Capítulo 05 – Jantar em Família
Rony suspirou fundo, desanimado. Passara o dia inteiro
praticamente sozinho no seu quarto, depois que mandara a coruja para Hermione. Com a cabeça cheia de problemas, o garoto
preferiu o isolamento no segundo andar da Toca à companhia barulhenta dos
irmãos mais velhos no quintal. Achava mais fácil manter a promessa de ficar
quieto sem a presença dos gêmeos.
Sentira uma vontade louca
de quebrar tudo nas últimas horas, mas sabia que estes arroubos adolescentes
não passariam incólumes sob a visão dos pais, mesmo sob tais circunstâncias. A
possibilidade de freqüentar uma escola trouxa o enchia de temor. No entanto,
tinha certeza que, se os seus pais não encontrassem uma solução para os
problemas financeiros da família, eles e os irmãos acabariam por serem matriculados a força em uma instituição pública inglesa.
Obviamente, sem a possibilidade de finalizar seus estudos mágicos e com nenhum
ponto de N.O.M – Níveis Ordinários de Magia, que seriam aferidos neste ano – as
chances dele e de Gina conseguirem um emprego decente
na comunidade bruxa diminuía até o sopé do Mar Morto. Com um calafrio,
imaginava seu futuro lustrando objetos mágicos de origem duvidosa nas mal
fadadas lojas da Travessa do Tranco ou servindo sopas gordurosas no Caldeirão
Furado.
Recheado de pensamentos
sombrios, o jantar em família foi parecido com que o garoto imaginava ser as
torturas nos trasgos durante a Revolução dos Gigantes. Ele sentara à mesa e
trocara olhares preocupados com os pais, que se esforçavam para fingir uma
tranqüilidade normal. Percy, que fora transferido
para um cargo subalterno no Departamento de Transportes Mágicos depois do
fiasco com o episódio do Sr. Crouch
– assassinado pelo próprio filho durante o último ano, em um dos últimos
degraus galgados por Voldemort para alcançar o poder
-, estava entusiasmado com os novos modeloos de vassouras familiares que estavam
sendo propostos para aquele ano. O Sr. Weasley, tentando manter as aparências, mantinha com muito
custo uma conversa incipiente e chatíssima sobre as normas de vôos e viagens,
pontuada muito mais por expressões distantes e grunhidos que o normal.
Enquanto isso, Fred e Jorge
aproveitavam o devaneio dos pais para encantar seus próprios garfos e travar
uma batalha encarniçada, usando palitos como espadas. Gina
observava fascinada o embate mágico, enquanto a Sra. Weasley enchia o prato de Fred pela segunda vez, que
reclamou quando sua tigela transbordou.
- Ei!
– exclamou, pulando para trás enquanto a sopa borbulhante escorria pela mesa.
- Desculpe, Jorge – disse
ela, com a voz macia e um sorriso amarelo consternado.
- Eu sou o Fred – resmungou
o garoto, limpando as vestes.
- Pode deixar que eu ajudo, Molly – se apresentou
prontamente o Sr. Weasley, aproveitando a deixa para
se livrar do monólogo aborrecido de Percy. Em pouco
tempo, os dois já se dirigiam até a cozinha, procurando trapos enquanto
confidenciavam um ao outro. Rony notou o movimento
sub-reptício dos pais, mas voltou rapidamente os olhos para a sopa, que lhe
parecia insossa.
Enquanto isso, Jorge
aproveitou a desatenção do irmão para avançar seu garfo com uma fúria desmedida,
atacando violentamente o boneco mágico de Fred, quebrando os dois dentes
externos e pondo fim à luta.
- Caramba,
Jorge! – resmungou Fred, furioso, se envolvendo em uma feroz discussão com o
irmão, enquanto Gina dava de ombros e voltava sua
atenção para a sopa. Os brados só acalmaram quando o Sr.
e Sra. Weasley retornaram da cozinha, olhando feio
para os gêmeos.
Fred, ainda irritado com a
deslealdade do irmão, procurou alguém em quem descontar a frustração. Passando
os olhos pela mesa como uma ave de rapina, rapidamente achou o que estava
procurando.
- O que tem o Roniquito? –
perguntou, entre os dentes.
Jorge largou a colher e
voltou sua atenção para o olhar perdido do irmão. O Sr.
e a Sra. Weasley se entreolharam, nervosos. Rony arriscou um leve levantar de sobrancelhas para os pais
antes de dar de ombros, emburrado.
- Está chateado por voltar
para a escola, baixinho? – continuou Fred.
