Capítulo 10 - A
Seleção de Sonserina
O Expresso Hogwarts chegou na escola debaixo
da maior tempestade que Rony já presenciara. O aguaçal começara há cerca de
meia hora e as gotas pesadas e o vento inclemente molhara todos os alunos até
os ossos. Hermione, assim como a maioria dos alunos mais velhos, conjurara um
feitiço Impervius, que criava uma
espécie de capa protetora sobre ela, mas a tempestade era tão forte que mesmo a
magia não impediu da garota se encharcar.
Na saída da estação de Hogwarts, as primeiras
mudanças foram sentidas pelos alunos. Hagrid não estava lá para receber os
calouros, como era de se esperar. No seu lugar, McNair, trazendo um enorme
guarda-chuva vermelho, berrava com os calouros, ameaçando açoitá-los caso estes
não se apresassem. Hermione temeu pela sorte dos novos alunos que deveriam
atravessar o lago debaixo daquele manancial de água e sob os gritos daquele
brutamontes. Deixando o orgulho de lado, se escondeu no meio dos Weasley e
seguiu os amigos até a fila de carruagens sem cavalo que deveriam levá-los até
o castelo.
- Caracas! – resmungou Rony, tentando torcer
as longas vestes negras, formando enormes poças no chão.
- Onde está Harry? – perguntou Neville,
entrando rapidamente na carruagem, seguido por Gina.
Hermione e Rony se entreolharam. A garota
fechou a porta com força, baixou o tronco e começou a cochichar. O rosto
rechonchudo do rapaz foi se modificando em um esgar de horror, as faces
avermelhadas e os dentes serrilhados.
- Mantenha segredo absoluto sobre isso,
Neville – ainda pediu Hermione para o rapaz.
- Certo – murmurou ele, quase gaguejando –
Nós... temos que ficar juntos... Certo. Eles... Eles em Hogwarts... Isso não
está certo – resmungou.
Rony ergueu as sobrancelhas, temendo que o
garoto sofresse um ataque dos nervos e botasse tudo a perder. No entanto, a
revelação de que os inimigos dos bruxos livres estavam mais perto do que eles
esperavam não deixou o garoto em pânico. Ele parecia lívido, isso era óbvio de
perceber, mas sua mente fervilhava em outras direções, muito diferentes do que
os amigos poderiam imaginar.
O final da viagem foi melancólico. Os garotos
chegaram encharcados e exaustos às escadarias que levavam ao grande salão.
Deixando um rastro de lama e água pelo chão de pedra, centenas de estudantes se
acomodavam da melhor forma possível nos seus lugares, divididos nas quatro
grandes mesas comunais. Rony, Hermione, Gina, Fred, Jorge e Neville sentaram
juntos, olhando preocupados para a mesa dos professores. Uma coleção de rostos
desconhecidos era pontilhada pela presença desassossegadora de Severo Snape,
sentado do lado esquerdo da cadeira principal. No entanto, Lúcio Malfoy não se
encontrava presente. O atual professor de Defesa Contra as Artes das Trevas
olhava os alunos com seu desprezo habitual, fungando de impaciência enquanto
todos se acomodavam. Os demais misturavam expressões de desdenho e ironia.
Crabbe e Goyle, sentados pomposamente na mesa da Sonserina, olhavam com orgulho
os pais atarracados, que pareciam dois armários que ganharam vida. Eles eram os
únicos que Hermione tinha certeza de quem era, pois os demais ela nunca vira
antes.
- Aquela deve ser Amico Tísis – cochichou,
apontando discretamente para uma mulher de cabelos negros sedosos e olhar
lânguido, emoldurados por um par de sobrancelhas grossas que lhe davam um
aspecto de uma ave de rapina.
- É a irmã do tal Aleto? – perguntou Neville.
- Psst! – reclamaram Rony e Gina, olhando feio para o garoto –
Nós não podemos comentar estas coisas em público! – acrescentou Rony, olhando
feio para Hermione como se colocasse a culpa nela.
O garoto se encolheu no seu próprio canto,
pedindo desculpas. Hermione lançou um olhar de censura para Rony, que deu de
ombros, virando o rosto.
- Ei, onde está Harry? – perguntou Simas, se
sentando.
Fred e Jorge baixaram a cabeça, enquanto Rony
se encolheu em um canto. Hermione tentou responder, mas as palavras lhe fugiam.
Quem salvou a situação foi a mente esperta da Gina.
- Nós não sabemos – disse ela, simplesmente.
- Não
sabem?
- Ele não apareceu no trem – emendou Hermione.
Logo, o não comparecimento de Harry se tornava
o centro das conversas na mesa da Grifnória. Uma grande aglomeração em torno de
Rony e Hermione se formou em poucos segundos, assustando um pouco a garota. Ela
duvidava que aquele conglomerado de alunos tivesse se formado mais rápido se
tivesse utilizado um feitiço convocatório. Os garotos tiveram um enorme
trabalho para convencer os colegas que não tinham a mínima idéia de onde estava
Potter e que, não, realmente não estavam
escondendo nada!
