Capítulo 08 - O Expresso para Hogwarts
Hermione nunca percorrera aquela estrada sentindo
tanta ansiedade. Mesmo quando fora para Hogwarts pela primeira vez, há quase
cinco anos, a garota não sentira aquela estranha sensação de sufocamento lhe
apertando o peito. Mordendo as unhas a todo o momento, a garota sentia que sua
ansiedade estava batendo níveis estratosféricos, enquanto se remexia no banco
de trás do moderno carro que seu pai conduzia. Ao lado do Sr. Granger, a sua
mãe lhe lançava olhares intrigados.
- Tudo bem, minha filha? – perguntou ela, franzindo o
cenho.
- Sim, mãe. Não mudou nada desde a última vez –
respondeu a garota, de forma bastante despeitada. A garota bufou, notando a
expressão de desagrado na Sra. Granger, mas deu de ombros e virou o rosto para
observar o movimento lá fora. Aquela fora a terceira vez que sua mãe a interpelava.
Era óbvio que seus sentimentos estavam começando a
transparecer de forma muito visível e a garota estremeceu ao pensar no
Sr. e a Sr. Granger. A última coisa que a garota precisava agora era ter seus
pais preocupados com ela.
Uma chuva fina e chata caía nos arredores de Londres,
se misturando às névoas eternas que circundavam a grande cidade. O verão
terminava rapidamente e, logo, o frio do outono mostraria sua força. Mas os
grossos casacos não seriam retirados das malas por vários dias ainda e Hermione
aproveitava o resto dos dias de calor para usar roupas mais leves, exibindo com
graça uma saia xadrez que lhe descia até os joelhos. Dando o primeiro sorriso
verdadeiro do dia, ela observou um pequeno grupo de crianças trouxas – quer
dizer, não mágicas – pensou, se obrigando a corrigir a si mesmo. Elas
andavam em fila, todas usando o mesmo uniforme azul escuro e botas para chuva.
Uma linha de pequenos guardas-chuva seguia seu caminho, despreocupados, pulando
pelas poças de água e dando gritinhos de excitação. Sem querer, Hermione sentiu
uma enorme inveja daqueles pequenos estudantes. Provavelmente, em poucos
minutos estariam sentados em suas minúsculas classes, recostados nas
cadeirinhas e bebendo um chocolate quente para espantar o vento fresco da
chuva. Com certeza, eles não precisavam se preocupar com nenhum professor
maligno, muito menos com a ameaça pendente sobre seus lares.
“Como estavam enganados” – pensou a garota, mordendo
os lábios, sentindo uma pontada de raiva. Não era justo que eles tivessem que arcar com todo aquele
peso nas costas. Voldemort era uma ameaça para toda a população, principalmente
a não mágica. Mas, ingenuamente, os
cidadãos de Londres e de toda a Grã-Bretanha seguiam suas vidas comuns, se
encontrando em pubs e livrarias,
tomando chá e discutindo os últimos resultados do críquete, sem ter a mínima
noção de que nuvens de desespero se tornavam cada vez mais densas no horizonte
sombrio que a comunidade bruxa estava vivendo.
E, mesmo assim, só uma pequena parte do seu mundo tinha ciência dos
acontecimentos tenebrosos das últimas semanas. Hermione, que sempre buscara com
ardor e paixão o conhecimento, agora tinha medo dele. Se Harry e Rony não
fossem seus melhores amigos, a garota, provavelmente, andaria despreocupada até
a estação King Cross, empurrando seu grande malão e acariciando os pêlos
alaranjados de Bichento, seu gato de estimação. Mas o destino quis que ela se encontrasse
no epicentro do terremoto que sacudira, mesmo que silenciosamente, a bruxidade.
O Lorde das Trevas retornou, e ela era uma das poucas pessoas que tinha
conhecimento do fato e compreendia toda a extensão do significado da visão
demoníaca de Voldemort.
Com um estremecimento de pavor, ela observou com
atenção os amigos e colegas que chegavam até a estação, enquanto seu pai
procurava uma vaga para estacionar. Mesmo tentando fechar sua mente para estes
pensamentos sombrios, ela não pode deixar de se imaginar, junto com os colegas,
como uma fila de cordeirinhos, andando mansamente em direção ao cutelo de
abate. A horrível visão se materializou e sumiu dos seus pensamentos com a
mesma velocidade, deixando a garota sem fôlego, respirando profundamente.
