Capítulo 04 – Telefone
de Trouxas
Hermione Granger usava uma grande escova para
tentar abaixar os cabelos lanhosos e volumosos que adornavam sua cabeça,
lutando com todas as forças contra aquele utensílio decididamente trouxa. Ela não gostava deste rótulo – trouxas -, que os bruxos em geral
utilizavam com aqueles que não possuíam poderes mágicos. Afinal, seus pais eram
dentistas e, indubitavelmente, trouxas. No entanto, prestes a entrar no quinto
ano da Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts, a garota lentamente se afastava da
herança não mágica dos pais e começava a se irritar com mais facilidade com
aquele parafernália de aparatos trouxas.
A escova mágica que a garota comprara em Hogsmeade, a única vila completamente
bruxa da Inglaterra, era muito mais fácil
de usar – resmungava, em um muxoxo.
No
entanto, seus pais haviam lhe pedido para usar o mínimo de coisas mágicas na
sua casa. Não que eles tivessem algum tipo de preconceito ou medo da filha
bruxa. Seu houvesse uma família com sentimentos mais diversos dos Dursley, os
famigerados tios de Harry, estes seriam o Sr. e a Sra. Granger. Entusiasmados
com a carta que receberam de Hogwarts há quase cinco anos, os pais de Hermione
aceitaram muito bem o fato da única filha ser uma bruxa e estar estudando na
escola de bruxos desde então.
Mas a perspicaz Sra. Granger, um pouco
amedrontada com o fato da filha estar se distanciando cada vez mais das suas
raízes familiares, teve uma conversa bastante esclarecedora com a filha, quando
esta regressou para as férias de verão. No final, elas chegaram a um acordo e a
varinha de Hermione, bem como a grande parte de seus apetrechos mágicos, estava
fielmente guardada dentro do malão de Hogwarts, enfiado debaixo da cama da
garota. Ela aceitara o pedido sem restrições, pois seus pais haviam deixado de
fora todos os livros da escola – incluindo todo o material do quinto ano.
Considerando que seus preciosos volumes eram a coisa mais importante na vida da
garota, as férias haviam passado em relativa tranqüilidade.
A
garota bufou de raiva e frustração novamente. Irritantes minutos se passaram e,
finalmente, Hermione desistiu de lutar contra a cabeleira e desceu as escadas
de sua residência em Oxford, bufando consternada com sua inabilidade com uma
simples e ridícula escova.
- E
pensar que eu posso muito bem preparar qualquer poção do sexto ano – resmungou,
mais para si do que para a mãe, que se ocupava em preparar o desjejum.
- Bom
dia para você também, menina – disse a Sra. Granger, já acostumada com os
arroubos irritadiços da filha quase todas as manhãs, principalmente nos últimos
dias.
- Bom
dia, mãe – disse rapidamente, em tom de desculpas, observando atentamente a
Sra. Granger arrumar o café da manhã, os longos cabelos louros presos em um
coque muito bem feito. Ela usava uma impecável roupa branca de dentista, o que
contrastava com os lábios vermelhos e os dentes brilhando.
Hermione
passou novamente as mãos sobre os cabelos lanhosos, bufando, observada pelo
canto do olho pela Sra. Granger. Sem saber, mãe e filha estava pensando quase a
mesma coisa. Apesar da garota sentir quase vergonha dos sentimentos que lhe
afloravam nos últimos dias, era óbvio que uma grande transformação estava ocorrendo
com Hermione. Normalmente mergulhada no meio de uma enxurrada de livros e
pergaminhos, a garota nunca se permitiu gastar um pouco do seu tempo para
pensar em si mesmo. Ela considerava o hábito de passar horas na frente do
espelho, como ela estava acostumada observar nas colegas, uma absoluta perda de
tempo. A Sra. Granger sorriu para o gesto da filha, mas resolveu permanecer
calada.
