripilante, levara ele e
Cedrico para as mãos de Voldemort, que enfeitiçara a Taça TriBruxo através do
seu leal vassalo, Bartô Crouch Júnior. No entanto, nas duas vezes, a sensação
de desconforto fora tamanha que o garoto quase passara mal. O vórtice criado
pela chave de portal o arrastava como se estivesse dentro de um redemoinho.
O
funcionário retirou um pequeno estojo de madeira das vestes, talhado habilmente
por mãos muito delicadas Ele abriu o relicário com afeição. No centro, em uma
espécie de tecido acolchoado, repousava uma pequena chave de prata, muito
antiga. Ao seu lado, uma moeda dourada indicava, com as letras de filigrana, a
cidade de Paris. Ele consultou um enorme relógio de bolso, sorrindo com
satisfação.
- Encostem-se
à chave. Está na hora – disse ele, mecanicamente.
Moody e
Harry colocaram muito delicadamente o dedo no objeto, temendo danificá-lo. O
garoto agarrou com firmeza o malão. Em poucos segundos, a sensação de tontura
dominou o rapaz, que fechou os olhos. O portal se abriu e o mundo girou sob
seus pés. Alguns momentos depois, um estampido forte anunciava que a o portal
das oito horas para Paris havia partido.
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