A Sra. Granger se virou novamente, pronta para
questionar a filha, mas esta foi mais rápida, cortando o assunto.
- Ali tem uma vaga, pai! – disse, apontando com
sofreguidão para um espaço quatro carros adiante e exibindo o sorriso menos
amarelo que conseguiu.
- Excelente! – disse o Sr. Granger, piscando um olho
para a filha e desacelerando o carro.
Hermione e a Sra. Granger se encararam por alguns
segundos. A garota tentou sustentar um olhar neutro e sem culpa, mas foi
impossível. Virando o rosto, afagou o gato laranja, colocando-o mansamente
dentro de sua gaiola de viagem.
Como em todos os anos, a partida do Expresso para
Hogwarts era um espetáculo estranho para os trouxas
de Londres. Sem saber, centenas de estudantes de todos os lugares, assim como
seus pais, lotavam o sistema de transporte da cidade, tentando chegar na
estação King Cross antes do horário. Rupert Taylor, inspetor da BritRail há quase trinta anos, já estava
acostumado com aqueles dias excêntricos, que ele batizara de Dia dos Trouxas. Mesmo sem entender o
significado, esta era uma palavra que ele usualmente escutava muito durante
aquele dia – trouxas. No entanto, mesmo
em seus devaneios mais loucos, o pobre Sr. Taylor nunca imaginaria realmente a
verdade, apesar de ter percebido algumas pistas.
Ele sabia, por exemplo, que aquela aglomeração não era
para tomar um dos diversos trens que partia diariamente de uma das maiores
cidades da Europa. As centrais de vendas de passagem não registravam nenhum
aumento anormal de bilhetes; ele mesmo verificara os relatórios por diversos
anos. Também sabia que eles não eram salteadores ou bandidos. O velho fiscal já
havia lido em algum lugar que, em várias cidades, bandos de assaltantes se
reuniam para criar confusão, se aglomerando perto de locais de grande movimentação.
No meio do tumulto que formavam, conseguiam bater carteiras e furtar relógios.
Mas, mais uma vez, esta não era a explicação para o Dia dos Trouxas. Afinal, o
número de queixas contra meliantes praticamente diminuía pela metade durante
aquele dia – obra, sem sombra de dúvida, dos diversos aurores que patrulhavam,
disfarçados, no meio da multidão. O Ministério da Magia sempre providenciara
uma força tarefa para a Estação King Cross durante o embarque para Hogwarts.
Afinal, este era um dos dias mais perigosos para a comunidade bruxa. Se alguém
percebesse os estudantes desaparecendo magicamente dentro de uma das colunas
entre a plataforma 9 e 10, certamente o caos criado só poderia ser contido com
um grande custo.
Por fim, o que mais trazia estranheza ao fiscal da
viação férrea era o desfile incomum de animais estranhos, enjaulados ou
empoleirados sob os ombros das crianças. Corujas, ratos, gatos e até mesmo
morcegos desfilavam pela estação, exibindo suas garras e arrulhando para os
pedestres. Aquele mini zoológico ambulante envolvia os gritos e urros dos
animais ao aglomerado de pessoas, tornando a situação toda o mais caótica
possível.
O velho fiscal passara anos estabelecendo conjecturas,
mas nunca conseguiu chegar a alguma conclusão plausível. Atualmente, tais dias
se tornaram tão corriqueiros que o Sr. Taylor já quase não se importava mais
com o assunto. Com a sabedoria da idade, acreditava que certas coisas aconteciam
porque supostamente elas deveriam acontecer e ele não tinha nada a ver com isso.
Assoviando entre os estranhos, passeava pela estação com o cachimbo preso na
boca e o olhar sonhador.
Indiferente aos devaneios do velho fiscal, o Sr.
Granger retirou com imensa dificuldade o grande malão da filha, sentindo o suor
quente e pegajoso grudar a camisa molhada pelo chuvisco inclemente. Sem perder
tempo, Hermione encontrou um carrinho auxiliar e ajudou seu pai a instalar o
baú e a gaiola do Bichento, que ronronava baixinho. Ladeada pelos pais, a
garota seguiu com o passo firme até o corredor central da estação, parando
quase que abruptamente.