A
garota bufou novamente, revoltada com sua inabilidade, ao mesmo tempo em que
agarrava uma colher com violência, mirando sua face na sua superfície prateada.
Logo depois, atirou novamente a colher sobre a toalha azul xadrez, cruzando os
braços, insatisfeita.
Sua mãe
lhe serviu leite e torradas de pão de centeio.
-
Mãe... – resmungou ela, com uma torrada na mão, sem sentir a mínima vontade de
comer.
- Sim?
– respondeu a Sra. Granger, se esticando para agarrar o pote de biscoitos sem
açúcar da última prateleira do armário.
- Você
me ajuda com o meu cabelo? – pediu, com uma voz tão sumida que sua mãe mal
ouvira. Assim que falara, a garota corou terrivelmente.
A Sra.
Granger sorriu novamente, aproveitando que estava de costas para a filha. Ao se
virar, já exibia o ar mais natural que conseguira.
- É
claro. Mas o que você quer fazer com eles?
Eu acho seu cabelo tão bonito... – replicou com um sorriso. Ela se
aproximou da garota, notando o visível embaraço dos fios que a menina sofrera
tanto para romper, sem lograr êxito.
- Eles
estão horríveis! – exasperou-se, erguendo a mão em protesto contra o jeito
condescendente da mãe.
-
Hmmm... – concordou a Sra. Granger, com um muxoxo, erguendo uma sobrancelha
enquanto passava delicadamente as mãos tranqüilas e graciosas nos cabelos da
filha – Acho que tenho exatamente o que precisamos – disse, abrindo um sorriso.
- Jura?! – exclamou a garota, exaltando um
ar de felicidade que arrancou o terceiro sorriso cúmplice da mãe.
- Sim,
está lá no meu quarto. Se você quiser, depois do... – mas a Sra. Granger não
conseguiu terminar a frase, pois a filha já saltara da cadeira e pulara de
volta para o corredor. Erguendo ainda mais as sobrancelhas, ela decidiu seguir
Hermione, encontrando seu marido descendo as escadas. A garota acabara de
passar correndo por ele, soltando um beijo no ar.
- O que
está acontecendo? – perguntou, com a expressão divertida.
-
Coisas de mulher – respondeu-lhe a Sra. Granger, fazendo um carinho na face do
Sr. Granger e seguindo depressa para o segundo andar.
- Ligue
para o meu consultório – ainda gritou – Diga para minha secretária que eu vou
me atrasar um pouco.
***
Logo
após o almoço, Hermione ajudava seus pais com a louça suja enquanto saltitava
contente pela cozinha. O tratamento que sua mãe lhe emprestara encacheara
levemente os cabelos, deixando-os mais sedosos depois de um bom tempo imersos em
um creme que lhe parecia terrivelmente com pus de bubotúberas diluído. No
entanto, a experiência da Sra. Granger com cabelos revoltos, afinal, suas
mechas louras não eram muito diferentes dos fios secos da sua filha, dera bons
resultados e a garota sorria, exibindo os dentes diminuídos magicamente no ano
anterior. Mas sua mãe já advertira que somente um tratamento continuado faria
surtir os efeitos desejados e era bom que ela se acostumasse a perder um
pouquinho mais de tempo para se cuidar.
Enquanto
Hermione retirava os últimos copos da mesa, o barulho inconfundível de asas
rebatendo ecoou pela janela de madeira. A garota saltou para o postigo,
deixando entrar a excitada e minúscula coruja de Rony.
- Pichi!
– exclamou, os olhos brilhando.
O Sr. e
a Sra. Granger trocaram olhares cúmplices.
- É a
coruja do seu amigo Rony, não é? – perguntou a Sra. Granger, que estava
absolutamente acostumada com as corujas que voavam para dentro de sua casa
durante todo o verão. O principal meio de comunicação bruxo já era bastante
familiar aos Grangers, apesar da sua mãe ter notado a presença contínua de
outra coruja que ela não conhecia. Estava acostumada com Hermes e Pichi, as
corujas dos Weasley, assim como a ave branca e magnífica de Potter. Mas uma
coruja imponente, de um negro translúcido, também aparecera diversas vezes
durante as férias, parecendo sempre muito cansada e sedenta, como se tivesse
feito uma grande viagem.