- Ou é porque levou um
passa-fora da sabe tudo? – emendou Jorge, piscando um olho maroto.
- Não enche – murmurou Rony, com cara de poucos amigos. Se já não bastasse as implicâncias normais daqueles dois, ainda tinha que
agüentar aquelas provocações sem sentido acerca dele e de Hermione.
- Ora, só porque ele é alto...
- Bonito...
- Eca! – resmungou Gina, obviamente discordando dos conceitos de beleza dos
gêmeos.
- Jogador profissional de quadribol...
- Famoso...
- Rico...
- É, irmãozinho... –
completou Fred, balançando a cabeça em tom condescendente - ... realmente você
não tem nada com o que se preocupar! – concluiu, rindo junto com o irmão e
batendo as palmas da mão.
- Já disse... Não enche! –
respondeu Rony, fuzilando os gêmeos com um olhar
assassino, sentindo suas têmporas esquentarem como um caldeirão queimado.
Obviamente, ele entendera muito bem sobre quem os gêmeos estavam falando: Vitor Krum!
Jogador profissional de quadribol, aluno do último
ano do Instituto Durmstrang e par de Hermione no Baile de Inverno, no último ano. Mesmo sem
querer, Rony sentia seu estômago embrulhar só de
ouvir aquele nome.
- Fred! Jorge! Já chega! –
resmungou a Sra. Weasley,
naquele tom inconfundível de quem estava dando o último aviso.
Os gêmeos voltaram sua
atenção para a sopa, ainda rindo do irmão. Rony
largou a colher com estrondo na mesa. Perdera o resto do apetite, mirando,
desolado, a tigela à sua frente, que esfriava lentamente. Observou a fumacinha desaparecer sob suas vistas, em uma espiral
hipnótica.
A Sra.
Weasley percebeu o tom desanimado do filho e,
temeroso que o rapaz fizesse alguma bobagem, não perdeu a oportunidade.
- Rony,
querido. Se já terminou, pode ir se deitar. Sei que está realmente muito cansado. Os outros me ajudam com a
louça.
- Ei!
Porque só ele está cansado? O baixinho passou o dia inteiro no quarto! –
protestaram Jorge e Fred, praticamente em uníssono. Gina
abriu a boca também, mas a Sra. Weasley
os cortou um olhar capaz de congelar uma caixa de Fogos do Dr. Filibusteiro.
Sentindo três pares de
olhos raivosos nas costas, Rony arrastou seus pés até
a escada, subindo com vagar. Assim que entrou no quarto, ouviu o nítido bater
de asas na janela. Arregalando os olhos, correu para a tranca e a abriu com um
estrondo. Uma coruja enorme e de porte magnífico esvoaçou pelas camas até
pousar com elegância no ombro do garoto, que quase caiu para trás com o peso.
Ele podia jurar que nunca vira aquela ave antes, contundo havia algo de
familiar naquelas penas e naquele rosto redondo.
- Pichi?! – exclamou Rony, olhando incrédulo
para a coruja, que lhe deu uma bicada de confirmação, quase arrancando o dedo
indicador do garoto.
- Ai! Coruja idiota! –
vociferou, apertando a mão entre as pernas e puxando com raiva a mensagem
presa. Pichi soltou um pio desaforado e se empoleirou
na janela, olhando com admiração para as próprias asas, limpando as penas
fortes com o bico. Sem perder tempo, o garoto sentou na cama e puxou o
pergaminho para si, ainda amaldiçoando a ave por ter lhe
mordido. A caligrafia elegante de Hermione
saltou-lhe os olhos.
Oi Rony
Falei com o Harry pelo
telefone, Ele está passando alguns dias com Olho-Tonto Moody,
na sua casa forte (não pergunte, também não entendi direito o que vem a ser uma
casa forte!). Ele já sabia do que estava acontecendo. Snuffles
o resgatou da casa dos Dursley a mando de Dumbledore.
Rony, eu sei que você vai ficar bravo comigo, mas eu contei tudo ao Harry sobre a decisão do Malfoy.
Ele me deu um conselho estranhíssimo que eu só estou repassando porque ele me
fez prometer. É bom levar em conta que ele está sob um forte impacto emocional
– como todos nós! – e talvez o seu julgamento não seja o mais recomendável. De
qualquer maneira, lá vai: ele pediu para você contar tudo para os gêmeos.