Respirou fundo, tentando acalmar seus nervos. Aquele
era o local onde os Granger, tradicionalmente, se separavam. Era muito difícil
para o Sr. e a Sra. Granger observar a filha desaparecer através de uma parede
de tijolos maciços. A cena da filha ingressando no mundo mágico entre as
plataformas 9 e 10 causava uma certa taquicardia na sua mãe. Para evitar uma
violação clara ao Terceiro Estatuto de Convivência com os Trouxas, Hermione
convencera os pais, desde o segundo ano, a se despedirem mais cedo.
Depois de vários minutos ouvindo os últimos e
lamuriosos conselhos dos pais, que rendeu a Sra. Granger várias e grossas
lágrimas, finalmente a garota se viu sozinha, andando com o passo incerto pela
estação King Cross. A palpitação e a sensação de sufocamento retornara assim
que vislumbrara o Sr. e a Sra. Granger atravessarem as portas giratórias.
A garota tropeçou em uma pedra solta, soltando um
palavrão involuntário. Mordendo os lábios, ela tentou acalmar os próprios
nervos, enquanto procurava uma família trouxa que seguisse na mesma direção.
Logo após, já seguia um casal com dois filhos pequenos, carregados de malas e
conversando sem parar.
“Perfeito!” – pensou, satisfeita. Ela aprendera este
truque no terceiro ano, depois que um guarda desconfiado fizera diversas
perguntas embaraçosas sobre o porque da garota estar circulando sozinha pelos
corredores da estação férrea mais movimentada do país. Desde então, tentara se
misturar as famílias que andavam de um lado para o
outro, passando desapercebida na multidão.
Por sorte, a família que Hermione adotara naquele ano seguia para a plataforma de embarque treze,
como ela escutou com os ouvidos apurados. Um pouco mais calma, ela conseguiu
permanecer incólume, andando disfarçadamente até as duas colunas que separavam
as plataformas 9 e 10. Mordendo mais uma vez os lábios, virou vagarosamente o
carrinho e se encostou lentamente no muro de tijolos. Quando teve certeza que
ninguém a observava, deu um violente encontrão para trás, pulando para dentro
da plataforma 9 1/2 , trazendo de arrasto o carrinho, o malão e a gaiola.
Bichento gritou alto, incomodado, calando assim que
recebeu uma ralhada feroz da garota. Com um suspiro que misturava alívio e
preocupação, passou os olhos pela aglomeração de bruxos e bruxas que se
despediam dos filhos com abraços carinhosos e conselhos dos mais variados.
Hermione vislumbrou um ou dois colegas, mas não se deteve para conversar com
ninguém, dando acenos rápidos e se misturando na multidão. Seus olhos ávidos
vasculhavam cada centímetro da plataforma, a sensação de afogamento retornando
com mais força a cada minuto que passava.
“E se eles
não forem para Hogwarts?” – pensou, com uma pitada de pânico.
“Não, isso não vai acontecer!” – repetiu para si
mesmo, buscando um pouco de autoconfiança.
No entanto, sua palpitação aumentava com o passar do
tique do relógio, diminuindo inexoravelmente o tempo para a partida do trem.
“Onde estão eles? Onde estão eles?” – murmurava,
sentindo suas mãos suarem.
Finalmente, após cruzar quase toda a plataforma,
Hermione soltou novamente a respiração, os músculos
doloridos aliviados pela tensão que se esvaziava como uma bexiga furada. Nunca
uma profusão de cabelos vermelhos e acne acerbada fora tão bem recebida pela garota.
Logo a frente, o Sr. Weasley caminhava com os passos
rápidos, olhando nervosamente para os lados, mantendo a varinha segura dentro
do casaco. Logo atrás, Rony e os gêmeos Fred e Jorge, as faces sardentas bem
mais soturnas do que o normal, seguiam o pai com os
olhares nervosos. No final da fila, a Sra. Weasley carregava Gina pelo braço,
com uma expressão de quem estava preste a rosnar para qualquer um que lhe desse
um olhar enviesado. Obviamente, pela cara amarrada da garota, a filha mais nova
da família Weasley não estava gostando nada de ser arrastada pela estação pela
mãe superprotetora.