Alheia
aos pensamentos da mãe, a garota agarrou a corujinha, respondendo rapidamente.
- É,
sim – disse ela, acariciando Pichi.
- Pode
ler sua carta. Nós já estamos terminando – disse a Sra. Granger para a filha,
que sorriu agradecida e subiu correndo as escadas, se fechando no seu quarto
com um grande estrondo.
Hermione ralhou com o
Bichento, que se espreguiçava lentamente sobre sua cama de lençóis de linho
impecavelmente esticados. Apesar de não aceitar as provocações de Rony, ela
tinha certas suspeitas sobre os hábitos noturnas do gato de pêlos alaranjados e
feição complacente. Piscando o olho amarelo duas vezes para Pichi, Bichento
saltou para o chão e se enroscou na cadeira da dona, lambendo as patas.
A garota retirou um petisco
de corujas do saco que sempre mantinha na primeira gaveta do seu criado-mudo,
lançando o biscoito para a Pichi, que comeu com satisfação, empoleirada no
parapeito da janela de Hermione. Com mal disfarçada ansiedade, retirou o enorme
rolo que estava firmemente preso na pata esquerda da ave, puxando o pergaminho
para a cama. Enquanto lia a mensagem, seu queixo foi caindo na mesma proporção
que a felicidade lhe escorria pelo rosto como água da chuva. Momentos depois -
depois de reler a carta três vezes, para se certificar que entendera a letra hieroglífica
de Rony -, ela ouviu sua mãe lhe chamar do hall de entrada. Arrastando os pés,
escondeu a mensagem no fundo do bolso das calças jeans e desceu
melancolicamente os degraus.
- Nós já estamos saindo,
meu bem... Tudo bem com você? - perguntou a Sra. Granger, desconfiada da
expressão desanimada da filha.
- Er... Tudo bem - mentiu a
garota, sentindo a face enrubescer.
- Você tem certeza? -
insistiu sua mãe, enquanto esperava pacientemente o Sr. Granger buscar a maleta
com seus pertences.
- Claro! - respondeu a
garota, em uma exclamação tão alta que perturbou a Sra. Granger. Instintivamente, a mãe de Hermione mordeu
os lábios. Ela já havia se atrasado pela manhã e sua fila de pacientes deveria
estar dobrando o quarteirão. Acreditando que tudo não passava de,
provavelmente, algum drama juvenil, ela resolveu não insistir. Afinal,
pressionar sua filha adolescente sem ter tempo para aprofundar a questão não
era uma atitude que ela considerava das mais aconselhadoras. Em pouco tempo, um
apressado Sr. Granger carregou a esposa para fora, se despedindo rapidamente da
filha.
Hermione suspirou aliviada
ao notar a saída dos pais. Ela não queria preocupá-los com os assuntos da
escola, apesar destes estarem sempre atentos ao que se passava em Hogwarts. No
entanto, a garota os ocultará completamente de todos os problemas de verdade
que ocorriam no mundo mágico. Se limitando a comentar acerca dos colegas e das
pequenas desavenças juvenis, ela nunca falará uma única palavra sobre as
proteções mágicas que eles haviam desafiado no primeiro ano para chegar à pedra
filosofal, nem tampouco sobre seu congelamento temporário no segundo ano, que
quase lhe custara a própria vida. Provavelmente, sua mãe teria um chilique
nervoso se soubesse que a filha andava se virando com artefatos mágicos para
mexer com o tempo, como no terceiro ano, ou que soubesse de fonte fidedigna que
Voldemort, o bruxo mais perigoso que já existira, retomará os poderes. Desta
forma, não era possível para a garota comentar o que significava ter Malfoy
como diretor da escola.