Quando os alunos se afastaram, desconfiados, Hermione
recebeu um safanão do Rony.
- Eles vão descobrir que nós estamos mentindo!
- Eu sei! – reclamou ela, exasperada – Eu
quero é que eles não descubram...
Pelo menos, por enquanto - respondeu,
apontando para a mesa da Sonserina.
- E como você espera convencer alguém sobre...
os Comensais? – sibilou, quase sussurrando.
Antes que a garota pudesse responder, a porta
do salão se abriu e McNair entrou, empurrando os calouros na sua frente. Com
desdém, o novo professor de Trato das Criaturas Mágicas subiu até o púlpito e
se sentou com um grande baque. Para a surpresa de todos, Snape se levantou.
- O novo diretor de Hogwarts... – disse,
fazendo uma pausa para que todos acompanhassem suas palavras – ...deve estar
entre nós em poucos momentos. Enquanto isso, iniciaremos a seleção. Sra. Tísis,
se me faz o favor.
Hermione fez um muxoxo de satisfação pessoal
quando viu a mulher com cara de falcão se levantar. Ela era alta, usava um
vestido preto colado ao corpo e um chapéu pontudo e fino, com uma ponta de
prata. Ela levantou um saco sujo do chão e retirou, com indisfarçável nojo, o
velho e surrado chapéu seletor. Segurando o objeto mágico com a ponta dos
dedos, ela foi até os calouros, levando consigo uma lista comprida.
- Agner, Marco – chamou, a voz aguda
reverberando pelo salão.
- Ele não fez o discurso! – exclamou Hermione,
se segurando no tampo da mesa. Rony e os gêmeos se entreolharam, mudos de
espanto. A surpresa não ficou restrita aos alunos da Grifnória. Logo, muitos
alunos se viravam e cochichavam, trocando impressões, visivelmente espantados.
Até mesmo alguns estudantes da Sonserina pareciam preocupados. Os comentários,
que pareciam mais exacerbados do que o costume, atingiram níveis alarmantes e o
professor Snape teve que fungar três vezes antes que a turba diminuísse de
volume.
Hermione rilhou os dentes, apertando os olhos
para observar melhor.
- Ele parece... estuporado – cochichou,
apontando discretamente para o púlpito.
- Ele quem? Snape? – perguntou Rony,
observando o atual professor de Defesa Contra as Artes das Traves e, pelo que
tudo indicava, o novo vice-diretor da Escola.
- Não! O chapéu! – respondeu Hermione,
impaciente, observando com atenção os fiapos de couro do objeto mágico, que
pareciam esgarçados e sem brilho.
Rony observou Hermione como se ela estivesse
com um parafuso a menos.
- Eles estuporaram... um chapéu? – retorquiu o garoto, enquanto a mesa da Sonserina
comemorava a seleção do aluno.
- Atticus, Cornélius – berrou a Sra. Tísis.
- Ele não parece estranho? Não parece mais
velho?
- Sonserina – resmungou o chapéu, a voz,
decididamente, mais cansada.
- Ele tem mais de mil anos, Mione!
- Bonnes, Caroline!
- Ele não fez o discurso...
- Sonserina!
- Talvez ele esteja cansado... Ou sinta a falta
de Dumbledore!
- Carogan, Murdock!
- Ele foi enfeitiçado!
- Sonserina!
- É claro que foi enfeitiçado! Ele é um chapéu falante, Mione!
- Cornwell, Mathias!
- Não é isso! – fungou Hermione, dando um tapa
na mesa, finalmente perdendo a paciência – Ele parece... transtornado!
- Sonserina!
- Era só o que me faltava. Depois dos elfos
domésticos, você quer salvar também os objetos mágicos falantes?
- Crowley, Suzana!
Hermione lhe lançou um olhar furioso.
- O que você acha que ele tem? – insistiu
Rony, provocando a amiga – Depressão?
- Sonserina!
- Eu acho que você não deveria ironizar os
sentimentos dos outros, sua mula insensível!
- Dunges, Lawrence.
- Ei, se é pra ofender... – começou Rony,
furioso.
- Querem calar a boca vocês dois? – resmungou
Fred, chamando a atenção dos brigões – Vocês não percebem o que está
acontecendo?
- Sonserina – resmungou o chapéu.
Hermione se virou abruptamente, retornando a
realidade. Ela mirou o jovem Lawrence se dirigir desconfiado para a mesa da
Sonserina, onde todos os outros calouros
já se encontravam. Rony esbugalhou os olhos, prestando atenção aos murmúrios de
indignação e desconforto das outras mesas.
- Eles vão selecionar todos os calouros? –
balbuciou.
- É o que parece, irmãozinho – ironizou Fred,
emburrado.
- Eu disse que o chapéu estava enfeitiçado –
resmungou Hermione, olhando duro para Rony, que abaixou as orelhas. No entanto,
para seu espanto, logo depois de Eiwe, Marta ser selecionada para a Sonserina,
um aluno mirrado e de óculos grossos, chamado Nicholas Floyd, foi escolhido
para a Grifnória. Um urro de satisfação e alívio percorreu as mesas, inclusive
entre os Weasleys.