Mesmo notando as faces enrugadas de preocupação, foi
um grande alívio para Hermione perceber que os Weasley retornariam para a
escola. Hogwarts, decididamente, não seria a mesma sem eles. Apressando o
passo, ela alcançou a Sra. Weasley.
- Hermione! – exclamou ela, ainda agarrada na filha –
Arthur! Arthur! – gritou, tentando se fazer notar no meio da algazarra típica
do embarque anual dos alunos.
- Arthur! Aqui! – repetiu ela, apontando para
Hermione. A garota olhou para a Sra. Weasley com curiosidade. Tinha a nítida
sensação de que eles a estavam procurando tanto quanto ela os procurava. Logo,
Fred, Jorge e Rony retornavam com o Sr. Weasley nos seus calcanhares. A garota
abraçou a marido da Sra. Weasley e deu um olá para os meninos. Rony corou um
pouco ao cumprimentar a garota com um aperto de mão. Hermione, embaraçada,
retirou a mão assim que pareceu não estar sendo mal educada. Os gêmeos
sorriram, trocando olhares maliciosos e a garota ferveu de raiva.
- Venha, vamos até aquele canto – solicitou o Sr.
Weasley, colocando a mão no ombro da garota e olhando para os lados, como se
fosse um guarda costas. Rapidamente, os garotos se aglomeraram perto de umas
latas de lixo. A Sra. Weasley permaneceu de costas para eles, a varinha firme e
o olhar atento para qualquer movimento suspeito.
- É muito bom ver você aqui, Hermione – disse o Sr.
Weasley, se abaixando e diminuindo o tom de voz, enquanto tentava esboçar um
sorriso cansado. A garota agradeceu, corando novamente.
- Rony me informou que você já está a par... de toda a
situação – resmungou, olhando bondosamente para a garota, que confirmou com a
cabeça, séria e compenetrada.
- Bom, minha querida, você deve entender que... –
começou ele, erguendo a cabeça e olhando nervosamente para os lados antes de
continuar, baixando ainda mais o tom de voz -... nosso antigo diretor já tomou todas as providências para que nenhum mal
aconteça a vocês durante o ano.
Hermione acenou positivamente. Ela já imaginava isso.
Dumbledore não ia simplesmente entregar Hogwarts para um bando de Comensais da
Morte – pensou, um pouco mais aliviada.
- De qualquer modo, e isso vale para todos... – acrescentou, encarando os
filhos - ..., enquanto Dumbledore estiver longe, todos nós
devemos tomar muito cuidado.
- Nós sabemos – resmungaram Fred e Jorge, em uníssono,
dando de ombros.
- Não, vocês não sabem! – retorquiu o Sr. Weasley,
encarando os garotos – Vocês não tem a mínima idéia do que eles são capazes!
Um silêncio súbito passou pelo grupo e Rony sentiu uma
vontade imensa de segurar a mão de Hermione, mas conseguiu se controlar.
Enquanto isso, a garota prendia a respiração. Ela nunca vira o Sr. Weasley
perder a calma – normalmente, a Sra. Weasley era a mais propensa a arroubos de
irritação, principalmente com as estripulias dos irmãos gêmeos. A preocupação
do Sr. Weasley estava estampada no seu rosto vincado e nos olhos arroxeados,
que denunciavam longas noites sem dormir. Era óbvio que ele e a Sra. Weasley
temiam por seus filhos.
- Vocês precisam se manter unidos e vigilantes –
sentenciou o Sr. Weasley, encarando a todos.
- Tá parecendo o Olho-Tonto! – resmungou Fred,
encabulado.
- E ele tem razão, garoto – respondeu o seu pai,
colocando as mãos na cintura – Nestas circunstâncias, todos o cuidado é pouco!
Hermione assentiu com a cabeça, sentindo um frio no
estômago. A ansiedade dos adultos só colaborava para aumentar suas próprias
preocupações.
- Eu também conto com vocês para cuidarem da Gina –
completou ele, apontando o dedo para os gêmeos.
- Pai! Eu não sou mais criança! – reclamou a garota,
exclamando sua indignação enquanto arrancava o braço das garras da mãe.