-
Um Comensal da Morte dirigindo Hogwarts - sibilou ela, sentindo um arrepio
gelado que lhe congelou as entranhas.
A garota sentiu náuseas e
precisou se sentar, para não desmaiar. O que eles fariam? - pensou,
consternada.
Súbito, o telefone tocou e
o som estridente da campainha ecoou de forma fantasmagórica pelos corredores
vazios da residência dos Granger. A garota teve um sobressalto. Já tivera
notícias ruins demais por um dia. No entanto, todos os seus amigos lhe
correspondiam com corujas. Aquela deveria ser uma ligação para seus pais ou um
engano.
Atendeu o telefone
mecanicamente, a voz sem emoção.
- Alô?
- Hermione, é você?!
Caramba, que sorte... - respondeu uma voz bastante conhecida.
- Harry?!
- Oi, Mione - cumprimentou
o garoto, que sorria aliviado por ouvir uma voz companheira.
- Como você me encontrou? E
porque está usando um telefone dos trouxas? - insistiu a garota, olhando
incrédula para o aparelho como se procurasse algum sinal de encantamento ou
feitiço.
- Não foi fácil - respondeu
o garoto, com um alto grau de satisfação consigo mesmo - Eu aproveitei que
Moody tira uma soneca depois do almoço para subir para o primeiro andar. Ainda
bem que o telefone estava funcionando. Ele me contou que mantém o apartamento
como disfarce contra os trouxas.
A garota permaneceu muda,
espantada demais para fazer algum comentário. Harry interpretou o silêncio como
uma deixa para continuar.
- Depois, só foi contatar a
central telefônica. Sorte que eu sabia que você morava em Oxford e que não há
muitos Granger por aí - concluiu ele, dando uma risada meio abafada.
Novo silêncio.
- Mione, você ainda está
aí? - perguntou o garoto, preocupado. Afinal de contas, manter Hermione quieta
era uma das tarefas mais árduas que ele poderia imaginar.
- Isso... você aí com
Moody... é por causa da prisão de Dumbledore, não é? - respondeu a garota,
falando pausadamente, enquanto tentava conectar todas as informações que
recebera nos últimos minutos.
- Sim - respondeu Harry,
desanimado - É melhor eu lhe contar tudo... - decidiu, resumindo rapidamente a
sua situação.
- Então, você está preso
com Sirius na... como ele chamou mesmo?... ah,sim... Caixa forte de
Moody? - perguntou ela, balançando a cabeça, incrédula.
- Não... quer dizer, sim...
Mas Sirius foi embora. Eles acharam que já haviam dado muita bandeira sem a
presença do meu padrinho por aqui - respondeu, a voz traindo sua dor em ver
novamente Sirius se arriscar a voltar para Azkaban por sua causa.
- Bom, se Dumbledore achava
melhor você fugir da casa dos Dursley, eu imagino que ele tenha suas razões -
comentou a garota, tentando consolar o amigo.
- Eu sei. Eles me contaram
tudo pela manhã - disse Harry, a voz em um fiapo quase inaudível - Ele não quer
que eu retorne para Hogwarts!
- O QUÊ?!
- Ele diz que a escola vai
ser muito mais perigosa do que seu estivesse andando desacompanhado pela
Travessa do Tranco - resmungou, amargurado, enquanto sentia, tristemente, a
reação da garota se desenrolar exatamente como previra. E isso que ele ainda
não tinha contado para o Rony!
- Oh, céus, Harry.
Um silêncio incômodo passou
pela linha.
- Talvez... talvez ele
tenha até razão, Harry - resmungou Hermione, ainda perturbada.