- Talvez tenha sido só uma coincidência –
arriscou Rony, sem grande convicção.
Hermione apertou os olhos, incrédula, e com
toda a razão. Novamente, o chapéu continuou com o seu monólogo repetitivo,
selecionando mais e mais alunos para a Sonserina. No final, somente o garoto Floyd
e uma menina de pele clara e rosto cheio de acne, Jacinta Maxwell, foram
selecionados para a Grifnória. Os demais, sem exceção, sentaram à mesa da
Sonserina, cujos alunos apertavam os espaços nos bancos para acomodar tantos
novos calouros. Os ocupantes das duas outras casas observavam a movimentação,
atônitos.
A Sra. Tísis enfiou o chapéu seletor novamente
no saco sujo, atirando o inestimável objeto mágico em um canto. Hermione sentiu
um arrepio de frio, como se fosse o seu corpo sendo atirado como um trapo.
Alguns murmúrios de protesto foram ouvidos, mas o silêncio imperou rapidamente
quando o professor Snape se levantou. Um olhar mais frio que o costume teve
efeito imediato nos alunos.
- A seleção foi realizada e, como sempre, o
caráter decisório do chapéu seletor é irrevogável – enfatizou, encarando as
mesas da Cornival, Lufa-Lufa e Grifnória. Alguns alunos da Sonserina gargalhavam
à vontade e Rony teve uma súbita vontade de atirar o seu prato vazio na direção
daqueles metidinhos de uma figa.
- Também é meu agradável dever, na ausência do
nosso novo diretor, de apresentar os novos diretores das casas seculares que
representam o sustentáculo de Hogwarts – sentenciou, a voz fria e suave com um
leopardo à espreita.
- Naturalmente, eu vou conciliar minhas
atividades como novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas ... – e
aqui, Snape fez uma grande pausa para receber diversos aplausos da turma da
Sonserina - ... com o cargo de vide-diretor... – outra pausa e novos aplausos,
seguidos também por alguns professores - ... e Diretor da Casa de Sonserina! –
novos e entusiasmados aplausos da mesa de Draco, que tinha as mãos vermelhas.
- Puxa-saco sebento – disse Rony, só por
dizer.
- O Sr. Lince Avery será o novo Diretor da
Lufa-Lufa – anunciou Snape, enquanto um homem baixo e com uma cara de focinho
de porco se levantava com dificuldade. Ele tinha os olhos miúdos, as mãos trêmulas
e uma expressão de terrível contrição. Poucos e esparsos aplausos se seguiram
ao nome de Avery.
- A Sra. Amico Tísis será a nova Diretora da
Cornival – continuou Snape, apresentando a esguia professora. Alguns aplausos
mais animados correram a mesa dos seus novos comandados.
- Quanto a Grifnória... – rosnou Snape,
aproveitando o doce momento de vingança, lançando um olhar particularmente
feroz aos alunos da mesa vermelha e dourada – Eu creio que ficarão muito
satisfeitos com sua nova diretora. Ela vem de uma das famílias mais
tradicionais da bruxidade inglesa. A senhora...
A grande porta do Salão de Hogwarts se abriu
novamente, o que calou o professor Snape. Ele cruzou os braços e se sentou, observando
Lúcio Malfoy realizar sua entrada triunfal como novo diretor da escola. Os
alunos da Sonserina se colocaram em pé, aplaudindo entusiasticamente o pai de
Draco, que não cabia em si de felicidade, recebendo inúmeros cumprimentos dos
colegas.
Rony rilhou os dentes, bufando de raiva.
Sentimento este que era compartilhado pelos irmãos e por quase toda a mesa da
Grifnória. Obviamente, ninguém sabia que o rico e influente Lúcio Malfoy era,
de fato, um dos braços direitos de Voldemort. No entanto, Draco e a turma da
Sonserina eram conhecidos pelo seu atrevimento frente às Artes das Trevas, além
de sua particular tendência em perseguir os alunos das demais Casas.
Logo atrás do novo diretor, que subia no
púlpito com seus habituais trajes pretos e seu chapéu de ponta fina, uma mulher
forte e de olhar arguto seguia os passos de Malfoy. O novo diretor puxou uma
cadeira para sua convidada, olhando com satisfação do alto da cadeira principal
para o salão repleto de alunos. Ele deu um leve sorriso ao ver a mesa da
Sonserina recheada de alunos, enquanto espaços vazios permeavam as demais
casas.
- Onde o senhor estava, professor Snape? –
perguntou, abrindo um sorriso malicioso.
- Ah, sim! Nós chegamos bem na hora, não é
mesmo? Tenho prazer de anunciar a nova professora de Astronomia e Diretora da
Grifnória – disse, elevando o tom de voz e olhando de soslaio para a mesa à sua
esquerda.
- A Sra. Andrômeda Black! – anunciou, batendo
palmas.
Um baque
estridente se seguiu a esta declaração. Neville havia derrubado seu copo no
chão.
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