- Mas ainda não é adulta – retrucou o Sr. Weasley,
franzindo o cenho. Gina bufou de raiva.
- Nós já discutimos isso, minha filha! Você não pode
andar desacompanhada pela escola e ponto final – ralhou, bravo com a rebeldia
da sua herdeira mais jovem.
A garota virou o rosto, ainda bufando. Por fim, fez um
aceno afirmativo muito a mau gosto. O Sr. Weasley suspirou fundo, tirando o
pequeno chapéu pontudo e limpando o suor.
- E quanto a vocês... – completou, olhando diretamente
para Rony e Hermione – Juízo, hein? – pediu, afagando de leve os cabelos
vermelhos do garoto, que sentiu suas entranhas congelarem. Ele arriscou um
olhar envergonhado para a colega, que baixara a face, o rosto acentuadamente
avermelhado.
Antes que os dois tivessem a oportunidade de se
encararem, uma movimentação ao lado chamou a atenção de todos. Narcisa Malfoy,
esposa do novo diretor de Hogwarts e seu filho, Draco, circulavam pela
plataforma com os narizes empinados e o ar de soberba estampados nas faces
muito alvas. Enquanto sua mãe parava para receber os cumprimentos de diversos
bruxos e bruxas de aspecto nobre e olhares indecisos, o
garoto de cabelos louros e face macilenta se afastou, apontando um dedo
branco diretamente para Hermione.
- Se escondendo entre os bruxos, Granger? Você acha
que nós não sabemos reconhecer um... sangue
ruim à distancia? - sibilou, baixando o tom de voz de tal forma
que somente o grupo dos Weasley ouvissem.
A Sra. Weasley se virou num rompante, olhando furioso
para o garoto mal criado. Hermione estava petrificada com a ousadia do garoto,
enquanto Rony bufava de raiva, o pescoço avermelhado e as orelhas pegando fogo.
Os gêmeos fizeram menção de avançar para o garoto, mas quem tomou a dianteira
foi o Sr. Weasley. Pela segunda vez na sua vida, o pacato diretor do
Departamento de Controle do Mau Uso de Artefatos Trouxas parecia transtornado.
- Escute aqui, meu rapaz! – vociferou, praticamente
cuspindo as palavras enquanto se abaixava para encará-lo nos olhos – Aqui não é
Hogwarts! O Ministério da Magia não aplica detenções. Você acaba de ferir pelo
menos dois artigos da Convenção das Autoridades Inter-Mágicas e Cooperação
entre Espécies. Está querendo arrumar uma acusação formal perante o tribunal
dos bruxos?
Draco engoliu em seco, os olhos esbugalhados, mas o
Sr. Weasley não parou por ai.
- Seu... pai
certamente o premiará por ser preso em tão tenra idade. Muito provavelmente irá
quebrar o recorde dele – completou, rilhando os dentes.
O garoto deu um passo para trás, temendo ser atacado
pela fúria estampada no rosto do Sr. Weasley. Ele arriscou uma olhadela para os
demais, que o encaravam com os olhos cheios de raiva. Fungando fundo, torceu os
lábios em uma careta, ainda encarando Hermione. Sem se virar, voltou para o
lado da mãe, mantendo o grupo sob vigilância.
O Sr. Weasley se ergueu, arrumando a veste comprida
surrada. Rony boquiabertou-se com o pai, enquanto os gêmeos abriam um grande
sorriso. Molly se aproximou do marido, passando a mão no seu braço com grande
carinho.
- Malfoy foi preso? – perguntou Fred, encarando o pai
com indisfarçável orgulho.
- Apenas uma vez e há muito tempo atrás – respondeu o
Sr. Weasley, tentando parecer indiferente mas sem conseguir esconder a
satisfação. Hermione sorriu para ele.
- Pai, foi o senhor... – tentou insistir Rony, sendo
cortado pela sua mãe.
- Agora não é hora para estas velhas histórias. O trem
já vai partir. Vamos, venham dar um beijo na sua mãe e não se esqueçam de
mandar uma coruja todos os dias! – ralhou, o coração apertado quase saltando
pela boca, enquanto abraçava fervorosamente os cabelos vermelhos, deixando
todos visivelmente constrangidos. Depois, ela agarrou Hermione e lhe deu dois
grandes beijos na bochecha da garota, que abraçou a Sra. Weasley, agradecida.