- Eu sei - disse o garoto
com a voz embargada - Mas, e quanto a vocês? Malfoy pode descontar sua raiva
sobre você e Rony se eu não estiver aí... - protestou, sentindo sua cabeça
latejar. A possibilidade de Lúcio converter seu ódio de Potter para os seus
dois maiores amigos não era nada desprezível, e até mesmo Moody e Sirius haviam
concordado com as preocupações do garoto. Malfoy era rancoroso e
suficientemente malévolo para tornar a vida dos dois insuportável durante
aquele ano.
- Mas ele vai ser o diretor
da escola, Harry. Ele não pode sair perseguindo os alunos. O Conselho Escolar o
demitiria em segundos - protestou Hermione, tirando momentaneamente o garoto de
seus devaneios.
- O Conselho Escolar? -
desdenhou Harry - Aquele mesmo conselho que destituiu Dumbledore duas
vezes? - perguntou, balançando a cabeça - Metade dos alunos vão estar
pendurados pelos punhos na masmorra de Filch antes que o conselho descubra o
que está acontecendo.
Mais uma vez, somente o
silêncio se seguiu a este comentário.
- Isso não importa, Harry -
disse Hermione, decidida a não transparecer uma grama sequer de medo para o
amigo - Eu e o Rony sabemos nos cuidar. Você é que precisa ter cuidado! Para
onde você vai?
- Beauxbatons - respondeu,
amargurado.
- É uma das melhores
escolas da Europa - comentou Hermione - Segundo o livro Uma Avaliação da Educação em Magia na Europa, Beauxbatons é
considerada uma das melhores agremiações estudantes...
- Mione...
- ... e a diretora é amiga
de Dumbledore, você conheceu ela durante o ano passado, é claro... –
- Mioneee!
- Além disso, você já
conheceu alguém da escola! – continuou a garota, em uma súbita inspiração –
Fleur Delacour pode lhe ajudar a se enturmar. Ela anda de namorico com Gui e eu
tenho certeza que o Rony pode convencer o irmão a falar com a namorada. Ela
pode ser ótima companhia...
- Mione! – exclamou Harry,
em um tom mais alto sem, contudo, parar a metralhadora verbal da amiga.
- E você pode aprender
novas azarações e outros feitiços diferentes. É uma oportunidade única para
abrir seus horizontes, Harry! Saber realmente como a bruxaria está difundida em
nossa mundo e...
- HERMIONE! – gritou o
garoto, finalmente fazendo com que ela se calasse no meio da frase.
- Eu sei o que você está
fazendo e eu agradeço muito. De verdade! – disse Harry, sendo o mais sincero
possível – Mas Beauxbatons não é Hogwarts! E eu não estarei aí com vocês... –
concluiu, sentindo um nó na garganta.
- Eu sei... – murmurou
Hermione, em tom de desculpas.
- Só me prometa que vocês
vão cuidar um do outro, ok? Que vão deixar as diferenças de lado, para
variar... – pediu ele, lembrando nitidamente das brigas entre os dois amigos no
último ano por causa do fatídico Baile de Inverno e de um certo apanhador de
quadribol búlgaro.
Hermione mordeu a língua,
constrangida. Harry, mesmo à dezenas de quilômetros de distância, percebeu a
hesitação da amiga.
- O que foi?
- Nada – mentiu ela,
erguendo as sobrancelhas e xingando sua própria indiscrição.
- Nada uma dúzia de ovos de
salamandra – resmungou Harry, indignado. Tinha verdadeiro ódio que as pessoas
escondessem coisas deles, alimentado pelos anos que crescera na mais completa
obscuridão em relação ao mundo mágico – O que houve, Hermione?
A garota torceu as mãos no
telefone, um dilema interior a corroendo por dentro como sangue de dragão
concentrado. Ela não queria aumentar a carga de problemas do amigo com a
situação de Rony mas, ao mesmo, tempo, ela precisava desabafar a ansiedade que
sentia por perder seus dois únicos amigos.
- Mione! – vociferou Harry,
irritado.
- Tá bom! Ta bom! –
suplicou a garota, suspirando fundo. E como se derramasse todos os sentimentos
amargurados que já tivera na vida de uma vez só, contou toda a história que
Rony lhe mandara via correio coruja.