É, eu sei que você estará desrespeitando uma
promessa que fez aos seus pais. Particularmente, acredito que seria uma
tremenda falta de educação quebrar esta promessa. É bom que saiba que esta
opinião é exclusiva de Harry e eu não vejo nenhum
motivo para corroborar esta decisão.
Há ainda outra coisa, e é melhor você se
sentar...
Harry vai para Beauxbatons este ano. Dumbledore acha melhor mantê-lo longe de Hogwarts, pelo menos enquanto ELES estiverem no comando da
instituição.
Eu sei que estas não são as notícias que você
esperava, mas é melhor lidarmos com a verdade desde já, não é mesmo?
Nos vemos no Expresso para Hogwarts.
Hermione
P.S. Eu realizei um
feitiço refortificante na Pichi.
Ela não agüentaria retornar para a Toca no mesmo dia e eu estava com pressa.
Não se preocupe, o efeito deve passar em alguns dias.
É engraçado com a mente funciona, pensaria Rony, dias depois. De todas as notícias apavorantes da
carta de Hermione, a que marcara prontamente o garoto
fora o fato da amiga já saber realizar um feitiço refortificante
em um animal complexo como uma coruja. Isso era magia avançada, cobrada somente
nos N.I.E.Ms – Níveis Incrivelmente Exaustivos de Magia!
Como era de se esperar, assim que sua admiração pela
amiga passou, ele sentiu o aperto no coração aumentar. Harry
não voltaria para Hogwarts; o que era perfeitamente compressível,
considerando o número absurdo de Comensais da Morte que estariam circulando
livremente pela escola no ano letivo que iniciava. Para piorar sua amargura,
sua única esperança estava em algum plano maluco do amigo que envolvia os seus
intragáveis irmãos mais velhos, os gêmeos Fred e Jorge.
Nesta questão, ele concordava inteiramente com Hermione. Falar com os gêmeos sobre os problemas
financeiros da família não traria benefício algum – imaginava, enquanto atirava
um petisco para Pichi e outro para Edwiges.
“O que será que Harry estava
tramando?” – pensou, intrigado.
Enquanto remoia estes pensamentos, olhou de soslaio
para o embrulho com a etiqueta da Pollwhish & Pollwhitch. Sem nenhuma disposição para perder tempo com
aquelas brincadeiras idiotas dos irmãos, atirou uma veste suja sobre o pacote e
pulou para a cama, o estômago vazio reclamando de falta de atenção. Mordendo os
lábios, imaginou a longa viagem até Hogwarts sem a
companhia do melhor amigo. Não sabia quando veria Harry
de novo, nem mesmo se conseguiria se comunicar com ele!
“Será que a Pichi agüentaria
viagens internacionais com tanta freqüência?” – pensou, emburrado. Talvez fosse
melhor ele tomar umas aulas com a Hermione. Um feitiço refortificante na sua coruja
minúscula viria bem a calhar agora...
Ficou horas matutando sobre os
conselhos de Harry escritos na caligrafia fina e
delicada da Hermione. Os gêmeos subiram para o quarto perto das dez horas, mas Rony fingiu ressonar. Sua cabeça estava atulhada de pensamentos
perdidos e pontilhada de Comensais da Morte, fazendo com que o rapaz suasse
frio, a despeito do calor de final de verão. Entreouviu, por baixo dos lençóis,
os irmãos comentando sobre Hogwarts e o que fariam
quando lá chegassem. Fred insistia em conseguir uma autorização para vasculhar
a ala proibida da biblioteca. Seus planos em relação a uma loja de logros e
brincadeiras ainda estavam em pé, e eles precisavam buscar feitiços novos e
interessantes para os possíveis clientes. Enquanto isso, Jorge andava louco
para testar suas novas experiências nos alunos mais novos, a Pílula do Roncador e o Doce da Boca Mole.
Rony se sentiu péssimo por escutar a conversa dos irmãos.
Ele sabia que os dois, apesar de amalucados, adoravam Hogwarts
e se sentiriam miseráveis se não pudessem retornar. No entanto, o garoto se
sentia pouco à vontade de ser o portador de notícias tão devastadoras! Seus
pais tinham pedido – na verdade, quase implorado
– para que ele se mantivesse quieto, mas o garoto não sabia que agüentaria arcar
com toda aquela responsabilidade.
Os irmãos dormiram a sono alto enquanto o rapaz se
contorcia embaixo das cobertas. Passou a noite em
claro, mordendo as unhas e suando como um furanzão
geriátrico. Quando amanheceu, tinha tomado uma resolução.
<< Capítulo Anterior Próximo Capítulo>>