O Sr. Weasley cumprimentou os filhos e deu um beijo em
Gina, que trazia pequenas lágrimas nos olhos. Logo após, chamou Rony para um
canto, conversando rapidamente alguma coisa no seu ouvido. Hermione percebeu o
movimento furtivo do amigo, mas não quis se intrometer na conversa reservada
que ele tivera com seu pai. Ela já se sentia uma intrusa no meio dos Weasley e
achava que estava muito perto de cometer alguma gafe.
Acenando com sofreguidão, os Weasley e Hermione
entraram no vistoso trem vermelho, acompanhado por centenas de estudantes. Em
pouco tempo, se acomodavam em uma cabine vazia. Para o espanto da garota, Fred
e Jorge seguiram logo após Rony e Gina.
- Papai nos pediu para viajarmos juntos – disse Rony,
dando de ombros, ao que Hermione assentiu com um sorriso amarelo.
Breves minutos depois, um apito silvou agudamente e o
Expresso para Hogwarts partiu, iniciando sua longa jornada até os terrenos da
escola. Fred e Jorge rapidamente se entreteram em um jogo de xadrez bruxo
enquanto Gina lia um exemplar do Semanário das Bruxas. Depois de olhar
demoradamente para os corredores vazios do trem, Rony atirou o mesmo exemplar
do Profeta Diário que seu pai lhe mostrara há alguns dias.
- Isso é terrível – sibilou a garota, olhando
apavorada para lista dos seus futuros professores – Malfoy nomeou todos... bem...
você sabe – resmungou, olhando de esgueio para Gina e os gêmeos.
- Pode falar a vontade – interrompeu a garota,
erguendo os olhos da revista – Papai nos contou tudo.
Hermione arregalou os olhos e encarou Rony, que
confirmou com a cabeça.
- Malfoy nomeou todos os Comensais da Morte que Harry
viu no cemitério quando o-que-não-deve-ser-nomeado retornou – fungou Fred,
indiferente, enquanto lançava um ataque devastador com sua torre.
- E vocês não acham isso... perturbador? – perguntou
Hermione, erguendo as sobrancelhas.
- Eles não podem ser piores que o Snape – retrucou
Jorge, dando de ombros, enquanto franzia o cenho ao ter seu cavalo destroçado
pela peça adversária.
- Papai acha que eles só querem derrubar Dumbledore...
Sabe, desacreditá-lo – respondeu Gina, com um sorriso meio amarelo.
- Mesmo assim, acho que nós devemos
tomar muito cuidado – retrucou Hermione, praticamente repetindo as
palavras do Sr. Weasley.
Fred e Jorge ergueram as sobrancelhas, balançando a
cabeça. Logo, já retornavam ao jogo, sem prestar atenção nos demais.
- Ele também pediu uma coisa – disse Rony, se
remexendo no assento, inquieto.
- O que foi? – perguntou Hermione, interessada. Estava
quase certa que saberia o motivo da conversa particular entre o amigo e seu
pai.
Rony prendeu a respiração e balançou a cabeça, sinal
claro de que se sentia desconfortável com alguma coisa. Suas sardas pipocaram
em um brilho estranho.
- Papai acha que nós não devemos manter segredo
sobre... bem, sobre você-sabe-quem e os Comensais em Hogwarts – respondeu.
- Ele quer que nós anunciemos para a escola toda que
nossos professores são seguidores do Lorde das Trevas? – perguntou Hermione,
assustada.
- Sim, quero dizer... não... Somente para os mais
chegados. Os que nós acharmos dignos de confiança – disse
Rony, atrapalhado.
- Mas isso era a estratégia de Dumbledore e olha onde
ele foi parar – retrucou Gina, que largara completamente a revista e prestava a
atenção no irmão.
- Dumbledore anunciou o retorno de Você-sabe-quem e
fez isso para todo mundo. Foi o que papai nos disse – retrucou Rony.
- Entendo – resmungou Hermione, pensativa – Ele quer
que nós usemos uma abordagem diferente. Ao contrário de Dumbledore, nós vamos
avisar somente alguns dos nossos colegas.
- Acho que é isso.