- ... e é isso – concluiu
ela, bufando – Eu não sei se eles vão ir para Hogwarts! – completou, se
referindo aos Weasley e tomando o cuidado de não tocar no nome do Rony. Era
dolorido demais pensar no amigo individualmente, mas a garota não conseguia
explicar o porque. Achava que devia sentir mais pena pela Gina, que era mais
jovem e vivera menos em Hogwarts... No entanto, seu coração lhe pregava mais
uma peça.
Harry, que sentira sua
raiva crescer como um gêiser aferrolhado, apertara os dentes até quase senti-los
trincar. Seu pescoço parecia uma bolsa de água quente e ele se imaginou tal
qual o Tio Valter quando ficava irritado. A lembrança dos Dursley clareou sua
mente e ele conseguiu falar novamente.
- Hermione, você disse que
somente o Rony sabe sobre o corte das bolsas, certo?
- Foi o que ele escreveu –
confirmou a garota.
- Certo... Hmmm – murmurou,
tentando tomar uma decisão, que foi muito
apressada ao sentir uma descarga mágica no quarto ao lado. Moody
despertara.
- Mione, eu não tenho
tempo. Moody está aqui – murmurou o garoto, a voz saindo rápida e quase
entrecortando as palavras – Mande o Rony falar com os gêmeos.
- O QUÊ? Os gêmeos? –
repetiu a garota, sem entender, balançando a cabeça e franzindo o cenho. Não havia
dúvidas de que compreendera mal o sibilar do amigo. As últimas pessoas do mundo
para quem Hermione pediria conselhos ou ajuda eram os desmiolados irmãos de
Rony.
- Isso mesmo! – exclamou
Harry, elevando o tom de voz mais do que gostaria – Mande Rony contar tudo para
os gêmeos!
- Harry, você não acha... –
começou a garota, preocupada que o choque das últimas notícias tivesse abalado
o bom senso do amigo.
- Agora não, Mione –
protestou Harry, cortando as delongas da colega ao ouvir o passo descompassado
da perna de pau do seu anfitrião logo atrás da porta – E diga para ele mandar
Edwiges para Beauxbatons – ainda pediu, desligando o telefone no exato momento
que Olho-Tonto Moody escancarava a porta com um feitiço, entrando com a varinha
em punho.
- Meio mundo atrás de você
e o senhor dá uma escapulida para falar com sua amiga, não é garoto? – rosnou
ele, o olho mágico percorrendo todo o aposento empoeirado e se fixando na
cicatriz de Harry, que sentiu sua face enrubescer. Súbito, ele percebeu uma
coisa.
- Como o senhor sabia
que...
- Eu não estou vivo como
auror até hoje sendo um otário, garoto. Minha obrigação é saber das coisas. Os
Weasley nunca teriam um helefone
instalado na sua casa, mesmo com aquela fixação idiota de Arthur pelos
artefatos trouxas. A única opção lógica era a Srta. Granger – resmungou Moody,
em uma careta.
- Eu precisava falar com
ela – respondeu Harry em voz baixa, mas sem pedir desculpas.
- Eu sei – rosnou Moody,
fazendo um gesto com as mãos para que ele o acompanhasse – Corujas pode ser
interceptadas. Já uma ligação pelo helofone...
- É telefone, Senhor –
corrigiu Harry, sorrindo.
- Que seja! – resmungou,
mal humorado – Uma ligação com esta... coisa
provavelmente passaria desapercebida. Boa idéia, garoto! – concluiu com um tom
supostamente gentil.
Harry assentiu com os
ombros.
- Venha, vamos descer –
disse Moody, empurrando o rapaz com a bengala enquanto se aproximava da
passagem secreta que dava acesso ao subterrâneo. Emburrado, o garoto acompanhou
o antigo professor, se escondendo novamente na Casa Forte.
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