- Mas como podemos saber em quem confiar ou não?
- Bom... isso ele deixou a nosso critério – resmungou
Rony, dando de ombros.
- E porque ele não deixou esta tarefa para eles? –
ainda perguntou Hermione, apontando para os gêmeos. Afinal, eles eram os
Weasley mais velhos que ainda estavam na escola. No entanto, a garota observou
rapidamente a total indiferença dos irmãos em relação aos assuntos importantes
que estavam discutindo. Ela suspirou fundo e encarou
Rony, que lhe respondeu com um soerguer da sobrancelha.
- Bom, e agora?
- Er... Mione, para quem você acha que nós devemos
contar?
Hermione pareceu indecisa por um momento, mordendo os
lábios.
- Neville – ruminou ela, mais
para si do que para os outros.
- Longbottom?
– exclamou Rony, inspirando profundamente. Neville era um
garoto desengonçado e muito grande, que morava com sua formidável avó.
Sofrendo de uma absoluta falta de confiança, o rapaz seguidamente se
atrapalhava nas aulas e estava preste a se tornar um desastre completo como um
bruxo.
Hermione pareceu captar os pensamentos do colega no
ar.
- Ele é confiável, Rony. E odeia terminantemente as
Artes das Trevas. Além disso, ele é amigo de Harry e confia nele. Não vejo
motivos para que ele desconfie de sua palavra.
- Ok! Ok! – concordou Rony, erguendo as mãos na
defensiva – Quem mais?
- Simas é legal, mas fala demais. Provavelmente metade
da escola já estaria sabendo antes do café da manhã – disse Hermione, olhando pensativamente para o teto – Lino está no penúltimo ano,
talvez ele seja uma boa opção.
- Legal! – disse Rony, que gostava muito das narrações
do garoto nos jogos de quadribol.
- Também tem o Dino Thomas, que dorme no mesmo quarto
de vocês. O problema é que ele é muito amigo de Simas – resmungou Hermione,
olhando para Rony, que coçou a cabeça. Mas o garoto não teve tempo para
responder.
Em um rompante, a porta se escancarou. Draco, Crabbe,
Goyle e um outro garoto que eles não reconheceram se postaram na passagem,
trancando o caminho. Fred e Jorge largaram imediatamente o jogo de xadrez e
sacaram suas varinhas. Hermione sentiu a tensão no ar como uma corrente
elétrica.
- Calma, Weasleys – resmungou Draco, com sua voz arrastada
– Vocês vão ter bastante oportunidade para isso na escola. Nossos novos
professores vão adorar suas investidas infantis – gracejou, tirando boas
gargalhadas dos três companheiros.
Rony encarou Malfoy, lívido de raiva.
Sem pestanejar, Draco vasculhou a cabine com o olhar,
erguendo uma sobrancelha.
- Onde está Potter? – rosnou, tentando esconder a
surpresa.
Rony ergueu as duas sobrancelhas, trocando uma
olhadela rápida com Hermione e afundando no assento.
- E então? –
rosnou Draco.
- Cai fora, Malfoy – disseram os gêmeos, fazendo
menção em se levantar.
- Onde está
Potter?
- Em um lugar que você nunca vai encontrá-lo. Nem seu
pai – desafiou Hermione, encarando o rapaz.
- Cala a boca, sangue-ruim!
Rony saltou do banco e quatro varinhas apareceram nas
mãos dos alunos da Sonserina. Fred e Jorge também se levantaram e até mesmo
Gina avançou.
Malfoy rilhou os dentes, provavelmente pesando os prós
e contras de provocar uma briga no meio do trem.
- Vamos, temos que achar o Potter – sentenciou, se
afastando devagar, sem tirar os olhos das varinhas apontadas para eles.
- Ótimo! Este vai ser um ano particularmente
fantástico – caçoou Rony, irritado, enquanto fechava novamente a porta com um
grande estrondo.
- Dumbledore estava certo – meditou Hermione,
pensativa – Eles estão atrás do Harry.
- Aposto que Malfoy vai comer o chapéu quando souber
que ele foi para Beauxbatons – riu Rony, satisfeito.
Hermione não respondeu, tentando se lembrar de onde
reconhecera o garoto que chegara com Draco.
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